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Espera

Author: Stela
last update publish date: 2026-09-04 22:26:39

Enquanto aguardava Augusto na entrada lateral, o murmúrio abafado das conversas e o grave contínuo da música eletrônica que escapavam do salão foram cortados por uma risada aguda e Sinica:

​— Olha só... Se não é a alma penada da festa. Querida Amélie, que coragem imensa a sua... Pelo visto, o convite VIP se perdeu no correio, porque a sua presença aqui não é bem vinda; é uma verdadeira afronta.

​Ergui o rosto bem devagar, sentindo o salto alto afundar levemente nas frestas do piso de paralelepípedo da calçada. Amanda estava parada a poucos passos, envolta em um casaco de pele sintética que exalava o perfume caro e enjoativo. Como de hábito, vinha acompanhada por suas duas fantoches — cuja única utilidade era rir das piadas cruéis e inflar seu ego e vaidade .

​Amanda. Que surpresa desagradável ver você antes do previsto — respondi, mantendo a voz nivelada, fria o bastante para não lhe dar o gosto de me ver alterada. — Se sentindo confortável vendo sua farsa começar a desmoronar? Não sei qual é a sua estratégia de autoengano, mas a verdade sempre acha um jeito de vir à tona.

​O sorriso de Amanda endureceu, transformando-se em uma linha fina de pura hostilidade.

​— Você vai pegar o primeiro voo de volta para o buraco de onde saiu e vai implorar para nunca mais pisar aqui.

​— Posso até ir embora, mas antes vou fazer questão de arrancar cada pedaço dessa sua máscara.

​Atrás dela, uma das garotas deu um passo à frente, invadindo meu espaço com uma insolência ensaiada. Os olhos dela desceram pelo corte do meu vestido, medindo o tecido com um desdém fingido.

​— Curioso... Esse modelo tem exatamente o mesmo corte daquela coleção que a Amanda encomendou no mês passado em Milão. Quer apostar quanto que foi esquecido no armário daquele apartamento de onde você foi se apossou?

​Dei um passo firme à frente, encarando a intrusa de cima a baixo com um desprezo palpável:

​— Guarde esse veneno para as suas amigas, gatinha. Eu jamais me rebaixaria a vestir trapos que sequer encostaram na pele da Amanda. Minha mãe, Sônia Fontenelle, é quem sustentou o império e a fortuna que essa gente finge ter por herança — falei, erguendo o queixo com soberba. — Inclusive, convém lembrar que a Amanda só assina esse sobrenome por um casinho de conveniência que meu pai tem com sua mãe .

​A menção direta ao nome de Sônia foi como tocar em um nervo exposto com ferro em brasa. Os olhos de Amanda injetaram-se de um ódio cru, primal, e toda a sua fachada social evaporou. Ela fechou o espaço entre nós em um piscar de olhos, colando o rosto a centímetros do meu.

​— Você não tem a menor noção do terreno em que pisou — disse com, a voz trêmula de raiva reprimida. — Vai se arrepender de cada fôlego que der desde o segundo em que botou os pés de volta nesta cidade.

​O estalo seco do tapa ecoou na fachada de vidro antes que eu sequer pudesse antecipar o movimento. Minha bochecha esquerda ardeu instantaneamente, a força do impacto virando meu rosto e jogando meus cabelos. No mesmo segundo, a garota ao lado aproveitou o meu desequilíbrio para cravar as unhas na alça fina do meu Versace de costas nuas, puxando-a com uma violência brutal para baixo. O tecido cedeu com um estalido de linha, e eu precisei cravar os dedos da mão livre na frente do vestido para não ficar completamente exposta no meio da rua.

​— Devolva o que não te pertence, querida. Claramente é o Vestido da Amanda — a garota disse, rindo alto da minha vulnerabilidade repentina.

​Puxei o tecido de volta ao lugar com um tranco firme, respirando fundo para conter o sangue fervendo nas minhas têmporas enquanto a bochecha pulsava em vermelho-vivo.

​— Querida, se este vestido pertencesse a ela, não estaria moldando o meu corpo com tanta perfeição. Tirei o hoje à tarde, direto da caixa de presente. Tia Marie tem um gosto impecável — devolvi com um deboche venenoso, forçando um sorriso de pura superioridade. — Aliás, tenho outro idêntico em tom de rosa-bebe no meu closet. É o meu preferido para dias entediantes.

​Antes que Amanda pudesse processar o insulto, a mão da outra garota avançou vorazmente, puxando a alça oposta em uma tentativa brusca de me arrancar a roupa ali na calçada.

