Aurora Bellini
No dia em que a mansão pegou fogo, meu marido trancou a porta do quarto para salvar o poodle de seu primeiro amor.
Do outro lado da porta, protegi a barriga saliente com as mãos e implorei para que ele abrisse, enquanto a fumaça densa me sufocava, quase me levando à morte.
Mas Gustavo Rocha apenas soltou uma risada fria:
— O cachorro da Maria também merece viver! Você aguenta muito mais do que isso. Não vai morrer só por causa de um pouco de fumaça! Não use nosso filho para tentar chamar minha atenção de uma forma tão baixa!
Com o cachorro nos braços, ele virou as costas e foi embora, não sem antes cobrir cuidadosamente o focinho do animal com uma toalha molhada.
Durante nossos três anos de casamento, escondi a verdade de Gustavo, dizendo que trabalhava com cadáveres e que minha família não tinha dinheiro nenhum.
Porque eu tinha medo de matá-lo de susto.
Meu pai é um renomado especialista em serviços funerários e cremação, e minha mãe se especializou em maquiagem mortuária para condenados à pena de morte.
Meu irmão consegue ser ainda mais assustador: seu maior passatempo é colecionar ossos humanos.
Nossa família sempre soube caminhar entre o mundo legal e o ilegal.
No instante em que as chamas lamberam a barra do meu vestido, enviei uma mensagem de voz para minha família.
— Pai, Gustavo disse que quer experimentar como é não conseguir morrer de verdade.
Assim que a mensagem foi enviada, o destino de Gustavo e de seu primeiro amor ficou selado: eles acabariam reduzidos a um pó ainda mais fino do que as cinzas de um crematório.