— Mimar a senhorita Rosana? — Jéssica piscou, voltando subitamente à realidade.
— Sim, ela acabou torcendo o pé num descuido, e o senhor Lucas não saiu do lado dela nem por um segundo, morrendo de medo que ela sentisse qualquer dor. O romance desses dois parece até coisa de novela, é tão lindo de se ver. — Comentou a enfermeira, abrindo um sorriso encantado.
Ao ouvir aquilo, o rosto de Jéssica perdeu a cor.
Então era isso. Lucas a havia deixado à própria sorte, abandonando-a no momento em que mais precisava, apenas para fazer companhia a Rosana por causa de um simples tornozelo torcido.
Embora tivesse dito a si mesma inúmeras vezes que precisava esquecer esse amor, os quatro anos de dedicação genuína não podiam ser apagados num passe de mágica. A verdade era como uma agulha perfurando seu coração, roubando-lhe o ar e a sufocando de dor.
Notando a mudança brusca em seu semblante, a enfermeira se aproximou com pressa e perguntou:
— Senhorita Jéssica, você está se sentindo mal? Onde dói?
Jéssica fechou os olhos por um instante, puxando o ar com força para tentar estabilizar a respiração e retomar o controle.
— Obrigada pela preocupação, mas eu já estou bem. — Respondeu ela, forçando uma voz calma.
— Certo, vou dar uma olhada nos outros pacientes. Qualquer coisa, é só apertar a campainha. — Avisou a enfermeira, dando as costas e saindo do quarto em seguida.
Sozinha no ambiente silencioso, a mente de Jéssica virou um turbilhão. A lembrança de tudo o que havia enfrentado naquelas últimas horas a deixava atordoada, incapaz de organizar os pensamentos. Sentindo que ficaria louca se continuasse deitada, decidiu sair da cama e dar uma volta pelos corredores do hospital. O que ela não esperava, no entanto, era dar de cara com Rosana, que caminhava com dificuldade pelo corredor, amparada por uma cuidadora.
A expressão da mulher ao vê-la foi impagável. Ela arregalou os olhos como se tivesse acabado de ver uma assombração.
— Jéssica! O que você está fazendo aqui?! — Exclamou Rosana, o choque transparecendo em cada sílaba.
Graças aos anos lidando com os mais diversos tipos de clientes, Jéssica havia desenvolvido uma habilidade afiada para ler expressões faciais, e bastou um único olhar para captar a culpa e o pânico escondidos por trás daquele espanto todo.
Ligando os pontos com o fato de que os dois agressores sabiam exatamente que ela era a mulher de Lucas, uma suspeita assustadora, porém lógica, formou-se em sua mente: "Foram contratados por ela. Rosana mandou aqueles homens atrás de mim."
Para testar sua teoria, Jéssica deu passos firmes até parar bem na frente da rival, mantendo uma postura inabalável.
— Senhorita Rosana, se eu não estivesse num hospital, onde mais deveria estar? — Rebateu, o tom de voz carregado de uma frieza calculada.
Era inegável que Rosana tinha um talento nato para a atuação. O pavor sumiu de seu rosto na velocidade da luz, sendo logo substituído por uma máscara de mágoa e falsa preocupação.
— Eu só... eu achei que você estivesse seguindo o senhor Lucas de novo. — Murmurou ela, num tom de voz que não era alto, mas perfeito para que os pacientes e funcionários ao redor escutassem.
Logo, dezenas de olhos curiosos se voltaram para Jéssica, julgando-a como se ela fosse alguma fã obsessiva e desequilibrada. Em vez de se desesperar com a humilhação pública, Jéssica apenas abriu um sorriso educado.
— Eu já tinha um retorno médico agendado por causa do meu acidente de carro. E sobre o motivo de eu ter sofrido esse acidente, você quer mesmo que eu explique em alto e bom som para todo mundo ouvir?
Como Rosana e Lucas haviam acabado de assumir o relacionamento para a mídia, a última coisa que a moça queria era que a existência de Jéssica viesse à tona. Se ela abrisse a boca e contasse que os dois estavam no mesmo acidente de carro, a fofoca renderia manchetes por semanas e a imagem do casal perfeito iria por água abaixo.
Completamente encurralada, Rosana mordeu o interior do lábio com força, tentando disfarçar a raiva.
— Ah, entendi. Então foi um mal-entendido da minha parte. Não vou mais te incomodar.
