LOGINFoi para casa.
Passou o resto da tarde e início da noite vendo TV, pensando nas ações que iria realizar. Tomou banho. Vestiu bermuda azul e camiseta branca, ambas de algodão.
Jantou frango frito, com arroz e salada, no restaurante “Alvix”, seu preferido, localizado ali perto. Ingeriu um copo de suco de laranja como acompanhamento.
De volta ao apartamento, ligou seu notebook e navegou na internet. Leu os e-mails recebidos, assistiu alguns vídeos engraçados e jogou freecell.
Às oito e meia tomou outro banho e vestiu bermuda jeans e camisa verde-escura, meia-manga, esta de algodão.
Saiu de casa às 21 horas em ponto. Levou meia hora para chegar até a residência do sujeito. Parou o Uno a 60 metros dos muros do condomínio, desligou o veículo e pôs-se a esperar. Ficou atento aos detalhes.
Queria, sim, conhecer a misteriosa namorada dele. Seria evangélica? Com certeza sim. Claro que sim. Amor sob a maviosa e etérea égide de Cristo.
Uma dúvida o acometeu: aquilo que o falso médico fez, no hospital, com ele… seria uma iniciativa individual? Ou foi apenas uma medida ousada (e bizarra) da igreja, para arrebatar fiéis?
Nesse caso, quem seria o grande e principal responsável (além do falso médico, claro) por essa atrocidade?
Ele teria que explicar tudo isso, em todos os seus mínimos detalhes.
Exatamente às dez horas daquela noite quente, avistou o Siena vermelho do falso médico sair. Não teve dúvidas de que se tratava do carro dele.
Começou a segui-lo.
Manteve a distância de sempre. Notou que o Siena seguia na direção do centro. Por que o centro? A cada quilômetro percorrido, sua curiosidade aumentava.
Quarenta minutos depois, o Siena percorreu várias ruas do centro — direita, esquerda, direita — e entrou, enfim, num imenso e garboso estacionamento, este cercado por um murinho baixo. Sumiu lá dentro, infiltrando-se entre os carros.
Parou o Uno na rua mesmo, a uns 40 metros do local. Avistou, do lado do estacionamento, as luzes de neon do que parecia ser uma boate.
Várias pessoas se amontoavam na entrada, muitas vestidas de preto, com roupas espalhafatosas.
Saiu do Uno, encostou-se no veículo e deu uma minuciosa olhada na boate.
O letreiro luminoso dizia: “Sensações Nigth Club”. Mesmo daquela distância, dava para ouvir a música eletrônica. Um tum-tum-tum caótico.
Percebeu que alguns travestis estavam na fila da bilheteria. Viu também mulheres estranhas, ali, a maioria com roupas justas e esquisitas; várias duplas femininas abraçadas; homens abraçados, na maior intimidade.
“Que lugar esquisito, meu.”
Esperou. Acreditava que o falso médico iria entrar numa daquelas mansões — a namorada dele devia ser rica — e que utilizava o estacionamento apenas como plena e volátil medida de segurança.
O falso médico surgiu e — para seu espanto! — entrou na fila. Na fila mesmo. Incrível! O desgraçado simplesmente iria entrar na boate!
A verdade veio à tona! Não havia namorada; nenhuma namorada. Não havia sequer amor. Não havia nada! Exceto... a prática de sexo... diferente... e... nojento!
→ Quem diria… → murmurou, pasmo.
Havia, isso sim, um macabro segredo. Ou seja, durante o dia, um pastor de respeito. Na calada da noite, um baladeiro depravado. O pastor Gutemberg, maldito seja, era realmente um indivíduo esquisito, frio e imprevisível.
E o pior ainda estava por vir.
Depois que o pastor entrou na boate, com uma ideia na cabeça, dirigiu-se para lá. Abordou um jovem emo, magricela, que se encontrava de pé, bebendo cerveja.
Vestia-se todo de preto (mechas de cabelo no olho direito) e parecia esperar alguém. Segurava firme uma latinha de cerveja.
→ Boa noite, amigo → disse.
→ Boa noite. Tudo bom?
Não teve dúvidas de que o rapaz era gay. Seus trejeitos eram visivelmente femininos, assim como a voz rouca e afetada e o olhar vítreo e desconfiado.
→ Escuta, sou novo aqui e não conheço nada. Você, por favor, poderia me dar uma informação? → perguntou: → Essa boate por acaso seria do tipo GLBT?
→ Claro que sim, bofe → ele sorriu →. Na verdade, é a melhor boate GLBT do centro da cidade. Se você procura felicidade, encontrará aqui, com certeza? Felicidade, diversão e… prazer. Nossa! Como você é lindo! Vou te confessar uma coisa: se eu não tivesse namorado, teria o maior prazer em te fazer companhia. Quem sabe um dia?
Ele parecia drogado ou embriagado. Os olhos muito vermelhos, o equilíbrio precário. Passou a mexer delicadamente nos cabelos, sem parar de sorrir.
→ Obrigado, amigo. Boa noite.
→ Já vai, boy?
→ Tenho que ir. Adeus, parceiro!
→ Que pena… Adeus, bofe!
Entrou no Uno. Ansioso, tentou digerir a nova informação. O pastor Gutemberg, o falso médico, o sujeito que bagunçou cruelmente sua vida… era gay. Um homossexual. O peso dessa novidade era imensurável, tétrico, para não dizer sinistro.
Sabia que todas as religiões eram homofóbicas. A maioria dos fanáticos religiosos tinha profundo preconceito contra os homossexuais. Era um ódio antigo, que vinha desde antes da macabra Santa Inquisição.
A pergunta fatídica brotou em sua mente: o que aconteceria com o nefasto e mentiroso pastor Gutemberg, caso seus líderes descobrissem seu segredo?
