LOGINNo domingo, fez o de sempre: assistiu à missa — como era bom estar num lugar sereno, em que a ausência de gritos e choros dava um ar celestial ao ambiente — e almoçou com os pais, a irmã e o noivo dela. Carne assada no forno.
Delícia!
Foi um almoço bem tranquilo, onde conseguiu disfarçar a ansiedade que o dominava, por dentro.
→ É aí, filho? Conseguiu prender aquele monstro? → sua mãe, que não havia esquecido o assunto do último almoço, o questionou, séria.
→ Não foi necessário, mãe → mentiu. → O casal entrou em acordo. Eles se separaram e ela foi embora para outra cidade, levando a filha de seis anos. O ex-marido pediu desculpas pela agressão e prometeu que não iria mais incomodá-la.
→ Nossa! Um final surpreendente. Mas ainda acho que ela corre perigo. Esse sujeito ainda é um monstro. Bem, de qualquer forma, só nos resta rezar para que ela sobreviva.
→ Com certeza → sorriu.
O almoço transcorreu sem problemas.
Ninguém percebeu seu complexo e explosivo estado de espírito.
Saiu do apartamento às 21 horas de uma noite quente. Vestia bermuda jeans e camisa azul-claro, de algodão, tipo meia-manga. Nos pés, as confortáveis sapatilhas pretas. Sem meias.
Estava ansioso, reconhecia, porém não nervoso. Só tinha que controlar o ódio, sentimento sinistro, que poderia atrapalhar — e muito! — seu raciocínio.
Tinha consciência de que, ao sair do apartamento, iria deixar para trás um sociopata arruinado — com a vida completamente destroçada — ou mais uma igreja (patética e desonesta) abalada em suas estruturas.
Estaria realmente preparado para encarar essa nauseabunda, angustiante e difícil missão?
Talvez, refletiu.
→ Só irei saber quando chegar lá → murmurou, enfático.
Alguns minutos depois, parou o carro diante do condomínio do pastor. O homem que o atendeu era outro. Magro e baixinho, devia ter mais de 50 anos. Era a noite da folga do gordo, com certeza.
Ótimo, ótimo!
Saiu do carro e acercou-se da cabine:
→ Boa noite. Gostaria de falar com o pastor Gutemberg. Ele está me esperando.
→ Boa noite → ele disse. → O pastor Gutemberg? Um minuto.
O homem não estranhou o diálogo. Calmamente, como que acostumado a realizar coisas como essa, apenas acionou o interfone. Conversou com alguém por alguns segundos.
Depois, voltou-se e disse:
→ Tudo bem. Sabe o número?
→ 801, bloco “C”, oitavo andar. Por falar nisso, qual deles é o bloco “C”?
→ É o terceiro prédio. Todas essas vagas do lado direito, próximas do muro, são reservadas para os visitantes. O senhor pode avançar mais, que achará vagas diante do bloco.
→ Obrigado.
Voltou ao carro. Quando o homem subiu a cancela, entrou no condomínio. Virou à direita, depois à esquerda. Avançou, lentamente, de olho nos mínimos detalhes do local.
Notou que o térreo de todos os blocos — por baixo dos prédios — era utilizado como estacionamento dos moradores. Por isso o enorme número de vagas para visitantes, algo raro nesses condomínios.
O local era bem iluminado. Havia asfalto em todo o piso do condomínio. Sem contar o luxo, a versátil organização e a limpeza.
“Esse crápula vive bem, sem dúvida. Tudo com o maldito dinheiro dos fiéis. Existe profissão melhor?”
Parou, enfim, o Uno, do lado direito, diante do muro. Ao sair do veículo — conduzindo o celular, seu “parceiro” de missão — viu o pastor Gutemberg, que o esperava, na entrada do hall.
Parecia tranquilo.
Usava camisa verde, meia-manga, e bermuda de seda, num tom cinza claro. Nos pés, despojadas sandálias de dedo.
→ Boa noite, Macto → ele disse, sério. Parecia tranquilo, sereno, como se recebesse um amigo em sua casa e não alguém hostil, que poderia prejudicá-lo.
→ Boa noite… doutor → murmurou, com ironia, porém sem sorrir.
→ Vamos?
Entraram no espaçoso hall. E seguida, no elevador. Ambos em silêncio. Optou por nada dizer. Postou-se ao lado do pastor, que apertou, calmamente, o botão de número oito.
“Esse sujeito está calmo demais para meu gosto”, refletiu, olhando de canto de olho: “Estará tramando alguma coisa? Ou preparou uma história convincente, para me convencer?”
Desembocaram num corredor largo, limpo e bem iluminado. O pastor abriu a porta do apartamento de número 801 com delicadeza. Em seguida, fez sinal para que entrasse.
Entrou num amplo e luxuoso apartamento.
O ar-condicionado estava ligado, o que dizimou o calor. Viu uma poltrona de seis lugares, em formato de “u” deitado, diante da qual havia uma bela estante de madeira. Madeira de primeira qualidade, claro.
Na estante, a TV de 42 polegadas, o aparelho DVD, dois vasos com flores, dois quadros com fotos etc. Mais além, a sala de estar, com a mesa e seis cadeiras.
Mais além, a sacada, cuja porta de vidro estava fechada. Sobre o piso avermelhado, um extenso carpete marrom-claro.
→ Sente-se, por favor → ele disse. → Quer tomar alguma coisa? Água? Suco? Refrigerante? Desculpe, mas não tenho bebidas alcoólicas.
