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CAPÍTULO 19

last update Date de publication: 2021-09-07 22:40:29

      Vinte minutos depois, precisamente às 22h32min, dois carros pararam diante da cancela de saída do condomínio: um Siena vermelho e um Uno verde-escuro. Ambos os vidros insulfilm levantados.

      O pastor Gutemberg chegou a baixar o vidro — rapidamente —, para cumprimentar, sorrindo, o porteiro.

      O porteiro também sorriu e acenou com a mão direita. Já o Uno manteve-se discreto, com os vidros erguidos.

      O sonolento e cansado porteiro não viu, portanto, os dois homens no Uno, um deles aparentemente dormindo no banco do lado. Viu apenas o vulto do motorista.

      Tudo bem, o porteiro refletiu, era apenas o amigo do pastor, saindo, após uma rápida visita. Mais um de seus inúmeros e esquisitos amigos.

      Sem hesitar, ergueu a cancela e permitiu que saíssem. Bocejou, em seguida, e preparou-se para ingerir mais um pouco de café preto.

      Os dois carros percorreram as ruas e avenidas da cidade, mantendo velocidade moderada. Entraram, enfim, na larga e bem iluminada BR FT-250. Trânsito tranquilo, naquele horário.

      Seguiram rumo ao oeste.

      Uma hora e meia depois, já fora dos limites da cidade, entraram numa estrada de terra batida, à esquerda, cercada de mato. Os carros iam aos solavancos, as luzes dos faróis rasgando a escuridão. Diminuíram a velocidade.

      A estrada era de descida, uma ladeira suave, além de estreita e silenciosa.

      Uns 400 metros depois o Siena vermelho parou, do lado direito da estrada. O Uno prosseguiu, até parar a uns 40 metros do grandioso rio Grummer, de água doce, cujas margens — naquele ponto em especial —, passavam dos 100 metros de largura.      

      O Uno estava de frente para o rio, parado bem no meio da estrada. Enquanto o pastor Gutemberg saía do carro, o gordo Kleber, lá atrás, calçava as luvas cor da pele, que trazia consigo.

      Viu-se pronto para o tétrico combate, pronto para mais uma empreitada.

      Kleber deixou os faróis do Siena ligados, para iluminar a cena. Acercou-se do Uno, a ponto de ajudar o pastor — que também usava luvas, àquela altura — a colocar o cadáver de Macto no banco da frente, diante do volante.

      → Agora é só pegar a pedra → disse Kleber.

      O pastor Gutemberg abriu a porta traseira direita, do Uno, e agachou-se para pegar a pedra que ali havia deixado. Uma pedra de considerável tamanho. Um plano que havia sido elaborado na véspera, após exaustivas e minuciosas análises.

      O pastor, quando se agachou para resgatar a pedra do piso do carro, estava menos tenso. Havia aceitado participar de um plano maluco, cujo objetivo era aumentar o número de fiéis da igreja e que agora percebeu que era arriscado e pouco produtivo.

      A igreja não tinha tantos fiéis assim e estava cheia de dívidas. Por isso o plano doido foi posto em ação. Outros pastores também estavam fazendo isso nos hospitais e clínicas, em diversas cidades.

      A rotina era: abordagem de uma pessoa desesperada, por ter um ente querido internado, as perguntas sem sentido e o convite final. Simples. Às vezes dava certo. Às vezes, não.

      Como agora.

      Já havia matado uma pessoa, anos atrás, quando não passava de um jovem gay e viciado em drogas. Hoje, recuperado e transformado em pastor, viu sua vida melhorar consideravelmente.

      Tinha um excelente salário (que lhe proporcionava regalias), um ótimo apartamento, um carro bacana e... uma vida oculta que lhe dava prazer.

      Quase tudo isso foi por água abaixo, por causa daquele cadáver, daquele homem obstinado. Foi por um triz. Obrigado, meu Deus, pensou.

      Todos sabem que os homossexuais são pessoas normais, iguais às outras. Ninguém nasce hetero e vira gay. Algumas pessoas, sejam homens ou mulheres, nascem gays e isso acontece desde os tempos dos homens primitivos, que viviam em cavernas.

      No entanto, os líderes religiosos não pensam assim. Espalham a terrível mentira de que homossexualismo é doença ou safadeza e transformam os gays em párias da sociedade. Homofobia ignóbil.

      Daí a necessidade de esconder seu segredo.

      Só o Kleber sabe que sou gay, refletiu. E ele, que não é homofóbico, está me ajudando. Ótimo sujeito.

      Tinha que agradecer a Deus e também ao seu amigo Kleber e ao pastor Júlio, por terem o ajudado a sair dessa enrascada. Eles o salvaram.

      Assim que terminasse esse trabalho sujo, iria fazer uma farra, regada a vinho e sexo. Mais tarde, faria suas orações e tudo estaria bem.

