LOGINEu me debato com toda a força que tenho. Arranho Bernardo com as unhas, tento morder seu ombro, chuto com meus pés descalços e ensanguentados. Mas é inútil. Ele é enorme, treinado em combate militar, e eu sou apenas uma garota de vinte e dois anos que nunca precisou lutar por nada até esta noite.
— Prendam-na — Bernardo ordena friamente aos outros guardas. Um homem grande e musculoso se aproxima com um par de algemas nas mãos.
Metálicas.
Pesadas.
Do tipo que a polícia utiliza em criminosos perigosos dos quais não se escapa.
— Não! Vocês não podem fazer isso! Me soltem… Eu sou uma pessoa, não um animal!
Mas eles fazem. Enquanto Bernardo me segura firmemente, imobilizando-me completamente contra seu corpo, o outro homem prende meus pulsos. Minhas mãos tremem sem controle enquanto o metal gelado morde minha pele machucada. Depois, ele se abaixa e prende meus tornozelos também, passando uma corrente curta e pesada entre eles. Acorrentada como uma criminosa, caminhando para o corredor da morte. Como uma escrava… uma propriedade.
Bernardo finalmente me solta. Caio de joelhos no chão duro, e o tilintar das correntes ecoa pela floresta. Sem pensar, tento me arrastar. Não consigo andar com os pés presos daquele jeito. Mas posso rastejar. Posso chegar até ele. De algum jeito.
— Heitor... — soluço, arrastando-me pela grama molhada. — Espera... estou indo... não me deixa.
Bernardo me alcança antes que eu avance mais do que alguns centímetros. Segura meus braços sem qualquer delicadeza e me ergue do chão. No instante seguinte, sou jogada sobre seus ombros como se não pesasse nada. Minha cabeça fica pendurada para trás. O mundo inteiro vira de cabeça para baixo.
— Não! Deixe-me ir até ele, por favor! Ele é meu marido... meu marido!
Volto a me debater. Bato nas costas dele com as mãos algemadas. Chuto. Luto. Mesmo sabendo que não tenho a menor chance. Grito até minha garganta arder. Até minha voz começar a falhar.
— Heitor! Heitor, olhe para mim! Fica comigo... não me deixa sozinha!
Bernardo para de caminhar por um instante. Percebo quando ele faz um sinal discreto para alguém. Um rapaz, talvez da minha idade ou um pouco mais velho, se aproxima carregando uma mochila tática preta. Ele a abre com calma. De dentro dela, tira uma seringa. Cheia de um líquido transparente. Meu estômago revira.
— Não... — sussurro, entendendo finalmente o que pretendem fazer. — Não... por favor...
— Isso só vai fazê-la dormir, senhorita. — Bernardo continua com aquela calma irritante. — É melhor assim. Principalmente para a senhorita.
— Não! Eu preciso ficar acordada! Preciso vê-lo! Preciso saber se ele está vivo! Por favor!
Ninguém responde. Ou talvez simplesmente não se importe. O rapaz se aproxima, e vejo o líquido balançar dentro da seringa. Depois, ele retira a tampa da agulha. A ponta metálica brilha sob a luz da lanterna. Tento me contorcer outra vez. Bernardo nem se move. Seus braços continuam firmes ao meu redor.
— Sinto muito... — o rapaz murmura, evitando olhar nos meus olhos. A culpa parece existir. Mas não o suficiente para fazê-lo desistir. Sinto a agulha atravessar meu braço. Logo depois... Uma queimação gelada se espalha pelo meu corpo. Minha visão começa a mudar. Primeiro, tudo fica levemente desfocado. Depois, as bordas escurecem. Os sons ao meu redor tornam-se distantes, abafados, como se eu estivesse no fundo de um lago.
— Não... — minha voz sai arrastada, pesada. — Por... fa... vor...
Paro de me debater. Não porque desisti. Meu corpo simplesmente deixa de responder.
