Share

Quarenta e um

last update publish date: 2026-09-14 00:42:58

JADE

Existe uma diferença enorme entre não querer fazer alguma coisa... e simplesmente não conseguir mais querer.

A primeira situação é simples, direta e controlada. É uma decisão racional: você pesa os prós e os contras, avalia o cansaço, olha para a conta bancária e decide que prefere ficar em casa assistindo a um filme ruim. A segunda, no entanto, é algo muito mais sutil e perigoso. É um desgaste invisível, um deslocamento silencioso de prioridades que acontece sem pedir licença, sem alarde
Continue to read this book for free
Scan code to download App
Locked Chapter

Latest chapter

  • A ACOMPANHANTE DO BILIONÁRIO    Sessenta

    Henrique continuou com os olhos fixos na pista, as mãos apoiadas com firmeza no volante. — Não. Não errei. — Então para onde exatamente nós estamos indo? Porque o meu prédio fica no sentido oposto há uns dez quilômetros. Ele demorou um segundo inteiro para responder, mantendo o tom de voz calmo. — Dar uma volta. Pisquei, achando que tinha ouvido mal. — Dar uma volta? Neste horário? — Sim. Abri um sorriso de canto, cética. — Henrique Montenegro... Ele continuou dirigindo com aquela seriedade irritantemente charmosa. — Sim? — Você acabou de me sequestrar? O canto esquerdo da boca dele subiu discretamente, traindo um divertimento contido. — Tecnicamente, não, Jade. Ri de verdade, balançando a cabeça. — Tecnicamente? Essa é nova. Qual é a base jurídica para essa tese? — Você entrou no carro espontaneamente, sem algemas e sem protestar verbalmente. Logo, foi uma decisão consciente. Balancei a cabeça, incapaz de conter o riso. — Essa foi a defesa jurídica mais articulada

  • A ACOMPANHANTE DO BILIONÁRIO    Cinquenta e nove

    Depois da sobremesa, ninguém na casa dos avós parecia minimamente disposto a encerrar o domingo. Dona Cecília calculatedly insistiu de última hora em servir café fresco, alegando que uma refeição daquela magnitude exige uma digestão prolongada à base de cafeína e conversa fiada. Seu Antônio, aproveitando o embalo, engatou em mais duas histórias pitorescas da infância de Henrique, ignorando somente todos os protestos discretos e olhares fulminantes do neto. — Vô, chega disso — murmurou Henrique, a testa franzida em falsa irritação. O velho deu de ombros, imperturbável. — O quê? A história da queda da bicicleta na praça é uma obra-prima. — Justamente por isso deveria permanecer arquivada. — De jeito nenhum. A Jade ainda não tinha ouvido. Virei o rosto, escondendo um sorriso divertido por cima da borda da minha xícara de porcelana. — Estou começando seriamente a desconfiar que existe um arquivo histórico e secreto inteiro sobre o doutor Montenegro guardado nesta casa. Seu Antôn

  • A ACOMPANHANTE DO BILIONÁRIO    Cinquenta e oito

    JADEO restante do caminho foi curto.Curiosamente… Nenhum dos dois voltou ao assunto do carro.A palavra pessoal permaneceu entre nós de um jeito silencioso, flutuando no ar do habitáculo. Não precisava ser explicada, debatida ou decifrada. Estava lá, consolidada como uma verdade inegável.Quando Henrique entrou na rua dos avós, reconheci imediatamente as roseiras vermelhas que ladeavam o muro de Dona Cecília.O portão de ferro já estava entreaberto, como se soubesse exatamente a hora exata da nossa chegada.— Ela viu o carro — comentei, sorrindo de canto.Henrique puxou o freio de mão.— Provavelmente estava vigiando pela janela da sala.Desceu primeiro.Contornou a capota do carro com passos firmes e abriu a minha porta antes que eu sequer alcançasse a maçaneta interna.— Obrigada.— Disponha.Com a agilidade de quem conhecia o ritual de cor, ele pegou o buquê de margaridas brancas com uma das mãos e as caixas da padaria com a outra.Olhei para ele, avaliando a cena.— Quer ajuda c

  • A ACOMPANHANTE DO BILIONÁRIO    Cinquenta e sete

    JADEEu tinha aceitado aquele trabalho no impulso, confesso que talvez tenha me arrependido um pouco.O cliente chegou exatamente no horário marcado.Pontual.Bem vestido.Educado.Era o tipo de atendimento que eu fazia quase no automático havia anos. Aquele padrão que exigia de mim a exata dose de simpatia corporativa, um sorriso milimetricamente medido e a habilidade de antecipar necessidades sem parecer invasiva.Cumprimentei-o com o tom profissional de sempre.Conversamos durante os primeiros minutos sobre o evento daquela noite, o perfil dos convidados, a etiqueta do jantar e alguns detalhes logísticos que eu já conhecia de cor.Meu corpo respondia como sempre, minha mente também.Pelo menos era o que eu imaginava.Conforme a reunião avançava, notei algo que nunca havia acontecido antes. No passado, minha mente mapeava cada segundo daquele briefing, calculando custos, antecipando imprevistos, criando planos de contingência mentais para três cenários diferentes. O trabalho absorvi

  • A ACOMPANHANTE DO BILIONÁRIO    Cinquenta e seis

    JADE O caminho até o carro foi silencioso. Dona Cecília insistiu em colocar um pedaço de torta de limão em um pote de vidro "para amanhã". Seu Antônio apertou minha mão duas vezes antes de desejar boa noite e lembrar Henrique de dirigir com calma. Henrique apenas respondeu: — Sim, vô. Descemos os poucos degraus da varanda. O ar da noite estava fresco. Esperei enquanto Henrique destrancou o carro. Quando ele abriu a porta para mim, sorri de canto. — Você faz isso sempre? Ele pareceu pensar por um instante. — Não. Entrei no carro. — Então começou quando? Henrique fechou a minha porta antes de responder. — Não sei. Deu a volta pelo capô, entrou no carro e ligou o motor. Durante alguns minutos, seguimos em silêncio pelas ruas quase vazias. Curiosamente... não era um silêncio desconfortável. Olhei pela janela. As luzes da cidade passavam em faixas douradas pelo vidro. Sem perceber, comecei a sorrir outra vez. Henrique notou. — O que foi? Continuei olhando para fora. —

  • A ACOMPANHANTE DO BILIONÁRIO    Cinquenta e cinco

    JADE Às cinco e cinquenta e oito, eu já estava pronta. Olhei o relógio pela terceira vez em menos de um minuto. Sentei no sofá. Levantei logo em seguida. Fui até a janela. Voltei para o sofá. Ridículo. Lili acompanhava tudo da cozinha, escondendo um sorriso atrás da caneca de café. — Você vai abrir um buraco nesse apartamento. — Estou andando normalmente. — Claro. Olhei para ela. — Você prometeu que não ia começar. — Prometi? — Na minha cabeça. Ela riu. Exatamente às dezoito horas, o interfone tocou. Lili atendeu antes de mim. — Pode subir. Desligou. Olhou para mim. — Pontual. — Era esperado. Peguei a bolsa. Respirei fundo. Poucos segundos depois, a campainha tocou. Abri a porta. Henrique estava exatamente como sempre. Terno escuro. Gravata impecável. Postura reta. Mas os olhos... Os olhos demoraram um pouco mais em mim do que costumavam. Percorreram meu rosto. Depois o vestido. Voltaram para os meus olhos. O silêncio durou um instante. — Você está muito bonita. M

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status