Share

CAPÍTULO 17

last update publish date: 2021-09-07 22:39:04

      No domingo, fez o de sempre: assistiu à missa — como era bom estar num lugar sereno, em que a ausência de gritos e choros dava um ar celestial ao ambiente — e almoçou com os pais, a irmã e o noivo dela. Carne assada no forno.

      Delícia!

      Foi um almoço bem tranquilo, onde conseguiu disfarçar a ansiedade que o dominava, por dentro.

      → É aí, filho? Conseguiu prender aquele monstro? → sua mãe, que não havia esquecido o assunto do último almoço, o questionou, séria.

      → Não foi necessário, mãe → mentiu. → O casal entrou em acordo. Eles se separaram e ela foi embora para outra cidade, levando a filha de seis anos. O ex-marido pediu desculpas pela agressão e prometeu que não iria mais incomodá-la.

      → Nossa! Um final surpreendente. Mas ainda acho que ela corre perigo. Esse sujeito ainda é um monstro. Bem, de qualquer forma, só nos resta rezar para que ela sobreviva.

      → Com certeza → sorriu.

      O almoço transcorreu sem problemas.

      Ninguém percebeu seu complexo e explosivo estado de espírito.

      Saiu do apartamento às 21 horas de uma noite quente. Vestia bermuda jeans e camisa azul-claro, de algodão, tipo meia-manga. Nos pés, as confortáveis sapatilhas pretas. Sem meias.

      Estava ansioso, reconhecia, porém não nervoso. Só tinha que controlar o ódio, sentimento sinistro, que poderia atrapalhar — e muito! — seu raciocínio.

      Tinha consciência de que, ao sair do apartamento, iria deixar para trás um sociopata arruinado — com a vida completamente destroçada — ou mais uma igreja (patética e desonesta) abalada em suas estruturas.

      Estaria realmente preparado para encarar essa nauseabunda, angustiante e difícil missão?

      Talvez, refletiu.

      → Só irei saber quando chegar lá → murmurou, enfático.

      Alguns minutos depois, parou o carro diante do condomínio do pastor. O homem que o atendeu era outro. Magro e baixinho, devia ter mais de 50 anos. Era a noite da folga do gordo, com certeza.

      Ótimo, ótimo!

      Saiu do carro e acercou-se da cabine:

      → Boa noite. Gostaria de falar com o pastor Gutemberg. Ele está me esperando.

      → Boa noite → ele disse. → O pastor Gutemberg? Um minuto.

      O homem não estranhou o diálogo. Calmamente, como que acostumado a realizar coisas como essa, apenas acionou o interfone. Conversou com alguém por alguns segundos.

      Depois, voltou-se e disse:

      → Tudo bem. Sabe o número?

      → 801, bloco “C”, oitavo andar. Por falar nisso, qual deles é o bloco “C”?

      → É o terceiro prédio. Todas essas vagas do lado direito, próximas do muro, são reservadas para os visitantes. O senhor pode avançar mais, que achará vagas diante do bloco.

      → Obrigado.

      Voltou ao carro. Quando o homem subiu a cancela, entrou no condomínio. Virou à direita, depois à esquerda. Avançou, lentamente, de olho nos mínimos detalhes do local.

      Notou que o térreo de todos os blocos — por baixo dos prédios — era utilizado como estacionamento dos moradores. Por isso o enorme número de vagas para visitantes, algo raro nesses condomínios.

      O local era bem iluminado. Havia asfalto em todo o piso do condomínio. Sem contar o luxo, a versátil organização e a limpeza.

      “Esse crápula vive bem, sem dúvida. Tudo com o maldito dinheiro dos fiéis. Existe profissão melhor?

      Parou, enfim, o Uno, do lado direito, diante do muro. Ao sair do veículo — conduzindo o celular, seu “parceiro” de missão — viu o pastor Gutemberg, que o esperava, na entrada do hall.

      Parecia tranquilo.

      Usava camisa verde, meia-manga, e bermuda de seda, num tom cinza claro. Nos pés, despojadas sandálias de dedo.

      → Boa noite, Macto → ele disse, sério. Parecia tranquilo, sereno, como se recebesse um amigo em sua casa e não alguém hostil, que poderia prejudicá-lo.

      → Boa noite… doutor → murmurou, com ironia, porém sem sorrir.

      → Vamos?

      Entraram no espaçoso hall. E seguida, no elevador. Ambos em silêncio. Optou por nada dizer. Postou-se ao lado do pastor, que apertou, calmamente, o botão de número oito.

      “Esse sujeito está calmo demais para meu gosto”, refletiu, olhando de canto de olho: “Estará tramando alguma coisa? Ou preparou uma história convincente, para me convencer?

      Desembocaram num corredor largo, limpo e bem iluminado. O pastor abriu a porta do apartamento de número 801 com delicadeza. Em seguida, fez sinal para que entrasse.

      Entrou num amplo e luxuoso apartamento.

      O ar-condicionado estava ligado, o que dizimou o calor. Viu uma poltrona de seis lugares, em formato de “u” deitado, diante da qual havia uma bela estante de madeira. Madeira de primeira qualidade, claro.

      Na estante, a TV de 42 polegadas, o aparelho DVD, dois vasos com flores, dois quadros com fotos etc. Mais além, a sala de estar, com a mesa e seis cadeiras.

      Mais além, a sacada, cuja porta de vidro estava fechada. Sobre o piso avermelhado, um extenso carpete marrom-claro.

      → Sente-se, por favor → ele disse. → Quer tomar alguma coisa? Água? Suco? Refrigerante? Desculpe, mas não tenho bebidas alcoólicas.

      Aquele apartamento era bem maior que o seu. Sem contar que estava rica e maravilhosamente mobiliado.