É desesperador.
Continuo consciente. Consigo ouvir, pensar e sentir. Mas já não consigo controlar um único músculo. É como estar presa dentro do próprio corpo. Grito por dentro, imploro, luto. E nada acontece.
Bernardo apenas ajusta meu peso sobre os ombros e volta a caminhar. Cada passo faz meu corpo balançar lentamente. Minha cabeça oscila de um lado para o outro. Então... Eu o vejo. Heitor. Deitado naquela pequena clareira. Imóvel. Quieto demais. As mãos permanecem abertas ao lado do corpo, tocando a grama úmida. No dedo anelar, a aliança de prata ainda reflete a luz das lanternas que decidiram ficar. A aliança que coloquei naquele dedo poucas horas atrás. Minhas mãos tremiam tanto naquele momento. Não de medo, mas de felicidade. “Até que a morte nos separe.” Foi isso que prometemos diante de Deus. Nunca imaginei que a morte viesse cumprir sua parte tão depressa. Nunca imaginei que o nosso “para sempre” duraria apenas algumas horas.
Tento chamar seu nome. Com tudo o que ainda existe dentro de mim. Mas minha boca já não obedece. Nenhum som sai. Só as lágrimas continuam escorrendo, silenciosas, molhando Bernardo. Ele continua andando. Sem olhar para trás. Sem diminuir o passo. E, a cada metro percorrido, Heitor fica mais distante. A clareira desaparece aos poucos entre as árvores. Primeiro vejo apenas seu corpo.
Depois, apenas sua camisa.
Depois... Nada.
Luto contra o sono, com tudo o que ainda me resta. Preciso continuar olhando. Preciso guardar aquela última imagem. Mesmo que ela me destrua para sempre. Preciso lembrar. Eu preciso...
— Hei... tor...
Meu sussurro quase não existe. As pálpebras ficam pesadas. Cada vez mais pesadas. Tento mantê-las abertas, mas não consigo. A escuridão me envolve devagar… sem pressa. Como se me puxasse para um lugar onde não existe mais dor. Nem frio. Nem floresta. Nem vida. Minha última lembrança consciente é a clareira. Cada vez menor. Cada vez mais distante. Até desaparecer completamente entre os troncos escuros. E, quando ela desaparece… Eu desapareço junto.
Ainda sinto, de algum lugar muito distante, o metal frio das algemas apertando meus pulsos e tornozelos. Ainda sinto o balanço constante dos passos de Bernardo. Cada passo me leva para mais longe. Mais longe do homem que amo. Mais longe do meu marido. Mais longe da única vida que eu queria viver. Depois... Até a dor começa a desaparecer.
O frio.
O medo.
Tudo some e só o vazio permanece, de mãos dadas com a perda. Uma perda tão pesada que parece esmagar tudo o que existe dentro de mim. Mesmo mergulhada naquela consciência confusa, eu sei. Vou carregar esse peso pelo resto da minha vida. Porque, enquanto eu continuar respirando... Heitor continuará morto naquela clareira.
Por me amar.
Por me escolher.
Morto porque eu nunca fui forte o bastante para enfrentar meu pai antes que fosse tarde demais. A culpa cresce dentro de mim. Silenciosa e escura, envenenando tudo o que ainda restou, com suas garras pontiagudas de dor e desesperança. Mas, pouco a pouco... Até esses pensamentos começam a desaparecer. A escuridão vence. E tudo deixa de existir.
💞
Não sei quanto tempo passa. Podem ser minutos. Horas. Ou até dias. O tempo perde completamente o sentido quando você está perdida no vazio. Às vezes, pequenos flashes atravessam a escuridão.
Fragmentos.
Pedaços soltos de consciência que surgem e desaparecem antes que eu consiga compreendê-los. O som de um motor. Um carro? Um helicóptero? Não consigo distinguir. Depois... Vozes. Abafadas. Distantes. Reconheço a de Bernardo. Ele fala com alguém ao telefone, mantendo o mesmo tom controlado de sempre.
