LOGINNinguém percebeu que ela saíra. Os convidados continuavam sussurrando, o padre continuava ajeitando os óculos, e seu pai andava de um lado para o outro com o celular colado ao ouvido.
Aurora retomou seu lugar diante do altar. Seu rosto permaneceu impassível, uma máscara de mármore. O vestido branco parecia agora uma ironia cruel. O véu, um peso insuportável. Ela manteve as mãos unidas sobre o buquê de rosas, os olhos fixos em algum ponto à frente. — Onde ele está? — sibilou seu pai, aproximando-se. — Fale, Aurora. Ela piscou lentamente. — Ele está ocupado. Vincenzo Bianchi a encarou por um longo momento. Havia algo no tom de voz da filha, uma frieza inédita, que o fez hesitar. — O que aconteceu? Antes que Aurora pudesse responder, as portas principais da igreja se abriram com um estrondo. Todos os presentes se viraram ao mesmo tempo, e um coro de murmúrios alarmados percorreu a nave. Aurora também se virou, e o ar morreu em seus pulmões. Dante Salvatore. O cunhado. O irmão mais velho de Enzo. O homem conhecido nos círculos da máfia como "O Olho do Diabo". Ele entrou na igreja como se fosse o dono daquele lugar. Como se cada pedra daquela catedral se curvasse à sua passagem. Vestia um terno preto impecável, camisa branca sem gravata e sapatos de couro que ecoavam contra o mármore do chão. Seus olhos — cinzentos como tempestade — varreram o espaço com desprezo antes de fixarem-se nela. Aurora sentiu um arrepio descer por sua espinha. Dante Salvatore era diferente de Enzo. Onde o irmão era charme e sedução, ele era escuridão absoluta. Um homem alto, de ombros largos e presença magnética, com uma cicatriz fina na sobrancelha esquerda que só acentuava a dureza de seus traços. Ele não sorria. Nunca sorria. — Dante — murmurou o pai de Aurora, com a voz carregada de tensão. — O que está fazendo aqui? Dante avançou pelo corredor central sem pressa, ignorando os olhares chocados dos convidados. Seus passos eram medidos, confiantes. Ele não parecia um homem interrompendo um casamento. Parecia um predador marcando território. — Vim reivindicar o que é meu — respondeu, com a voz grave e baixa, carregada de uma autoridade inquestionável. Aurora franziu a testa. — Reivindicar? Dante parou diante dela. Tão perto que ela pôde sentir o perfume amadeirado que emanava dele. Tão perto que viu os detalhes cinzentos de seus olhos, as pontas de verde escondidas na íris, a intensidade com que a observavam. — Meu irmão não apareceu para casar com você — disse ele, sem desviar o olhar. — Preferiu se entreter com outra coisa. Ou melhor, com outra pessoa. O silêncio na igreja era absoluto. Até o órgão parou de tocar. Aurora sentiu o rosto arder, mas manteve a expressão neutra. — Você sabia? — perguntou ela, com a voz surpreendentemente firme. — Sempre soube — respondeu Dante, sem hesitar. — Enzo nunca quis esse casamento. Ele é um covarde. Preferiu fugir do dever a encarar as consequências. E agora... — Ele deu um passo a mais, invadindo seu espaço pessoal. — ...as consequências chegaram. O pai de Aurora interveio. — Dante, isso não é hora para jogos. Onde está Enzo? — Com a prima de sua noiva. Trancado numa sala a poucos metros daqui. — Dante desviou o olhar para Vincenzo Bianchi, e algo perigoso brilhou em suas íris. — Seus seguranças são incompetentes, Bianchi. Não conseguiram nem perceber que o noivo estava fodendo outra mulher no próprio dia do casamento. Aurora ouviu a risada abafada de alguém na igreja, seguida por um murmúrio indignado. O pai dela ficou pálido. — Você está mentindo — declarou ele, mas a voz falhou. — Pergunte à sua filha — retrucou Dante, voltando-se para Aurora. — Ela viu tudo. Não foi, pequena noiva? Aurora sustentou o olhar dele. Não podia demonstrar fraqueza. Não diante daquele homem. — Vi — confirmou, com a voz firme. Vincenzo Bianchi exalou um suspiro pesado. Ele parecia envelhecido de repente, derrotado. — Isso é um desastre... A aliança... os negócios... — Por isso estou aqui — interrompeu Dante. Ele a olhou novamente. Havia algo estranho naquele olhar. Algo predatório. Algo que fazia o coração de Aurora bater mais rápido, não