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Capítulo 3

Author: Abóbora da Sorte
A luz do sol da manhã mal havia alcançado o parapeito da janela quando terminei de guardar meus últimos materiais de pesquisa.

Minha mala estava quieta no canto, com o zíper bem fechado. Faltavam seis dias para minha partida, e eu havia colocado a carta de oferta de emprego do Instituto de Pesquisa Médica Fenrir no topo do meu caderno.

Ouvi passos suaves e tosses discretas vindas do andar de baixo. Freya estava tendo outra crise.

Quando desci, Roland estava ajoelhado diante do sofá. Com uma das mãos, apoiava as costas dela, enquanto, com a outra, levava um copo de água morna aos lábios dela.

Seus movimentos eram tão habituais que pareciam algo que ele já havia feito inúmeras vezes.

Ela havia trocado o vestido de noiva branco-prateado por uma camisa larga. O pingente de lua crescente continuava pendurado em sua clavícula, balançando suavemente a cada respiração.

— Aurora. — Roland ergueu os olhos e franziu a testa inconscientemente. Em seguida, forçou-se a relaxar. — Ela teve outra febre leve na noite passada, e os batimentos cardíacos estavam instáveis. V-você dormiu bem?

— Nada mal.

Servi um copo de água para mim e respondi com indiferença.

— O kit de primeiros socorros está no primeiro armário à esquerda, no segundo andar. Fica do lado esquerdo da segunda prateleira.

Roland ficou imóvel por um instante. Na minha vida anterior, em momentos como aquele, eu ou batia a porta com raiva ou o lembrava sarcasticamente:

— Não se esqueça de que você também tem uma companheira em casa.

Mas, dessa vez, apenas coloquei meu copo sobre a mesa e fui para a cozinha.

— Você tem planos para hoje? — perguntou ele de repente.

Que estranho. Ele nunca havia se importado com minha agenda.

— Vou à prefeitura entregar alguns documentos complementares. — Nem sequer me virei. — Não me espere para jantar.

Houve um breve silêncio atrás de mim, até que a voz suave de Freya o interrompeu.

— Aurora, você está mesmo bem com tudo isso? Estou incomodando você demais?

— De jeito nenhum.

Abri a geladeira e peguei o suplemento nutricional que havia sobrado da noite anterior.

— Concentre-se apenas em melhorar.

Roland se levantou e veio até mim. Seu cheiro familiar me envolveu, mas já não provocava nenhuma reação na loba dentro de mim. Ela permanecia surpreendentemente quieta.

— Você realmente mudou ultimamente. — Ele baixou a voz, com uma ponta de desconfiança. — Antes, você odiava quando eu a trazia para casa. Agora, parece não se importar com absolutamente nada. Por quê?

Fechei a geladeira e finalmente me virei para encará-lo.

— Que diferença faz? — perguntei. — De que adianta me importar? Roland, você sabe muito bem qual é o meu lugar na sua vida.

Seu pomo de adão se moveu quando engoliu em seco. Parecia querer dizer alguma coisa, mas, no fim, apenas estendeu a mão para tocar meu rosto.

Desviei discretamente para evitar o toque.

A mão dele ficou suspensa no ar.

— Vou me trocar. — Passei por ele. — Aproveitem a refeição.

Enquanto subia as escadas, ouvi Freya perguntar baixinho:

— Ela está com raiva?

A resposta de Roland foi tão confiante quanto sempre.

— Não. Ela só precisa de mais tempo para aceitar as coisas. Quando nosso vínculo de companheiros entrar oficialmente em vigor, tudo ficará bem.

Fechei a porta do quarto e me encostei nela. De repente, achei tudo aquilo bastante engraçado.

Mesmo agora, ele ainda não fazia ideia de que o nome no formulário de registro de companheiros não era o meu.

Nos três dias seguintes, cancelei tudo o que estava relacionado à nossa cerimônia de marcação, incluindo o local, o oficiante e os convites para os anciãos da alcateia.

Todos os depósitos que consegui recuperar foram devolvidos à minha conta pessoal. Depois, comecei a eliminar da mansão todos os vestígios da minha presença.

O óleo de ervas calmantes que Roland havia me dado, as fotos que tiramos juntos e a estátua de cristal de um lobo gravada com nossos dois nomes foram todos descartados pelas empregadas a meu pedido.

As únicas coisas que pretendia levar comigo eram o velho caderno da minha mãe, quatro livros sobre medicina para lobisomens e uma mala pequena.

Também fui ao departamento financeiro da alcateia e revoguei a autorização conjunta da minha conta com Roland.

O funcionário me perguntou três vezes se eu realmente entendia o que aquilo significava. Na alcateia, quase nenhuma loba abriria mão voluntariamente de tudo a que poderia ter direito um dia como futura Luna.

Retirei apenas a parte dos meus ganhos provenientes do trabalho de meio período no instituto de pesquisa. Não toquei em um único centavo do dinheiro de Roland.

Com apenas três dias restantes até minha partida, examinei alegremente mais uma vez minha carta de oferta de emprego.

Naquele momento, Roland bateu à porta do meu quarto, obrigando-me a guardá-la a contragosto.

— Você anda estranhamente quieta ultimamente.

Ele se apoiou no batente da porta, de braços cruzados.

— Não era isso que você queria? — perguntei.

Ele se engasgou com a própria resposta e pareceu ligeiramente irritado. Franzindo a testa, disse:

— Deixa para lá. O banquete da lua cheia da alcateia será depois de amanhã. Os anciãos fizeram questão de dizer que a companheira do Alfa precisa comparecer. Você vai comigo.

Ergui os olhos para ele e perguntei:

— Por quê?

— Porque você é minha companheira. — Seu tom era categórico. — Nosso relacionamento precisa se tornar público. Já estão circulando rumores pela alcateia de que você está se afastando de mim de propósito. Venha comigo e mostre a todos que continua tudo conforme o planejado.

Eu estava prestes a recusar quando a porta do quarto foi aberta delicadamente.

Freya apareceu à entrada. Agora, vestia um traje de noite prateado e claro. Deu uma volta lenta.

— Roland, estou bonita? — perguntou suavemente.

— Você está deslumbrante.

Seu olhar se suavizou.

Freya então se virou para mim. Seus olhos continham a dose exata de mágoa.

— Aurora, você não poderia ir ao banquete, por favor? É porque me odeia que não quer comparecer?

Suas palavras não deixavam espaço para objeções. Se eu recusasse, apenas provaria o que ela dizia: que a odiava e estava sendo mesquinha.

Permaneci em silêncio por dois segundos antes de finalmente assentir.

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