로그인POV DANTE
Valentina aceitou se casar comigo às onze e quarenta e sete da manhã. Às onze e cinquenta, Roman entrou no meu escritório sem bater. — Diga que eu ouvi errado. Afastei o telefone do ouvido. — Você nunca ouve errado. É uma das suas características mais irritantes. — A Valentina Lancaster não acabou de aceitar o seu pedido de casamento. — Acabou. Roman passou a mão pelo rosto. — Durante anos, eu aconselhei terapia. Você escolheu matrimônio fraudulento. — O casamento será legal. — Isso não o torna menos insano. Levantei e fui até a janela. Da cobertura da Blackwood Tower, Manhattan parecia pequena o bastante para ser controlada. Valentina nunca parecera pequena. Nem mesmo quando a vi chorando sozinha no corredor da universidade, dez anos antes, depois da notícia da morte do pai. Ela não me conhecia o bastante para aceitar meu consolo. Enxugou o rosto, ergueu o queixo e voltou para o Ethan. Sempre voltava para ele. Até agora. — Prepare o contrato — ordenei. Roman me observou em silêncio. — Ela ainda o ama. Meus dedos apertaram o telefone. — Eu sei. — E você está disposto a passar doze meses ao lado de uma mulher apaixonada por outro homem? — Não preciso que me lembre das condições. — Não estou falando do testamento. Virei-me. — Prepare o maldito contrato. Duas horas depois, Valentina entrou na sala de reuniões com Chloe e Noah. Vestia preto, de mangas longas. Os cabelos estavam presos e nenhuma marca denunciava que ela havia chorado, mas os olhos continuavam inchados. Detestei o Ethan por conhecer a causa daquelas lágrimas. Detestei ainda mais saber que, se ele se ajoelhasse e pedisse perdão, uma parte dela ia querer aceitar. — Quero deixar uma coisa clara — disse Valentina, antes mesmo de se sentar. — Eu não confio em você. — O sentimento é devastadoramente recíproco. Chloe jogou a bolsa sobre a mesa. — Poupem o flerte hostil. Eu vou ler cada linha antes de ela assinar. Roman empurrou três cópias do contrato na direção dela. — Tente não babar em cima do documento. — Prefiro engolir vidro. — Posso providenciar. — Crianças — interrompeu Valentina. — Foco. Sentamos. Ela leu sem pressa, anotando nas margens. Eu conhecia aquela expressão. Era a mesma das nossas negociações, segundos antes de encontrar uma falha que nenhum advogado tinha visto. — Moradia conjunta? — perguntou. — A condição do seu avô exige um casamento legítimo — explicou Roman. — Depois da repercussão do altar, a imprensa vai investigar cada detalhe. Casas separadas levantariam suspeitas. — Eu tenho a minha própria cobertura. — Agora tem uma mansão comigo — respondi. — Sua generosidade é comovente. Valentina seguiu lendo. — Eventos públicos, jantares empresariais e demonstrações razoáveis de afeto. — Necessárias para convencer o mercado. Ela pegou a caneta. — Defina "razoáveis". — Mãos dadas. Abraços. Beijos, quando necessário. A ponta da caneta parou. — Beijos não serão necessários. — Ontem você quase casou com um homem que engravidou a sua irmã. A opinião pública precisa acreditar que você o superou. A dor atravessou o rosto dela antes de desaparecer. — Eu não preciso superar ninguém. Mentira. Nós dois sabíamos. — Então não vai ter dificuldade em fingir. Chloe ergueu os olhos do contrato. — Se ele encostar em você sem autorização, eu chamo a polícia. Roman sorriu. — Se você continuar interrompendo, eu mesmo forneço o número. Valentina riscou uma linha. — Quartos separados. — Aceito. — Nenhuma interferência nos meus relacionamentos pessoais. Meu maxilar se contraiu. A ideia de outro homem tocando nela enquanto ela carregava o meu sobrenome despertou algo primitivo. — Desde que não haja exposição pública — respondi. — O mesmo vale para você. — Não haverá outras mulheres. Ela levantou o olhar. — Isso não é necessário. — Para mim, é. O silêncio se prolongou. Valentina desviou os olhos primeiro. — As minhas ações continuam exclusivamente minhas. Mesmo depois do casamento. — Já está no contrato. — E você renuncia a qualquer participação na herança caso eu morra. Chloe ficou imóvel. — Valentina... — Quero a cláusula. Roman me encarou, esperando uma reação. — Inclua — determinei. — Se alguém tentar matá-la, você será o principal suspeito — alertou Chloe. — Então sugiro que ajude a mantê-la viva. Roman acrescentou a cláusula. Valentina assinou primeiro. Vi a tinta formar o nome dela e senti o peso daquele momento. Durante anos, eu a quis sem permitir que a esperança se tornasse real. Agora, Valentina estava prestes a se