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Traída no altar: Reivindicada pelo cunhado mafioso
Traída no altar: Reivindicada pelo cunhado mafioso
Author: Totomo Injobua

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last update publish date: 2026-09-02 23:02:42

O vestido pesava mais do que Aurora imaginava.

Não era apenas o tule francês, as camadas de renda chantilly importadas de Veneza ou os cristais Swarovski bordados à mão que cobriam o corpete como uma armadura reluzente. Era o peso simbólico de vinte e três anos de expectativas, de obediência, de silêncios engolidos e sorrisos ensaiados diante do espelho.

Ela deslizou os dedos sobre o tecido, sentindo a textura áspera dos bordados sob a ponta dos dedos. O quarto do hotel estava em silêncio absoluto, exceto pelo zumbido distante do ar-condicionado e pelo farfalhar do próprio vestido a cada movimento seu.

— Você está deslumbrante, Aurora.

A voz de sua mãe soou atrás dela, embargada pela emoção contida. Aurora ergueu os olhos para o reflexo no espelho de corpo inteiro. Caterina Bianchi estava parada na porta, com as mãos entrelaçadas sobre o peito e os olhos brilhando com lágrimas que não se permitiam cair. Um sorriso trêmulo dançava em seus lábios.

— Obrigada, mamãe — respondeu Aurora, e a própria voz pareceu estranha, como se viesse de outra pessoa.

Ela voltou a se observar. O vestido era tudo o que sempre sonhou, mas algo dentro dela parecia deslocado. Talvez fossem os nervos. Era normal sentir frio na boca do estômago no dia do casamento, não era? Todo mundo dizia isso.

— Está na hora — anunciou sua mãe, aproximando-se para ajeitar o véu. — Seu pai já está lá embaixo. Enzo chegou cedo. Está ansioso para ver você.

Aurora sentiu o coração acelerar ao ouvir o nome do noivo. Enzo Salvatore. O homem com quem passaria o resto da vida. O herdeiro de um império construído com sangue, segredos e alianças inabaláveis. Ela sabia exatamente que tipo de mundo a aguardava. Cresceu nele, afinal. Mas Enzo era diferente.

Pelo menos era o que sempre dizia a si mesma.

— Ele me ama — murmurou, mais para si do que para a mãe.

Caterina apertou-lhe os ombros com delicadeza.

— Claro que ama, minha filha. E mesmo que não amasse, o dever fala mais alto do que qualquer sentimento. Vocês foram prometidos um ao outro desde crianças. O casamento vai unir as famílias de uma vez por todas. Seu pai não poderia estar mais orgulhoso.

Aurora assentiu lentamente, engolindo o nó que se formava em sua garganta. O dever. Sempre o dever. Ela fora criada para isso. Para ser a peça perfeita no tabuleiro de xadrez da máfia, a noiva imaculada entregue ao filho do dono do império. Sua vontade nunca importou, mas ela aprendeu a se convencer de que queria exatamente isso.

Enzo era bonito. Charmoso. Sabia exatamente o que dizer para acalmá-la, para fazê-la acreditar que havia algo genuíno entre eles, algo além das obrigações impostas. Nas últimas semanas, ele parecera distante, mas Aurora atribuiu isso ao estresse da cerimônia, aos negócios da família. Agora, tudo ficaria bem. Agora, eles se tornariam marido e mulher.

— Vamos — disse Caterina, segurando a mão da filha. — O carro está esperando.

O trajeto até a igreja foi curto, mas carregado de silêncio. Aurora observou as ruas de Nápoles passando pela janela do carro blindado, os prédios antigos, as roupas estendidas nos varais, as crianças correndo pelas calçadas. Tudo parecia tão distante da bolha em que vivia.

O carro parou em frente à catedral. Uma construção imponente do século XVIII, com fachada de mármore branco e torres que se erguiam como sentinelas contra o céu azul. Os portões estavam abertos, e ela pôde ver convidados elegantemente vestidos subindo os degraus, homens de terno preto, mulheres com vestidos longos e joias caras.

