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3 - Yari Ashford.

ผู้เขียน: Nyara Rodrigues
last update วันที่เผยแพร่: 2026-08-27 00:37:15

O tempo flui, mas sua marcha não é igual para todos. O estalo seco de um galho partindo interrompe a quietude da floresta. Heitor reage no mesmo instante. Seu corpo inteiro se tensiona e, em um gesto instintivo, ele me empurra para trás, protegendo-me com o próprio corpo enquanto seus olhos percorrem a escuridão ao nosso redor.

— Não… — sussurro, sentindo o terror voltar como uma onda gelada. — Eles não podem ter nos alcançado tão rápido…

Mas alcançaram. Feixes de luz rasgam a vegetação, surgindo entre as árvores como olhos de predadores à espreita. Não são apenas alguns homens. São dezenas. Enquanto sonhávamos, por um breve instante, com a possibilidade de um amanhã, eles fecharam o cerco ao nosso redor com a precisão de quem já sabia exatamente onde nos encontrar. Estamos cercados. Completamente cercados.

Bernardo surge da escuridão como uma sombra conhecida. As lanternas iluminam seu rosto sério, revelando a mesma postura impecável de sempre. Logo atrás dele, outros homens aparecem entre as árvores, espalhando-se em silêncio até ocuparem todas as possíveis rotas de fuga. Não existe saída.

— Acabou, senhorita. — A voz de Bernardo é estranhamente calma, quase gentil. Isso assusta muito mais do que qualquer grito. — Sua família a espera em casa.

— Não! — Minha voz sai rouca, quebrando no meio da palavra. — Heitor é a minha família! Eu sou a esposa dele! Você não pode me levar!

Heitor me puxa rapidamente para trás do tronco de uma árvore grossa, protegendo-me mais uma vez com o próprio corpo. Mesmo sabendo que está em completa desvantagem, ele continua tentando me manter segura. A jaqueta cai dos meus ombros, o frio me atinge e já não me importo mais.

— Um casamento realizado sem o consentimento do senhor Ashford — Bernardo continua, no mesmo tom educado e frio. — E o acordo comercial com a família Konstantin precisa ser honrado. Muitos interesses financeiros e políticos dependem disso.

Konstantin. 

Esse sobrenome me persegue há anos. 

O sobrenome do homem que meu pai escolheu para ser meu marido. Nikolai Konstantin. Um bilionário russo, onze anos mais velho do que eu, dono de uma das maiores joalherias do mundo. Um homem que nunca vi e sei que nem me enxergou como pessoa. Apenas como parte de um acordo firmado muito antes de eu ter qualquer direito de decidir sobre a minha própria vida.

— Ela não é propriedade! — Heitor grita, e a fúria em sua voz faz meu coração apertar. — Ela é uma pessoa! Ela tem o direito de escolher!

— A escolha dela não é relevante para o acordo. — Bernardo me encara sem demonstrar nenhuma emoção. — Senhor, por favor, não dificulte ainda mais esta situação. Entregue a moça pacificamente e poderá ir embora. Ninguém precisa se machucar esta noite.

— Ir? — Heitor solta uma risada amarga. — Ir para onde? Para viver sabendo que abandonei a mulher que amo? Que entreguei a Yari como um covarde? Prefiro morrer aqui.

— Isso pode ser arranjado.

A resposta vem fria. Sem hesitação. Vejo quando a mão de Bernardo repousa sobre a arma presa ao coldre. O ar parece desaparecer dos meus pulmões. Conheço Bernardo desde criança. Ele trabalha para meu pai há anos. Sempre foi educado, eficiente, discreto. Era ele quem me levava para a escola, me buscava nas festas das minhas colegas e permanecia do lado de fora durante minhas aulas de piano. Durante todos esses anos, nunca imaginei que pudesse vê-lo apontando uma arma para alguém. Mas a forma natural como seus dedos envolvem a coronha mostra o quanto eu estava enganada.

— Heitor… por favor… — Seguro seu braço com força, sentindo as lágrimas escorrerem sem controle. — Não faça isso. Vai embora. Corra enquanto ainda pode. Eu volto com eles. Não importa o que aconteça comigo.

Ele se vira para mim. A dor estampada em seus olhos castanhos parte meu coração em pedaços.

— E isso é o que importa. — Seus dedos trêmulos acariciam meu rosto. — Importa mais do que qualquer coisa neste mundo. Você é tudo para mim, Yari. Tudo.

— Senhor Hamilton, última chance. — Bernardo mantém a arma firme. Ao redor dele, os outros homens também se preparam. Heitor segura meu rosto. Então, me beija. 

Ali. Cercados por homens armados. Talvez a poucos segundos da morte. É um beijo desesperado, intenso, carregado de tudo o que não teremos tempo para dizer. Tem gosto de lágrimas, medo e amor. Um beijo que parece tentar guardar uma vida inteira dentro de poucos segundos. Quando nos afastamos, encontro seus olhos. E percebo que sua decisão já está tomada.