de medo, mas de algo que ela não queria nomear. — O casamento vai acontecer — declarou Dante, e a igreja inteira prendeu a respiração. — Mas eu serei o noivo. O choque atingiu Aurora como um balde de água gelada. — O quê? — sussurrou ela. Dante inclinou a cabeça, avaliando-a. — Você acha que eu vim aqui apenas para expor a traição do meu irmão? Não, minha cara. Eu vim para corrigir o erro dele. Para assumir o que ele abandonou. Para garantir que a aliança entre as nossas famílias permaneça intacta. — Você... — Aurora balançou a cabeça. — Enzo é seu irmão. — Enzo é um traidor. Ele não merece o trono que lhe foi prometido. Nem a mulher que lhe foi entregue. As palavras dele a atingiram como lâminas. — Não vou casar com você — disse ela, recuando um passo. Dante sorriu. Não era um sorriso caloroso. Era um sorriso frio, perverso, quase cruel. — Ah, vai sim, pequena noiva. Porque sem esse casamento, sua família está arruinada. Seu pai sabe disso. Todos sabem. A união Bianchi-Salvatore é a única coisa que mantém a paz entre os clãs. Se essa cerimônia não acontecer hoje, será uma declaração de guerra. E acredite... — Ele se inclinou, aproximando os lábios de seu ouvido. — ...você não quer me ver em guerra. Aurora estremeceu. — Eu prefiro a guerra a casar com você. Dante recuou, surpreso. Ela viu algo mudar em seus olhos. Interesse. Diversão. — Corajosa — murmurou ele. — Mas não tola. Você sabe o que está em jogo. Ela sabia. Deus, como sabia. O pai a olhava com um misto de desespero e ordem silenciosa. A mãe levava a mão ao peito, os olhos arregalados. Os convidados observavam a cena como espectadores de um teatro macabro. Ela não tinha escolha. Nunca tivera. — Senhor Bianchi — chamou Dante, sem desviar o olhar de Aurora. — Confirme o acordo. Ou a partir de amanhã, cada homem que carregar o nome Salvatore estará em guerra contra cada homem que carregar o nome Bianchi. O silêncio se estendeu por um segundo. Dois. Três. — Aceite — sussurrou Vincenzo Bianchi, com os olhos fechados. — Aurora, aceite. Ela engoliu o orgulho. Engoliu a humilhação. Engoliu a dor. — Aceito — disse, com a voz baixa. Dante estendeu a mão. — Então venha. O padre está esperando. Aurora olhou para a mão dele. Grandes, fortes, marcadas por pequenas cicatrizes. Mãos de um homem acostumado à violência. Ela colocou a própria mão sobre a dele. O contato foi elétrico. Dante a puxou para junto de si, encarando o padre. — Prossiga. A cerimônia foi um borrão. Aurora mal ouviu as palavras do padre, mal registrou os votos que repetiu mecanicamente. Sua mente vagava entre o quarto escuro onde encontrara Enzo e a praça onde uma guerra estava sendo evitada por sua obediência. Dante permaneceu imóvel ao seu lado, como uma estátua de mármore. Ele não a olhava durante a cerimônia, mas Aurora sentia o calor de sua presença, a proximidade de seu corpo, o cheiro de couro e madeira que o envolvia. Quando o padre declarou marido e mulher, ele a virou para si. — O beijo — disse ele, baixo o suficiente para que só ela ouvisse. Aurora paralisou. Dante a segurou pela nuca, firmemente, e colou os lábios nos dela. Não foi um beijo gentil. Foi possessivo. Exigente. Um beijo que marcava território. A igreja explodiu em aplausos falsos, mas Aurora não ouviu nada além do som de seu próprio sangue pulsando nos ouvidos. Quando Dante a soltou, seus lábios formigavam e sua respiração estava irregular. — Agora você é minha, Aurora Salvatore — murmurou ele contra sua boca. — E ninguém tira o que é meu. Ela desviou o olhar. No fundo da igreja, perto da porta lateral, viu uma figura conhecida parada na penumbra. Enzo. Desalinhado. Pálido. Os olhos arregalados de choque. Ela percebeu que ele tinha acabado de chegar. Acabado de descobrir que chegara tarde demais. Dante acompanhou o olhar dela e viu o irmão. Um sorriso frio curvou seus lábios. — Bom — murmurou ele, entrelaçando os dedos nos de Aurora e a puxando pelo corredor central. — Agora todos sabem quem manda. Enzo deu um passo à frente, mas recuou sob o olhar do irmão. Ele parecia confuso, culpado e assustado ao mesmo tempo. Valentina ainda não estava com