Carinho Pro Lixo
Mal voltou vitorioso da guerra, Adriano, o príncipe herdeiro com quem cresci, usou toda a glória conquistada a serviço do Império para pedir a mão da minha irmã.
Mas o decreto imperial trouxe também o meu nome. Para conter o poder militar da minha família, a Casa de Montelar, o imperador decidiu que eu seria a segunda esposa do príncipe.
Adriano demorou os olhos sobre meu nome. No fim, não contestou a ordem. Apenas se ajoelhou e inclinou a cabeça.
— Como ordenar, meu pai.
Depois de casada, continuei a fazer o que me dava na cabeça. Num dia, pulava o muro para assistir a uma peça, no outro, saía da cidade a galope. Quando arranjava confusão, era sempre ele quem resolvia tudo.
Minha irmã, sempre tão correta e dedicada, cuidava dos nossos sogros e administrava o imenso palácio sem deixar nada fora do lugar.
Ele respeitava minha irmã e cedia aos meus caprichos. Até as noites dividia por igual: uma com ela, outra comigo.
Eu achava que, comigo, havia algo mais.
Guardei o chicote, contive meu gênio e passei a ajudar minha irmã com a casa. Comecei até a sonhar com um filho nosso.
Mas sete anos se passaram. Minha irmã lhe deu três filhos, nos meus aposentos, o silêncio continuou o mesmo.
Até o dia em que derrubei, sem querer, o tônico que tomava havia sete anos.
O médico da corte, que veio me examinar como de costume, me disse que aquele preparado servia para causar esterilidade.
Fiquei um longo tempo sem reação. Depois de verificar meu pulso, ele continuou:
— O uso prolongado já comprometeu seus órgãos, Alteza. Mesmo que pare de tomar hoje, receio que lhe restem menos de três meses de vida.
Olhei pela janela para aquele cavalo, agora velho, sem o vigor de antes.
Me impuseram aquele casamento. E eu, para ser sua esposa, renunciei à minha natureza e me entreguei até esgotar todo o amor que tinha.
Adriano me mimava, mas não me amava.
A mulher com quem ele queria ter filhos sempre foi minha irmã.
Que fosse.
Fechei os olhos, resignada ao meu destino.