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Capítulo 7

Autor: Pequena Letra
— O que você disse? — Indagou ele, quebrando a tensão no ar.

Com o olhar sereno e inabalável, Jéssica respondeu:

— Eu disse que tanto você quanto a Srta. Rosana estão envolvidos neste caso.

Lucas foi pego de surpresa. Em toda a sua vida, jamais imaginou que Jéssica teria a audácia de desafiá-lo daquela maneira.

Ela notou a perplexidade estampada no rosto dele, mas preferiu ignorar o ego ferido do herdeiro, caminhando a passos firmes na direção dos dois arruaceiros.

— Quero que repitam tudo o que aconteceu. — Exigiu ela, com a voz firme. — E prestem bem atenção, quero ouvir cada detalhe sem omitir absolutamente nada.

Intimidados pelo olhar cortante da mulher, os criminosos concordaram com a cabeça e começaram a relatar os fatos de novo. No entanto, no exato momento em que mencionaram a ordem de "brincar um pouco com a mulher do senhor Lucas", ambos desviaram os olhos por instinto para o herdeiro. A cor sumiu do rosto de Lucas e Rosana, dando lugar a uma expressão de puro constrangimento.

O verdadeiro vínculo entre Jéssica e Lucas era um segredo que, naquela sala, pertencia apenas aos três. Como o intocável segundo filho da prestigiada família Pereira, Lucas mantinha uma postura possessiva. Mesmo após o término, no fundo de sua mente, ele ainda a considerava sua propriedade. Se ele a havia descartado, jamais permitiria que bandidos de rua colocassem as mãos nela. E se a ordem não partira dele, só restava uma única pessoa...

Percebendo a linha de raciocínio, Rosana perdeu a compostura e partiu para a defensiva:

— O que você está insinuando com isso, Jéssica? Está querendo dizer que contratei pessoas para te assediar? Desde que eu e o Lucas assumimos nosso relacionamento, você não para de correr atrás dele! E agora traz esses marginais para inventar mentiras, tudo porque não suporta ver a nossa felicidade?

Habilidosa na manipulação, ela distorceu a linha do tempo e pintou a rival como uma ex-namorada obcecada e rejeitada. E com as lágrimas que agora escorriam por seu rosto, a encenação beirava a perfeição. Mas o teatro desmoronou no segundo seguinte, quando, para a surpresa geral, Jéssica começou a bater palmas lentas e irônicas.

— Que belo discurso, Srta. Rosana. — Ironizou Jéssica, mantendo a postura altiva. — Mas me explique uma coisa, como uma pessoa comum como eu conseguiria perseguir alguém com o poder do senhor Lucas? Ele não é ingênuo a ponto de se deixar assediar por qualquer mulher. A única explicação lógica é que alguém está usando o meu nome para destruir o relacionamento de vocês. Afinal, quem seria burro o bastante para dizer a dois estranhos que eu sou "a mulher" dele? Até porque... sabemos que isso não é verdade. Não é mesmo, senhor Lucas?

O silêncio pesado do herdeiro e sua feição sombria deixaram claro seu desconforto. Sem se importar, Jéssica prosseguiu com sua linha de raciocínio implacável:

— A internet inteira acompanha esse romance de novela de vocês. Nenhuma mulher em sã consciência tentaria ser a amante no meio disso tudo. Concorda comigo, Srta. Rosana? Então, se a pessoa que planejou isso fez questão de envolver o nome dele, o alvo principal só pode ser o próprio senhor Lucas. Por segurança, a polícia precisa investigar isso a fundo para limpar os nossos nomes. E acho que o melhor ponto de partida são esses dois aqui.

Ao terminar, ela apontou para os agressores.

"Vamos ver quem vai perder a cabeça primeiro", pensou ela consigo mesma. Seria fascinante se a polícia desenterrasse o passado dela com Lucas e expusesse Rosana como a verdadeira amante da história. Ou, quem sabe, Rosana e os arruaceiros começassem a se devorar ali mesmo. Qualquer um desses cenários daria uma excelente manchete de jornal.

Os dois criminosos já haviam levado uma surra daquelas e cada respiração era um tormento. Diante da ameaça de serem acusados de conspiração contra o poderoso clã Pereira, o desespero tomou conta.

— Mentira! Contamos a verdade! — Berrou um deles, em pânico.

— Foi ele! — O outro apontou para o segurança de Rosana. — Foi esse cara que ligou dizendo que a garota era um lixo descartado pelo senhor Lucas, e mandou a gente não ter pena!

O segurança cerrou os punhos e rebateu com ferocidade:

— Bando de mentirosos! A única coisa que fizemos foi jogar umas partidas de baralho, e eu acabei perdendo um dinheiro para vocês!

Em resposta, o agressor sacou o celular do bolso num movimento brusco:

— Eu gravei a ligação! Acha que nós somos idiotas? A gente nunca entra num serviço sujo desses sem uma garantia.

Sem demora, ele deu play no áudio, e a voz áspera do segurança ecoou pela delegacia:

— A Jéssica é a mulher do Lucas. Façam muitos vídeos, quanto mais pele aparecer, melhor. A garota tem um corpo espetacular, de enlouquecer qualquer um. Vocês vão se divertir e ainda levam cem mil pelo serviço.

Ouvir aqueles homens nojentos objetificando seu corpo fez o estômago de Jéssica revirar num enjoo profundo. A policial feminina que acompanhava o depoimento notou o desconforto da jovem e se posicionou numa postura protetora ao seu lado, elevando o tom de voz com autoridade:

— O que vocês acham que isso aqui é? Um boteco de esquina onde cada um fala o que quer e vai embora? Todos vão seguir os procedimentos legais!

