LOGINCAPÍTULO 73
— Você tem alta amanhã.Vicente assentiu.Deveria estar aliviado.Não estava.Desde que acordara, todo mundo parecia conhecer sua vida melhor do que ele.A mãe sabia o que tinha feito no último Natal.Helena sabia onde passara as últimas férias.Os colegas mandavam mensagens sobre reuniões das quais não lembrava.E Manuela Ferraz sabia como ele tomava café, onde guardava as camisas e, aparentemente, cCAPÍTULO 78 — A evolução está boa. Vicente assentiu diante do neurologista. Manuela estava sentada ao lado. As dores de cabeça haviam diminuído, as tonturas praticamente desaparecido e os testes não mostravam nenhuma alteração preocupante. Ainda assim, nada de dirigir. Nada de voltar imediatamente à rotina completa. E, principalmente, nada de tentar forçar as memórias. — Elas podem retornar em fragmentos — explicou o médico. — Cheiros, lugares, situações podem funcionar como gatilhos. Mas não transforme tudo em um teste. Vicente olhou de lado para Manuela. Ela arqueou uma sobrancelha. No carro por aplicativo, ele comentou: — Você ouviu. — Ouvi várias coisas. Vai precisar ser mais específico. — Não transformar tudo em teste. — E? — Está proibida de ficar perguntando se lembrei de alguma coisa. Manuela virou o rosto lentamente. — Eu nunca perguntei. Vicente pensou. — Verdade. — Tenho me comportado muito bem. — Isso me preocupa. — Por quê? Ele se inclinou discreta
CAPÍTULO 77 Três dias depois, Vicente descobriu que recuperação era uma palavra bonita para tédio. Não podia dirigir. Não podia trabalhar normalmente. Não podia treinar. Passava algumas horas respondendo mensagens, fazia pequenas caminhadas autorizadas pelo médico e tinha Helena ligando duas vezes ao dia para confirmar que continuava vivo. Na quinta-feira à tarde, estava sentado no sofá quando recebeu uma mensagem. Manu: Está descansando? Vicente olhou para a tela. Vicente: Se eu disser que sim, você acredita? A resposta chegou imediatamente. Manu: Não. Ele sorriu. Vicente: Então por que perguntou? Manu: Educação. Vicente: Estou começando a descobrir que você não tem muita. Três pontos apareceram. Manu: E eu estava começando a senti
CAPÍTULO 76Manuela trocou de roupa quatro vezes.Na quinta, percebeu o absurdo.— Você já saiu com esse homem dezenas de vezes — murmurou para o espelho.O problema era justamente esse.Ela tinha saído com Vicente.Seu namorado.O homem que entrava em seu apartamento sem cerimônia, roubava comida do seu prato e sabia exatamente onde beijá-la para fazê-la perder qualquer linha de raciocínio.O homem que apareceria naquela noite era diferente.E não era.O interfone tocou às sete e meia.— Dona Manuela? O senhor Vicente está subindo.Seu coração disparou.Ridículo.Ela pegou a bolsa.Quando abriu a porta, Vicente estava no corredor.Calça escura.Camisa dobrada nos antebraços.O pequeno curativo próximo à testa ainda denunciava tudo o que tinha acontecido.— Oi.Ele ficou olhando para ela por alguns segundo
CAPÍTULO 74Dante quase derrubou Vicente na entrada.— Calma!O cachorro ignorou completamente a ordem.Pulou, choramingou, abanou o rabo e tentou subir nele até Helena segurá-lo pela coleira.— Dante! Ele está machucado!Vicente riu pela primeira vez naquele dia sem precisar pensar.Abaixou-se com cuidado.— Eu também senti sua falta, seu animal.Dante lambeu seu rosto.— Excelente. Muito higiênico.— Quer que eu leve ele comigo mais uns dias? — Helena perguntou.— Nem pensar.A resposta veio automática.Aquilo era bom.Reconhecer alguma coisa sem precisar perguntar era quase um alívio.Vicente entrou.A sala era familiar.Sofá.Televisão.Estante.O quadro que comprara anos atrás.Tudo estava onde deveria estar.Por alguns segundos, acreditou que seria fácil.Até perceber um par de sandálias femininas perto da varanda.Parou.Helena percebeu.— Da Manu.Claro.Vicente continuou.Na cozinha, uma caneca que não lembrava de comprar.Na geladeira, um iogurte de frutas vermelhas que defi
CAPÍTULO 73— Você tem alta amanhã.Vicente assentiu.Deveria estar aliviado.Não estava.Desde que acordara, todo mundo parecia conhecer sua vida melhor do que ele.A mãe sabia o que tinha feito no último Natal.Helena sabia onde passara as últimas férias.Os colegas mandavam mensagens sobre reuniões das quais não lembrava.E Manuela Ferraz sabia como ele tomava café, onde guardava as camisas e, aparentemente, como era acordar na cama dele.Aquilo começava a sufocá-lo.— Manuela pode ficar com você amanhã — Teresa sugeriu.Vicente virou o rosto.— Por quê?O silêncio veio rápido demais.— Porque vocês...— Eu sei o que nós éramos.A resposta saiu mais agressiva do que pretendia.Teresa recuou.Vicente fechou os olhos.— Desculpa, mãe.— Está tudo bem.— Não está.Ele passou as m
CAPÍTULO 72VicenteManuela Ferraz.Vicente repetiu o nome mentalmente.Dessa vez, a imagem veio.Uma fotografia.Depois outra.Henrique com o braço ao redor de uma mulher de olhos expressivos.O rosto era o mesmo.Vicente abriu os olhos.— Não.Helena, que mexia no celular perto da janela, virou-se.— O quê?— Eu sei quem ela é.Helena ficou imóvel.— A Manu?— Ela é a noiva do Henrique.O silêncio da irmã respondeu antes das palavras.— Era.Vicente franziu a testa.— Era?— Eles terminaram.— Quando?Helena falou a data aproximada.Vicente tentou encaixar a informação no período que conseguia recordar.Não conseguiu.— E agora ela está comigo.Não foi uma pergunta.Helena se aproximou.— Está.Vicente soltou o ar devagar.— Isso não faz sentido.— Para você, agora, provavelmente não.— Henrique sabe?Helena quase riu.— Sabe.— E?— Essa história já foi resolvida, Vicente. Não é importante agora.Ele olhou para a irmã.— Para mim parece bastante importante.— Porque sua memória par







