LOGINAcordo com um gosto metálico na boca. Não… É gosto de sangue. Minha língua está quase colada ao céu da boca. Tudo parece seco, áspero, como lixa. Tento engolir, mas não há saliva. Apenas uma viscosidade desagradável que só piora a sensação de sufocamento. Quando tento me mexer, cada músculo do meu corpo grita em protesto. Sinto como se cada fibra estivesse sendo esticada além do que consegue suportar. Meu pescoço está rígido, meus ombros parecem feitos de chumbo e minhas costas… Deus, minhas costas… Tudo dói.
Minha mente está em branco. Existe apenas um vazio estranho, no qual a dor ocupa cada espaço. É uma confusão nebulosa, um despertar sem saber onde estou ou como cheguei aqui. Por um instante, existe até uma paz assustadora nesse apagão temporário de memória. Mas ela dura muito pouco. Num estalo, a névoa desaparece.
Um disparo. O sangue… Tanto sangue. Espalhando-se pela camisa branca de um homem como uma flor vermelha desabrochando lentamente. Os olhos castanhos. Olhos gentis que sempre me olharam como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo. Primeiro, a confusão. Depois, o reconhecimento do que estava acontecendo. E, por fim… nada. Um vazio onde antes existia vida. Um som estranho escapa da minha garganta antes que eu consiga impedir. Não chega a ser um grito. É algo quebrado, doloroso. Um som que nasce de um lugar tão profundo que nem parece humano. E eu me lembro… Heitor. O meu Heitor.
Abro os olhos com esforço. Minhas pálpebras parecem pesar toneladas. A primeira imagem que consigo enxergar são barras. Barras de ferro. Grossas. Pretas. Frias.
Estou...
Estou dentro de uma gaiola?
Durante alguns segundos, não consigo olhar para mais nada.
Meus dedos envolvem o ferro gelado como se meu cérebro precisasse tocá-lo para acreditar.
Não pode ser real.
Não pode…
Meu coração dispara. O ar parece desaparecer dos meus pulmões. Isso tem que ser um pesadelo, um delírio provocado pela sedação. Fecho os olhos com força e torno a abri-los.
As barras continuam ali.
O metal continua frio sob minhas mãos.
E a dor espalhada pelo meu corpo também.
Só então consigo erguer a cabeça e olhar além delas.
O espaço é enorme. As paredes são feitas de pedras antigas, úmidas e marcadas pelo tempo. Do outro lado da sala, uma lareira gigantesca mantém o fogo aceso. As chamas dançam lentamente, projetando sombras que parecem ganhar vida nas paredes. O calor não chega até mim. Só a luz. O restante do ambiente é luxuoso. Reconheço isso imediatamente. Os móveis são caros. Muito caros. A poltrona de couro perto da lareira vale uma pequena fortuna. A mesa de mogno maciço parece uma peça antiga. A estante de carvalho está repleta de livros encadernados em couro, com letras douradas brilhando sob a luz do fogo. Tapetes persas cobrem o chão. Quadros que parecem originais decoram as paredes. E, bem no centro de toda aquela riqueza… está a minha gaiola.
Ela não é grande. Talvez tenha pouco mais de dois metros de cada lado. Consigo ficar de pé apenas se curvar a cabeça. A porta lembra a de uma cela.
Não existe cama.
Não existe colchão.
No canto, há apenas um cobertor fino demais para espantar o frio. Do outro lado, um balde. O significado daquilo me atinge imediatamente. É para as minhas necessidades. O nó na minha garganta aperta. Não sou uma prisioneira comum; estou sendo tratada como um animal.
