LOGINAisha estava com ele.
Ela estava pressionada contra ele, o corpo esguio colado ao dele, os braços enrolados em seu pescoço. A boca dela estava na dele, e ele... ele não a estava empurrando. As mãos dele estavam na cintura dela, puxando-a para mais perto, e o som do beijo — molhado, faminto — ecoava no ar noturno como uma sentença de morte. Eu parei. Todo o ar saiu dos meus pulmões como se alguém tivesse me dado um soco no estômago. O mundo inteiro pareceu congelar, as cores do jardim tornando-se borradas, os sons da festa abafados pelo rugido do sangue nos meus ouvidos. Não. Não, não, não. Eu queria fechar os olhos, queria apagar aquela imagem da minha mente, mas não conseguia. Eu estava presa, hipnotizada pelo horror da cena. Meu noivo. Beijando Aisha. A loba que passava os dias me humilhando, que ria da minha cara, que fazia questão de me lembrar todos os dias de que eu não era nada. E ele... ele estava deixando. Eu não sei quanto tempo fiquei ali, parada como uma estátua. Talvez segundos. Talvez minutos. O tempo perdeu todo o significado. Quando finalmente consegui me mover, foi como se eu estivesse nadando através de melaço. Cada passo era um esforço sobre-humano, cada respiração uma agonia. — Derek? — Minha voz saiu como um sussurro rouco, quase inaudível. Ele se afastou de Aisha, e por um momento, eu vi algo nos olhos dele. Surpresa? Culpa? Não. Era irritação. Ele estava irritado por ter sido interrompido. — Anika. — O tom dele era frio, controlado. Como se eu o tivesse pegado fazendo algo trivial, como se beijar outra mulher na frente da noiva fosse algo perfeitamente normal. — O que você quer? Eu olhei de Derek para Aisha, e depois de volta para Derek. Minha boca abriu e fechou várias vezes, mas nenhuma palavra saiu. O que eu queria? Eu queria respostas. Eu queria explicações. Eu queria que ele me dissesse que aquilo era um pesadelo, que eu estava vendo coisas, que ele me amava. — Você... — Finalmente consegui falar, a voz tremendo. — Você está com ela? Derek suspirou, passando a mão pelo cabelo escuro. Ele não parecia envergonhado. Não parecia arrependido. Ele parecia... entediado. — Anika, não faça uma cena. — Ele deu um passo na minha direção, mas não havia calor em seus olhos. — Isso não significa nada. — Não significa nada? — Eu ri, um som quebrado que não continha nenhum humor. — Você estava beijando outra mulher, Derek. Na frente de todos. E você diz que não significa nada? — Significa que eu quis fazer isso. — A voz dele era dura agora, sem qualquer tentativa de suavizar as palavras. — Eu quis beijar a Aisha. Eu quis porque eu quero. E você... — Ele fez uma pausa, os olhos percorrendo-me com um desprezo que me fez encolher. — Você não significa nada para mim, Anika. Nunca significou. As palavras atingiram-me como um caminhão. Eu cambaleei para trás, sentindo o chão desaparecer sob meus pés. Minha visão embaçou, e eu percebi que estava chorando. Lágrimas quentes escorriam pelo meu rosto, estragando a maquiagem que eu tinha passado com tanto cuidado, manchando o vestido azul que minha mãe escolhera. — Mas... nós estamos prometidos. — Minha voz era um fio, uma súplica patética. — Nossos pais... a alcateia... — A alcateia não se importa com você. — Derek deu de ombros, como se estivesse discutindo o clima. — E eu vou ser o Alfa. Quando eu assumir, vou desfazer esse noivado. Vou me casar com alguém que mereça estar ao meu lado. Alguém que tenha uma loba. Alguém que não seja uma vergonha. Cada palavra era uma faca. Eu sentia meu coração se despedaçando, pedaço por pedaço, e não havia nada que eu pudesse fazer para impedir. Eu olhei para Aisha, que estava parada atrás de Derek com um sorriso de triunfo no rosto. Ela sabia. Ela sempre soube. E ela estava adorando cada segundo da minha humilhação. — Você não pode fazer isso. — Eu não sei de onde tirei forças para falar, mas as palavras saíram, trêmulas mas determinadas. — O noivado foi selado. É uma tradição. Os deuses da lua... — Os deuses da lua não se importam com você. — Derek cortou-me, a voz cheia de desprezo. — Ninguém se importa com você, Anika. Você é uma aberração. Uma loba sem lobo. Uma coisa quebrada que nunca deveria ter nascido. Ele se virou para Aisha, e eu vi o sorriso que trocaram. Era um sorriso de conivência, de crueldade, de prazer pela dor que estavam causando. E naquele momento, algo dentro de mim se quebrou. Algo que eu nem sabia que ainda estava inteiro. — Aisha. — A voz de Derek era casual, como se estivesse pedindo