LOGINEnquanto aguardava Augusto na entrada lateral, o murmúrio abafado das conversas e o grave contínuo da música eletrônica que escapavam do salão foram cortados por uma risada aguda e Sinica:
— Olha só... Se não é a alma penada da festa. Querida Amélie, que coragem imensa a sua... Pelo visto, o convite VIP se perdeu no correio, porque a sua presença aqui não é bem vinda; é uma verdadeira afronta. Ergui o rosto bem devagar, sentindo o salto alto afundar levemente nas frestas do piso de paralelepípedo da calçada. Amanda estava parada a poucos passos, envolta em um casaco de pele sintética que exalava o perfume caro e enjoativo. Como de hábito, vinha acompanhada por suas duas fantoches — cuja única utilidade era rir das piadas cruéis e inflar seu ego e vaidade . Amanda. Que surpresa desagradável ver você antes do previsto — respondi, mantendo a voz nivelada, fria o bastante para não lhe dar o gosto de me ver alterada. — Se sentindo confortável vendo sua farsa começar a desmoronar? Não sei qual é a sua estratégia de autoengano, mas a verdade sempre acha um jeito de vir à tona. O sorriso de Amanda endureceu, transformando-se em uma linha fina de pura hostilidade. — Você vai pegar o primeiro voo de volta para o buraco de onde saiu e vai implorar para nunca mais pisar aqui. — Posso até ir embora, mas antes vou fazer questão de arrancar cada pedaço dessa sua máscara. Atrás dela, uma das garotas deu um passo à frente, invadindo meu espaço com uma insolência ensaiada. Os olhos dela desceram pelo corte do meu vestido, medindo o tecido com um desdém fingido. — Curioso... Esse modelo tem exatamente o mesmo corte daquela coleção que a Amanda encomendou no mês passado em Milão. Quer apostar quanto que foi esquecido no armário daquele apartamento de onde você foi se apossou? Dei um passo firme à frente, encarando a intrusa de cima a baixo com um desprezo palpável: — Guarde esse veneno para as suas amigas, gatinha. Eu jamais me rebaixaria a vestir trapos que sequer encostaram na pele da Amanda. Minha mãe, Sônia Fontenelle, é quem sustentou o império e a fortuna que essa gente finge ter por herança — falei, erguendo o queixo com soberba. — Inclusive, convém lembrar que a Amanda só assina esse sobrenome por um casinho de conveniência que meu pai tem com sua mãe . A menção direta ao nome de Sônia foi como tocar em um nervo exposto com ferro em brasa. Os olhos de Amanda injetaram-se de um ódio cru, primal, e toda a sua fachada social evaporou. Ela fechou o espaço entre nós em um piscar de olhos, colando o rosto a centímetros do meu. — Você não tem a menor noção do terreno em que pisou — disse com, a voz trêmula de raiva reprimida. — Vai se arrepender de cada fôlego que der desde o segundo em que botou os pés de volta nesta cidade. O estalo seco do tapa ecoou na fachada de vidro antes que eu sequer pudesse antecipar o movimento. Minha bochecha esquerda ardeu instantaneamente, a força do impacto virando meu rosto e jogando meus cabelos. No mesmo segundo, a garota ao lado aproveitou o meu desequilíbrio para cravar as unhas na alça fina do meu Versace de costas nuas, puxando-a com uma violência brutal para baixo. O tecido cedeu com um estalido de linha, e eu precisei cravar os dedos da mão livre na frente do vestido para não ficar completamente exposta no meio da rua. — Devolva o que não te pertence, querida. Claramente é o Vestido da Amanda — a garota disse, rindo alto da minha vulnerabilidade repentina. Puxei o tecido de volta ao lugar com um tranco firme, respirando fundo para conter o sangue fervendo nas minhas têmporas enquanto a bochecha pulsava em vermelho-vivo. — Querida, se este vestido pertencesse a ela, não estaria moldando o meu corpo com tanta perfeição. Tirei o hoje à tarde, direto da caixa de presente. Tia Marie tem um gosto impecável — devolvi com um deboche venenoso, forçando um sorriso de pura superioridade. — Aliás, tenho outro idêntico em tom de rosa-bebe no meu closet. É o meu preferido para dias entediantes. Antes que Amanda pudesse processar o insulto, a mão da outra garota avançou vorazmente, puxando a alça oposta em uma tentativa brusca de me arrancar a roupa ali na calçada. — Chega dessa pose ridícula! Tira esse vestido agora mesmo, sua cínica. — Tira você, se tiver culhões! — rosnei, travando os braços cruzados contra o peito para segurar o tecido enquanto ela tentava tracionar a seda para a frente. — Amanda! Pensei que estivesse me procurando lá dentro — a voz cortante de Augusto rompeu o caos assim que ele empurrou a pesada porta lateral do salão. A mudança foi instantânea, digna de uma peça de teatro barata. O semblante raivoso de Amanda derreteu em um segundo, substituído por uma expressão de pura suavidade e inocência ferida. Ela ajeitou o casaco, deu