Compartilhar

Capítulo 4

Autor: BNLabaig
last update Data de publicação: 2026-11-01 02:24:37

Helena Gryepe

Na terceira semana, Conrado já não precisava perguntar por que eu passava tanto tempo na biblioteca. Os livros sobre o clima ocupavam boa parte da mesa, misturados aos documentos que ele me permitia consultar.

Eu ainda tinha muito a aprender, mas começava a reconhecer padrões e formular minhas próprias hipóteses. Conrado parecia satisfeito com meu progresso, embora nunca perdesse a oportunidade de me provocar.

"Você está lendo esse livro de novo?"

"Acho que estou deixando passar alguma coisa..."

"Ou está tentando encontrar alguma coisa que prove que eu estava errado."

Ergui os olhos para ele.

"Não se preocupe. Quando eu conseguir, você será o primeiro a saber."

Conrado riu e puxou uma cadeira para se sentar à minha frente.

Nossas conversas, que antes se limitavam às projeções climáticas, agora se estendiam por horas. Discutíamos os modelos, discordávamos sobre as decisões das empresas e, às vezes, acabávamos rindo de nossas próprias provocações.

Eu defendia que a proteção das pessoas deveria vir antes dos interesses comerciais. Ele argumentava que boas intenções não bastavam sem recursos e planejamento.

Nenhum dos dois costumava ceder facilmente.

O estranho era perceber o quanto eu gostava daquilo.

Naquela casa, eu podia questionar, discordar e até desafiar Conrado sem ser tratada como uma tola. Ele não concordava comigo apenas para me agradar. Quando eu errava, apontava o problema; quando apresentava um bom argumento, ouvia.

Eu não estava acostumada a ser levada a sério.

Talvez por isso tivesse começado a me sentir tão à vontade ao lado dele.

Naquela tarde, fomos à biblioteca analisar uma nova projeção. Conrado havia separado alguns documentos, e eu queria consultar um dos livros que utilizara para formular minha última hipótese.

Encontrei o volume na prateleira mais alta e estendi a mão no mesmo instante em que ele fez o mesmo.

Nossos dedos se tocaram sobre a lombada. Puxei a mão, ele repetiu o movimento, e acabamos nos esbarrando. Minhas costas bateram contra a estante, fazendo alguns livros deslizarem das prateleiras superiores.

Conrado me puxou contra o corpo e protegeu minha cabeça com o braço.

Os livros caíram ao nosso redor. Um deles atingiu o chão perto dos meus pés, mas eu mal consegui acompanhar o movimento. Toda a minha atenção estava voltada para o homem que ainda me mantinha entre os braços.

"Você está bem?", perguntou.

Assenti, mas não me afastei.

Estávamos perto demais. Eu sentia a respiração dele no rosto e a mão firme em minha cintura. Quando ergui os olhos, encontrei Conrado me observando. Seu olhar percorreu meu rosto antes de parar em meus lábios.

Meu coração acelerou.

"Por que está me olhando assim?", murmurei.

Um sorriso discreto surgiu em sua boca.

"Estou tentando descobrir uma coisa."

"Que coisa?"

"Se você percebe o efeito que causa nas pessoas."

"Talvez você esteja exagerando."

"Talvez você esteja tentando me convencer disso."

A resposta me fez perder o ar. Conrado continuava perto, sem demonstrar qualquer intenção de se afastar. Quando seus olhos desceram novamente até minha boca, senti um arrepio percorrer a pele.

Ele queria me beijar.

Eu deveria ter recuado. Aquele casamento era um acordo, e eu tinha uma missão a cumprir. Não podia me dar ao luxo de esquecer por que estava naquela casa.

Mas, quando Conrado ergueu a mão e tocou meu rosto, minhas certezas vacilaram.

Seu polegar deslizou delicadamente pela minha bochecha. O gesto foi tão inesperadamente terno que prendi a respiração.

Ele não tentou me apressar. Apenas sustentou meu olhar, esperando.