um copo de água. — Bata nela. Eu congelei. Minha mente lutou para processar as palavras, para entender o que ele estava dizendo. Bater nela. Ele estava mandando Aisha me bater. — O quê? — Minha voz saiu como um sussurro. Aisha sorriu, um sorriso lento e predador que fez meu sangue gelar. Ela deu um passo na minha direção, os olhos brilhando com uma fome que eu nunca tinha visto antes. — Você ouviu o Derek. — Ela estalou os dedos, os nós dos dedos estalando como ossos quebrando. — Ele disse para eu bater em você. Eu olhei para Derek, esperando... esperando o quê? Que ele risse e dissesse que era brincadeira? Que ele me defendesse? Que ele fizesse alguma coisa? Ele não fez nada. Apenas ficou ali, os braços cruzados, observando-me com uma expressão de tédio, como se eu fosse um programa de televisão que ele já tinha visto mil vezes. — Derek, por favor. — Eu odiava o som da minha voz, odiava a fraqueza que ela revelava, odiava que eu ainda estivesse implorando por migalhas de sua compaixão. — Por favor, não faça isso. — Você devia ter pensado nisso antes de vir me incomodar. — Ele deu de ombros novamente, aquele gesto casual que me fazia querer gritar. — Agora, Aisha. Não me faça esperar. Aisha avançou, e eu recuei, o coração batendo tão forte que eu achei que fosse explodir. Eu não tinha para onde correr. As costas bateram no parapeito de pedra da varanda, e eu percebi, com um sobressalto de terror, que estava encurralada. Não havia saída. Não havia ninguém para me ajudar. A festa continuava lá dentro, as pessoas rindo e dançando, alheias ao que estava acontecendo a poucos metros de distância. — Por favor. — Minha voz quebrou, as lágrimas escorrendo livremente agora. — Aisha, por favor. Não faça isso. Ela riu, um som cruel que ecoou no ar noturno. — Ah, Anika. — Ela parou na minha frente, tão perto que eu podia sentir o cheiro do perfume dela, algo doce e sufocante. — Você devia ter pensado nisso antes de nascer. Antes de roubar o lugar que era meu. Antes de achar que podia ser a noiva do Derek. — Eu não... eu não pedi por isso. — Eu mal conseguia falar, o medo apertando minha garganta como uma mão invisível. — Eu nunca pedi... — Não importa. — Aisha ergueu a mão, e eu vi o brilho de suas unhas afiadas sob a luz das lanternas. — O que importa é que você vai pagar por cada segundo que passou ao lado dele. E então, ela me bateu. O primeiro golpe veio rápido, um estalo que ecoou pela varanda e fez minha cabeça virar para o lado. A dor explodiu na minha bochecha, quente e aguda, e eu cambaleei, as mãos agarrando o parapeito para não cair. — Derek... — Eu sussurrei, o gosto de sangue na boca. — Por favor... Ele não disse nada. Apenas ficou ali, observando, os olhos frios como pedra. Aisha ergueu a mão novamente, e eu fechei os olhos, esperando o próximo golpe. — Isso é só o começo, Anika. — A voz dela era um sussurro cruel no meu ouvido. — Quando eu terminar com você, ninguém vai reconhecer o seu rosto. E o melhor de tudo? Derek vai assistir a cada segundo.Eu encolhi-me contra o espelho, o coração batendo tão forte que eu achava que ia explodir. A minha mão ainda estava húmida. O cheiro dele ainda estava na minha pele. E do outro lado da porta, o meu noivo — o homem que me odiava, o homem que me tinha expulsado — estava a poucos metros de distância.E ele sabia.Ele sabia que eu estava ali.Ele sabia que eu estava com Christian.— Christian! — Derek gritou, e a voz dele estava mais alta agora, mais desesperada. — Se não abrires esta porta, eu arrombo-a! Eu juro por tudo que é sagrado, eu arrombo esta porra desta porta!Eu ouvi a voz de Christian do outro lado, calma e controlada como sempre.— Derek. — Ele disse, e havia um aviso na voz dele. — Eu aconselho-te a saíres da minha casa. Agora.— Não vou a lado nenhum sem ela! — Derek gritou. — Ela é minha noiva! Ela pertence-me!— Ela não pertence a ninguém. — A voz de Christian era fria. — E se não saíres por bem, eu faço-te sair por mal.Houve um silêncio. E então, Derek riu. Uma risada
