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Capítulo 4

Author: Yuri Zuan
O ar parecia ter congelado.

Os músculos do rosto de Marcelo ficaram rígidos, mas em apenas um segundo ele retomou aquela postura segura de sempre, e o tom da voz assumiu uma repreensão afetuosa.

— O que você está pensando? A Leticia e eu somos próximos desde pequenos, somos como irmãos.

— Ultimamente eu tenho estado muito ocupado com os projetos da empresa e quase não tenho ido à Casa dos Silva. Meus pais já estão idosos, fico preocupado. A Leticia é atenciosa e mora perto, então costuma ir lá com frequência, fazer companhia, conversar com eles.

Ele suspirou, com uma expressão de impotência e culpa.

— Pensando bem, a culpa é minha por não ser um filho mais presente.

Ele falou tudo com perfeição: elogiou Leticia e, ao mesmo tempo, construiu a imagem de um homem dedicado à carreira, mas cheio de senso de responsabilidade com a família.

Helena abaixou os cílios.

As sombras projetadas sob os olhos escondiam completamente a expressão dela.

— Entendi.

A voz saiu baixa, sem revelar emoção alguma.

Marcelo estava prestes a finalmente relaxar quando ela mudou o rumo da conversa.

— Já estamos casados há um tempo, mas eu ainda não fui oficialmente visitar seus pais. Já que você anda tão ocupado, eu não posso simplesmente fingir que isso não existe.

Helena olhou para Marcelo, os lábios curvados em um sorriso suave e atencioso.

— Já que vamos levar a Leticia de volta, eu posso ir com vocês para ver eles. Afinal, também está na hora de eu cumprir meu papel como nora.

O sorriso de Marcelo congelou por completo.

Levar Helena agora significava ser desmascarado na mesma hora.

Gotículas de suor apareceram na têmpora dele.

Por instinto, ele tentou encontrar uma desculpa.

— Já está tarde demais... meus pais provavelmente já foram dormir...

Helena interrompeu com compreensão:

— É verdade. Então vamos amanhã cedo. Aproveitando que é fim de semana.

Justamente por ela ser tão compreensiva, Marcelo não conseguiu rebater.

Recusar seria praticamente admitir culpa.

Enquanto ele ainda estava encurralado, sem saber como avançar ou recuar, Helena voltou a sorrir e virou para Leticia.

— Você é tão próxima dos pais do Marcelo. Que tal ir com a gente amanhã? Assim você ainda pode falar bem de mim na frente deles, para eu não ficar tão nervosa e acabar dizendo algo errado na minha primeira visita.

O rosto de Leticia ficou ainda mais pálido.

Com que identidade ela iria?

A amante de Marcelo, acompanhando a esposa dele para visitar os pais?

Era uma farsa absurda.

Ao ver os rostos sem cor dos dois, Helena sentiu o humor melhorar consideravelmente.

Era exatamente esse o efeito que ela queria: entregar a faca nas mãos deles e observar como continuariam a encenação.

Sem dar tempo para que pensassem em uma saída, Helena lançou um olhar para o relógio na parede e franziu levemente as sobrancelhas.

Ela olhou para Leticia com aparente preocupação.

— Já está bem tarde. Uma mulher sozinha voltando para casa a essa hora não é seguro. Que tal passar a noite aqui? Tem vários quartos de hóspedes. Amanhã de manhã, saímos juntas para a Casa dos Silva.

A sugestão caiu como um trovão sobre a cabeça de Marcelo e Leticia.

Passar a noite ali?

Era como empurrar uma ovelha direto para a boca do lobo.

Leticia queria recusar, mas ao encarar os olhos de Helena, que pareciam enxergar tudo, simplesmente não conseguiu dizer não.

Afinal, o motivo de ela ter vindo naquela noite não era justamente encontrar uma oportunidade de ficar sozinha com Marcelo?

Agora que Helena oferecia isso de forma aberta, recusar só faria parecer que ela tinha algo a esconder.

O cérebro de Marcelo trabalhava a toda velocidade, pesando prós e contras.

Deixar Leticia passar a noite ali era extremamente arriscado.

Mas, se recusasse, a desconfiança de Helena só aumentaria.

Entre dois males, ele escolheu o menor.

