로그인Naquela noite, jantou bife com fritas no restaurante “Alvix”, seu preferido — localizado ali perto —, assistiu TV (ou tentou), navegou na internet (colocou os e-mails em dia) e, lá pelas onze horas, deitou-se na sua adorável e aconchegante cama de casal.
Antes de desligar o aparelho, realizou uma importante tarefa.
Pegou o celular e transferiu as fotos e imagens do pastor Gutemberg para o notebook. Alguns segundos e pronto. Para a pasta escolheu o título “Igreja Geral da Ressurreição”.
Um título conveniente e objetivo.
Deveria enviar as fotos e imagens para alguém? Por enquanto não. Acreditou que, no momento, não seria necessário.
Desligou o notebook e a TV, cobriu-se com o lençol. Porém, sem sono, sentou-se na cama e entrou em elucubrações.
Havia decidido: se o pastor Gutemberg conseguisse convencê-lo de que não era o falso médico — o sujeito que cruelmente o abordara no hospital Medicory —, pediria desculpas e preservaria o segredo dele.
Isso mesmo. Apagaria as fotos e as imagens e esqueceria tudo aquilo.
No entanto, caso ele confessasse, com certeza sua carreira de pastor terminaria ali. Não teria pena dele.
Seus líderes homofóbicos veriam as fotos e as imagens, o que causaria um intenso, maquiavélico e terrível escândalo.
Optou por conversar com ele no apartamento por dois motivos básicos:
1º) porque pretendia gravar a conversa e sabia que o som ficaria mais nítido num lugar fechado; a acústica seria favorável; e
2º) por ser um lugar seguro; não acreditava que o pastor pudesse atacá-lo — caso a macabra ideia brotasse naquela mente asquerosa —, no seu próprio lar; improvável, claro.
E se toda a igreja estivesse envolvida? E se houvesse um outro líder? Nesse caso, levaria a gravação para a polícia.
Talvez não resultasse em nada (por estar no país da impunidade), mas acreditava que as investigações pelo menos iriam incomodar os líderes religiosos.
Porrada na igreja!
Também pretendia utilizar a gravação para processar a maldita igreja. Claro que sim! Um processo complexo, lento e difícil (sem dúvida; afinal, estava no país da impunidade), mas que lhe daria grandes chances de vitória.
Eles teriam que indenizá-lo, além de pararem de por em prática essa forma bizarra e nauseabunda de abordagem e aliciamento de pessoas.
Alguma coisa tinha que ser feita.
Era inconcebível que esse tipo de comportamento bizarro e horripilante pudesse ainda ocorrer, em pleno século XXI. Esses crimes teriam que acabar.
Bocejou. Afastou as elucubrações.
Confiante, deitou-se, cobriu-se com o lençol, fechou os olhos e, enfim, dormiu.
Não teve pesadelos.
O tempo foi passando e… nada. Os investigadores não avançaram, por mais que se esforçassem. O caso tornou-se um decrépito e infeliz beco sem saída. A frustração deles foi total! Um ano depois, o caso foi, enfim, parcialmente arquivado. Os policiais acharam que se tratou de assassinato seguido de suicídio e que o carro de Macto estaria em alguma ribanceira da região. Mas continuariam procurando, embora com menor intensidade. Ufa!... Na verdade, o Uno de Macto jamais foi encontrado, assim como os corpos dos dois. Kleber sorriu, satisfeito. Chegou a acreditar que os cadáveres seriam encontrados, mas aca
Tudo deu certo. Havia deixado o carro do pastor no aeroporto, atrás de um depósito, pois sabia que ali não havia câmeras. Andou uns 400 metros. Pegou, enfim, um táxi e voltou para casa. Sua esposa estava dormindo — ou fingindo — assim como seus filhos. Havia informado a ela que iria para a reunião de pastores e que o pastor Júlio decidiu lhe dar carona, ida e volta. Deixara, portanto o carro na garagem. Se ela perguntasse, o pastor Júlio confirmaria a inusitada história. Mas ela, inteligentemente, não perguntou. Boa menina! Jogou os celulares no mar, na noite seguinte. Sumiram para sempre. Dois dias dep
Vinte minutos depois, precisamente às 22h32min, dois carros pararam diante da cancela de saída do condomínio: um Siena vermelho e um Uno verde-escuro. Ambos os vidros insulfilm levantados. O pastor Gutemberg chegou a baixar o vidro — rapidamente —, para cumprimentar, sorrindo, o porteiro. O porteiro também sorriu e acenou com a mão direita. Já o Uno manteve-se discreto, com os vidros erguidos. O sonolento e cansado porteiro não viu, portanto, os dois homens no Uno, um deles aparentemente dormindo no banco do lado. Viu apenas o vulto do motorista. Tudo bem, o porteiro refletiu, era apenas o amigo do pastor, saindo, após uma rápida visita. Mais um de seus inúmeros e esquisitos amigos.
Kleber, o gordo, simpático e calmo Kleber — um verdadeiro poço de tranquilidade —, estava ali, diante dele, segurando uma pistola. Naquele momento os olhos do gordo brilhavam. Seria ódio? Ou apenas indiferença? Viu o diabólico e mortífero cano da arma apontado na sua direção. → Mas… por quê? Por quê? → indagou, atônito, ainda sem sentir medo. “Sou colega dele. Ele não vai ter coragem de atirar em mim. É calmo, é evangélico, é um homem de Deus. Provavelmente só quer me assustar, para proteger o amigo”, refletiu, esperançoso. Precisava dizer alguma coisa, para convencê-lo a desistir da ideia:
No domingo, fez o de sempre: assistiu à missa — como era bom estar num lugar sereno, em que a ausência de gritos e choros dava um ar celestial ao ambiente — e almoçou com os pais, a irmã e o noivo dela. Carne assada no forno. Delícia! Foi um almoço bem tranquilo, onde conseguiu disfarçar a ansiedade que o dominava, por dentro. → É aí, filho? Conseguiu prender aquele monstro? → sua mãe, que não havia esquecido o assunto do último almoço, o questionou, séria. → Não foi necessário, mãe → mentiu. → O casal entrou em acordo. Eles se separaram e ela foi embora para outra cidade, levando a filha de seis anos. O ex-marido pediu desculpas pela agress&
Naquela noite, jantou bife com fritas no restaurante “Alvix”, seu preferido — localizado ali perto —, assistiu TV (ou tentou), navegou na internet (colocou os e-mails em dia) e, lá pelas onze horas, deitou-se na sua adorável e aconchegante cama de casal. Antes de desligar o aparelho, realizou uma importante tarefa. Pegou o celular e transferiu as fotos e imagens do pastor Gutemberg para o notebook. Alguns segundos e pronto. Para a pasta escolheu o título “Igreja Geral da Ressurreição”. Um título conveniente e objetivo. Deveria enviar as fotos e imagens para alguém? Por enquanto não. Acreditou que, no momento, não seria necessário. Desl