— ...Sim, senhor... A situação foi resolvida... Sem ferimentos relevantes nos nossos homens... Estamos retornando à propriedade...
Sem ferimentos nos nossos homens. As palavras ecoam dentro da minha cabeça. Heitor está morto. E eles falam como se tudo não passasse de mais uma missão cumprida. Como se uma vida não tivesse acabado naquela clareira. Quero gritar, dizer que meu marido ficou para trás, que ele está lá sozinho no frio, sangrando. Mas meu corpo continua sem responder. A escuridão volta a me puxar e eu afundo outra vez.
💞
Depois... Sinto que estou sendo carregada. Meu corpo balança de leve. Escadas. Sim... Estamos subindo escadas. Muitas. Os passos ecoam sobre um piso duro. Mármore? Reconheço aquele som de mármore. Estou em casa, na prisão dourada onde cresci.
Quero abrir os olhos.
Quero saber quem está ao meu redor.
Quero perguntar sobre Heitor.
Heitor... Será que alguém voltou para buscá-lo? Será que chamaram uma ambulância? Será que... Mas, no lugar mais profundo da minha alma... Eu conheço a resposta. Não existe tratamento para a morte. E Heitor morreu naquela clareira e eu vi. Percebi isso quando seus olhos encontraram os meus pela última vez e a vida deixou seu corpo. A escuridão me envolve novamente. E, naquele instante, compreendo uma verdade que nunca imaginei conhecer. Não existe dor maior do que perder a única pessoa que fazia o mundo parecer um lugar onde valia a pena viver… aquele que era o seu lar.
ALGUMAS HORAS ANTES.Ela entra pela porta da igreja e meu mundo simplesmente para.Não é dramático, nem é poético como nos filmes. É apenas... a verdade nua e crua. Tudo o que ocupava minha mente — as reuniões de negócios atrasadas que meu assistente mencionou três vezes hoje, o contrato urgente que preciso revisar antes de segunda-feira, a ligação que deveria ter feito ontem para o investidor japonês — desaparece completamente. Apaga-se como uma luz que deixa de existir.Vejo apenas ela.O vestido é branco, impecável, com uma cauda que se estende por metros intermináveis. Seu cabelo está penteado em ondas suaves e românticas, que caem graciosamente sobre os ombros. A maquiagem é perfeita, profissional, mas há algo em seus olhos que nem a melhor maquiagem consegue esconder.
O restante da recepção passa em um borrão nebuloso.Cortamos o bolo — cinco andares de decadência cobertos por fondant branco e flores de açúcar. Sorrimos para mais fotografias. Recebemos parabéns de pessoas cujos nomes já esqueci.E então, finalmente, somos liberados.Um carro nos leva para o apartamento do Nikolai. Não para a casa de Ekaterina, mas para um apartamento em um arranha-céu luxuoso, a alguns quarteirões dali. O apartamento que agora será onde irei morar com ele.Nossa casa…💞O elevador sobe quarenta andares em um silêncio pesado. Nikolai permanece ao meu lado, sem me tocar, respeitando algum espaço invisível entre nós.Quando as portas se abrem diretamente para o apartamento — elevador privativo, é claro —, ele entra primeiro e acende as luzes.É... deslumbrante.Janelas do chão ao teto revelam uma Manhattan que parece infinita. A decoração é moderna, mas acolhedora. Tudo em tons de cinza, branco e azul suave.— Bem-vinda — Nikolai diz, voltando-se para mim. — Bem-vind