— A Helena tem razão. Eu fui descuidado. Leticia, fica. Segurança em primeiro lugar.

Ele decidiu, fingindo naturalidade.

Helena soltou um riso frio por dentro, mas por fora o sorriso ficou ainda mais gentil.

— Então está decidido. Eu levo você até o quarto de hóspedes. Os itens de higiene são todos novos.

Ela levou Leticia até o quarto ao lado da suíte principal, deixou tudo preparado com cuidado e só então saiu.

Antes de fechar a porta, ainda sorriu e disse:

— Descanse bem. Eu não vou incomodar.

De volta à sala, Marcelo estava ali, parado de maneira constrangida.

Helena foi direto ao escritório, pegou o notebook e, sem nem levantar a cabeça, disse:

— Ainda tenho trabalho para adiantar. Hoje vou dormir no escritório. Pode ir descansar.

Depois de falar isso, entrou no escritório e fechou a porta.

Marcelo ficou sozinho na sala ampla, o rosto alternando entre claro e escuro.

A noite avançou aos poucos.

A casa mergulhou em silêncio, restando apenas o tique-taque do relógio na parede.

No escritório, Helena não acendeu a luz.

Apenas o brilho da tela do computador iluminava o rosto frio dela.

Ela não estava trabalhando.

Abriu a interface do sistema de monitoramento.

Na tela, aparecia o corredor diante da porta da suíte principal.

Helena aguardava em silêncio, como uma caçadora paciente.

Uma da manhã.

A porta do quarto de hóspedes abriu.

Uma figura colocou a cabeça para fora, olhou para os lados e, em seguida, curvada e na ponta dos pés, avançou em direção à suíte.

O canto dos lábios de Helena se ergueu em um sorriso gelado e irônico.

Como era de esperar, Leticia não conseguiu se conter.

Helena viu Leticia abrir com familiaridade a porta da suíte, entrar rapidamente e fechar atrás de si.

O espetáculo tinha começado.

Helena fechou o notebook, tirou os sapatos e saiu do escritório.

O chão frio transmitia um arrepio que deixava a mente dela ainda mais lúcida.

Ela parou diante da porta da suíte e encostou o ouvido.

De dentro vinham respirações abafadas, repugnantes, misturadas a vozes baixas.

— A Helena foi dormir no escritório?

— Foi. Ela disse que precisava trabalhar.

— Então amanhã ela vai mesmo à Casa dos Silva? O que a gente faz?

— Calma. Eu cuido disso. Já falei com meus pais. Amanhã, eu garanto que ninguém vai deixar escapar nada.

Helena ouviu tudo sem expressão, os olhos mergulhados em gelo.

Ela tirou do bolso a chave que tinha escondido durante o dia, a chave reserva de todas as portas da casa.

Colocou a chave no trinco com cuidado e girou.

Um clique quase imperceptível ecoou na quietude da noite, como o prenúncio de um julgamento.

Helena retirou a chave e voltou para o escritório, como se nada tivesse acontecido.

Na manhã seguinte, a luz do sol invadiu a sala pela janela.

Helena saiu do escritório revigorada, de ótimo humor, cantarolando enquanto preparava café na cozinha.

Com a xícara na mão, caminhou tranquilamente até a porta da suíte e estendeu a mão para girar a maçaneta.

A maçaneta não se mexeu.

Como se só naquele momento tivesse percebido, ela fez mais força e sacudiu a porta.

— Marcelo, você já acordou? Eu preciso entrar para me arrumar.

Ela elevou a voz de propósito, garantindo que quem estivesse lá dentro ouviria com clareza.

Silêncio absoluto.

O sorriso de Helena se aprofundou.

Ela bateu de leve na porta:

— Que estranho... está trancada por dentro? Você costuma dormir com a porta trancada?

O tom era cheio de confusão, como um martelo batendo direto no coração daquele casal indecente do outro lado.

Ela imaginava perfeitamente as expressões deles agora, talvez nus, apavorados, completamente perdidos.

— Marcelo, está tudo bem? Por que você não responde?

A voz de Helena ganhou uma nota de preocupação.

Ela até encostou o ouvido na porta, fingindo escutar.

— Se você não falar nada, eu vou pegar a chave reserva e abrir, ouviu?
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