INICIAR SESIÓN— A gente vai — disse Clara.— Clara...— A gente vai e a gente não leva nada. — Ela estava no quarto, escolhendo uma roupa, e escolher uma roupa era a parte difícil e ela sabia. — Nada, Gabriel. Nem flor, nem coroa, nem carro grande, nem envelope, nem oferecimento de nada. A gente entra, cumprimenta, senta atrás e vai embora quando for hora.— E se a dona Vera não quiser?— Aí a gente vai embora antes.Ela tirou do cabide um vestido preto que tinha usado três vezes na vida e devolveu ao cabide.Pegou uma saia cinza e uma blusa preta lisa, dessas de qualquer loja, e pôs em cima da cama.— Não é para você parecer pobre — disse Gabriel, atrás dela, com uma delicadeza que doeu. — Isso também é uma coisa.Clara parou com a mão na blusa.
Elisa Duarte pensava devagar.Não era que ela não pensasse. Era que as coisas chegavam com atraso, como trovão depois do relâmpago, e no começo dos nove anos ela nem sabia que estava atrasada. Agora sabia.Isso era o pior e o melhor dos comprimidos.O médico tinha explicado com um desenho. Uma glândula do tamanho de um grão de feijão, embaixo do cérebro. O sangue tinha ido embora demais no parto e a glândula tinha morrido de fome. A glândula mandava recado no corpo inteiro e parou de mandar. E o corpo, sem recado, foi devagar desligando as luzes de dentro de uma casa grande, uma por uma, sem apagar nenhuma de todo.Ela achou bonito o desenho.Achou também, e não disse a ninguém, que era a primeira vez em nove anos que alguém explicava alguma coisa para ela olhando na cara dela.---Ela lembrava
A ambulância levou vinte e dois minutos, o que, na Rua Serra do Japi, é considerado rápido.Levaram dona Zilda para a UPA da Vila Ré, e na UPA ela ficou catorze horas num corredor, numa maca encostada na parede entre um rapaz com a mão enfaixada e uma senhora que gemia baixinho, com uma máscara de oxigênio no rosto e uma pulseira de papel no punho, e Vera Duarte ficou aquelas catorze horas de pé ao lado da maca porque não havia cadeira.Na maca da frente havia uma senhora de uns oitenta anos, sozinha, com uma pulseira igual e uma bolsa de crochê em cima da barriga.Chamava-se Aparecida. Vera soube porque a enfermeira chamava alto de duas em duas horas para conferir a pressão, e porque, por volta das quatro da manhã, a velha esticou a mão e puxou a manga dela.— Filha.— Oi, senhora.— Que horas s&atild
Vera acordou às cinco da manhã de segunda-feira e limpou a casa inteira, e passou o dia seguinte com raiva de si mesma por causa disso.Lavou o piso da sala. Tirou o pó do móvel da televisão. Trocou a fronha da mãe. Passou pano no vidro da porta da cozinha, que não era limpo desde a mudança, e no meio disso parou com o pano na mão e disse em voz alta, sozinha:— Que é isso, Vera.Terminou de limpar o vidro assim mesmo.Às oito e meia pôs a mãe sentada na cadeira da sala, a boa, a que tinha braço, com o lenço novo e a manta nas pernas, e a mãe deixou fazer tudo sem reclamar, o que era o sinal de que ela também estava querendo estar apresentável e nenhuma das duas ia admitir.Às nove em ponto tocou a campainha.---&nb
No sábado a dona Zilda amanheceu boa.Vera desconfiou na mesma hora.Ela tinha lido sobre isso num folheto da própria clínica, num daqueles corredores em que a gente lê qualquer coisa para não pensar: que às vezes, perto do fim, o doente melhora. Come. Conversa. Quer levantar. Os médicos chamam de uma coisa e as enfermeiras chamam de outra, e as enfermeiras têm razão.Às sete e meia a mãe dela pediu café com leite e bebeu a xícara inteira.Às oito perguntou pelo jogo do Corinthians.Às nove e vinte disse:— Vera, pega a caixa que está em cima do guarda-roupa.— Que caixa, mãe?— Você sabe qual.Vera sabia qual.---Er
No dia quarenta e sete, Davi acordou às seis e quarenta e sentiu cheiro de café.Ficou parado na cama.Havia uma ordem no mundo e a ordem era essa: ele acordava às seis e quarenta, ia ao banheiro, escovava os dentes, ia à cozinha, punha a água no fogo, separava os comprimidos da avó no pires branco de borda azul — o azul de manhã, o liso de noite, para não confundir —, punha os da mãe no pires liso, esquentava o leite, e às sete em ponto acordava as duas.Ele fazia isso desde os seis anos.Não havia manhã no mundo em que a cozinha cheirasse a café antes de ele entrar nela.Levantou-se devagar, com aquele cuidado de quem acha que ouviu barulho de ladrão, e foi até a porta da cozinha.A mãe dele estava de pé na frente do fogã







