ANMELDENAutora: Edivania Rios
História ambientada na década de 2000 Protagonistas: Leandro e Raquel Estou furioso com a Nair — essa mulher não tem o menor senso, me tira do sério a todo instante. Difícil conviver com gente que não sabe a hora de parar. — O que tem a minha filha brincar com os brinquedos da sua, Leandro? — ela pergunta, como se não soubesse exatamente o que faz. — Olha só: se quiser ficar aqui, é assim. Não misture as coisas. Traga da sua casa a papinha, os brinquedos e tudo o que a sua filha precisar. Sou muito individualista, e também vingativo. Ela morde os lábios de raiva, os olhos cheios de medo. Não tenho dó. Nunca tive confiança em ninguém — fui criado pelos piores homens do mundo, aqueles que sabem tirar vantagem de tudo e de todos. Vejo Raquel saindo de perto dali, para não ouvir a discussão. Subo para o meu quarto: como se não bastasse Nair, apareceu mais uma doida para me atormentar. Eu mereço, né? Eu nasci para ser líder, não admito perder tempo com futilidades — como passeios no parque, dias na praia ou conversas inúteis. Nesse auge da minha amargura, juro: se ela aparecer na sala, eu saio e vou para a cozinha. Preciso focar na minha reeleição. Se alguém descobrir que engravidei a mulher do meu próprio pai, nunca mais serei prefeito de Ity — um erro desses destrói qualquer família, e qualquer carreira. Preciso descobrir qual é a fraqueza da Raquel. Mandei Nair ir embora e fui procurar Raquel. Ela estava no quarto dela, com a minha filha no colo, e quando me viu, puxou o lençol rápido para cobrir o corpo. — O que foi, Leandro? — Veste uma roupa. Te espero no quarto da minha filha. Fui até lá, e enquanto esperava, bateu uma sensação estranha no peito: meu Deus, será que o Senhor ainda cuida de mim? Uma fagulha pequena esquentou esse coração cheio de ódio. O que ela pensa que está fazendo, ficando com a minha filha no seu quarto? Vai ser desgastante brigar com ela o tempo todo. Ela chegou com Isabela dormindo no colo, os cabelos espalhados nos braços dela — parecia uma mãe perfeita, coisa que eu sei muito bem que ela não é. — Coloca ela no berço. Vamos conversar no meu escritório. — Está bem. Ela veio atrás de mim. — Fala, Leandro — disse ela. Estendi a mão para que ela passasse na frente. Ela obedeceu, andando rápido pelo corredor. Abri a porta do escritório, levantei as persianas e puxei uma poltrona para ela se sentar. Ela agradeceu com um gesto, fechou dois botões da blusa que deixava o colo quase aparecendo e se acomodou. — Por que estava com Isabela no seu quarto? — Ela estava com sono, e… — Entendi. A legítima madrasta — falei com sarcasmo, e os olhos dela ficaram grandes. — E o que você veio fazer aqui, afinal? — Primeiro: não sou sua madrasta. Depois: vim pela minha filha. E quero ter liberdade para ficar com ela, cuidar dela como eu quiser. — Ah, é? E o que foi feito da sua vida enquanto esteve fora? Posso saber? Teve namorados? Conheceu um homem de verdade? Porque o meu pai nunca foi digno de ser marido de ninguém. — Sim, tive um namorado muito melhor que você. Depois casei com um senhor que já faleceu. — Credo… eu nunca casaria com uma mulher que parece matar maridos. Matou dois: o meu pai e esse tal de “gostosão”. — Não! Ele não era o gostosão. O gostosão está vivo — eu só o abandonei por causa da minha filha. — Mas Raquel… ficar com ele não atrapalharia você de chegar perto da menina? — O que isso tem a ver com você? — ela franziu a testa. — Tem a ver que isso atrapalha a minha política. Já tenho a Nair para vigiar, mais uma mulher causando rebuliço vai piorar tudo. Ela ficou pensativa por uns instantes. — Olha, Leandro: eu sei muito bem a hora de procurar o meu ex. Qual é a sua reclamação, afinal? Quer me tirar do seu caminho? — Não quero que você leve a minha filha para o seu quarto. E não quero invadir a sua privacidade — mas por favor, tranque a porta quando estiver lá dentro, certo? Ela me olhou e deu um sorriso de canto. — Está com medo de mim, Leandro? — De