LOGINCAPÍTULO 73
— Você tem alta amanhã.Vicente assentiu.Deveria estar aliviado.Não estava.Desde que acordara, todo mundo parecia conhecer sua vida melhor do que ele.A mãe sabia o que tinha feito no último Natal.Helena sabia onde passara as últimas férias.Os colegas mandavam mensagens sobre reuniões das quais não lembrava.E Manuela Ferraz sabia como ele tomava café, onde guardava as camisas e, aparentemente, cCAPÍTULO 129 Manuela Na manhã seguinte, acordei antes do despertador. O quarto ainda estava mergulhado na penumbra, e uma faixa discreta de luz atravessava a cortina. Vicente dormia de lado, com uma das mãos apoiadas sobre meu quadril, enquanto sua respiração tranquila contrastava com a quantidade absurda de pensamentos que circulavam pela minha cabeça. Cinco dias de atraso. Passei boa parte da noite tentando encontrar explicações razoáveis. O estresse no trabalho, as noites mal dormidas, a alimentação desregulada. Todas pareciam possíveis, mas nenhuma conseguia afastar a ideia que havia se instalado na minha cabeça. Olhei para Vicente. Havíamos conversado sobre filhos algumas vezes. Ele nunca escondeu o desejo de ser pai, embora também nunca tivesse transformado aquilo em uma cobrança. Eu queria ser mãe, mas sempre imaginara que teria algum tipo de preparação emocional antes de chegar a esse momento. Talvez até uma planilha. A ideia me fez sorrir sozinha. — Está a
CAPÍTULO 128 Manuela Três anos de casamento. Às vezes, eu ainda me surpreendia com a rapidez com que o tempo havia passado. Parecia que ontem estava no bar de um hotel, tentando esquecer a traição de um noivo com quem deveria me casar em poucos dias. Naquela noite, conheci Vicente Albuquerque. Hoje, aquele homem era meu marido, meu melhor amigo e, frequentemente, o responsável por transformar minhas manhãs organizadas em uma completa bagunça. Como naquela segunda-feira. O despertador havia tocado duas vezes, mas Vicente continuava deitado ao meu lado, com um braço firme sobre minha cintura e os lábios roçando devagar a curva sensível do meu pescoço, fazendo arrepios subirem pela minha pele. — Você sabe que tenho uma reunião importante às nove, não sabe? — perguntei, com a voz rouca de sono, tentando em vão alcançar o celular na mesa de cabeceira. Ele segurou minha mão com firmeza, puxando-me ainda mais para perto, de modo que não houvesse espaço algum entre nós. Senti o cal
EPÍLOGO O Melhor Lugar do Mundo Manuela Três anos depois — Vicente Albuquerque, se você não aparecer nesta cozinha nos próximos dez segundos, vou considerar seriamente pedir o divórcio! — Por causa de uma torrada? — Por causa da última torrada! A risada do meu marido veio do corredor antes que ele aparecesse usando uma camiseta cinza, calça de moletom e aquela expressão descaradamente satisfeita que continuava me irritando depois de três anos de casamento. Vicente segurava uma xícara de café e observou o prato vazio sobre a bancada. — Em minha defesa, não havia nenhuma identificação de propriedade. — Estava no meu prato. — Um detalhe administrativo. Apontei para a torradeira. — Faça outra. Ele se aproximou, passou um braço pela minha cintura e beijou meu pescoço.
CAPÍTULO 127: Sempre Você Manuela Acordei com o cheiro de café e a sensação de que havia alguma coisa diferente naquela manhã. Estendi a mão para o lado da cama. Vazio. Sobre o travesseiro de Vicente, encontrei um envelope branco com meu nome escrito à mão. Sorri antes mesmo de abri-lo. Um ano, senhora Albuquerque. Vista alguma coisa bonita. O café está esperando por você. Seu marido. Olhei para o calendário sobre o criado-mudo. Dezesseis de maio. Nosso primeiro aniversário de casamento. Vesti um robe de seda e desci as escadas descalça, seguindo o aroma de café fresco. Vicente estava na cozinha, usando calça de moletom cinza e uma camiseta preta. Os cabelos ainda úmidos indicavam que havia acabado de tomar banho. Quando me viu, apoiou a xícara sobre a bancada. — Bom dia, minha esposa. — Bom dia, meu marido. Aproximei-me, envolvendo seu pescoço com os braços. — Feliz aniversário de casamento. Ele me segurou pela cintura e me beijou demoradamente.
CAPÍTULO 126 Os Planos Que Fazemos Encontrei Vicente no escritório de casa, numa manhã de domingo, cercado por amostras de madeira e uma trena. Ele estava ajoelhado diante da estante, medindo o espaço entre a parede e a janela com uma concentração que normalmente reservava às reuniões mais importantes. — Devo me preocupar? — perguntei, encostada ao batente. Vicente ergueu a cabeça. — Depende. Você tem alguma objeção a uma reforma? Olhei para as amostras espalhadas pelo chão. — Que reforma? — Estou pensando em ampliar este escritório. Entrei no cômodo, desviando de Dante, que dormia tranquilamente sobre o tapete. — Você já tem um escritório enorme. — Eu tenho. Você não. Fiquei em silêncio por um instante. Desde que me mudara para aquela casa, trabalhava algumas vezes na mesa da sala de jantar. Nunca tinha considerado aquilo um problema sério, embora já tivesse reclamado das interrupções de Dante e da iluminação ruim. Vicente se levantou e me entregou uma plan
CAPÍTULO 125: Uma Noite Fora da Rotina Manuela Na terceira quinta-feira depois da lua de mel, cheguei em casa com os pés doloridos, a cabeça cheia de números e uma vontade quase desesperada de tirar os sapatos. A semana havia sido interminável. Dois projetos atrasados, reuniões que poderiam ter sido resolvidas por e-mail e um cliente que parecia acreditar que mudar de opinião a cada quarenta minutos era uma estratégia de gestão. Vicente não estava na sala. Dante, entretanto, veio me receber com uma animação incompatível com meu estado físico. — Oi, meu amor. Pelo menos alguém nesta casa está feliz em me ver. — Eu ouvi isso. A voz de Vicente surgiu da cozinha. Encontrei meu marido usando calça escura e uma camisa preta com as mangas dobradas. Ele estava terminando de guardar alguma coisa em uma sacola. — Você chegou cedo — observei. — Organizei minha agenda. — Milagre. Ele sorriu e se aproximou para me beijar. — Vá tomar banho. Temos uma reserva às oito. Ol