um passo largo em direção a ele com os olhos brilhando em lágrimas falsas e ignorou minha existência por completo. — Ah, meu amor... Eu só encontrei a Amélie por acaso. Queria tanto cumprimentá-la, dar as boas-vindas e dizer o quanto meu coração está feliz por vê-la de volta ao nosso convívio — mentiu com uma naturalidade assustadora, roçando o ombro no meu de propósito ao passar. Enquanto eu tentava desesperadamente ajeitar as alças rasgadas do vestido com os dedos trêmulos, uma das capachos disparou de costas, em tom escandaloso para atrair os olhares das pessoas na entrada: — Não se esqueça de devolver o que surrupiou do armário alheio, Amélie! Augusto passou direto por Amanda, ignorando completamente a mão estendida dela, e estacou bem na minha frente. Seus olhos examinaram meu cabelo desalinhado, a respiração curta e o vermelho vívido marcado na minha bochecha. — Eu já estou de saída. Vou levar a Amélie para casa agora mesmo e não Volto mais — disse ele, com uma rigidez metálica na voz. Ele abriu a porta do carona com pressa. — Entre, Amélie. Me desculpe a demora lá dentro, meu celular havia sumido, mas agora vamos embora. De dentro da antessala iluminada, Amanda perdeu totalmente a compostura, a voz subindo de tom e rompendo o verniz social: — Você perdeu o juízo, Augusto?! Por favor, ela não vale o estresse! Foram só cinco minutos que me atrasei, eu só estava conversando com a Amélie... — Não quero saber de nada. Divirta-se meu bem conversamos amanhã — Augusto cortou seco, batendo a porta do carro com um baque abafado que silenciou os gritos dela. Ele deu a volta pelo capô, entrou no banco do motorista e, assim que o som das travas automáticas ecoou, virou-se para me encarar sob a luz âmbar e fraca do painel. Seus dedos tocaram meu queixo com uma cautela incomum, virando meu rosto para examinar o desenho exato dos dedos de Amanda marcados na minha pele. — Ela te bateu? Por qual motivo insano? E que história foi essa de te acusarem de usar o vestido dela? Me fala a verdade, Amélie. Dei uma risada curta, o som carregado de amargura enquanto o calor da adrenalina começava a baixar nas minhas veias. — Claro que não! Esse vestido é meu, ganhei da tia Marie de aniversário há exatas duas semanas e nunca tinha tido ocasião para usar. Não sobrou absolutamente nada daquela garota no meu apartamento; quando mandei trocar as fechaduras, botei tudo o que era dela em uma mala e mandei pra recepção. Amanhã mesmo vou mandar arrancar aqueles quadros horríveis que ela teve a audácia de pendurar na sala — balancei a cabeça, soltando o ar preso nos pulmões. — Mas, falando sério... Obrigada por ter aparecido na hora exata. Faltou pouco para me deixarem pelada no meio da rua. Um canto da boca de Augusto se curvou em um sorriso irônico e tenso, misturando alívio e uma raiva contida que fazia os nós dos dedos ficarem brancos no volante. — Bom, fazendo as contas rápido, acho que acabei de salvar a sua pele umas três vezes só nesta noite. Como você me fez perder o restante daquela festa idiota, tecnicamente você me deve uma compensação à altura. O encarei com os olhos estreitados, franzindo o cenho em pura incredulidade: — Eu te devo? Ficou completamente maluco? O quê exatamente, Augusto? — Ah, não sei... Pode ser uma dose dupla de tequila, outra festa qualquer, uma pizza ou um filme ruim. Qualquer pretexto válido para eu continuar grudado em você o resto da noite — concluiu, engatando a marcha com firmeza e acelerando o motor em direção ao conhecido trajeto do meu apartamento.O silêncio dentro do SUV de Celina parecia palpável, denso e pesado demais para ser ignorado. Enquanto ela manobrava o veículo com precisão para longe da torre monumental da holding na Avenida Paulista, os olhos dela viajavam constantemente do retrovisor para o meu rosto, tentando decifrar o colapso silencioso e a tempestade que fervilhavam sob a minha pele. — Amélie... — Celina começou com a voz vacilante e cautelosa, engolindo em seco antes de continuar. — Você tem certeza de que está bem? Aquela cobra venenosa da Amanda tentou te atingir na ferida mais exposta, mas... aquela foto... Você acha mesmo que o Augusto... — Chega, Celina — interrompi, a voz cortante como vidro quebrado, enquanto cravava as unhas com força nas palmas das mãos para conter o tremor físico que ameaçava me trair. — Não pronuncie o nome dele. Não agora. O trajeto até a cobertura foi feito sob uma redoma de gelo absoluto. Assim que cruzamos a porta de entrada, joguei a bolsa sobre a poltrona de design a