— Corra… — ele sussurra contra meus lábios.

Por um instante, acho que ouvi errado.

— O quê? Não! Heitor, não!

— Quando eu avançar neles, você corre. Vai para a ilha. Não olhe para trás. Promete para mim que não vai olhar para trás? 

— Heitor, não! Eles vão matar você! Você sabe disso!

Um sorriso triste surge em seu rosto. O mais triste que já vi. E, ainda assim, continua sendo o sorriso que eu amo.

— Mas você vai viver. — A voz dele quase falha. — E isso vale tudo… Vale a minha vida inteira. Sobreviva, Yari, e seja feliz; não permita nada além disso. 

— Não! Eu não aceito!

Antes que eu consiga segurá-lo, ele já se afasta. Corre na direção dos guardas sem hesitar. É um homem sozinho. Desarmado. Contra homens treinados, armados e muito mais fortes do que ele. É loucura. É suicídio… Ele sabe. Eu sei. Todos sabem. Mesmo assim, continua correndo. Porque me ama. Porque está disposto a entregar a própria vida para salvar a minha.

— Heitor!

Meu grito rasga a floresta. Dou um passo para correr atrás dele, mas duas mãos fortes prendem meus braços antes que eu consiga sair do lugar. Duas guardas surgem atrás de mim. Os dedos delas afundam na minha pele machucada enquanto me seguram com força, obrigando-me a assistir à cena. Obrigando-me a ver o homem que amo lutar sozinho.

Heitor acerta um soco no rosto do primeiro guarda. O homem cambaleia para trás. Logo em seguida, ele gira o corpo e atinge outro com uma cotovelada no estômago. Mesmo cercado, continua lutando. Cada golpe é movido pelo desespero. Cada movimento parece dizer a mesma coisa. Ganhe tempo. Faça Yari escapar. Meu coração se parte. Porque eu conheço Heitor. Sei exatamente o que ele está fazendo. Ele nunca acreditou que sairia vivo dali. Desde o momento em que decidiu correr na direção deles, já havia escolhido morrer por mim.

— Heitor! Não!

Vejo Bernardo erguer a arma. O movimento é calmo. Preciso. Treinado. Ele aponta diretamente para o peito de Heitor. O tempo desacelera. Meu corpo inteiro paralisa. Consigo ouvir apenas a minha própria respiração.

— Não… Bernardo… por favor… — minha voz sai entrecortada. — Não faça isso…

O estampido do disparo explode pela floresta. As aves levantam voo em desespero. Meu grito se mistura ao delas. Heitor para. Simplesmente para. A camisa branca do casamento começa a se tingir de vermelho. A mancha cresce depressa. Rápido demais. Ele abaixa os olhos para o próprio peito. Como se não entendesse o que aconteceu. Como se seu corpo demorasse alguns segundos para acreditar. Depois… Ele olha para mim. Nossos olhos se encontram pela última vez. E tudo o que encontro nos dele é amor. 

Não existe medo. 

Não há arrependimento. 

Não tem raiva… Apenas amor.

— Co… rre… Ya…ri.

A palavra mal consegue sair de seus lábios. Suas pernas cedem. Seu corpo cai para a frente, pesado, sem qualquer reação. O som do impacto contra a terra úmida ecoa dentro de mim como se algo também despencasse no meu peito. Não. Aquilo não pode estar acontecendo. 

Não com ele. 

Não com a gente. 

Meu grito explode antes mesmo que eu consiga respirar. Não parece um grito humano. É um som cru. Doloroso. Como se alguma coisa dentro de mim estivesse sendo arrancada à força. Começo a me debater. Chuto. Empurro. Mordo a mão de uma das guardas. Sinto o gosto de sangue na boca. Não me importo. Só preciso chegar até ele.

— Me soltem!

Ninguém me escuta. Continuo lutando. Por um instante… Um único instante… Consigo me soltar. Nem sei como. Talvez seja o desespero, o amor ou apenas a recusa do meu coração em aceitar aquela realidade. Corro. Corro o mais rápido que consigo. Vou até Heitor. Até o homem que amo… o meu marido.

— Heitor! Espera! Estou indo!

Mas não consigo chegar. Braços fortes envolvem minha cintura antes. Bernardo. Ele me ergue do chão com facilidade, ignorando todos os chutes e socos que tento dar.

— Me solte! Ele precisa de mim! Meu marido está sangrando!

— Ele não precisa de mais nada, senhorita. — A voz dele continua fria. Sem qualquer emoção.

— Não! Ele está vivo! Está respirando! Por favor… deixa eu ir até ele…

As lágrimas escorrem sem parar. Continuo olhando para Heitor. Esperando. Orando. Implorando em silêncio para que ele se mova. Só mais uma vez.

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