Ao passar por Jéssica, porém, ela diminuiu o passo por uma fração de segundo e sussurrou, num tom venenoso que apenas as duas podiam escutar:
— Desista, Jéssica. Pare de lutar por algo que nunca vai ser seu. Não importa o que aconteça, o Lucas jamais vai olhar para você de novo. Se você não aprender o seu lugar agora, da próxima vez não vai ser apenas um acidente de trânsito.
Aquelas palavras carregavam o peso de um aviso, soando quase como uma ameaça de morte. Sem se dar ao trabalho de responder a uma provocação tão baixa, Jéssica deu as costas e retornou ao seu quarto. Mas ela não era ingênua; sabia muito bem do que Rosana era capaz para manter seu status. Parada em frente à janela, refletiu por alguns segundos antes de pegar o celular com determinação.
— Alô? Eu gostaria de fazer uma denúncia.
...
Na delegacia de polícia, o desenrolar dos fatos surpreendeu a todos. A eficiência das autoridades foi implacável. Pouco tempo após a ligação de Jéssica, a polícia rastreou as câmeras de segurança da rua e encontrou os dois bandidos gemendo de dor numa clínica clandestina.
Antes de levá-la para a sala de reconhecimento, o investigador decidiu prepará-la para o que estava por vir.
— Senhorita Jéssica, acho bom você ter estômago forte. O estado deles não é dos melhores, então pode ser um pouco difícil identificá-los de cara.
Ela franziu o cenho, confusa com o aviso, até entrar na sala e se deparar com a cena patética. Os dois brutamontes estavam com os rostos tão inchados e desfigurados que mais pareciam dois pedaços de carne moída. Um deles não conseguia firmar a perna no chão, enquanto o outro segurava o braço com uma fratura visível.
Antes mesmo que ela pudesse dizer qualquer coisa, os agressores arregalaram os olhos ao vê-la e começaram a berrar, pulando feito animais encurralados. Eram precisos quase cinco policiais para segurá-los.
— Moça, pelo amor de Deus, perdoa a gente! A gente cometeu um erro terrível! Contamos tudo, entregamos qualquer um!
— É verdade, é verdade! A gente estava atolado em dívida de jogo, aí um cara rico ofereceu uma grana alta para a gente ficar de tocaia na porta do hospital ontem à tarde. O plano era te pegar de jeito e... gravar um vídeo de tudo.
"Eles confessaram assim, sem mais nem menos?", pensou Jéssica, perplexa.
O nível de pavor naqueles olhos a fez questionar o que diabos havia acontecido depois que ela perdeu a consciência. A imagem de um olhar intenso e escuro sob a chuva torrencial invadiu sua mente de repente.
Quem era aquele homem que a salvou?
Até mesmo os detetives estavam boquiabertos, admitindo ser o interrogatório mais rápido de suas carreiras. Com as informações entregues de bandeja, não demorou muito para descobrirem que o homem que havia pagado a dupla era o guarda-costas pessoal de Rosana. Sem perder tempo, a polícia intimou todos os envolvidos a comparecerem à delegacia.
A única peça que não se encaixava naquele quebra-cabeça era a pessoa que acompanhava Rosana. Assim que Lucas pisou na delegacia e seus olhos encontraram os de Jéssica, uma sombra densa tomou conta de seu rosto. Ele não lhe deu a menor chance de explicação, disparando palavras afiadas como navalhas no meio de todos:
— Jéssica! Tinha que ser você de novo! Você não tem um pingo de vergonha na cara? Quando é que vai parar de correr atrás de mim feito um cachorro abandonado?
A agressividade daquela voz ecoou pelo ambiente, fazendo um silêncio pesado recair sobre a sala. A mente de Jéssica zumbiu. Ao ver aquele homem imponente, cego de raiva para defender a mulher que amava, uma vontade irônica de rir tomou conta dela. Mas era um sorriso banhado na tristeza e na decepção de quatro anos jogados no lixo.
Infelizmente, os sentimentos dela eram irrelevantes para Lucas. Para ele, Jéssica não passava de um estorvo inconveniente. Ele até se achava compreensivo, acreditando que ela estava tão perdidamente apaixonada que não conseguia aceitar o fim. Mas arrastar Rosana para aquela confusão já era cruzar todos os limites. Rosana era pura, intocável, completamente diferente dela.
"Quando é que ela vai se colocar no seu devido lugar?", ele pensava com repulsa.
