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CAPÍTULO 10

last update Data de publicação: 2021-09-07 22:34:40

      Por incrível que possa parecer, acabara de avistar o falso médico!

      O famigerado falso médico!

      O desgraçado estava ali — no palco —, quieto, sério, concentrado, sentado na enorme mesa que eles sempre instalavam. Ao lado dele, mais nove pessoas sentadas, provavelmente pastores à espera, prontos para proferirem suas patéticas pregações.

      Sentiu seu coração bater mais forte, no peito. Aquele olhos azuis-cerúleos! O gel nos cabelos.

      Não teve dúvidas.

      E logo na sua quarta tentativa. Fácil, fácil. Por que ele deveria se esconder? Por que passaria na cabeça dele a ideia de que alguém pudesse procurá-lo? Afinal, não cometera nenhum crime, correto? Vacilou, sujeito!

      Enojado, dirigiu-se para a saída. Foi abordado por uma senhora morena e gorda, que devia ter seus cinquenta e poucos anos.

      Ela acercou-se dele e indagou, bondosa e solícita:

      → O senhor está passando bem, irmão?

      Passou por ela lentamente. Forçou-se a armar um falso e delicado sorriso:

      → Só um pequeno mal-estar → disse: → Vou até o carro para tomar meu comprimido. Muito obrigado, irmã.

      → Cristo o acompanhe, irmão.

      Por sorte, ela não o barrou.

      Saiu do templo e seguiu até o carro. Entrou no veículo e segurou o volante. Notou que suas mãos tremiam ligeiramente. Notou que estava pálido, como se fosse um cadáver.

      E agora? O que fazer? Nunca havia sentido tanto ódio por um ser humano.

      Estava com raiva (muita raiva!) e perdendo aos poucos sua lucidez.

      Precisava se controlar!

      “Acalme-se, Macto. Acalme-se!”

      Respirou fundo, voltando à calma. Passou a mão direita nos cabelos. A palidez sumiu.

      "Que bom. Que bom."

      Procurou não pensar em nada.

      Afastou o estranho diálogo da mente, o diálogo que tivera com aquele maldito falso médico, fins não perder o foco, fins não perder completamente a sanidade.

      Decidiu esperar. Iria segui-lo. Iria descobrir onde morava e se tinha esposa, filhos, amigos, vida. Descobrir, acima de tudo, se aquele indivíduo nefasto e frio era um ser humano.

      Depois analisaria com mais esmero qual o melhor momento para abordá-lo.

      Precisava ouvi-lo!

      Às 16h15min, o culto, enfim, terminou. As pessoas começaram a sair, aos borbotões.

      Saiu do carro e, discretamente, ficou de olho. Avistou o sujeito conversando com um casal, os três parados nos degraus, diante da porta do templo. Conversa animada.

      Ele usava um terno azul-escuro, que se encaixava bem no seu corpo magro, dando-lhe beleza e elegância. Na mão direita segurava um livro médio, de capa preta. A bíblia, provavelmente.

      Minutos depois, o falso médico despediu-se do casal e seguiu — em passos morosos, sozinho —, até o estacionamento. Foi cumprimentando as pessoas, educadamente, na medida em que andava.

      Cumprimentava e sorria. Era a primeira vez que o via sorrir. Mas os olhos azuis continuavam frios (sombrios, até), evidenciando, claro, sua intensa perversidade interior.

      “Ele não é casado. O maldito é solteiro.”

      Quando percebeu que o falso médico havia entrado num Siena vermelho, rapidamente ocupou o assento do seu Uno verde-escuro e preparou-se para a ação. Tenso! Afinal, não poderia perder a oportunidade!

      Começou a seguir o Siena vermelho. Notou que ele tomou o rumo da zona sul, considerada a mais rica da cidade. Manteve uma distância segura, para evitar ser reconhecido.

      O Siena andava devagar, como se o desgraçado — ao dirigir — desfrutasse, acima de tudo, sua liberdade, sua loucura, seu poder ignóbil e inabalável.

      Quarenta minutos depois, o Siena entrou num dos bairros nobres da zona sul. Virou à direita e à esquerda diversas vezes, até parar diante de um condomínio.

      Parou a 50 metros do Siena.

      Viu o carro passar pela cancela e entrar naquele imenso condomínio de luxo, cujos muros cercavam quatro prédios de 12 andares, um atrás do outro, todos com sacadas largas, belas e suntuosas.

      A rua — que era bastante larga — estava deserta, naquele horário.

      Do lado esquerdo, avistou a sequência de casas de dois ou três andares. Do lado direito, seis condomínios, um do lado outro, todos com seus muros e prédios.

      Saiu do Uno e aproximou-se da cabine. Um homem gordo estava lá dentro, aparentemente vendo TV. Ergueu a mão e fez sinal para ele. O gordo levantou o vidro da janelinha da cabine, entre curioso e desconfiado.

      → Boa tarde → disse, sorrindo. → Pode me dar uma informação?

      → Boa tarde → o gordo respondeu, solícito. → Claro. Pode falar.

      → Aquele homem que entrou a pouco, por acaso não é o pastor da igreja Geral da Ressurreição?

      → É ele mesmo, o pastor Gutemberg.

      → Que bom. Adoro suas palestras. Ele é realmente ótimo, um homem de Deus. Nossa! Não sabia que morava aqui no meu bairro. Incrível! Que sorte, a minha. Ele reside aí com a esposa e os filhos, é isso?

      → Esposa? Na verdade, o pastor Gutemberg é solteiro. Ele mora sozinho.

      → Nossa! Solteiro? Eu não sabia disso. Eu poderia conversar com ele?

      → Não pode, amigo. O pastor nos orientou a não atender ninguém. Ele teve que tomar essa medida extrema por um motivo simples. Como ele é muito popular, sempre aparecem pessoas que querem pedir alguma coisa, entende? Uma vez uma pequena multidão se aglomerou aqui na entrada, pedindo orações, bênçãos e até dinheiro, é mole? → sorriu. → Já pensou o tumulto que deu? Uma grande bagunça!

      → Não tenho outra opção?

      → Por que quer conversar com ele?

      → Por causa da minha mãe → mentiu. → Ela está muito doente, de cama mesmo, e não pode ir até a igreja. Eu queria aproveitar a coincidência de ter visto o pastor para pedir a ele que fosse lá em casa, para orar por ela. Quem sabe se ele não poderá curá-la? Ou pelo menos dar-lhe um grandioso alento espiritual.

      Pelo olhar do gordo, percebeu que ele acreditou nessa estória maluca. Sorte!

      → Sei → ele comentou, sério →. Dizem que o pastor já curou várias pessoas. Com certeza tem plenas condições de ajudar sua mãe. Bem, amigo, há duas opções: ou você conversa com ele na igreja ou espera ele sair, daqui a pouco.

      → Daqui a pouco?

      → Eu não devia estar dizendo isso, mas vou dizer. Geralmente ele sai, à noite, depois das dez horas. Acredito que deve estar indo para a casa da namorada, entende? Afinal, o sujeito é um ser humano, certo?

      → Todas as noites?

      → Quase todas. Hoje ele deve sair.

      → Tudo bem. Infelizmente dez horas é muito tarde. Acho que irei até a igreja mesmo. É o jeito. De qualquer forma, muito obrigado por sua colaboração, parceiro. Que o bom e misericordioso Deus ilumine sua vida. Tchau!

      → Amém. Tchau!

         Voltou ao Uno, com uma primordial e abrangente ideia na cabeça.

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