você? Eu te vejo como a minha madrasta — respondi firme. Nossos olhares se cruzaram, e por um segundo senti que ela ficou tímida. — Eu nunca fui sua madrasta. Fui mais para a sua ficante. Meu erro, eu sei. E nunca fiquei com o seu pai — se serve de consolo, o meu maior arrependimento foi ter ficado com você. Antes eu não tinha nada, talvez ele pudesse me dar uma vida melhor… mas eu estraguei tudo. — Claro que ia dar! Quando você engravidasse, ele mandava te matar. Fez isso com a minha mãe, chegou a pedir para me abortar também. A minha filha só nasceu porque eu usei de toda a minha esperteza para proteger vocês duas. — E o que você achou de eu ser a mãe da sua filha? — Na hora eu não gostei. Mas fui eu que fiz a criança… no fundo, eu gostei. — E por que você saiu daquela casa? — Porque não suporto a sujeira do que fiz, de ter me envolvido com a mulher do meu próprio pai. E você… como sabia que eu estava vindo? — Te acompanhei no Orkut. Vi as suas fotos, os seus discursos… percebi que é um político metido, mentiroso, vaidoso, que adora enganar esse povo que sonha com uma vida melhor. E sei que não está disposto a fazer nada de verdade por eles. Comecei a rir. — Quer beber algo? — Quero um conhaque. Fiquei surpreso, mas logo voltei ao normal. Ela não é mais aquela menina ingênua e medrosa de antigamente. Cresceu. Mudou. Conheceu o mundo. — Ô patrão — a voz da empregada bateu à porta —, a Lisa deu a papinha da Isabela para a Maya, porque a menina ficou olhando com vontade. — Eu já falei que não é para dar! Quando a Bella olha as coisas da outra, a Nair nem liga — respondi, irritado, e até esqueci que Raquel estava ali. — Mas patrão, é só uma criança… — Como assim? Você não deixa a filha da Nair comer o que é da Isabela? — perguntei para Raquel. — Não. Porque a Nair não deixa a minha filha comer nada que seja da filha dela. — Então a menina não é minha? — Claro que não! Deus me livre! — Pois então: não deixe aquela pestinha pegar nada da minha filha, ouviu bem? — Sabe de uma coisa, Leandro? Não quero que a minha filha seja mesquinha igual o pai. — Então ensina ela a ser trouxa igual a mãe, jogada de um lado para o outro. — Não, Leandro… você não merece nenhuma compaixão. — Como assim? — ergui a sobrancelha de uma vez, me inclinando para frente. — Você é mesquinho, não tem jeito, não pensa antes de falar, diz tudo o que vem na cabeça. — Ah, é bonito isso? E eu sou o golpista? Você casou com um velho rico e ainda se deitou com o filho dele… imagina quantas trapaças já fez por aí — falei encostado na parede, curioso para saber onde ela quer chegar. — Você é um homem mau, sem nenhuma dignidade. E está no lugar perfeito: virou político. As suas atitudes mostram exatamente quem você é: cruel. E se eu não te parar, você vai se espalhar como pólvora por todo canto — e essa pólvora pode virar uma bomba fatal. Sacudi a cabeça: uma doida querendo me dar lição. — Pague para ver, Raquel. — Eu tenho muito dinheiro, Leandro. Não vim aqui de mãos abanando. Não tenho medo de você, vim preparada. — Pague para ver. Nem todo o seu dinheiro vai te fazer chegar perto da sua filha se você tentar virar a cidade contra mim. — Aqui, Leandro, são duas vidas que estão se perdendo por causa do seu egoísmo. Fiquei calado por um bom tempo, pensando. — Só estou te avisando: você vai colher exatamente o que plantou. — Você já passou por cima de algumas leis, não é mesmo? E eu sou a viúva do seu pai… — Vou investigar cada coisa sobre você, Raquel. E não cairei sozinho: se você destruir a minha carreira, eu destruo a sua também. Olhei para a porta, depois para o líquido no meu copo, e voltei os olhos para ela, que me encarava firme. — Está combinado? — perguntou. — Raquel… a sua vingança vai muito além da minha política, não é? É sobre o nosso passado. — Ah, Leandro… eu conheço gente, conheço o mundo. Posso fazer muita coisa com você. O que nós fizemos vai ser só um aperitivo para a sociedade conservadora daqui, e um presente para os