Na mesma hora, outros agentes bloquearam a saída da sala. Esse gesto aqueceu o coração de Jéssica, e a tensão que esmagava seu peito começou a se dissipar.

Agora era a vez de Rosana sentir o chão sumir sob seus pés. Ela jamais imaginou que Jéssica teria a coragem de acionar a polícia após sofrer uma humilhação daquelas. Qualquer investigação a partir dali apontaria direto para ela.

"Por que aquela maldita não morreu num acidente de carro?!", praguejou Rosana em pensamentos. Rangendo os dentes de ódio, ela lançou um olhar fulminante para o seu lacaio incompetente.

Entendendo o recado mudo de sua patroa, o segurança assumiu a culpa no mesmo instante:

— A ideia foi toda minha. A Srta. Rosana não tem nada a ver com isso. A família dela sempre foi muito generosa comigo. Eu vi o quanto essa Jéssica incomodava a minha chefe correndo atrás do namorado dela, então decidi resolver o problema por conta própria.

Para o segurança, a matemática era simples. Entre enfrentar a ira da poderosa família Xavier e passar uns tempos na prisão, a cadeia era o mal menor. Com lágrimas de crocodilo nos olhos, Rosana levou as mãos à boca, fingindo um choque profundo.

— Como... como você foi capaz de uma crueldade dessas? Eu não posso mais manter você na minha equipe. Mas fique tranquilo, nós cuidaremos muito bem dos seus pais enquanto você estiver pagando pelos seus erros.

A ameaça velada sobre seus pais foi absorvida pelo segurança, que, de mãos atadas, apenas abaixou a cabeça e aceitou o próprio destino.

Logo em seguida, Rosana agarrou o braço de Lucas, soluçando baixinho, apenas para perceber que ele estava com a mente a quilômetros dali. Ao seguir a direção do olhar dele, deparou-se com Jéssica. A máscara de fragilidade e vitimismo quase rachou ao meio, consumida pelo ciúme.

Para o alívio dela, a voz do policial cortou a atmosfera pesada:

— Srta. Jéssica, deseja acrescentar mais alguma coisa ou tem alguma dúvida?

— Não. Isso é tudo.

A verdade nua e crua era que Jéssica daria tudo para colocar a verdadeira culpada atrás das grades. Contudo, tanto a influência da família Xavier quanto a proteção cega de Lucas tornavam isso uma missão impossível. Sozinha, ela não tinha recursos para bater de frente com a elite da cidade.

Ainda assim, seu objetivo principal fora alcançado. O show que havia acabado de dar serviu como um aviso claro, garantindo que Rosana pensasse duas vezes antes de tentar qualquer truque sujo.

Enquanto ponderava sobre os próximos passos, sentiu o olhar intenso de Lucas pesando sobre ela. Ao encará-lo por reflexo, uma sensação de desconforto a invadiu, fazendo-a virar o corpo de lado para cortar o contato visual.

— Então me acompanhe para revisarmos o seu depoimento. — Instruiu a policial. — Se estiver tudo certo, você assina os papéis e está liberada.

— Combinado. — Respondeu ela.

Sem lançar um segundo olhar para o casal, Jéssica passou direto por Lucas e Rosana, seguindo a oficial pelo corredor. Apesar de ignorado, o herdeiro não conseguia desviar os olhos das costas dela. Observando a cena com os lábios cerrados, Rosana processou a situação e, em poucos segundos, traçou uma nova estratégia. Enlaçando o braço dele, sussurrou com voz mansa:

— Me perdoe, meu amor. A culpa foi minha por causar esse mal-entendido entre vocês. Mas pela reação da Jéssica, parece que ela já sabia de tudo desde o começo. Por que ela faria um escândalo desses na delegacia? Será que ela... só queria chamar a sua atenção e fazer você sentir pena dela?

As palavras doces trouxeram Lucas de volta à realidade. A dúvida que pairava em seus olhos sumiu, dando espaço para uma arrogante convicção.

"Para me fazer lembrar do passado, ela apelou até para o papel de vítima indefesa", concluiu ele, num acesso de narcisismo. O pensamento o agradou. Quando ele decidisse "recuperar sua memória", Jéssica voltaria correndo para seus braços como um cachorrinho manso.

— Tinha que ser coisa dela. — Murmurou ele, com um sorriso frio e presunçoso brincando nos lábios. — Só a Jéssica para inventar um teatrinho desses.

Fingindo angústia, Rosana apertou o braço dele:

— Aposto que ela vai vir choramingar para você assim que sair daqui, já que o erro foi do meu funcionário. O que eu faço agora?

Num gesto de posse e conforto, Lucas passou o braço ao redor da cintura da Rosana e ergueu o queixo dela com os dedos.

— O trabalho da Jéssica é servir aos outros, ela já está acostumada a engolir sapos. Mas você é diferente. Comigo ao seu lado, ninguém neste mundo vai ousar te fazer mal.

Um sorriso triunfante iluminou o rosto de Rosana enquanto ela se aninhava no abraço protetor. No entanto, o que ela não podia ver era a expressão de escárnio que tomou conta das feições de Lucas enquanto ele encarava a porta vazia.

Tudo fazia sentido agora. Aquela rápida troca de olhares antes de ela sair não tinha sido por acaso. Ela estava esperando que ele fosse atrás dela.

Assim que ela voltasse com o papel assinado, ele faria questão de destruir as esperanças da garota, mostrando que aqueles joguinhos de dar pena não funcionavam com ele.

Foi então que passos firmes começaram a ecoar no corredor lá fora...

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