Eu poderia ter me afastado.

Não o fiz.

Conrado se inclinou devagar. Meu coração batia tão depressa que mal conseguia pensar. Seus olhos buscaram os meus uma última vez, e eu respondi inclinando o rosto na direção dele.

Queria aquele beijo.

A constatação me assustou, mas não o suficiente para me fazer desistir. Por um instante, esqueci o acordo, a missão e todas as razões pelas quais deveria manter distância daquele homem.

Então meu celular tocou.

Afastei-me depressa, como se o som tivesse me despertado de um sonho. Conrado baixou a mão e deu um passo para trás, sem tentar me impedir.

Olhei para a tela.

Marlon.

O nome dele foi suficiente para desfazer o encanto.

"Desculpe. Preciso atender."

Saí da biblioteca antes que Conrado pudesse dizer qualquer coisa e só aceitei a ligação quando cheguei ao corredor.

"Finalmente, Helena." Marlon sequer me cumprimentou. "Quando você vai conseguir aquelas informações?"

Fechei os olhos por um instante.

Ainda conseguia sentir a mão de Conrado em meu rosto. Lembrei-me da maneira como ele me olhara, como se realmente quisesse me conhecer, e uma culpa incômoda apertou meu peito.

Eu amava Marlon havia sete anos. O que sentia por Conrado era apenas atração, uma consequência da convivência, da solidão e da atenção que ele me dedicava. Não podia confundir as coisas.

"Helena, você está me ouvindo?"

"Estou."

"Você está aí há três semanas. Não pode continuar adiando."

"Não estou adiando nada. Preciso ter certeza de que ninguém vai me ver."

"Então encontre uma maneira. Preciso dos relatórios climáticos."

Apertei o celular contra a orelha.

"Você disse que, depois disso, ficaríamos juntos."

"E vamos. Mas primeiro preciso que você cumpra sua parte."

A impaciência na voz dele não era novidade. Ainda assim, doeu ouvir aquela cobrança depois de tudo o que eu havia feito para manter nossa promessa viva.

"Helena, não me decepcione agora."

A ligação terminou pouco depois.

Fiquei olhando para a tela apagada. Minutos antes, eu estivera prestes a beijar Conrado. Agora, Marlon me lembrava do motivo pelo qual havia aceitado aquele casamento.

Eu não estava ali para encontrar felicidade. Estava ali para conseguir os documentos confidenciais da Windsor.

E sabia exatamente onde procurá-los.

Quando voltei à sala, Conrado já estava com uma pasta nas mãos.

"Está tudo bem?"

"Era minha irmã. Queria saber como estou."

Ele me observou por um instante, como se percebesse que eu não estava contando tudo, mas não insistiu.

"Vou para a empresa. Se precisar de alguma coisa, me ligue."

Assenti e acompanhei sua saída com o olhar. Assim que o carro desapareceu, subi para o quarto e esperei até ter certeza de que os funcionários estavam ocupados.

Então fui ao escritório.

Não precisei vasculhar gavetas nem abrir todas as pastas. Durante as últimas semanas, Conrado me mostrara documentos suficientes para que eu reconhecesse os relatórios relacionados às projeções climáticas. Eu sabia o que procurar.

Fotografei as páginas necessárias, reorganizei tudo como estava e deixei o escritório.

No quarto, enviei as imagens para Marlon. A resposta chegou poucos minutos depois.

Marlon: Era disso que eu precisava.

Soltei o ar que nem percebera estar prendendo.

Eu: Agora posso voltar?

A mensagem foi visualizada, mas ele não respondeu.

Esperei. Enviei outra mensagem e tentei ligar. Nada.

A inquietação tomou o lugar do alívio.

Eu havia cumprido minha parte. Marlon prometera que ficaríamos juntos assim que conseguisse as informações. Por que, então, não respondia?

Não queria continuar naquela casa, confusa com a proximidade de Conrado e com sentimentos que não deveria ter permitido nascer. Decidi que iria até a mansão dos Fiore e exigiria uma resposta pessoalmente.