      O pastor, imerso em seus pensamentos otimistas, devia ter percebido que não havia necessidade daquela pedra. Bastava soltar o freio de mão do Uno, para que esse descesse naturalmente, sob a força da gravidade.

      Animado, pegou a pedra e também não viu as ações de Kleber, às suas costas.

      “Gay burro”, Kleber pensou, com desprezo, antes de sacar a arma.

      Satanicamente, apontou o cano para a nuca do colega. O pastor segurava a pedra com as duas mãos e já erguia o corpo quando…

      POW!

      A bala entrou na nuca, do lado direito da cabeça. Kleber rapidamente puxou o corpo, para que caísse na estrada, sem sujar o Uno de sangue.

      Houve um estremecimento convulsivo (a mente do pastor tentando analisar o motivo dessa traição cruel), um gemido e… mais nada.

      “Ele morreu cheio de dúvidas, com certeza.

      Respirou fundo, os olhos frios e satânicos fixos no novo cadáver.

      Sem remorso.

      → No fundo, era um bom sujeito → murmurou. → Uma pena que tudo tenha que terminar assim. Lamentável… o bom e misericordioso Deus é testemunha da minha luta em salvaguardar o nome da nossa igreja.

      Executou as tarefas que planejara.

      Procurou e encontrou o cartucho deflagrado. Colocou-os no bolso da calça, ao lado do cartucho que havia encontrado no apartamento.

      Retirou as luvas do cadáver do pastor. Guardou-as no bolso da calça. Carregou o corpo até o Uno, colocando-o no banco da frente, do lado do cadáver de Macto. Foi até o Siena vermelho e pegou uma garrafa de uísque — cheia —, e dois copos de vidro.

      Molhou as bocas dos cadáveres com um pouco do uísque. Deixou a garrafa e os copos no chão, aos pés do cadáver do pastor Gutemberg.

      Colocou a pistola na mão direita do pastor. No piso do carro, na frente do cadáver de Macto, depositou um cartucho deflagrado; diante do cadáver do pastor, o outro cartucho.

      Os policiais patéticos e imbecis certamente irão interpretar como assassinato seguido de suicídio. E poderiam pensar de modo diferente?

      Pouco provável, claro.

      Satisfeito, fechou as portas do veículo. Soltou o freio de mão e empurrou o Uno. O carro começou a descer, lenta depois com mais velocidade, até entrar no rio. As águas começaram a engoli-lo.

      Logo desapareceu nas águas barrentas do caudaloso rio Grummer. Seria seu primeiro cadáver? Provavelmente não. Rios sempre mataram, principalmente por causa da imperiosa imprudência do bicho-homem. Barcos que afundam, suicídios, acidentes etc.

      Entrou no Siena, pegou uma toalha de rosto e enxugou o suor, que brotava de sua testa e faces. Não estava nervoso. Já havia matado dois indivíduos, no passado, antes de se converter e virar pastor. Antes mesmo até de casar; ou de engordar. Nenhum remorso ou piedade, portanto, brotou em seu coração.

      Estava com os celulares dos dois homens. Um risco! Em breve iria descartá-los, provavelmente no mar. Quanto mais cedo realizasse essa importante tarefa, melhor.

      Pegou seu próprio celular e discou alguns números. Esperou. Segundos depois, ouviu uma voz baixa e ansiosa, que conhecia bem:

      → …

      → Acalme-se, pastor → disse Kleber. → Tudo foi resolvido. Fiz o serviço. Não serão achados tão cedo.

      → …

      → Sim. No rio Grummer. Os dois imbecis. Com carro e tudo.

      → …

      → Não esqueça. Precisamos evitar o contato por dois meses. Dois meses. Fique longe de mim nesse período, ok?

      → …

      → Obrigado. Tente dormir. Ore e que Deus nos proteja. Tchau!

      Após o fim da ligação, ligou o Siena, fez a volta e seguiu em frente, rumo ao aeroporto.

      Por que o aeroporto? Simples.

      Havia entrado no condomínio do pastor Gutemberg devidamente escondido no porta-malas, para que o porteiro não o visse entrar. O pastor Gutemberg, um tolo imbecil, acreditou que era para não causar grandes desconfianças no porteiro.

      Na verdade, não queria que ninguém soubesse que havia visitado o pastor. A morte dele já estava decidida, àquela altura. Por sorte, o condomínio, apesar do luxo, não possuía câmeras de vigilância.

      Quando saiu, com o vidro insulfilm do Uno levantado, não foi visto pelo porteiro. Com certeza o sonolento porteiro pensou tratar-se do amigo do pastor Gutemberg, que havia entrado minutos antes.

      Um plano perfeito!

      Suspirou, confiante.

      Voltou a ser o pastor Kleber, calmo, pacato, um poço de tranquilidade. Um homem de Deus.

      Quem poderia dizer que não?

      Sorriu.

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