Aquele apartamento era bem maior que o seu. Sem contar que estava rica e maravilhosamente mobiliado.
Um grande e esplendoroso luxo, que o alto salário de um pastor (quem disse que religião não dava dinheiro?) permitia manter. Um troço surreal!
“Esse cara tem uma vida nababesca, sem dúvida", refletiu, abismado.
→ Não, obrigado. → respondeu, recuperando-se do impacto. → Podemos conversar?
Sentou-se na extremidade do sofá, mais próxima da porta de saída. O pastor ocupou a outra ponta do “u”, o que fez com que ambos ficassem um de frente para o outro. Ele sentou-se normalmente.
Não dava para perceber que era gay. Nem um pouco. Não havia trejeitos femininos, nele.
→ Então, o que quer saber? → ele perguntou, de modo calmo.
Sem que o pastor percebesse, havia ligado o áudio do aparelho celular, para gravar a conversa. Deixou o celular ao lado de sua perna direita. Discreta e sigilosamente.
→ Quero saber tudo → disse.
De repente, um homem surgiu no corredor, proveniente dos quartos.
Levou um susto, ao reconhecê-lo!
→ Mas… → exclamou, profundamente pasmo. → Mas... O que é isso???
O tempo foi passando e… nada. Os investigadores não avançaram, por mais que se esforçassem. O caso tornou-se um decrépito e infeliz beco sem saída. A frustração deles foi total! Um ano depois, o caso foi, enfim, parcialmente arquivado. Os policiais acharam que se tratou de assassinato seguido de suicídio e que o carro de Macto estaria em alguma ribanceira da região. Mas continuariam procurando, embora com menor intensidade. Ufa!... Na verdade, o Uno de Macto jamais foi encontrado, assim como os corpos dos dois. Kleber sorriu, satisfeito. Chegou a acreditar que os cadáveres seriam encontrados, mas aca
Tudo deu certo. Havia deixado o carro do pastor no aeroporto, atrás de um depósito, pois sabia que ali não havia câmeras. Andou uns 400 metros. Pegou, enfim, um táxi e voltou para casa. Sua esposa estava dormindo — ou fingindo — assim como seus filhos. Havia informado a ela que iria para a reunião de pastores e que o pastor Júlio decidiu lhe dar carona, ida e volta. Deixara, portanto o carro na garagem. Se ela perguntasse, o pastor Júlio confirmaria a inusitada história. Mas ela, inteligentemente, não perguntou. Boa menina! Jogou os celulares no mar, na noite seguinte. Sumiram para sempre. Dois dias dep
Vinte minutos depois, precisamente às 22h32min, dois carros pararam diante da cancela de saída do condomínio: um Siena vermelho e um Uno verde-escuro. Ambos os vidros insulfilm levantados. O pastor Gutemberg chegou a baixar o vidro — rapidamente —, para cumprimentar, sorrindo, o porteiro. O porteiro também sorriu e acenou com a mão direita. Já o Uno manteve-se discreto, com os vidros erguidos. O sonolento e cansado porteiro não viu, portanto, os dois homens no Uno, um deles aparentemente dormindo no banco do lado. Viu apenas o vulto do motorista. Tudo bem, o porteiro refletiu, era apenas o amigo do pastor, saindo, após uma rápida visita. Mais um de seus inúmeros e esquisitos amigos.
Kleber, o gordo, simpático e calmo Kleber — um verdadeiro poço de tranquilidade —, estava ali, diante dele, segurando uma pistola. Naquele momento os olhos do gordo brilhavam. Seria ódio? Ou apenas indiferença? Viu o diabólico e mortífero cano da arma apontado na sua direção. → Mas… por quê? Por quê? → indagou, atônito, ainda sem sentir medo. “Sou colega dele. Ele não vai ter coragem de atirar em mim. É calmo, é evangélico, é um homem de Deus. Provavelmente só quer me assustar, para proteger o amigo”, refletiu, esperançoso. Precisava dizer alguma coisa, para convencê-lo a desistir da ideia:
No domingo, fez o de sempre: assistiu à missa — como era bom estar num lugar sereno, em que a ausência de gritos e choros dava um ar celestial ao ambiente — e almoçou com os pais, a irmã e o noivo dela. Carne assada no forno. Delícia! Foi um almoço bem tranquilo, onde conseguiu disfarçar a ansiedade que o dominava, por dentro. → É aí, filho? Conseguiu prender aquele monstro? → sua mãe, que não havia esquecido o assunto do último almoço, o questionou, séria. → Não foi necessário, mãe → mentiu. → O casal entrou em acordo. Eles se separaram e ela foi embora para outra cidade, levando a filha de seis anos. O ex-marido pediu desculpas pela agress&
Naquela noite, jantou bife com fritas no restaurante “Alvix”, seu preferido — localizado ali perto —, assistiu TV (ou tentou), navegou na internet (colocou os e-mails em dia) e, lá pelas onze horas, deitou-se na sua adorável e aconchegante cama de casal. Antes de desligar o aparelho, realizou uma importante tarefa. Pegou o celular e transferiu as fotos e imagens do pastor Gutemberg para o notebook. Alguns segundos e pronto. Para a pasta escolheu o título “Igreja Geral da Ressurreição”. Um título conveniente e objetivo. Deveria enviar as fotos e imagens para alguém? Por enquanto não. Acreditou que, no momento, não seria necessário. Desl