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Althea sempre preferira o caminho que cortava o centro da cidade. Gostava da movimentação, da buzina dos carros, do murmúrio constante das pessoas nas calçadas — um ruído previsível, seguro e perfeitamente comum.
Naquele dia, no entanto, a rua principal estava completamente bloqueada. Placas laranjas reluzentes e barreiras metálicas cruzavam a pista. Desvio obrigatório. Ela soltou um suspiro impaciente, ajustando a alça pesada da bolsa no ombro. — Ótimo... Justo hoje. O único acesso alternativo até a antiquária da avó era a trilha de terra que cortava o bosque atrás do prédio. A loja possuía duas entradas: uma voltada para a avenida movimentada e outra, quase esquecida pelo tempo, voltada para a densa vegetação. Althea acelerou o passo, adentrando a sombra das árvores. À medida que se aprofundava, o silêncio do bosque a envolveu. Não era uma calma agradável. Não havia vento, as copas não sussurravam e até mesmo o som distante do tráfego urbano parecia ter sido completamente apagado. O ar estava espesso, suspenso, como se o próprio tempo tivesse prendido a respiração à espera de algo. Um arrepio frio subiu por sua espinha, arrepiando os pequenos pelos do seu braço. Ela conhecia aquele caminho desde a infância e jamais sentira medo ali. Mas, naquele instante, a atmosfera parecia carregada de uma eletricidade invisível. Ao dobrar uma curva estreita entre dois carvalhos antigos, ela não teve tempo de reagir. Esbarrou com força contra alguém. O impacto foi contra um peito amplo, sólido e imóvel como uma rocha. Althea perdeu o equilíbrio e quase caiu para trás, mas, antes que atingisse o chão, mãos firmes enlaçaram seus braços, sustentando-a. O toque atravessou o tecido fino de sua blusa. Era quente. Intenso. Um calor quase febril que parecia queimar sua pele. Arfando pela surpresa, ela ergueu o olhar. O homem era alto, imponente, vestindo um sobretudo escuro de corte impecável. A aba larga do chapéu projetava uma sombra densa sobre seu rosto, ocultando seus olhos. Contudo, no segundo em que as mãos dele a seguraram, uma descarga elétrica percorreu a espinha de Althea. Não era sobressalto. Não era mero susto. Era algo arcaico, gravado na espinha. Um reconhecimento doloroso e visceral, como se uma parte adormecida em sua alma estivesse despertando assustada. Perigo e fascínio entrelaçados no mesmo pulso. — Me... desculpa — a voz de Althea saiu em um sussurro falho, rouca pela proximidade. O homem não respondeu. Não recuou, não vacilou e tampouco piscou. Ele apenas a manteve ali, presa ao seu toque por alguns segundos que pareceram durar uma eternidade. Ela podia sentir a respiração calma dele, o calor emanando de seu corpo e a forma como ele a observava por baixo da sombra, como se estivesse confirmando a resposta para uma pergunta secular. Lentamente, os dedos dele deslizaram por seus braços, soltando-a sem apressar o gesto. Ele deu um passo para o lado e voltou a andar, contornando-a. Sem hesitar. Sem olhar para trás. Sem pronunciar uma única palavra. O som de seus passos na terra seca desapareceu rápido demais, como se ele tivesse se fundido à própria névoa do bosque. Althea permaneceu estática no meio da trilha. O coração batia desordenado contra as costelas e os locais onde ele a tocara ainda formigavam com aquele calor anômalo. — Que grosso... — resmungou, tentando recuperar o fôlego. Mas a irritação soou falsa. Não havia raiva em seu peito, apenas uma inquietação profunda. A certeza incômoda de que aquele esbarrão não fora um acidente. Respirando fundo, ela apressou os passos em direção à loja, sem imaginar que, em poucas horas, o mundo que conhecia ruiria. E que aquele estranho do bosque já sabia exatamente disso.A grande biblioteca de Valthera mantinha sua atmosfera de isolamento e mistério. Prateleiras colossais de madeira escura subiam até o teto arqueado, repletas de milhares de tomos antigos, manuscritos em pergaminho e mapas desbotados pelo tempo. A luz suave da manhã filtrava-se pelos vitrais coloridos, desenhando mosaicos de luz vermelha e azul no chão frio.Althea empurrou as pesadas portas duplas e entrou devagar. Seu coração continuava inquieto desde os acontecimentos da noite anterior no jardim. A imagem daquela mulher misteriosa de olhos azuis e a reação evasiva de Raven recusavam-se a deixar sua mente.Ela caminhou em silêncio pelo corredor central até encontrá-lo.Raven estava sentado à mesa principal de carvalho, cercado por montanhas de livros abertos. Seus cabelos escuros caíam levemente sobre a testa enquanto ele lia atentamente um texto em uma língua arcaica. Ele parecia sereno, concentrado e completamente alheio ao caos emocional que havia provocado nela.Ao ouvir o eco su
A noite voltou a cair sobre o palácio de Valthera, trazendo consigo o peso sufocante das promessas feitas no dia anterior. Após passar horas digerindo a tempestade de emoções que fora cuidar de Kael em sua febre, a mente de Althea permanecia inquieta, acelerada pelo mistério do que Reven tinha a lhe revelar.Apoiando-se no silêncio dos corredores de pedra, ela caminhou em direção aos pátios internos. O ponto de encontro era o mesmo: perto da fonte antiga, sob o brilho das quatro luas que cortavam o céu noturno.Reven já estava lá. Encostado na balaustrada de pedra, ele parecia uma figura esculpida pela própria sombra. Os cabelos castanhos escuros caíam suavemente sobre a testa, e seus olhos claros, emoldurados pelos óculos de armação fina, fitavam o reflexo das luas na água com uma distância pensativa. Havia uma tensão em seus ombros, como se carregasse o mundo inteiro nas costas.Ao ouvir os passos dela, ele se virou devagar. Althea aproximou-se, parando a poucos passos de distância.