ele — provavelmente se escondera em algum canto, temendo as consequências. Dante passou pelo irmão sem olhar para ele. Aurora, porém, olhou. E, pela primeira vez, sentiu nojo do homem que pensara amar. — Aproveite o resto da noite, irmão — disse Dante, sem parar de andar. — Porque o amanhã será longo. Aurora não entendeu o significado daquela ameaça. Naquele momento, não queria entender. Apenas seguiu em frente, de mãos dadas com o homem que acabara de se tornar seu marido, enquanto a igreja se esvaziava atrás dela em silêncio. Lá fora, o sol dourado de Nápoles a recebeu com indiferença. A cidade continuava viva, alheia à tempestade que acabara de se formar dentro dela. Dante abriu a porta de um carro preto importado. — Entre — ordenou. Aurora hesitou. — Para onde vamos? — Para casa — respondeu ele, com os olhos fixos nos dela. — Para a minha casa. — E a festa? Os convidados? Dante soltou uma risada curta. — Você acha mesmo que quero comemorar? Acha que me importo com champanhe e bolo de casamento? Ele se aproximou novamente, segurando-a pelo queixo. — A partir de agora, você é minha esposa. E esposas obedecem aos maridos. Não me faça repetir as coisas, Aurora. Ela engoliu o impulso de responder, de argumentar, de lutar. Não era o momento. Não ali. Não com aquele homem. Entrou no carro. Dante entrou logo atrás, sentando-se ao seu lado no banco traseiro. O carro partiu silenciosamente pelas ruas de Nápoles, deixando para trás a igreja, os convidados, o noivo traidor e a prima infiel. Aurora olhou pela janela. Uma lágrima solitária escorreu por seu rosto, mas ela a limpou rapidamente. Dante a observava de canto de olho. — Chore agora se quiser — disse ele, com a voz neutra. — Mas nunca na frente de mais ninguém. Entendeu? Ela não respondeu. — Você é uma Salvatore agora. Salvatore não mostram fraqueza. Jamais. Especialmente não para os inimigos. — E você é meu inimigo? — perguntou ela, sem olhar para ele. Dante ficou em silêncio por um momento. — Sou seu marido — respondeu ele, finalmente. — E isso é mais perigoso do que ser seu inimigo. O carro seguiu em direção ao desconhecido. A vida que Aurora conhecia tinha acabado de terminar. E a nova, ao lado do homem chamado "O Olho do Diabo", estava apenas começando.Todas se viraram quando Aurora entrou.Eram belas de uma forma que parecia exigir esforço — cabelos perfeitamente penteados, maquiagens impecáveis, joias discretas mas caras, vestidos que provavelmente custavam mais do que o salário anual de um professor. Cada uma delas segurava uma xícara de café com uma elegância ensaiada, e cada uma delas examinou Aurora com olhos que não sorriam.— Aurora! — Uma mulher loira de meia-idade, com olhos azuis gelados e um colar de pérolas que parecia pesado demais para seu pescoço, levantou-se primeiro. — Que prazer finalmente conhecê-la. Sou Bianca Moretti. Meu marido é o braço direito de Dante.— Prazer — respondeu Aurora, e sua voz saiu firme.— Esta é Sofia Ricci. — Bianca indicou uma mulher morena de cabelos curtos e olhos escuros. — E Elena De Luca. E Francesca Greco. E Isabella Romano.Cada mulher assentiu brevemente quando seu nome foi mencionado, mas nenhuma delas sorriu. Era como ser apresentada a um tribunal.— Sente-se, querida — disse Bia
Aurora sentiu o sangue fugir de seu rosto.— Você está me jogando aos lobos.— Estou te apresentando à família. — Ele deixou a calça cair no chão, ficando apenas com uma cueca boxer preta que não deixava muita coisa à imaginação. — Elas são... exigentes. Mas você vai se sair bem.Ele se virou e caminhou até um armário embutido na parede oposta, abrindo-o para revelar uma fileira de camisas impecavelmente passadas. Aurora ficou paralisada, os olhos presos nas costas dele — nos músculos que se moviam sob a pele, nas cicatrizes que cruzavam suas costas como um mapa de violência, na forma como a cueca moldava seu corpo sem qualquer pudor.Dante pegou uma camisa branca e a vestiu lentamente, os botões fechando um por um com dedos precisos. Depois, virou-se para ela.— Você está apaixonada por mim?A pergunta foi tão abrupta que Aurora piscou, confusa.— O quê?— Você me ouviu. Está apaixonada?— Não. — A resposta saiu rápida, quase automática. — Claro que não.— Bom. — Dante ajustou o cola