seus adversários. — O que está falando, mulher? — É isso mesmo. Você quer me destruir, e eu não vou ficar de braços cruzados. — Eu só pedi para não dar a comida da minha filha para a outra, nem deixar elas brincarem juntas… e você resolveu me desafiar. — Você é perigoso. Está juntando o útil ao agradável, e o seu veneno pode ser fatal. — Não há nada de agradável em usar o poder para machucar pessoas… seria fácil, mas não me serve — falei. Ela levantou da cadeira, veio até mim e parou bem na minha frente. Baixinha como é, teve que levantar o rosto para me olhar nos olhos… e de repente, ela me beijou. Eu a beijei de volta, apertando-a forte contra mim, com toda a vontade que guardei por tanto tempo. Ela gemeu baixinho, e aquele som me deixou louco de desejo. A boca dela é deliciosa, eu poderia ficar ali saboreando por horas. Mas então lembrei: ela está me usando de novo, querendo me ter nas mãos. — Agora, se quiser ficar perto da sua filha, vai ter que trabalhar. Vai fazer os serviços domésticos. Se me desobedecer, uso todo o meu poder para tirar ela daqui — e só eu irei visitá-la. Pode fazer o que quiser contra mim, Raquel… mas você não faz ideia do que sou capaz, até de perder a minha eleição. Eu sou doido, mulher! Vai limpar a poeira de todos os móveis todos os dias, para aprender a se arrepender de ser tão má e calculista. Ela me deu um tapa forte no rosto e limpou a boca com a mão, cheia de repulsa. Eu amando provocá-la. Coloquei a mão firme no seu pescoço, prendendo a cabeça dela contra a porta, os olhos dela brilhando de ódio. — Por que finge que não gostou? — rosnei perto do ouvido dela. — O seu joguinho me intriga. Deve estar acostumada a seduzir qualquer homem para levar vantagem. — E você caiu igual um patinho! Nem precisei fazer força, você caiu rápido. Tão rico, tão bonito… e um fantoche meu. Ela saiu batendo a porta, me deixando furioso. Cobra! Fui atrás dela, peguei ela bem na porta do quarto, empurrei-a para dentro, apertei-a contra a parede e comecei a beijá-la com toda a fúria que havia em mim.Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Fiquei parado na esquina por vários minutos, sem me mexer, pensando se eu ia ou não.Segurando o papel entre os dedos. O vento soprou leve, levando folhas secas pela calçada, mas eu nem prestei atenção. O endereço continuava ali, escrito à mão, simples, direto, sem explicação, sem assinatura, sem nenhuma palavra a mais. Apenas um endereço. Nada mais.Dobrei o papel devagar, com cuidado, e guardei no bolso da calça, apertando com a palma da mão contra o tecido. Fiquei parado mais um instante, olhando a rua, as pessoas passando, os carros seguindo… e então comecei a andar. Mas não na direção do galpão. Ainda não. Precisava pensar primeiro. Respirar. Organizar a cabeça. Porque eu já cometi muitos erros na vida, e a maioria deles aconteceu justamente quando agi sem pensar, guiado só pela raiva ou pela vontade de descobrir tudo de uma vez.O problema é que eu nunca fui muito paciente. Quando queria respostas, corria atrás delas, sem m
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Acordei com a Bella cantando. E não era uma música só, dessas que a gente aprende no rádio e repete sem parar. Era pior. Ela estava misturando três músicas diferentes ao mesmo tempo, trocando as letras, inventando estrofes inteiras, cantando no tom que bem entendia — feliz, alta, sem a menor vergonha de nada.— Bella — chamei, sem abrir os olhos direito.Ela continuou, como se não tivesse ouvido.— Bella — repeti, mais alto.Nada. A voz dela só ficava mais animada.— BELLA!A porta do quarto se abriu de leve e ela apareceu ali, sorrindo de orelha a orelha.— Bom dia, mãe!Sentei na cama, fingindo indignação:— Você sabe que canta mal, não sabe?Ela cruzou os braços, ofendida:— Isso é inveja.— Claro que é — sorri.— É porque eu tenho talento mesmo sou artista — afirmou,ela, agora Bela colocou na cabeça que é artista.Joguei o travesseiro nela. Ela desviou ágil e começou a rir — aquela risada gostosa, que enchia a