Olho para baixo, para mim mesma, e o choque faz meu estômago revirar outra vez. Ainda estou usando meu vestido de noiva ou o que restou dele. O vestido que escolhi com tanto cuidado, gastando economias que, tecnicamente, nem eram minhas. Um modelo simples, de renda delicada, que me fazia sentir como se tivesse saído de um conto de fadas. Heitor chorou quando me viu vestida com ele… chorou de verdade. As lágrimas escorriam pelo rosto enquanto aquele sorriso enorme iluminava tudo ao redor. Agora... O vestido está destruído. A saia está rasgada em vários pontos. O corpete, antes impecável, foi dilacerado. As mangas de tule bordado mal continuam presas ao tecido. A lama seca deixou manchas escuras por toda a renda e há sangue. Sangue seco, marrom-avermelhado. Espalhado por quase toda a roupa. O sangue dele, de Heitor, meu marido. Meu corpo inteiro começa a tremer só de pensar nele.
Passo as mãos pelos braços e encontro os arranhões. Alguns são superficiais. Outros continuam abertos. Quando toco um deles, o sangue ainda umedece meus dedos. Não sei dizer quando aconteceram. Enquanto corríamos pela floresta? Quando fui arrastada? Enquanto tentava alcançar Heitor? Tudo parece misturado dentro da minha cabeça. Meus pés continuam descalços, só que agora estão enfaixados de qualquer jeito. Não é um curativo feito por alguém que sabe o que está fazendo. A pessoa apenas rasgou um pedaço de tecido, enrolou nos meus pés e parou o sangramento da forma mais rápida possível. As faixas já estão manchadas de vermelho. Quando mexo os dedos, uma dor aguda atravessa minhas solas. As lembranças da floresta voltam imediatamente… As pedras, os espinhos, a lama, a corrida desesperada. Tudo para chegar a um lugar seguro... Que nunca existiu.
Levanto devagar, meu corpo balança. Seguro as barras da gaiola antes que minhas pernas cedam outra vez.
— Está acordada.
A voz surge da escuridão. O susto é tão grande que bato a cabeça nas barras acima de mim e caio de volta no chão. A dor percorre minhas costas, o metal da gaiola vibra com o impacto e meu coração dispara. Por um instante, tenho certeza de que é Bernardo… Mas não é. Uma figura se levanta da poltrona próxima à lareira. Até então, estava tão imóvel que parecia fazer parte da própria sala e eu não o havia visto. A luz das chamas ilumina seu rosto aos poucos. E eu o reconheço imediatamente.
Meu pai.
Richard Ashford.
Presidente de Karsóvia. Como eu não reconheci sua voz antes? Ele continua exatamente como sempre. Os cabelos grisalhos permanecem impecavelmente penteados, o terno escuro parece ter acabado de sair da alfaiataria e a gravata está perfeitamente alinhada. Não faço ideia de quantas horas se passaram desde o casamento e a floresta. Mas ele parece pronto para participar de uma reunião de Estado. Os olhos verdes encontram os meus, os mesmos olhos que herdei dele. Mas com uma diferença: os dele são frios e analíticos. Não existe preocupação, nem existe culpa. Apenas a mesma expressão distante de quem observa um problema que precisa ser resolvido.
— Você… — minha voz sai rouca.
— Eu. — Ele continua caminhando até parar diante da gaiola. Cada passo ecoa pelo piso de pedra.
Lento.
Preciso.
Controlado.
Instintivamente, rastejo para trás até minhas costas encontrarem as barras. O metal gelado atravessa o tecido rasgado do vestido e meu corpo inteiro entra em alerta. Ele para a poucos centímetros da gaiola. As mãos deslizam para os bolsos da calça com a tranquilidade de quem sabe que está completamente no controle. Seus olhos percorrem meu corpo lentamente e… conheço aquele olhar. Passei a vida inteira sendo observada por ele.
Nunca como filha.
Sempre como alguém que precisava corresponder às expectativas dele, que era apenas mais um investimento. Nunca como uma pessoa.
— Como você ousa… — minha voz treme, mas me agarro à raiva para conseguir continuar. Ela é a única coisa que me impede de desmoronar. — Como você ousa me trancar aqui? Como se eu fosse… como se eu fosse um animal!
— Como eu ouso? — ele repete devagar, arqueando uma sobrancelha. Conheço aquela expressão desde criança. É a mesma que ele faz quando acredita que estou sendo ingênua, quando acha que ainda não entendi como o mundo funciona. — Eu ouso porque sou seu pai, Yari. Porque você é minha filha, minha responsabilidade diante do mundo. Minha propriedade, legalmente falando, até que se case com o russo, o que, como bem sabemos, ainda não aconteceu.