A luz da manhã entrou pelas cortinas pesadas como uma lâmina dourada, cortando o quarto em duas metades — uma de penumbra e outra de claridade ofuscante. Aurora piscou, desorientada por um instante, antes que a memória da noite anterior caísse sobre ela como um bloco de concreto. O casamento. Enzo. Valentina. Dante. A banheira. A pomada. A cama compartilhada.Ela se virou bruscamente, os lençóis emaranhados ao redor de suas pernas, e encontrou o outro lado da cama vazio.As cobertas estavam dobradas com precisão militar, os travesseiros empilhados contra a cabeceira, e não havia nenhum sinal de que Dante tivesse dormido ali — exceto pelo leve afundamento no colchão ao lado dela e pelo calor residual que ainda emanava do lençol. Aurora tocou o tecido com os dedos, sentindo o calor que ele deixara para trás, e uma sensação estranha se instalou em seu peito. Alívio, talvez. Ou desapontamento. Ela não queria examinar aquilo com muita profundidade.Sentou-se na cama, esfregando os olhos co
Aurora abriu a boca para responder, mas as palavras morreram em sua garganta. Havia algo na forma como ele disse aquilo — uma certeza tão absoluta, tão inabalável, que ela não conseguiu encontrar argumento. Dante não estava blefando. Ele acreditava no que dizia com a mesma convicção com que respirava.— Agora — disse ele, mudando de tom abruptamente, como se a conversa tivesse sido encerrada —, vire-se. De costas para mim.— Por quê?— Porque você tem cicatrizes nas costas. Eu vi quando tirei seu vestido. E vou cuidar delas.Aurora o encarou, incrédula.— Você vai cuidar das minhas cicatrizes?— Sim. Vire-se.Ela hesitou, mas havia algo na voz dele que não admitia recusa. Lentamente, virou-se na água, de costas para Dante, os braços cruzados sobre o peito. Através do vapor, ela podia ver o reflexo de ambos no mármore polido do chão — duas figuras borradas, unidas pela água fumegante.Ouviu o som de Dante se movendo atrás dela. Depois, o barulho de um frasco sendo aberto, e o cheiro de
Foi uma risada curta, baixa, quase um latido, mas era genuína — e o som dela fez algo estranho no peito de Aurora, algo que ela recusou-se a nomear.— Então continue avaliando — disse ele, desabotoando o cinto. — Mas faça isso de dentro da banheira. A água vai esfriar.Aurora hesitou por apenas um segundo antes de alcançar as costas e desabotoar o sutiã. Ela o deixou cair no chão ao lado do vestido e, sem olhar para Dante, deslizou a calcinha pelas pernas e pisou fora dela. As meias ela deixou — não conseguia se forçar a tirá-las com ele olhando, e de alguma forma aquela pequena barreira de seda a fazia sentir-se menos exposta.Ela entrou na banheira.A água estava quente, quase escaldante, e o choque térmico contra sua pele fria arrancou-lhe um suspiro involuntário. O vapor subiu ao seu redor, envolvendo-a como um abraço, e por um instante Aurora fechou os olhos e permitiu-se relaxar. O cheiro de lavanda encheu seus pulmões, e ela sentiu os músculos das costas — tensos desde a manhã,
O quarto mergulhou num silêncio denso, apenas cortado pelo som distante do vento que uivava do lado de fora, batendo contra as janelas altas como se quisesse entrar. Aurora permaneceu imóvel, os dedos ainda pairando sobre o zíper do vestido, o coração martelando contra as costelas com uma força que ela temia ser audível. Dante não se moveu. Não desviou os olhos. Apenas ficou ali, parado a três passos de distância, as mãos relaxadas ao longo do corpo, a postura de quem observa uma presa encurralada saboreando cada segundo antes do bote.— Você vai ficar aí me encarando a noite inteira? — perguntou Aurora, e sua voz saiu mais firme do que esperava, embora o tremor em seus dedos a traísse.Dante inclinou a cabeça levemente, e a luz âmbar das velas que decoravam o quarto dançou sobre a cicatriz fina em sua sobrancelha esquerda, aquela marca pálida que cortava o arco do olho como uma lembrança de violência antiga. Ele não sorriu. Mas algo nos cantos de sua boca se moveu, um quase-sorriso q