ConsequênciasEu vi Bela me olhando,eu fingir que não a vi, fui deitar...Durante a noite não consegui dormi. De jeito nenhum. Tentei. Deitei, fechei os olhos, contei até cem, respirei devagar… mas a mente não parava. Levantei, fui até a cozinha, voltei para a cama. Acendi a televisão, passei os canais, desliguei de novo. Nada funcionava. O envelope continuava ali, sobre a mesa da sala, visível de qualquer canto do cômodo. Parecia-me observar. Me vigiar. Toda vez que eu passava por ele, os olhos desciam sozinhos para a frase, lendo de novo, como se pudesse mudar de alguma forma:"Pare de procurar respostas sobre sua mãe antes que Bella pague o preço."Era impossível ignorar. Se a ameaça fosse contra mim, talvez eu até conseguisse deixar de lado, fingir que não vi. Mas não era. Era ela. A Bela. Uma criança que não tinha nada a ver com isso. Nada. Ela não escolheu nenhum dos lados. Não fez mal a ninguém. Só queria saber de brinquedos, de filmes, de adesivos para enfeitar o caderno. E me
ConsequênciasEu estava na cozinha, com o café fumegando na mesa, quando a Bela apareceu ali na porta, com uma das minhas revistas nas mãos, aberta no meio, os olhinhos brilhando de curiosidade.— Mãe.— Hm? — respondi, sem tirar os olhos da xícara.— Você sabia que a Mônica ideia o Cebolinha?ela bate nele sempre com o coelhinho azul.Olhei para ela por cima da borda da xícara, segurando o riso:— Como é que você observa essas coisas, hein?— Está aqui, ó bem grande! — apontou o dedinho para a página.— E por que você está lvendo essa revista de gente grande? — perguntei, secando a mão no avental.— Pesquisa ,mas o que Cebolinha e Mônica está fazendo na revista de gente grande?— Disse ela, com a seriedade de uma professora.— Eu não queria acabar com sua fantasia, mas a turma da Mônica e mais velha do que eu e você?__ Mas você é velha mamãe? É mais velha que o papai?__ Seu pai é mais velho que eu pouca coisa.__ Não acledito!__Entao tá ficando aí bobinha.Bela ficou séria, endire
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Protagonista: LeandroA primeira coisa que ouvi naquela manhã foi o barulho da torneira pingando na cozinha.Ping.Ping.Ping.Fiquei deitado olhando para o teto durante alguns segundos, contando cada gota, como se aquele som ritmado fosse o único ponto firme num mundo que tinha virado de cabeça para baixo. A casa estava silenciosa. Silenciosa demais. Levantei devagar, sem fazer barulho, sentindo o frio do piso nos pés descalços. Passei pela sala: a televisão de tubo continuava desligada, com a tela escura refletindo a luz fraca que entrava pela janela. Uma xícara esquecida sobre a mesa, ainda com um resto de café escuro no fundo. Uma camisa jogada numa cadeira, como se alguém tivesse tirado às pressas. Tudo parado. Como se a vida inteira tivesse parado para esperar alguma coisa. Ou alguém.Abri a geladeira. O ar frio me bateu no rosto. Peguei o leite, coloquei no fogo. Enquanto a panela esquentava, meus olhos des
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Protagonistas: Leandro e RaquelNão consegui dormir aquela noite. De jeito nenhum. Depois que o Leandro falou sobre o carro parado observando a casa, alguma coisa dentro de mim ficou inquieta, remexendo, não deixando sossego. Fiquei deitada, de olhos abertos, ouvindo cada som da casa: o tic-tac do relógio na sala, o vento batendo forte na janela, os galhos das árvores raspando devagar no telhado como dedos curiosos.A Bela dormia profundamente ao meu lado, serena, abraçada na boneca que a tia Lurdes tinha dado. Às vezes virava para um lado, depois para o outro, sem soltar o brinquedo. Como eu queria ter dormido assim a vida inteira… sem medo, sem lembranças ruins, sem imaginar quem podia estar do outro lado da porta. Fechei os olhos com força, tentei descansar… mas a mente não parou.Quando amanheceu, levantei cedo. Muito cedo. Antes mesmo da tia Lurdes acender o fogo na cozinha. Antes do Leandro. Antes de todo mun