— Eu não sou sua propriedade!
— Não? — Ele se inclina um pouco para a frente e segura as barras de ferro com as duas mãos. Seus dedos, longos e impecavelmente cuidados, envolvem o metal com naturalidade. São as mesmas mãos que assinam leis, apertam a mão de chefes de Estado e decidem o destino de milhares de pessoas. As mesmas mãos que mandaram matar o meu marido. — Quem pagou pela sua educação nas melhores escolas da Costa Leste? Quem comprou as roupas que você usava? Quem pagou pela sua faculdade de Design de Interiores e Literatura, do outro lado do oceano? Quem sustentou a casa onde você morou? Quem colocou comida na sua mesa durante toda a sua vida? — A voz dele continua calma. Controlada. Mas cada pergunta pesa como uma pedra sobre mim. — Quem pagou por cada coisa que você tem? Quem te deu tudo, Yari?
— Eu…
As palavras morrem antes mesmo de conseguirem sair. Porque, tecnicamente... Ele está certo, e nós dois sabemos disso. Um sorriso discreto surge em seus lábios. Não é um sorriso de felicidade, é de satisfação. A satisfação de quem acredita ter vencido a discussão antes mesmo que ela terminasse. Ele sabe exatamente o efeito que aquelas palavras provocam em mim. Desde criança, tudo o que tenho passou pelas mãos dele. A casa onde cresci, as escolas que frequentei, as roupas que vesti, as faculdades que escolhi e o bacharelado que fiz, a vida que levei. Tudo. Sempre pago por Richard Ashford. E, diante dele, essa verdade pesa como uma corrente invisível. Mas existe outra verdade. Uma que ele nunca vai conseguir comprar e nem controlar, muito menos apagar.
Heitor me amou.
Sem esperar nada em troca.
ALGUMAS HORAS ANTES.Ela entra pela porta da igreja e meu mundo simplesmente para.Não é dramático, nem é poético como nos filmes. É apenas... a verdade nua e crua. Tudo o que ocupava minha mente — as reuniões de negócios atrasadas que meu assistente mencionou três vezes hoje, o contrato urgente que preciso revisar antes de segunda-feira, a ligação que deveria ter feito ontem para o investidor japonês — desaparece completamente. Apaga-se como uma luz que deixa de existir.Vejo apenas ela.O vestido é branco, impecável, com uma cauda que se estende por metros intermináveis. Seu cabelo está penteado em ondas suaves e românticas, que caem graciosamente sobre os ombros. A maquiagem é perfeita, profissional, mas há algo em seus olhos que nem a melhor maquiagem consegue esconder.
O restante da recepção passa em um borrão nebuloso.Cortamos o bolo — cinco andares de decadência cobertos por fondant branco e flores de açúcar. Sorrimos para mais fotografias. Recebemos parabéns de pessoas cujos nomes já esqueci.E então, finalmente, somos liberados.Um carro nos leva para o apartamento do Nikolai. Não para a casa de Ekaterina, mas para um apartamento em um arranha-céu luxuoso, a alguns quarteirões dali. O apartamento que agora será onde irei morar com ele.Nossa casa…💞O elevador sobe quarenta andares em um silêncio pesado. Nikolai permanece ao meu lado, sem me tocar, respeitando algum espaço invisível entre nós.Quando as portas se abrem diretamente para o apartamento — elevador privativo, é claro —, ele entra primeiro e acende as luzes.É... deslumbrante.Janelas do chão ao teto revelam uma Manhattan que parece infinita. A decoração é moderna, mas acolhedora. Tudo em tons de cinza, branco e azul suave.— Bem-vinda — Nikolai diz, voltando-se para mim. — Bem-vind
