O cheiro de pólvora e óleo de máquina que o Marcos trouxe para dentro de casa naquela madrugada impregnou os lençóis de linho. Eu estava sentada na ponta da cama, no escuro do nosso quarto, abraçando as minhas próprias pernas enquanto ouvia o som da água do chuveiro caindo no banheiro. O barulho da água parecia tentar lavar o sangue invisível que ele trouxera do asfalto, mas eu sabia que nenhum sabão no mundo seria capaz de limpar a sujeira em que a nossa vida tinha se atolado de vez.Eu não aguentava mais. Juro por Deus, a minha alma tinha chegado a um ponto de ruína que nem a medicina, nem o amor, nem a fé conseguiam costurar.Olhei para o berço de madeira no canto do quarto. O pequeno Márcio Henrique dormia um sono pesado, inocente, sem saber que poucas horas antes a sua cabeça fora alvo de tiros de fuzil na Curva do S. O meu peito subia e descia numa respiração curta, desregulada, tomada por uma crise de ansiedade que parecia esmagar as minhas costelas. O meu corpo inteiro ainda t
Last Updated : 2026-09-17 Read more