​— Chega dessa pose ridícula! Tira esse vestido agora mesmo, sua cínica.

​— Tira você, se tiver culhões! — rosnei, travando os braços cruzados contra o peito para segurar o tecido enquanto ela tentava tracionar a seda para a frente.

​— Amanda! Pensei que estivesse me procurando lá dentro — a voz cortante de Augusto rompeu o caos assim que ele empurrou a pesada porta lateral do salão.

​A mudança foi instantânea, digna de uma peça de teatro barata. O semblante raivoso de Amanda derreteu em um segundo, substituído por uma expressão de pura suavidade e inocência ferida. Ela ajeitou o casaco, deu um passo largo em direção a ele com os olhos brilhando em lágrimas falsas e ignorou minha existência por completo.

​— Ah, meu amor... Eu só encontrei a Amélie por acaso. Queria tanto cumprimentá-la, dar as boas-vindas e dizer o quanto meu coração está feliz por vê-la de volta ao nosso convívio — mentiu com uma naturalidade assustadora, roçando o ombro no meu de propósito ao passar.

​Enquanto eu tentava desesperadamente ajeitar as alças rasgadas do vestido com os dedos trêmulos, uma das capachos disparou de costas, em tom escandaloso para atrair os olhares das pessoas na entrada:

​— Não se esqueça de devolver o que surrupiou do armário alheio, Amélie!

​Augusto passou direto por Amanda, ignorando completamente a mão estendida dela, e estacou bem na minha frente. Seus olhos examinaram meu cabelo desalinhado, a respiração curta e o vermelho vívido marcado na minha bochecha.

​— Eu já estou de saída. Vou levar a Amélie para casa agora mesmo e não Volto mais — disse ele, com uma rigidez metálica na voz. Ele abriu a porta do carona com pressa. — Entre, Amélie. Me desculpe a demora lá dentro, meu celular havia sumido, mas agora vamos embora.

​De dentro da antessala iluminada, Amanda perdeu totalmente a compostura, a voz subindo de tom e rompendo o verniz social:

​— Você perdeu o juízo, Augusto?! Por favor, ela não vale o estresse! Foram só cinco minutos que me atrasei, eu só estava conversando com a Amélie...

​— Não quero saber de nada. Divirta-se meu bem conversamos amanhã — Augusto cortou seco, batendo a porta do carro com um baque abafado que silenciou os gritos dela.

​Ele deu a volta pelo capô, entrou no banco do motorista e, assim que o som das travas automáticas ecoou, virou-se para me encarar sob a luz âmbar e fraca do painel. Seus dedos tocaram meu queixo com uma cautela incomum, virando meu rosto para examinar o desenho exato dos dedos de Amanda marcados na minha pele.

​— Ela te bateu? Por qual motivo insano? E que história foi essa de te acusarem de usar o vestido dela? Me fala a verdade, Amélie.

​Dei uma risada curta, o som carregado de amargura enquanto o calor da adrenalina começava a baixar nas minhas veias.

​— Claro que não! Esse vestido é meu, ganhei da tia Marie de aniversário há exatas duas semanas e nunca tinha tido ocasião para usar. Não sobrou absolutamente nada daquela garota no meu apartamento; quando mandei trocar as fechaduras, botei tudo o que era dela em uma mala e mandei pra recepção. Amanhã mesmo vou mandar arrancar aqueles quadros horríveis que ela teve a audácia de pendurar na sala — balancei a cabeça, soltando o ar preso nos pulmões. — Mas, falando sério... Obrigada por ter aparecido na hora exata. Faltou pouco para me deixarem pelada no meio da rua.

​Um canto da boca de Augusto se curvou em um sorriso irônico e tenso, misturando alívio e uma raiva contida que fazia os nós dos dedos ficarem brancos no volante.

​— Bom, fazendo as contas rápido, acho que acabei de salvar a sua pele umas três vezes só nesta noite. Como você me fez perder o restante daquela festa idiota, tecnicamente você me deve uma compensação à altura.

​O encarei com os olhos estreitados, franzindo o cenho em pura incredulidade:

​— Eu te devo? Ficou completamente maluco? O quê exatamente, Augusto?

​— Ah, não sei... Pode ser uma dose dupla de tequila, outra festa qualquer, uma pizza ou um filme ruim. Qualquer pretexto válido para eu continuar grudado em você o resto da noite — concluiu, engatando a marcha com firmeza e acelerando o motor em direção ao conhecido trajeto do meu apartamento.

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