Seria expulso, sem dúvida. Não haveria perdão para esse tipo de coisa. Igrejas como a Geral da Ressurreição não perdoavam esses deslizes. Uma vez expulso, como consequência, seria o fim do alto salário que o cargo fornecia. Seria o fim das mordomias, da vida luxuosa, do glamour...
Sem contar a horripilante humilhação e o ignóbil escárnio.
Além do mais, ele jamais poderia exercer a função em outra igreja, pois todas saberiam. Teria que procurar, claro, outro emprego.
Teria, acima de tudo, que superar o trauma, superar o pavoroso escândalo.
Mas... conseguiria ele superar tudo isso? Ou entraria em depressão? Cometeria suicídio? Ou seguiria em frente, com frieza e determinação?
Macto continuou pensando: e agora? O que fazer? Confrontar, antes, o falso médico, para que ele revelasse o motivo de tê-lo abordado no hospital? Ou jogar a merda no ventilador, como tétrica vingança?
Destruir de uma vez por todas com a vida dele ou não? Dele e... da igreja? Claro que sim. Quem sabe um líder religioso? Ou um cúmplice? Um maldito, ignóbil e nauseabundo cúmplice religioso???
Bem, precisava de provas.
O caso era tão grave que palavras somente não bastavam. E como obtê-las?
Olhou para seu celular, cuja tela, de tamanho 15x07cm, se destacava. Era um aparelho moderno que possuía internet, câmera fotográfica e filmadora. Só teria que ser preciso na atividade. Preciso, organizado e... cuidadoso.
Animado, decidiu esperar.
O tempo foi passando e… nada. Os investigadores não avançaram, por mais que se esforçassem. O caso tornou-se um decrépito e infeliz beco sem saída. A frustração deles foi total! Um ano depois, o caso foi, enfim, parcialmente arquivado. Os policiais acharam que se tratou de assassinato seguido de suicídio e que o carro de Macto estaria em alguma ribanceira da região. Mas continuariam procurando, embora com menor intensidade. Ufa!... Na verdade, o Uno de Macto jamais foi encontrado, assim como os corpos dos dois. Kleber sorriu, satisfeito. Chegou a acreditar que os cadáveres seriam encontrados, mas aca
Tudo deu certo. Havia deixado o carro do pastor no aeroporto, atrás de um depósito, pois sabia que ali não havia câmeras. Andou uns 400 metros. Pegou, enfim, um táxi e voltou para casa. Sua esposa estava dormindo — ou fingindo — assim como seus filhos. Havia informado a ela que iria para a reunião de pastores e que o pastor Júlio decidiu lhe dar carona, ida e volta. Deixara, portanto o carro na garagem. Se ela perguntasse, o pastor Júlio confirmaria a inusitada história. Mas ela, inteligentemente, não perguntou. Boa menina! Jogou os celulares no mar, na noite seguinte. Sumiram para sempre. Dois dias dep
Vinte minutos depois, precisamente às 22h32min, dois carros pararam diante da cancela de saída do condomínio: um Siena vermelho e um Uno verde-escuro. Ambos os vidros insulfilm levantados. O pastor Gutemberg chegou a baixar o vidro — rapidamente —, para cumprimentar, sorrindo, o porteiro. O porteiro também sorriu e acenou com a mão direita. Já o Uno manteve-se discreto, com os vidros erguidos. O sonolento e cansado porteiro não viu, portanto, os dois homens no Uno, um deles aparentemente dormindo no banco do lado. Viu apenas o vulto do motorista. Tudo bem, o porteiro refletiu, era apenas o amigo do pastor, saindo, após uma rápida visita. Mais um de seus inúmeros e esquisitos amigos.
Kleber, o gordo, simpático e calmo Kleber — um verdadeiro poço de tranquilidade —, estava ali, diante dele, segurando uma pistola. Naquele momento os olhos do gordo brilhavam. Seria ódio? Ou apenas indiferença? Viu o diabólico e mortífero cano da arma apontado na sua direção. → Mas… por quê? Por quê? → indagou, atônito, ainda sem sentir medo. “Sou colega dele. Ele não vai ter coragem de atirar em mim. É calmo, é evangélico, é um homem de Deus. Provavelmente só quer me assustar, para proteger o amigo”, refletiu, esperançoso. Precisava dizer alguma coisa, para convencê-lo a desistir da ideia:
No domingo, fez o de sempre: assistiu à missa — como era bom estar num lugar sereno, em que a ausência de gritos e choros dava um ar celestial ao ambiente — e almoçou com os pais, a irmã e o noivo dela. Carne assada no forno. Delícia! Foi um almoço bem tranquilo, onde conseguiu disfarçar a ansiedade que o dominava, por dentro. → É aí, filho? Conseguiu prender aquele monstro? → sua mãe, que não havia esquecido o assunto do último almoço, o questionou, séria. → Não foi necessário, mãe → mentiu. → O casal entrou em acordo. Eles se separaram e ela foi embora para outra cidade, levando a filha de seis anos. O ex-marido pediu desculpas pela agress&
Naquela noite, jantou bife com fritas no restaurante “Alvix”, seu preferido — localizado ali perto —, assistiu TV (ou tentou), navegou na internet (colocou os e-mails em dia) e, lá pelas onze horas, deitou-se na sua adorável e aconchegante cama de casal. Antes de desligar o aparelho, realizou uma importante tarefa. Pegou o celular e transferiu as fotos e imagens do pastor Gutemberg para o notebook. Alguns segundos e pronto. Para a pasta escolheu o título “Igreja Geral da Ressurreição”. Um título conveniente e objetivo. Deveria enviar as fotos e imagens para alguém? Por enquanto não. Acreditou que, no momento, não seria necessário. Desl