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Procurando Brechas

Author: Stela
last update publish date: 2026-09-10 09:19:03

Chegando à portaria do edifício, saí do carro para resolver a liberação da vaga enquanto o Augusto estacionava. O porteiro franziu o cenho, confuso com o meu pedido.

​— A senhora tem certeza? Essa vaga costuma ficar vazia, mas...

​— Pode liberar, por favor — respondi, sem paciência para explicar que eu mal havia desembarcado de um voo internacional e que a última coisa na minha cabeça era comprar um carro em São Paulo, muito menos atravessar o Atlântico para buscar o meu nos Estados Unidos.

​Agradeci rapidamente e encontrei o Augusto na entrada do saguão.

​— Tudo certo? — perguntou ele, girando as chaves entre os dedos.

​— Tudo. Vamos?

​Subimos em silêncio. Ao cruzarmos a porta da cobertura, a vista panorâmica da cidade me paralisou por um instante. O mar de luzes dos prédios cortava a neblina densa da noite paulistana. Fazia mais de uma década que eu não pisava ali; a última vez, eu era apenas uma criança de dez anos. Agora, aos vinte e dois, o peso daquela ausência materializava-se nas paredes reformadas.

​O Augusto percebeu meu devaneio e me puxou de volta ao presente:

​— Podemos colocar A Morte Te Dá Parabéns? O que acha?

​— Pode ser — concordei, jogando a bolsa sobre o aparador.

​Enquanto eu ia para o closet trocar os saltos por algo mais confortável, ele lembrou das caixas acumuladas:

​— Você achou aquelas fotos que amanda havia trocado?

​— Sim, elas estão no depósito e logo estarão aqui de volta— respondi, sentindo o cansaço das últimas vinte horas pesando nos meus ombros. — Pede uma pizza de pepperoni. Vou tomar um banho longo, por favor, recebe o entregador quando chegar.

​O banho demorou mais do que o planejado. A água quente ajudava a dissipar a exaustão acumulada no fuso horário. Quando finalmente saí, de cabelos úmidos e moletom largo, a caixa de pizza já estava aberta na mesa de centro e o Augusto assistia à TV sem som enquanto conversava algo no celular.

​— Demorei? — perguntei, secando os fios com uma toalha.

​Ele demorou a responder, distraído com a luz azul do celular.

​— Não... quer dizer, nem notei que você tinha saído.

​Sorri de canto, com um traço de ironia:

​— Eu até te convidaria para um banho, mas não tenho roupas pra você aqui.

​O Augusto desviou o olhar do aparelho e cravou os olhos nos meus, com uma seriedade que cortou qualquer tom de brincadeira.

​— Não se preocupe com isso. A propósito, você já escolheu o outro filme?

​Olhei para o relógio na parede da sala: já passava das onze da noite.

​— Outro filme? É quase meia-noite.

​— Não tenho idade para me preocupar com horários, contanto que esteja na porta da empresa às sete da manhã — retrucou ele, sem o menor traço de humor.

​Aproximei-me da mesa e peguei um pedaço de pizza, embora o estômago estivesse fechado de tensão. Eu sabia muito bem por que ele estava ali. Ele não era apenas um acompanhante inofensivo; era a peça surpresa do jogo, jogando um xadrez sutil para descobrir quais cartas eu pretendia mostrar.

​No meio da trama, senti o peso do olhar dele queimando na lateral do meu rosto. Antes que o silêncio se tornasse insuportável, ele soltou:

​— O que te traz de volta a São Paulo de verdade? Como assim você quer uma fatia da empresa?

​Parei com o pedaço de pizza a centímetros da boca.

​— Do que você está falando?

​— A Amanda me contou que você foi morar para fora, bem nova desde os nove anos. Todo mundo achava que você estava bem longe, vivendo sua vida nos EUA. Mas, de repente, duas semanas atrás antes de voltar, você exige parte das ações do Lionel? Como você pode reivindicar algo de uma empresa que mal conhece?

​O tom dele não era de curiosidade; era de interrogatório policial. Senti o sangue ferver. Aceitar um casamento de conveniência e entrar em uma guerra familiar já era loucura suficiente, mas ter o amor da Amanda me acuando na minha própria sala exigia cautela extrema.

​— Eu vivi nessa empresa com a minha mãe antes de qualquer outra pessoa — falei entredentes, controlando o volume da voz para não ecoar pelo apartamento. — Vi aquilo ser construído do zero. Quando minha avó viu o estrago que meu pai e a Evellyn estavam fazendo com o legado da minha mãe, ela me mandou para longe para me poupar das humilhações. Meus irmãos já eram maiores e sabiam se defender, mas eu não.

​— Tá, mas por que a sua avó não dividiu a herança de forma justa entre todos?

​— Porque quem desestruturou tudo foi o meu pai. Os cinquenta por cento da minha avó ficaram com o Lionel para manter a governança da empresa. Mas a fatia do meu pai deveria ser dividida meio a meio entre mim e o Endrick. A Amanda é apenas filha da Evellyn, ela não tem direito a um centavo dali. Meu pai passou para a enteada o que é meu por sangue. Só que isso não é da sua conta.

​— Mas por que aceitar se casar e me colocar no meio dessa bagunça?

​— Eu não te coloquei em lugar nenhum. Eu apenas aceitei as regras que me impuseram — encerrei o assunto, cortando qualquer margem para continuação.

​O Augusto voltou os olhos para a tela, mas a tensão na sala permaneceu palpável. Ele não havia engolido a história, e eu sabia que aquela conversa era apenas o começo.

​Quando os créditos do primeiro filme subiram, ele virou-se para mim:

​— Qual vai ser o próximo?

​Apontei para o catálogo na tela da TV, escolhendo o primeiro título aleatório que vi pela frente:

​— Jumanji.

​Eu sabia que não aguentaria dez minutos acordada, mas precisava de qualquer barulho para preencher o vazio daquele apartamento. O Augusto perguntou se eu não ia comer mais nada, mas minha mente já estava longe, tentando mapear quais armadilhas a Amanda estaria armando contra mim naquele exato momento.

​Não demorou vinte minutos de filme. Quando o Augusto olhou para o lado, eu já havia apagado no sofá.

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