A manhã seguinte trouxe um movimento agitado ao palácio, mas para Althea, cada passo pulsava com uma tensão sufocante. Toda vez que ouvia botas ecoando nos corredores de pedra, seu peito contraía. Ao passar perto dos pátios de treino, ela avistou a silhueta alta de Seth instruindo os guardas. A lembrança do beijo dele — a intensidade das mãos dele em sua cintura, a ousadia daquele toque — fez seu rosto esquentar instantaneamente. Ela deu meia-volta antes que ele a visse. Encarar Seth agora, com a confusão sobre Liam ainda fresca em sua cabeça, parecia perigoso demais. Procurando escapar dos olhares atentos dos guardas e do risco iminente de cruzar com Seth novamente, Althea acelerou o passo pelos corredores mais silenciosos do castelo. O ar lá dentro parecia pesado, quase sufocante. Ela precisava de espaço, de um lugar onde não houvesse obrigações, profecias ou homens de olhares intensos bagunçando seus pensamentos. Seus pés a guiaram intuitivamente para os pátios internos do
A discussão com Kael ainda ecoava na mente de Seth quando ele deixou o campo de treinamento. As quatro luas iluminavam o pátio de pedra. Ele não olhou para trás, mas sabia que Kael continuaria ali, treinando, se punindo, como sempre fazia. Seth apertou o punho e continuou caminhando.Althea não conseguia dormir. O quarto parecia pequeno e silencioso demais. Ela se sentou na beira da cama por um momento, tentando organizar os pensamentos, mas eles não obedeciam. O beijo com Seth ainda queimava na memória. O toque, a intensidade, e antes disso… Liam. E antes dele… Kael. Passou as mãos pelo rosto; aquilo estava ficando complicado demais.Com um suspiro frustrado, levantou-se, pegou o manto leve sobre a cadeira e saiu do quarto.Os corredores do palácio estavam quase vazios, com a luz das tochas dançando nas paredes de pedra. Era estranho caminhar ali àquela hora, mas também silenciosamente confortável.Ela virou um corredor que ainda não conhecia bem e percebeu uma porta aberta no fim d
O beijo terminou devagar, sem ruptura e sem pressa. Seth manteve o rosto próximo ao dela por alguns segundos, respirando com dificuldade contida. Os olhos claros desceram involuntariamente para o próprio peito, onde as marcas sob a pele ainda pulsavam fracas. Ele hesitou e perguntou, baixo: — Você… não se importa? Althea franziu levemente a testa. — Com o quê? Ele segurou o próprio pulso, como se tentasse impedir que as marcas fossem vistas. — Com isso — o tom era mais duro do que ele pretendia. — Com as marcas. A marca fina que atravessava parte do rosto dele parecia mais evidente sob a luz. O corpo marcado, a pele que carregava batalhas antigas demais para alguém da idade dele. Althea sustentou o olhar dele sem hesitação. — Não. Ele pareceu chateado, como se esperasse outra resposta, como se esperasse repulsa ou piedade. — Eu odeio ter tantas — a frase saiu mais honesta do que ele gostaria. Havia culpa ali; sempre havia culpa. Althea aproximou-se um pouco mai
O silêncio no aposento tornou-se pesado.Althea ainda estava próxima demais de Seth. A mão dele ainda suspensa perto do rosto dela. A distância entre eles pequena demais para ser ignorada.Kael não falou de imediato. Os olhos quase dourados analisaram a cena com precisão fria. Primeiro Seth. Depois a mão dele. Depois Althea.Seth foi o primeiro a se afastar. Devagar. Não por culpa, mas por consciência. Ele endireitou a postura, mesmo ainda sem a parte superior da armadura, deixando o corte no braço recém-enfaixado visível.— Vejo que a ala médica virou sala de encontros — disse Kael. A voz era controlada, mas cortante.Althea sentiu o impacto.— Ele estava ferido.— E é perfeitamente capaz de cuidar disso sozinho — rebateu Kael.Seth deu um passo à frente. Leve, protetor.— Eu pedi ajuda.Os olhos de Kael se voltaram para ele, firmes.— Você não precisa.O ar ficou mais denso. Seth sustentou o olhar.— Não preciso. Mas aceitei.Silêncio.Kael entrou completamente no aposento, sua pres