— Eu achei que você tivesse um pingo de orgulho, Jéssica. — Zombou ele, o tom carregado de desprezo. — Mas pelo visto, você está disposta a qualquer baixaria. Sugiro que você pare com esse teatrinho ridículo agora mesmo.
Suas palavras soaram como uma ordem absoluta, enquanto seus braços envolviam os ombros da namorada num gesto protetor, como se quisesse blindar sua garotinha frágil da maldade do mundo. Aninhada contra o peito dele, Rosana estava com os olhos marejados, a personificação da inocência injustiçada. No entanto, quando Lucas não estava olhando, o brilho que ela lançou para Jéssica foi de pura malícia e triunfo.
Jéssica entendeu tudo na mesma hora. Aquela sonsa já havia convencido Lucas de que o ataque não passava de uma armação, um showzinho patético orquestrado pela própria vítima. Lucas era um homem arrogante e dono da verdade; nunca daria ouvidos a terceiros. Em vez disso, decidiu engolir a versão mentirosa de Rosana sem questionar sequer uma vírgula.
Estava claro que ele a amava, e Jéssica compreendia isso perfeitamente. Mas o que ela tinha a ver com aquele amor tóxico?
Jéssica ergueu o queixo, sustentando o olhar furioso do ex com uma frieza cortante.
— Senhor Lucas, se defender meus direitos e buscar justiça é fazer teatrinho, então as leis deste país não servem de nada para o senhor?
— Jéssica! — O tom de voz dele subiu uma oitava, os olhos cravados nela com um peso esmagador. Era uma clara intimidação, uma tentativa de forçá-la a recuar e perceber que o havia deixado furioso.
Diante daquela pressão, Jéssica franziu a testa e mordeu o lábio inferior por reflexo. Era uma mistura de resistência e impotência, um hábito que havia desenvolvido ao longo daqueles quatro anos sempre que precisava lidar com o temperamento explosivo dele. Era difícil apagar velhos costumes do dia para a noite.
Ao notar aquele pequeno gesto, Lucas soltou um riso anasalado, repleto de prepotência. Ele sabia. Sabia que, no fundo, toda aquela pose não passava de uma farsa e que ela continuava apavorada com a ideia de irritá-lo. Certo de sua superioridade, ele a ignorou completamente e se virou para a autoridade policial de plantão.
— Isso tudo não passa de um mal-entendido absurdo criado pela própria Jéssica. Não há crime nenhum para ser investigado aqui. E se uma única palavra do que aconteceu hoje vazar, todos vocês vão ter que prestar contas aos seus superiores. Fui claro?
Dito isso, ele passou direto por Jéssica, abraçado a Rosana, conduzindo-a em direção à saída do local.
— Não precisa ter medo de nada. Enquanto eu estiver aqui, ela nunca vai conseguir te machucar. — Sussurrou Lucas, a voz derretendo de carinho, tratando as acusações sérias como se fossem um inseto que pudesse esmagar com a sola do sapato. — As joias exclusivas que encomendei para você já chegaram. Vou te levar para provar.
— Eu não ligo para joias... A única coisa que importa é saber que você sempre vai estar do meu lado para me proteger. — Respondeu Rosana com uma voz doce, inclinando-se para ficar ainda mais colada nele. Pelo canto do olho, lançou um último olhar vitorioso para Jéssica.
Ela já havia deixado o recado muito bem dado, que não importava o quanto Jéssica tentasse, Lucas nunca mais voltaria a olhar para ela.
— Sua bobinha.
Fazendo questão de esfregar aquela cena na cara da ex-namorada, Lucas apertou a ponta do nariz de Rosana num gesto íntimo e afetuoso, apenas para destruir qualquer resquício de esperança.
Jéssica, por sua vez, passou por cima daquela demonstração nojenta de afeto como se eles fossem invisíveis, focando toda a sua atenção no oficial à sua frente.
— Ele pode simplesmente decidir que não houve crime e mandar a polícia encerrar a investigação?
O policial não hesitou em se posicionar:
— De maneira nenhuma, senhora. Garantimos que a lei será aplicada de forma justa e imparcial.
Ao escutar aquela troca de palavras, os passos de Lucas pararam bruscamente. Seu olhar escureceu, carregando uma ameaça silenciosa.
— Jéssica, você tem a audácia de dizer na minha cara que eu sou um dos envolvidos no crime? Que tipo de lixo você está inventando agora?
Jéssica abriu um sorriso gélido.
— E quem foi que disse que o senhor não está, senhor Lucas?