      Um grande e esplendoroso luxo, que o alto salário de um pastor (quem disse que religião não dava dinheiro?) permitia manter. Um troço surreal!

      “Esse cara tem uma vida nababesca, sem dúvida", refletiu, abismado.

      → Não, obrigado. → respondeu, recuperando-se do impacto. → Podemos conversar?

      Sentou-se na extremidade do sofá, mais próxima da porta de saída. O pastor ocupou a outra ponta do “u”, o que fez com que ambos ficassem um de frente para o outro. Ele sentou-se normalmente.

      Não dava para perceber que era gay. Nem um pouco. Não havia trejeitos femininos, nele.

      → Então, o que quer saber? → ele perguntou, de modo calmo.

      Sem que o pastor percebesse, havia ligado o áudio do aparelho celular, para gravar a conversa. Deixou o celular ao lado de sua perna direita. Discreta e sigilosamente.

      → Quero saber tudo → disse.

      De repente, um homem surgiu no corredor, proveniente dos quartos.

      Levou um susto, ao reconhecê-lo!

      → Mas… → exclamou, profundamente pasmo. → Mas... O que é isso???

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • UM ESTRANHO DIÁLOGO   CAPÍTULO 21

    O tempo foi passando e… nada. Os investigadores não avançaram, por mais que se esforçassem. O caso tornou-se um decrépito e infeliz beco sem saída. A frustração deles foi total! Um ano depois, o caso foi, enfim, parcialmente arquivado. Os policiais acharam que se tratou de assassinato seguido de suicídio e que o carro de Macto estaria em alguma ribanceira da região. Mas continuariam procurando, embora com menor intensidade. Ufa!... Na verdade, o Uno de Macto jamais foi encontrado, assim como os corpos dos dois. Kleber sorriu, satisfeito. Chegou a acreditar que os cadáveres seriam encontrados, mas aca

  • UM ESTRANHO DIÁLOGO   CAPÍTULO 20

    Tudo deu certo. Havia deixado o carro do pastor no aeroporto, atrás de um depósito, pois sabia que ali não havia câmeras. Andou uns 400 metros. Pegou, enfim, um táxi e voltou para casa. Sua esposa estava dormindo — ou fingindo — assim como seus filhos. Havia informado a ela que iria para a reunião de pastores e que o pastor Júlio decidiu lhe dar carona, ida e volta. Deixara, portanto o carro na garagem. Se ela perguntasse, o pastor Júlio confirmaria a inusitada história. Mas ela, inteligentemente, não perguntou. Boa menina! Jogou os celulares no mar, na noite seguinte. Sumiram para sempre. Dois dias dep

  • UM ESTRANHO DIÁLOGO   CAPÍTULO 19

    Vinte minutos depois, precisamente às 22h32min, dois carros pararam diante da cancela de saída do condomínio: um Siena vermelho e um Uno verde-escuro. Ambos os vidros insulfilm levantados. O pastor Gutemberg chegou a baixar o vidro — rapidamente —, para cumprimentar, sorrindo, o porteiro. O porteiro também sorriu e acenou com a mão direita. Já o Uno manteve-se discreto, com os vidros erguidos. O sonolento e cansado porteiro não viu, portanto, os dois homens no Uno, um deles aparentemente dormindo no banco do lado. Viu apenas o vulto do motorista. Tudo bem, o porteiro refletiu, era apenas o amigo do pastor, saindo, após uma rápida visita. Mais um de seus inúmeros e esquisitos amigos.

  • UM ESTRANHO DIÁLOGO   CAPÍTULO 18

    Kleber, o gordo, simpático e calmo Kleber — um verdadeiro poço de tranquilidade —, estava ali, diante dele, segurando uma pistola. Naquele momento os olhos do gordo brilhavam. Seria ódio? Ou apenas indiferença? Viu o diabólico e mortífero cano da arma apontado na sua direção. → Mas… por quê? Por quê? → indagou, atônito, ainda sem sentir medo. “Sou colega dele. Ele não vai ter coragem de atirar em mim. É calmo, é evangélico, é um homem de Deus. Provavelmente só quer me assustar, para proteger o amigo”, refletiu, esperançoso. Precisava dizer alguma coisa, para convencê-lo a desistir da ideia:

  • UM ESTRANHO DIÁLOGO   CAPÍTULO 17

    No domingo, fez o de sempre: assistiu à missa — como era bom estar num lugar sereno, em que a ausência de gritos e choros dava um ar celestial ao ambiente — e almoçou com os pais, a irmã e o noivo dela. Carne assada no forno. Delícia! Foi um almoço bem tranquilo, onde conseguiu disfarçar a ansiedade que o dominava, por dentro. → É aí, filho? Conseguiu prender aquele monstro? → sua mãe, que não havia esquecido o assunto do último almoço, o questionou, séria. → Não foi necessário, mãe → mentiu. → O casal entrou em acordo. Eles se separaram e ela foi embora para outra cidade, levando a filha de seis anos. O ex-marido pediu desculpas pela agress&

  • UM ESTRANHO DIÁLOGO   CAPÍTULO 16

    Naquela noite, jantou bife com fritas no restaurante “Alvix”, seu preferido — localizado ali perto —, assistiu TV (ou tentou), navegou na internet (colocou os e-mails em dia) e, lá pelas onze horas, deitou-se na sua adorável e aconchegante cama de casal. Antes de desligar o aparelho, realizou uma importante tarefa. Pegou o celular e transferiu as fotos e imagens do pastor Gutemberg para o notebook. Alguns segundos e pronto. Para a pasta escolheu o título “Igreja Geral da Ressurreição”. Um título conveniente e objetivo. Deveria enviar as fotos e imagens para alguém? Por enquanto não. Acreditou que, no momento, não seria necessário. Desl

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status