tornar minha esposa. No papel. Só no papel. Assinei. — O juiz estará disponível em quarenta minutos — informou Roman. Valentina franziu a testa. — Hoje? — Você tem sete dias — falei. — Os seus inimigos precisam de apenas um para encontrar outro jeito de impedi-la. Ela sustentou meu olhar. — Então vamos acabar logo com isso. A cerimônia aconteceu no cartório particular de um juiz aposentado. Sem flores, sem música, sem convidados: só os advogados, Noah e duas testemunhas. Valentina ficou diante de mim, de preto. Nunca estivera tão bonita. Quando chegou minha vez de colocar a aliança no dedo dela, a mão estava gelada. — Com medo? — perguntei. — De você? — De cometer outro erro. Os olhos dela encontraram os meus. — O meu primeiro erro durou dez anos. Você só precisa durar doze meses. Deslizei a aliança até o fim. — Posso fazer muita coisa em doze meses. A respiração dela vacilou. O juiz nos declarou marido e mulher. Por um segundo, ninguém se mexeu. Então as portas se abriram. Fotógrafos cercaram a entrada do cartório. A notícia vazara. Valentina praguejou. — Foi você? — Não. Roman olhava para o telefone. — O Ethan publicou que o casamento é uma fraude. Está dizendo que o Dante usa o testamento para tomar o Grupo Lancaster. Valentina empalideceu. Entre as câmeras, vi Ethan parado do outro lado da rua. Tinha vindo assistir. De novo. — Precisamos parecer convincentes — falei. — Nem pense nisso. — Está no contrato. — Eu risquei a parte dos beijos. — Mas manteve as demonstrações razoáveis de afeto. Passei um braço pela cintura dela. — Dante... — Olhe para ele. Valentina encontrou Ethan entre os fotógrafos. A dor voltou aos olhos dela. — Agora olhe para mim — ordenei. Ela obedeceu. Segurei seu rosto e lhe dei tempo de recuar. Valentina não recuou. Eu a beijei. Devia ser rápido. Uma encenação para as câmeras. Mas, quando os lábios dela se abriram sob os meus, dez anos de controle viraram cinzas. Ela agarrou meu paletó. Meu braço apertou sua cintura e a trouxe contra mim. O mundo desapareceu entre o gosto da boca dela e a lembrança da única outra vez em que eu a tivera assim. Quando nos afastamos, Valentina respirava tão depressa quanto eu. — Isso — sussurrou — não vai acontecer de novo. — Claro que não, esposa. Ela entrou no carro com Chloe sem olhar para trás. Roman esperou que se afastassem antes de se aproximar. — Você perdeu completamente o controle. — Cuidado. — Ela sentiu alguma coisa. — Ela ainda ama o Ethan. — E não sabe que esse não foi o primeiro beijo de vocês. Encarei-o. Roman baixou a voz. — Você pretende contar que era o homem de máscara naquela noite? Olhei para a aliança no meu dedo. — Não. — Dante, se ela descobrir por outra pessoa... — Ninguém mais sabe. — E se ela estiver grávida? A possibilidade atravessou meu peito como uma lâmina. Naquela noite, meses atrás, a proteção falhara. Valentina não se lembrava do meu rosto. Mas eu me lembrava de cada segundo. — Ela nunca pode descobrir — falei — que o homem com quem dormiu no baile de máscaras era eu.POV — Valentina— Uma ordem judicial para um teste de paternidade?Minha voz saiu baixa, quase irreconhecível.Na tela do celular, Ethan permanecia diante da entrada do prédio, impecável em seu terno escuro, como se não tivesse destruído minha vida no altar poucos dias antes. Os advogados ao lado dele sustentavam pastas. Os jornalistas faziam perguntas. E aquele envelope em sua mão parecia uma arma apontada diretamente para o meu ventre.Minha mão se fechou sobre o tecido da blusa.Dante se colocou diante de mim, bloqueando minha visão do vídeo.— Ele não vai chegar perto de você.A firmeza daquela promessa deveria ter me acalmado. Em vez disso, despertou a parte de mim que estava cansada de ser protegida como se fosse incapaz de tomar as próprias decisões.— Saia da frente.— Valentina...— Eu disse para sair da frente, Dante.Ele me observou por um momento. Ainda estava pálido por causa da ressaca, com os cabelos desarrumados e a camisa amarrotada. Mesmo assim, havia algo terrivelme