A recepção acontece no Plaza Hotel.O Grand Ballroom foi transformado em algo saído diretamente de uma revista. Flores brancas em profusão — rosas, lírios e orquídeas. Velas em castiçais de cristal sobre cada mesa. Toalhas de linho branco impecáveis. Louças de porcelana fina, taças de cristal e talheres de prata.Tudo perfeito, luxuoso e absolutamente sufocante.Sentamos à mesa principal — apenas Nikolai, eu, Ekaterina e alguns outros membros mais velhos da família Konstantin, apresentados tão rapidamente que não consegui guardar nenhum nome. A comida é servida em pratos que parecem verdadeiras obras de arte. Cada garfada é uma produção. Cada mordida é observada.Como, por que esperam que eu me alimente. Sorrio porque é necessário, converso educadamente quando alguém me dirige a palavra. Respondo às perguntas sobre como nos conhecemos com mentiras que soam surpreendentemente convincentes até para mim.“Nos conhecemos por meio das famílias... Sim, foi amor à primeira vista quando final
Há vida de verdade aqui. Genuína, autêntica, verdadeiramente humana.Subimos uma escadaria larga e elegante. Segundo andar. Depois, terceiro. O quarto que me designam fica no terceiro andar, voltado para os fundos tranquilos da propriedade.É absolutamente, indiscutivelmente lindo. Uma cama com dossel de mogno escuro impecável, coberta por roupa de cama branca, meticulosamente bordada à mão. Cortinas de seda azul-clara que combinam perfeitamente com o delicado papel de parede. Móveis antigos, mas impecavelmente conservados. Um banheiro privativo espaçoso, revestido em mármore branco de veios cinzentos naturais, com uma banheira profunda que parece absolutamente divina. E janelas… Janelas grandes, generosas, que oferecem uma vista deslumbrante para um jardim privado surpreendentemente verde e exuberante para o meio do caos de Manhattan.Nenhuma corrente visível. Nenhuma tranca aparente na porta e nem mesmo grades nas janelas. A liberdade sem liberdade de verdade em sua própria forma, p
Saio finalmente, relutantemente, e me seco com uma toalha surpreendentemente macia. Aproximo-me do espelho grande, ainda embaçado pelo vapor denso, e limpo um círculo irregular com a mão trêmula.A mulher que me observa de volta é uma completa estranha.Tenho vinte e dois anos; meu aniversário foi há três meses, comemorado alegremente em Ibiza com Heitor e alguns colegas da faculdade, sob o sol mediterrâneo, uma memória que parece pertencer a outra pessoa, em outra vida completamente diferente. Mas a mulher no espelho poderia facilmente ter trinta, quarenta, talvez até mais. Meus olhos estão completamente vazios. Absolutamente vazios de qualquer emoção, de qualquer vida. Não há luz neles, nem há esperança. Apenas duas órbitas verdes e escuras, cavadas, em um rosto pálido como papel. Minha pele está translúcida, esticada desconfortavelmente sobre ossos proeminentes que desenham ângulos agudos. Meu rosto perdeu toda a redondeza suave e juvenil, substituída cruelmente por ângulos afiados
Meu rosto está magro demais, anguloso, com as maçãs do rosto proeminentes de uma forma que não tem nada de atraente. Meus lábios estão pálidos, rachados, sem cor. Olho para o espelho que há no quarto e suspiro. — Você emagreceu demais — meu pai comenta friamente, de forma quase clínica, como se estivesse apontando um erro gritante em um relatório trimestral, e volto minha atenção para ele. — Seus ossos estão visíveis sob a pele, não é minimamente atraente. É inaceitável. — Estava com muita dor para comer — respondo em voz baixa. Minha voz sai como um sussurro. — Ainda está doendo; na verdade, tudo dói.— Bem, você tem três dias — ele diz, como se três dias fossem tempo mais do que suficiente para desfazer semanas de trauma acumulado, desnutrição proposital e tortura. — Coma mais. Force-se, se for necessário. Não me importa se dói, se enjoa ou se você vomita depois, apenas coma. Durma mais, use os cremes caros que Bernardo deixou para as olheiras. Quando chegar à casa de Ekaterina Ko







