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Capítulo 4

Author: Manuela Ferraz
Francisco não voltou para casa durante a noite inteira. Apenas enviou uma mensagem dizendo que minha mãe havia pedido que ele passasse a noite lá.

Li a mensagem uma única vez e a apaguei. Ainda naquela noite, arrumei minhas malas. Ele havia dito que a casa era dele, que eu não ficaria com nada, então eu sairia sem levar absolutamente nada comigo.

Na manhã seguinte, durante a aula, a ansiedade constante e a tontura provocada pelos estímulos olfativos me fizeram perder as forças.

Desmaiei em cima do palco. Quando acordei, minha melhor amiga, Rafaela Gomes, estava ao lado da minha cama, descascando uma maçã.

Assim que percebeu que eu havia aberto os olhos, ela não conseguiu mais conter a raiva:

— Eu liguei para o Francisco meia hora atrás. Ele disse que estava preocupado, mas você já está aqui há duas horas e ele ainda não apareceu nem deu sinal de vida.

Me apoiei na cabeceira da cama. Minha língua estava dormente e, mesmo com a maçã encostada nos lábios, eu não sentia gosto de nada.

— Eu e ele... Estamos prestes a nos separar.

Rafaela ficou surpresa:

— Por quê? — Como minha amiga, ela havia acompanhado todo o meu relacionamento com Francisco desde o começo. — Ele te traiu?

Balancei a cabeça. Eu não sabia como explicar a ela a respeito do prazo de validade do casamento.

Só consegui dizer em voz baixa:

— Você se lembra daquela história dos trinta segundos na biblioteca? Quando ele começou a ultrapassar os limites, na verdade ele já havia desistido de mim e desse casamento.

Rafaela ficou sem saber o que dizer. Depois de passar mais um tempo comigo, pegou o celular e começou a mexer nele. De repente, olhou para mim e perguntou:

— Esse texto, "As Faíscas do Amor", não foi escrito por você e pelo Francisco juntos?

Ela me entregou o celular. Olhei para a tela.

— Foi.

Quanto esforço eu havia colocado naquele artigo, quantas noites tinha passado em claro por causa dele. Cada palavra e cada frase estavam gravadas no meu coração.

Ela perguntou, confusa:

— Então por que seu nome não está aqui?

Meu olhar caiu sobre a assinatura: Francisco e Carolina. Meu coração parou por um instante, como se até respirar tivesse se tornado impossível.

Foi exatamente nesse momento que Francisco abriu a porta do quarto. Ele segurava uma caixa de presente nas mãos e mantinha a expressão gentil de sempre, que, naquele momento, parecia extremamente irritante.

Contive minhas emoções e, tentando manter a calma, perguntei:

— Por que a autoria de "As Faíscas do Amor" foi alterada para você e Carolina?

Um traço de pânico passou pelos olhos de Francisco, mas logo ele disfarçou. Com tranquilidade, explicou:

— O doutorado da Carolina ainda precisa de mais um artigo de relevância acadêmica. Eu apenas ajustei a autoria. Nós somos casados. Você não vai ficar chateada comigo por uma coisa tão pequena, vai? Ontem à noite, conversei com a sua mãe, e ela também concordou com o que eu fiz.

— Isso é uma coisa pequena? Eu dediquei tanto tempo e esforço a esse artigo. Você sabe muito bem disso!

Olhei para o topo da cabeça dele. O número já havia caído para quarenta e cinco por cento. Nem mesmo casais comuns, que permaneciam juntos apenas por conveniência, haviam chegado a um ponto tão baixo.

Rafaela, com seu temperamento explosivo, se levantou no mesmo instante e o repreendeu:

— A Carolina claramente não tem boas intenções. Você simplesmente entregou para outra pessoa um artigo que sua esposa escreveu com tanto empenho e dedicação. Você consegue olhar para a Vanessa e dizer que isso é justo? Esse artigo está diretamente ligado à progressão na carreira dela.

Francisco franziu a testa, incomodado com a acusação direta de Rafaela. Depois, voltou o olhar para mim.

— Você já não é tão jovem assim. Ficar desesperada por uma promoção não vai resolver nada. Eu já disse que poderia sustentar você pelo resto da vida. Além disso, a Carolina é sua irmã. Você deveria ser mais tolerante com ela.

— Francisco. — Interrompi com calma e disse, palavra por palavra, com clareza. — Eu tenho vinte e nove anos. Tenho minha própria carreira e meus próprios limites. Não cheguei ao ponto de aceitar qualquer coisa. Nós vamos nos divorciar.

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