POV — Dante A primeira coisa que percebi ao acordar foi que minha cabeça parecia ter sido esmagada contra uma parede. A segunda foi o perfume de Valentina. Abri os olhos devagar, amaldiçoando a claridade que atravessava as frestas da cortina. Minha boca estava seca, o estômago embrulhado e havia um gosto amargo na língua. Ainda assim, nada daquilo importou quando virei o rosto e a encontrei adormecida na poltrona ao lado da cama. Ela tinha ficado. As pernas estavam recolhidas contra o corpo, e a cabeça, apoiada de maneira desconfortável no braço do móvel. Alguns fios escuros cobriam seu rosto. Valentina parecia exausta, vulnerável de um modo que jamais permitiria que alguém testemunhasse. Eu me lembrava de fragmentos da noite anterior. Roman me arrastando para dentro da cobertura. A expressão furiosa dela. As fotografias com Serena. Minha voz pastosa perguntando se estava com ciúmes. E, por fim, eu pedindo que ficasse. Valentina Lancaster não atendia a pedidos. Muito menos a
POV VALENTINADante saiu às oito da noite.Não explicou para onde iria, e eu não perguntei.Depois de confessar que me amava havia dez anos, ele se recolheu ao quarto ao lado. Duas horas depois, atravessou a sala usando calça escura e uma camisa preta com os primeiros botões abertos.Roman o esperava no elevador.— Vamos beber alguma coisa — informou o advogado, examinando-me como se esperasse uma objeção.Continuei olhando para o notebook.— Divirtam-se.Dante demorou alguns segundos perto da porta.Senti seus olhos sobre mim, mas me recusei a levantar o rosto.— Não voltarei tarde — disse.— Não precisa me dar satisfação.Algo mudou no silêncio.Quando finalmente olhei, as portas do elevador já estavam fechando.Passei a hora seguinte tentando trabalhar. Depois, caminhei pela cobertura, preparei chá e verifiquei o telefone mais vezes do que estava disposta a admitir.Às dez e vinte, Chloe enviou um link:"Antes que veja por outra pessoa: respire." Meu estômago se contraiu.Abri.Da
POV VALENTINA Acordei abraçada a um travesseiro. Durante alguns segundos, ainda senti o calor de Dante atrás de mim. O peso de seu braço sobre minha cintura. A respiração contra meus cabelos. Então abri os olhos. O outro lado da cama estava vazio. Passei a mão pelo lençol. Frio. Dante fora embora havia algum tempo. Sentei-me depressa e procurei algum bilhete sobre a mesa de cabeceira. Não havia nada. Nem uma mensagem no telefone, nem uma explicação, nem sinal de que passara a noite comigo. A decepção veio antes que eu pudesse impedi-la. Depois veio a raiva. Eu havia pedido que ficasse até que dormisse. Dante fizera exatamente isso. Ainda assim, alguma coisa dentro de mim se sentia abandonada. — Ridícula — murmurei para mim mesma. Levantei-me, vesti um robe e saí do quarto. A cobertura estava silenciosa. Nenhum ruído na cozinha. Nenhuma voz no escritório. O paletó dele não estava sobre o sofá. Dante havia saído. Sem me avisar. A irritação cresceu como se ele tivesse quebrad
POV DANTE Uma hora depois, Valentina ainda segurava minha mão. A respiração dela estava lenta, mas não completamente tranquila. De vez em quando, seus dedos se fechavam nos meus como se alguma coisa tentasse arrancá-la do sono. Eu não sabia se ela sonhava com Augustus, com Ethan ou com as balas atravessando a janela. Talvez sonhasse comigo. Nesse caso, provavelmente também era um pesadelo. Soltei sua mão com cuidado e esperei. Quando Valentina não despertou, levantei-me da poltrona. Precisava tomar banho, trocar de roupa e comer alguma coisa antes que meu corpo cobrasse pelos últimos dias. Mais do que isso, precisava sair daquele quarto antes que a vontade de deitar ao lado dela se tornasse impossível de ignorar. Valentina havia pedido que eu não a tocasse. Eu respeitaria. Mesmo que todos os meus instintos gritassem para permanecer perto. Tomei um banho rápido. A água queimou o corte em meu ombro e levou embora o cheiro da clínica, mas não apagou a lembrança do rosto dela q
POV VALENTINA — Não. Dante parou no meio da sala. Segurava meu telefone em uma mão e o próprio aparelho na outra. A tela exibia mensagens de Roman, pedidos de entrevistas e a declaração que sua equipe preparava para combater as acusações de Ethan. — Ainda nem disse o que pretendo fazer — falou, observando-me com cautela. — Vai convocar advogados, ameaçar jornalistas e transformar a entrada do prédio numa conferência de imprensa. Uma das sobrancelhas dele se ergueu. — Esqueci alguma coisa? — Provavelmente um processo bilionário. — Estava incluído na parte dos advogados. Eu não tinha energia para rir. Retirei os sapatos e os abandonei perto do sofá. Meus pés doíam. Minha cabeça latejava. O cheiro da clínica continuava preso à minha roupa, junto às lembranças do funeral, do ultrassom e da máscara prateada. — Não quero dar entrevista — falei. — Não quero explicar de quem é o bebê. Não quero destruir Ethan, salvar minha reputação ou descobrir quem matou meu avô hoje. Dante col