Peguei algumas roupas, troquei os sapatos e saí pelo portão lateral quando tive oportunidade.

A viagem foi mais difícil do que imaginei. Com pouco dinheiro e o celular quase sem bateria, precisei improvisar o transporte e caminhar por alguns trechos. Quando finalmente reconheci os portões da propriedade dos Fiore, mais de um dia havia se passado.

Meus pés doíam, minhas pernas estavam pesadas e minhas roupas estavam sujas. Mesmo assim, senti um alívio imenso.

Eu tinha conseguido.

Marlon estaria ali. Agora que eu havia entregado as informações, ele cumpriria sua promessa.

Subi os degraus e toquei a campainha.

A porta se abriu poucos segundos depois.

E meu mundo parou.

Mariana estava diante de mim, usando um robe de seda claro, com os cabelos soltos sobre os ombros. A surpresa em seu rosto desapareceu rapidamente quando ela reparou em minhas roupas sujas e em meu estado deplorável.

"Helena?"

Olhei por cima do ombro dela, procurando Marlon.

"Onde ele está?"

Minha irmã não respondeu. Em vez disso, levou a mão ao peito, e um anel de diamante brilhou sob a luz do vestíbulo.

Reconheci aquela joia imediatamente.

Era o anel que Marlon usara para me prometer que um dia se casaria comigo.

Agora estava no dedo da minha irmã.

Mariana percebeu meu olhar. Então, para meu horror, sorriu.

"Você não recebeu o convite?"

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 26

    Helena WindsorDébora pousou a xícara na mesinha com um movimento brusco."Olha só, Gryepe. E sim, é Gryepe. Você não é uma Windsor e nunca será aos meus olhos."Meu sorriso desapareceu, mas não fiz nenhum movimento para interrompê-la."Vim deixar uma coisa bem clara. Se tentar afastar Conrado dos amigos dele, e de mim, eu não vou deixar barato. Você é uma intrusa, alguém que está com ele apenas porque ele precisava de um contrato. E, para piorar, nem valeu a pena. As informações que sua família passou são ridículas."Ela se inclinou um pouco na minha direção."Então acho bom começar a fazer as malas. Logo, Conrado vai colocar você para fora desta casa e tudo vai voltar ao normal."Não consegui evitar uma risada.Pousei minha xícara na mesinha e a encarei."Quando você diz voltar ao normal, quer dizer você voltar a se jogar para cima dele e ele continuar evitando você? Porque é isso que parece."O rosto dela endureceu."Como é?""Se você está aqui fazendo esse espetáculo, imagino que

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 25

    Helena WindsorTrês semanas haviam se passado desde o acidente com a sopa, e eu finalmente estava recuperada.As queimaduras tinham cicatrizado bem. Ainda restavam algumas marcas na minha mão e na barriga, mas nada que me impedisse de andar pela casa ou retomar minha rotina.E que rotina maravilhosa eu havia construído!Os funcionários pareciam ter me adotado. Madalena já não me olhava com tanta desconfiança, Jofrey conversava comigo com mais frequência e até os outros empregados haviam deixado de me tratar como uma visita indesejada.Mas a melhor parte eram os momentos com Conrado.Tínhamos criado o hábito de ler juntos, assistir a filmes e conversar sobre assuntos que não envolviam pesquisas climáticas ou previsões de catástrofes. Descobri que ele tinha um humor muito melhor do que demonstrava inicialmente e que gostava de provocar apenas para arrancar uma reação minha.Às vezes, passávamos horas conversando sem perceber o tempo passar.Eu estava amando aquela vida.Naquela manhã, e