A mão dele ainda estava sobre a minha.Eu sentia cada centímetro da pele dele através do tecido fino da toalha. Quente. Pulsando. Vivo. Meus dedos tremiam, e eu queria puxar a mão de volta, mas algo me mantinha ali. Algo mais forte que o medo. Algo mais forte que a vergonha.— Christian... — Minha voz saiu como um fio. — Eu não... eu não sei...— Não sabes o quê? — Ele inclinou a cabeça, os olhos dourados brilhando na luz suave do banheiro.— Não sei o que fazer. — Admiti, o rosto queimando. — Nunca... nunca fiz isso.Christian sorriu, e o sorriso dele era diferente agora. Não era o sorriso sexy e provocador de antes. Era mais suave. Mais... terno.— Eu sei. — Ele disse, e a voz dele era baixa. — Eu sei que nunca fizeste. E isso... — Ele pausou, os olhos fixos nos meus. — Isso faz-me querer-te ainda mais.Ele soltou meu pulso, e por um momento, eu pensei que ele ia me deixar ir. Mas então, ele pegou minha mão novamente, os dedos dele entrelaçando-se com os meus, e me guiou. Para baixo
O beijo foi como uma tempestade. Não houve hesitação, não houve suavidade. Foi um beijo faminto, possessivo, como se ele estivesse tentando me reivindicar. Os lábios dele pressionaram os meus com uma urgência que me fez arfar, e eu senti as mãos dele agarrarem minha cintura, puxando-me para perto.Eu deveria ter fugido. Eu deveria ter empurrado ele. Eu deveria ter dito não.Mas eu não fiz nada disso.Eu beijei ele de volta.Não sei de onde veio a coragem, nem de onde veio o desejo. Mas eu beijei ele de volta, os lábios se movendo contra os dele, as mãos subindo para o peito nu dele, os dedos roçando a tatuagem do lobo em chamas. Christian rosnou contra minha boca, um som baixo e primitivo, e eu senti o corpo dele pressionar o meu contra o espelho.E então eu senti.Algo duro. Algo grande. Pressionando contra a minha coxa.Eu congelei, os olhos arregalando. Christian não parou. Ele continuou me beijando, as mãos descendo para as minhas coxas, me erguendo, me sentando na borda da pia no
O banheiro era pequeno.Não, não era. Era enorme, na verdade. Mármore branco, espelhos que iam do chão ao teto, uma banheira que parecia uma piscina particular. Mas naquele momento, com Christian parado na porta, os olhos dourados fixos em mim, o sorriso sexy ainda nos lábios, o espaço parecia ter encolhido até ficar do tamanho de uma caixa de sapatos.Eu ainda estava sentada na pia, as pernas pendendo sobre a borda, o coração batendo tão forte que eu podia senti-lo na garganta. A porta atrás dele estava fechada, e eu sabia, com uma certeza absoluta, que não havia saída.— Você está pensando em fugir. — Não era uma pergunta.— Eu estou pensando em muitas coisas. — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Fugir é uma delas.Christian riu, uma risada baixa e rouca que fez algo vibrar no meu peito. Ele deu um passo para dentro do banheiro, e o espaço pareceu encolher ainda mais.— Fugir não vai funcionar. — Ele disse, e a voz dele era suave, quase casual. — Eu sou o Supremo Alpha.
Foi rápido. Um movimento fluido, poderoso. A mão dele fechou-se ao redor do meu braço, e ele me arrastou de volta para dentro da casa. Eu gritei, surpresa, mas ele não parou. Atravessou o saguão, subiu as escadas, e eu tropecei, tentando acompanhar o passo dele.— Christian, o que você está fazendo? — Eu gritei, tentando me soltar. — Me solta!— Não. — Ele disse, e a voz dele era dura. — Você não vai embora. Não assim.Ele me puxou pelo corredor, passando por portas fechadas, até chegar a um banheiro. Ele me empurrou para dentro, e eu cambaleei, as costas batendo na pia de mármore.— Christian, para! — Eu gritei, as mãos erguidas. — Eu não vou para o seu quarto! Eu não vou...— Silêncio. — Ele sibilou, e o som cortou o ar como uma lâmina.Eu congelei. Não pelo tom da voz dele. Mas porque ele tinha se aproximado. Muito. Ele estava na minha frente, o corpo ainda coberto apenas pela toalha, as mãos apoiadas na pia de cada lado de mim, me prendendo entre os braços dele. Eu estava sentada
Acordei com o som de pássaros cantando do lado de fora da janela.Por um momento, esqueci tudo. Esqueci a festa, esqueci Aisha, esqueci a varanda. Esqueci Derek me expulsando e Christian me salvando. Por um breve e abençoado instante, eu era apenas Anika, uma loba sem lobo, deitada na minha cama, ouvindo os pássaros.E então a dor voltou.Não a dor física — embora meu corpo ainda doesse, os hematomas de Aisha formando manchas roxas na minha pele clara. Era uma dor mais profunda. Uma dor na alma. A dor de saber que minha vida tinha desmoronado em uma única noite, e que não havia como voltar atrás.Eu me sentei na cama, o corpo protestando, e olhei ao redor do quarto. Tudo estava igual. As paredes cor de lavanda que eu tinha pintado quando era adolescente. As prateleiras cheias de livros que eu lia para escapar da realidade. A foto na mesa de cabeceira — eu e Derek, sorrindo, no dia do nosso noivado. Eu tinha treze anos. Ele tinha quinze. Éramos crianças, inocentes, ignorantes do que o