A recepção acontece no Plaza Hotel.O Grand Ballroom foi transformado em algo saído diretamente de uma revista. Flores brancas em profusão — rosas, lírios e orquídeas. Velas em castiçais de cristal sobre cada mesa. Toalhas de linho branco impecáveis. Louças de porcelana fina, taças de cristal e talheres de prata.Tudo perfeito, luxuoso e absolutamente sufocante.Sentamos à mesa principal — apenas Nikolai, eu, Ekaterina e alguns outros membros mais velhos da família Konstantin, apresentados tão rapidamente que não consegui guardar nenhum nome. A comida é servida em pratos que parecem verdadeiras obras de arte. Cada garfada é uma produção. Cada mordida é observada.Como, por que esperam que eu me alimente. Sorrio porque é necessário, converso educadamente quando alguém me dirige a palavra. Respondo às perguntas sobre como nos conhecemos com mentiras que soam surpreendentemente convincentes até para mim.“Nos conhecemos por meio das famílias... Sim, foi amor à primeira vista quando final
Há vida de verdade aqui. Genuína, autêntica, verdadeiramente humana.Subimos uma escadaria larga e elegante. Segundo andar. Depois, terceiro. O quarto que me designam fica no terceiro andar, voltado para os fundos tranquilos da propriedade.É absolutamente, indiscutivelmente lindo. Uma cama com dossel de mogno escuro impecável, coberta por roupa de cama branca, meticulosamente bordada à mão. Cortinas de seda azul-clara que combinam perfeitamente com o delicado papel de parede. Móveis antigos, mas impecavelmente conservados. Um banheiro privativo espaçoso, revestido em mármore branco de veios cinzentos naturais, com uma banheira profunda que parece absolutamente divina. E janelas… Janelas grandes, generosas, que oferecem uma vista deslumbrante para um jardim privado surpreendentemente verde e exuberante para o meio do caos de Manhattan.Nenhuma corrente visível. Nenhuma tranca aparente na porta e nem mesmo grades nas janelas. A liberdade sem liberdade de verdade em sua própria forma, p
Saio finalmente, relutantemente, e me seco com uma toalha surpreendentemente macia. Aproximo-me do espelho grande, ainda embaçado pelo vapor denso, e limpo um círculo irregular com a mão trêmula.A mulher que me observa de volta é uma completa estranha.Tenho vinte e dois anos; meu aniversário foi há três meses, comemorado alegremente em Ibiza com Heitor e alguns colegas da faculdade, sob o sol mediterrâneo, uma memória que parece pertencer a outra pessoa, em outra vida completamente diferente. Mas a mulher no espelho poderia facilmente ter trinta, quarenta, talvez até mais. Meus olhos estão completamente vazios. Absolutamente vazios de qualquer emoção, de qualquer vida. Não há luz neles, nem há esperança. Apenas duas órbitas verdes e escuras, cavadas, em um rosto pálido como papel. Minha pele está translúcida, esticada desconfortavelmente sobre ossos proeminentes que desenham ângulos agudos. Meu rosto perdeu toda a redondeza suave e juvenil, substituída cruelmente por ângulos afiados
Meu rosto está magro demais, anguloso, com as maçãs do rosto proeminentes de uma forma que não tem nada de atraente. Meus lábios estão pálidos, rachados, sem cor. Olho para o espelho que há no quarto e suspiro. — Você emagreceu demais — meu pai comenta friamente, de forma quase clínica, como se estivesse apontando um erro gritante em um relatório trimestral, e volto minha atenção para ele. — Seus ossos estão visíveis sob a pele, não é minimamente atraente. É inaceitável. — Estava com muita dor para comer — respondo em voz baixa. Minha voz sai como um sussurro. — Ainda está doendo; na verdade, tudo dói.— Bem, você tem três dias — ele diz, como se três dias fossem tempo mais do que suficiente para desfazer semanas de trauma acumulado, desnutrição proposital e tortura. — Coma mais. Force-se, se for necessário. Não me importa se dói, se enjoa ou se você vomita depois, apenas coma. Durma mais, use os cremes caros que Bernardo deixou para as olheiras. Quando chegar à casa de Ekaterina Ko