O zumbido eletrônico e vibrante do meu novo celular quebrou o silêncio denso e abafado da sala executiva de forma abrupta, como o estalo de um chicote. Quando encarei a tela iluminada, o meu estômago despencou em uma ladeira vertical de gelo e fogo, fazendo o ar sumir instantaneamente dos meus pulmões. Não eram mais fotografias granuladas e distantes capturadas por paparazzi de plantão em eventos corporativos na alta sociedade internacional. Era uma mensagem anônima, crua e descarada, disparada diretamente para o meu número privado, contendo um único arquivo de imagem em alta definição. Na foto — capturada em um ambiente fechado, íntimo e suntuoso que parecia ser a suíte de cobertura de um hotel de luxo em Chicago —, Augusto segurava o rosto de Amanda com uma firmeza devastadora, colando os lábios nos dela em um beijo profundo, febril e completamente inegável. A data e o horário cravados no rodapé do arquivo não deixavam margem para qualquer dúvida ou ilusão: havia sido tirada pou
O zumbido abafado do ar-condicionado na minha nova sala na torre executiva da Avenida Paulista parecia o único som constante naqueles dias em que a ausência de Augusto se prolongava muito além do prazo estipulado. Os "poucos dias" em Chicago haviam se estendido por uma semana inteira, depois por dez dias, e agora, completava quase duas semanas de silêncio estratégico e reuniões internacionais intermináveis.A princípio, usei cada minuto daquela liberdade para consolidar o meu domínio sobre a transportadora de Sônia. A frota estava reestruturada, os contratos fraudulentos de Lionel haviam sido cancelados e a construção da capela de vidro avançava a passos largos de acordo com o meu projeto arquitetônico original. No entanto, o vazio deixado pela ausência do CEO começou a dar lugar a uma fisgada incômoda de frustração.As ligações diárias haviam minguado para mensagens secas de relatórios corporativos. E o pior não era a distância física — era o que os tabloides internacionais começa
O ronco abafado e potente do motor do carro executivo de Augusto mal havia sumido na curva silenciosa da rua quando voltei para dentro da cobertura. O cheiro denso do perfume amadeirado dele ainda impregnava os lençóis de seda e flutuava no ar, um lembrete físico e recente da calmaria clandestina que havíamos compartilhado horas antes. Mas a nostalgia durou apenas o tempo exato que levei para caminhar até o closet, calçar meus sapatos de salto agulha e assumir o comando implacável do meu dia. Se o CEO achava que cruzar o hemisfério rumo a Chicago seria suficiente para me manter à distância ou ocupada apenas com as trivialidades de uma noiva decorativa, ele estava prestes a descobrir que a mulher que ele escolheu para dividir o império — e a cama — não sabia o que era passar o tempo sentado esperando. Minutos depois, o celular sobre a bancada vibrou com uma mensagem direta e sem filtros de Celina: "Estou estacionada na sua porta com o SUV alugado, um balde de café gelado ext
O calor denso da exaustão e o rastro do ritmo frenético daquela madrugada ainda pareciam pairar pesadamente sobre os lençóis amassados da cama king-size, impregnados com o aroma amadeirado que teimava em não se dissipar. Foi nesse silêncio frágil que o som nítido, insistente e mecânico do alarme do celular cortou o ar do quarto, rasgando o encanto. Abri os olhos com extrema lentidão, piscando contra a claridade difusa e pálida da aurora que começava a tingir o céu de um cinza melancólico através das frestas da cortina blackout. Senti o peso reconfortante e familiar do braço de Augusto cruzado firmemente sobre a minha cintura, mantendo-me colada ao seu peito nu. Mas, bastou um segundo de lucidez para que o corpo dele, antes relaxado, adquirisse uma rigidez quase militar. Augusto despertou com a precisão mecânica de quem vive com a vida estritamente cronometrada por fusos horários implacáveis e crises financeiras de escala global. Ele silenciou o alarme com um toque brusco e rá
O som da campainha rasgou o silêncio denso da cobertura com uma insistência metálica que fez o meu coração dar um salto violento contra as costelas. Franzi o cenho, olhando de relance para o visor digital do painel na mesinha de centro: eram quase dez horas da noite.Pensei imediatamente em Celina, incapaz de conter a ansiedade sobre a capela de vidro, a paleta de cores ou qualquer outro detalhe sufocante dos preparativos do casamento. Caminhei a passos firmes até a entrada, destranquei a fechadura de segurança e puxeis a porta, já com a reclamação ensaiada na ponta da língua.As palavras morreram sufocadas na minha garganta.Augusto estava parado ali. O terno cinza-chumbo da grife italiana estava impecável, mas os ombros largos carregavam a eletricidade de quem havia jogado o cronograma pela janela. Ele havia acabado de se despedir de mim minutos antes, avisando que a viagem de trabalho estava marcada para as seis da manhã. Na mão direita, ele segurava uma garrafa de vinho tinto







