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Capítulo 2

Author: Sésamo
Lívia acordou em um quarto desconhecido. Na cabeceira da cama, um bilhete estava colado: [Daqui a duas semanas, no porto].

As lembranças, ainda anestesiadas pelo álcool, foram voltando aos poucos.

Então era isso, a pessoa que ela havia encontrado na noite anterior era Felipe Almeida, alguém que, na Cidade das Flores, podia rivalizar com Rodrigo e, ao mesmo tempo, o único capaz de abrir um caminho para que ela partisse para longe.

No celular, quase cem chamadas perdidas e mensagens, todas de Rodrigo, aguardavam por ela.

Quando chegou em casa, já era fim de tarde.

Rodrigo encerrou imediatamente a videoconferência em que estava e veio ao seu encontro.

— Lívia, onde você foi? Depois que saiu ontem à noite, não voltou mais. Se demorasse um pouco mais, teria mobilizado a cidade inteira para te procurar.

Seus olhos estavam vermelhos, marcados por vasos dilatados; parecia não ter fechado os olhos a noite toda.

O computador sobre a mesa ainda exibia a foto do casamento deles.

Na primeira vez em que o viu vestida de noiva, Rodrigo chorou como uma criança.

Lívia permaneceu olhando para ele por um longo instante; o amor nos olhos dele ainda era avassalador. Só que já não era exclusivo.

Ela desviou o olhar e respondeu com indiferença:

— Encontrei um amigo e ficamos relembrando o passado. Acabei esquecendo de te avisar.

A tensão em seu rosto relaxou. Ele a conduziu até a mesa e arregaçou as mangas para descascar camarões para ela.

— Ultimamente você não anda bem. Que tal ir ao hospital dar uma olhada?

A mão de Lívia parou no meio da refeição.

Sempre avisava quando ia sair, e naquele dia não foi diferente.

Mas Rodrigo estava ocupado com Verônica e simplesmente não se lembrara.

Respondeu, com voz casual:

— Está calor, não estou com apetite.

Rodrigo olhou em direção à cozinha:

— Dalila, daqui pra frente prepare mais pratos leves e sobremesas refrescantes com as frutas que a Lívia gosta. Cada dia tem que ser diferente.

Dalila assentiu, mas demorou a voltar.

Lívia percebeu, no armário da entrada, uma marmita térmica.

Pouco tempo depois, o prato à sua frente estava cheio de peixe e camarões já limpos.

Rodrigo levantou-se e beijou sua testa:

— Coma devagar. Surgiu uma reunião de última hora na empresa, preciso ir.

Lavou as mãos às pressas e, ao sair, não esqueceu de levar a marmita térmica.

Lívia olhou dentro da panela: amendoins.

O brilho em seus olhos apagou-se aos poucos.

Já tivera um choque grave por alergia a amendoim; desde então, Rodrigo jamais permitira que qualquer alimento com amendoim entrasse em casa.

Até empregados com restos de casca na roupa eram dispensados na hora.

Mas o amendoim, que para ela era quase veneno, era o favorito de Verônica.

Subiu as escadas e abriu o aplicativo de monitoramento no celular.

Desde que descobrira o contato entre Rodrigo e Verônica, ele instalara câmeras no escritório, numa tentativa de tranquilizar ela.

— Assim você não desconfiará de mim. — Havia dito.

No entanto, naquele momento, a tela do celular estava completamente preta.

Rodrigo jamais deixaria pistas.

Mas, instantes depois, a imagem voltou, surpreendentemente.

A voz de Verônica surgiu:

— Sou sua esposa legal, mas agora tenho que viver às escondidas.

Rodrigo soprou a sopa até esfriar e levou a colher à boca dela:

— Não seja tão gananciosa. Arrisquei perder a Lívia para te dar esse status.

Verônica fez manha e se jogou nos braços dele:

— Claro que sei disso. Isso é só um joguinho, você não entende?

Seus olhos se voltaram para a câmera, cheios de provocação, mas o tom continuava suave:

— Para mim, só ter você já é o suficiente.

Depois de um longo silêncio, Rodrigo beijou o topo da cabeça dela e disse:

— A ordem realmente importa. Se tivesse te conhecido antes, talvez não tivesse me casado com a Lívia.

Num instante, parecia que toda a força de Lívia havia sido sugada.

Lembranças da festa de aniversário de sete anos vieram à tona.

A mãe apontou para um grupo de meninos no jardim e disse suavemente:

— Lívia, qual você gosta? No futuro, deixa ele te acompanhar até a escola, tudo bem?

Ela pensou, demorou, e finalmente apontou para um no canto:

— Ele parece muito sozinho. Daqui pra frente, vou fazer companhia pra ele.

"Então, Rodrigo, não foi você quem me escolheu. Fui eu que decidi por você."

"Mas agora, me arrependo."

Lívia olhou para a enorme foto de casamento na parede e arremessou o celular contra ela.

O vidro se estilhaçou com o impacto.
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