— Está pronta? — perguntou seu pai, estendendo-lhe a mão.

Aurora respirou fundo.

— Estou.

O corredor da igreja parecia infinito. O órgão tocava uma melodia solene, e todos os olhares convergiam para ela. Aurora segurou o braço do pai com força, mantendo o sorriso ensaiado nos lábios. À sua frente, o altar estava lindamente decorado com flores brancas e velas altas. O padre aguardava ao centro, com o livro aberto nas mãos.

Mas o noivo não estava lá.

Ela piscou, confusa. Talvez Enzo estivesse em algum lugar atrás do altar, atrasado, como sempre. Mas o padre estava sozinho. O lugar destinado ao noivo estava vazio.

— Papai... — sussurrou Aurora.

— Continue andando — ordenou ele, sem mover os lábios. — Ele deve estar na sacristia.

Ela obedeceu. Porque era isso que fazia. Obedecia. Caminhou até o altar com as pernas trêmulas, sentindo os olhares dos convidados queimarem sua pele. Alguém tossiu. Outro sussurrou algo. O pai a entregou ao espaço vazio e recuou, deixando-a sozinha diante do padre.

— Onde está Enzo? — perguntou ela, baixinho.

O padre ajeitou os óculos, claramente desconfortável.

— Ainda não o vi, minha filha. Talvez ele esteja... se preparando.

Os minutos se arrastaram como horas. Os sussurros na igreja aumentavam. Aurora podia sentir o peso da humilhação começando a se formar em seu peito, como uma bola de chumbo quente. Seu pai gesticulava discretamente para os seguranças, que se espalhavam pela igreja em busca do noivo desaparecido.

— Com licença — murmurou Aurora, dando um passo para trás.

Ela não sabia exatamente o que estava fazendo. Só sabia que não podia continuar parada ali, exposta como um animal num altar de sacrifício. Ignorou o olhar do pai, virou-se e caminhou rapidamente para a porta lateral que levava à sacristia e às salas internas da igreja.

O corredor era frio e escuro, iluminado apenas por lâmpadas amareladas. Aurora avançou pelos corredores de pedra, ouvindo o eco de seus saltos altos contra o chão. Seu coração batia descompassado, e uma sensação estranha crescia em seu estômago.

Foi quando ouviu.

Um som abafado. Ritmado. Vindo de uma sala no fim do corredor.

Ela conhecia aquele som. Não tinha experiência prática, mas sabia o que era. O ar pareceu desaparecer de seus pulmões enquanto ela se aproximava da porta entreaberta. A luz fraca vazava pela fresta, junto com um cheiro doce de perfume barato e suor.

— Enzo...

A voz era feminina. Gemida. Entrecortada por suspiros de prazer.

Aurora empurrou a porta lentamente, e o coração parou.

Enzo estava lá. Com as calças abaixadas até os tornozelos, os cabelos escuros desalinhados, a camisa branca aberta no peito. Ele estava sobre uma mesa de madeira, curvado sobre uma mulher de vestido levantado, pernas abertas, dedos agarrando as bordas da mesa.

E a mulher...

Aurora sentiu o mundo girar quando reconheceu o rosto.

Valentina.

Sua própria prima.

A garota que cresceu com ela, que dividiu segredos e risadas, que na noite anterior a ajudou a escolher os brincos de pérola para o casamento. Valentina estava ali, com os olhos revirados de prazer, cravando as unhas nas costas do homem que em poucos minutos deveria estar no altar jurando amor eterno a Aurora.

O som do sexo preenchia o quarto escuro.

Aurora não gritou.

Não chorou.

Não fez escândalo.

Seus olhos permaneceram secos enquanto observava a cena, como se estivesse assistindo a um filme sobre a vida de outra pessoa. Algo dentro dela se desligou. Um mecanismo de sobrevivência que ela nem sabia possuir.

Então, lentamente, deu meia-volta.

Fechou a porta atrás de si com cuidado, sem fazer barulho.

E caminhou de volta para o altar.

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