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 24

    Conrado WindsorOs créditos do filme começaram a subir na televisão, mas Helena já havia adormecido fazia algum tempo.Ela estava encolhida contra meu peito, com uma das mãos agarrada à minha camisa e o rosto parcialmente escondido sob meu queixo. De vez em quando, soltava um suspiro tranquilo, completamente alheia ao fato de que eu estava preso naquela posição havia quase meia hora.Peguei o controle remoto com cuidado e desliguei a televisão.Agora precisava sair dali sem acordá-la.Afastei delicadamente alguns fios de cabelo de seu rosto e tentei soltar sua mão da minha camisa. No instante em que me movi, porém, Helena resmungou alguma coisa e apertou os dedos."Não..."Parei.Ela se acomodou novamente, esfregando o rosto contra meu peito."Helena, preciso levantar."Não houve resposta. Apenas um pequeno movimento de cabeça.Tentei outra vez, mas ela agarrou meu braço."Por favor, não vá embora..."Olhei para baixo.Seus olhos continuavam fechados. Ela estava dormindo."Eu só vou p

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 23

    Helena GryepeEu estava tentando encontrar uma posição confortável entre os travesseiros quando ouvi duas batidas na porta."Entre!"Conrado apareceu carregando a bandeja que Madalena havia preparado. Sobre ela estavam uma tigela enorme de pipoca e duas latas de refrigerante.Meu sorriso surgiu antes mesmo que eu percebesse."E não é que você está mesmo preparado?"Ele fechou a porta com o pé e caminhou até a cama."Esperava que eu aparecesse de mãos vazias?""Não sei. Você não tem cara de quem gosta de uma noite de filmes."Conrado soltou uma risada enquanto colocava a bandeja sobre a mesinha."Posso providenciar alguém melhor, se minha companhia não for suficiente.""Não foi isso que eu quis dizer."Ele pegou o controle remoto."Então, senhora Windsor, qual será nossa programação?"O modo como pronunciou meu novo sobrenome fez meu coração bater um pouco mais rápido. Ainda era estranho ouvi-lo me chamar assim, mas eu gostava. Gostava muito mais do que deveria."Você gosta de filmes d

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 22

    Conrado WindsorDepois de deixar Helena no quarto, segui para o escritório, que ficava no andar superior da casa.Precisava organizar algumas coisas antes de decidir como conduziria aquela situação.A conversa com ela havia me deixado com mais perguntas do que respostas. Ainda assim, suas observações sobre as alterações climáticas faziam sentido. Eu não podia simplesmente ignorá-las só porque não sabia de onde vinha tanto conhecimento.Sentei-me à mesa, abri meu computador e digitalizei o contrato de casamento que Helena havia assinado. Em seguida, peguei o celular e liguei para Amanda.Ela atendeu no segundo toque."Me ligando na hora do expediente? Não está na empresa?""Não começa, Amanda."Ouvi sua risada do outro lado."Está bem. O que precisa?""Estou enviando o contrato de casamento. Anexe ao processo e solicite as informações que os Gryepe prometeram disponibilizar depois da assinatura.""Finalmente! Quero ver o que esses safados estão escondendo.""Não acho que será nada rele

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 21

    Helena GryepeConrado continuava sentado diante de mim, esperando uma resposta.Eu sabia que não poderia contar tudo. Não ainda. Se revelasse que já havia vivido aquela catástrofe, teria que explicar como voltei no tempo, como sabia o que aconteceria e, principalmente, como conhecia tantos detalhes sobre ele.Precisava escolher minhas palavras com cuidado."Antes de tudo, você precisa entender que a catástrofe não vai acontecer de uma hora para outra. Haverá uma sequência de alterações climáticas que, isoladamente, podem parecer eventos naturais sem relação entre si."Conrado apoiou os braços nos joelhos."Que tipo de alterações?""Primeiro, as oscilações de temperatura vão se tornar mais frequentes e intensas. Algumas regiões começarão a registrar mudanças bruscas em períodos muito curtos. Depois, teremos alterações na pressão atmosférica que não seguirão os padrões esperados para determinadas épocas do ano."Ele permaneceu atento."Isso já acontece em algumas regiões.""Sim, mas a f

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status