INICIAR SESIÓNAcordei na sexta-feira com o telefone tocando. Não reconheci o número e atendi deitada.
- Senhorita Katrina Lee?
- Sim. – confirmei.
- Hoje, às 17 h, a senhorita terá entrevista com a dama de companhia da rainha, Lana Davis e com Vossa Majestade, a rainha Anne Marie Chevalier.
Meu coração bateu mais forte. Sentei rapidamente na cama:
- Estarei no horário agendado. Alguma coisa que eu deva fazer além disso?
- 17 horas. – foi a resposta seca do outro lado.
A ligação foi encerrada e eu fiquei ali, com o telefone na mão, quase não acreditando. Se não estava na reta final estava quase lá. Eu conheceria a tão temida rainha Anne Marie Chevalier. Era quase inacreditável. Embora eu não gostasse dela, conhecê-la seria um privilégio e algo que eu jamais imaginei fazer na vida. Pessoas dariam qualquer coisa para se aproximar da soberana de Noriah Sul. Eu estaria frente a frente com ela.
Saí correndo e avisei minha mãe. Claro que Laura Lee ficou muito feliz. Mas ela também temia o fato de eu estar próxima da rainha Anne. Mas para ela o fato de eu ter o emprego e poder sustentar a família era mais importante que qualquer coisa.
- Você vai embora para o castelo? – perguntou Leon tristemente.
Peguei-o no colo e disse:
- Claro que não, meu bem. Eu sempre estarei aqui com vocês. E muitas coisas vão mudar. Se tudo der certo e eu conseguir este emprego, você terá tudo que desejar.
- Eu só desejo estar com você, Kat.
Eu o abracei com força:
- Amo você, Leon. E sempre estarei aqui.
- Mas estará no castelo. Você vai dormir lá?
Quando ele perguntou aquilo eu percebi que sabia tão pouco sobre o emprego ao qual eu concorria. Não sabia como funcionaria, se iria e viria todos os dias, se ficaria lá durante a semana e retornaria no sábado e domingo. Eu não tinha ideia de como seria tudo aquilo. Atentei-me tanto à vaga que não pensei nestas coisas, que eram bem importantes. Minha família vinha em primeiro lugar. Mas isso significava também aceitar qualquer coisa que me propusessem, pois eles dependiam de mim.
Parecia que o tempo não passava nunca. Eu estava pronta desde às 15 horas.
- Você se arrumou muito cedo. – disse minha mãe.
- Eu acho que vou indo. – falei. – Não posso correr o risco de me atrasar.
- Tem razão. Todo cuidado é pouco. Você está na fase final.
- Estou indo. – falei pegando minha bolsa.
- Boa sorte, minha filha. – disse minha mãe.
- Não aceite se precisar dormir lá. – pediu Leon.
- Prometo pensar muito bem se me pedir para dormir lá, Leon. – falei sorrindo e alisando os cabelos dele.
Eu saí caminhando até o ponto de ônibus. Coloquei a roupa que Dereck havia me dado, os óculos fake e estava sem nenhuma maquiagem, conforme sabia que elas queriam. Simples, discreta, mas bem vestida.
Percebi quando um carro parou ao meu lado.
- Desculpe a demora. – disse o motorista de Dereck.
Entrei no carro e disse:
- Não esperava por você.
- Era para chegar antes, mas tive um pequeno contratempo.
- Eu preciso do número do príncipe Dereck.
- Eu não posso lhe dar, senhorita Lee.
Suspirei contrariada. Precisava ver Dereck e pegar o número dele. Eu não tinha a mínima noção do que dizer naquela entrevista. E não tinha como me comunicar com ele. O trajeto foi rápido e logo o motorista me deixou na rua do castelo de Noriah. Deixei meu documento no portão principal e adentrei, nervosamente. Como eu queria poder ver Sofia ali. De alguma forma ela me acalmava. Era irônico o que acontecia: hoje eu estava a um passo de uma entrevista com a rainha e no dia seguinte estaria numa reunião anti monarquista, com o único intuito do fim do reinado dela.
Fui conduzida ao segundo andar. Era a primeira vez que eu subia as escadas do castelo. Fiquei sozinha numa confortável cadeira retro, aguardando na porta fechado protegida por dois guardas armados. Provavelmente ali estava a rainha Anne. Minhas mãos tremiam de nervosismo. Duas mulheres me chamaram e fui levada até uma sala, onde revistaram minha bolsa, meus bolsos e até meus sapatos. Depois retornei para a cadeira. Comi uma bala de goma para não correr o risco da minha glicose baixar.
Era 18 horas quando fui chamada para entrar. A sala era enorme e bem iluminada. Não era tão minimalista quanto as outras que eu havia visto no castelo. Lá estava ela, a rainha Anne Marie Chevalier, sentada em uma enorme cadeira imitando um trono antigo. Deu-me vontade de rir nervosamente, pois era exatamente o que eu esperava ver. Acho que ela só não usava a pesada coroa de ouro por medo de alguém roubar. Havia guardas armados por quase todo o lugar. Devido aos acontecimentos recentes alguém querer matar a rainha era uma coisa bem comum. E eu não poderia duvidar de alguém ter tentado a vaga exatamente para este fim. No meu caso, não era muito diferente. Eu não sei se tinha vontade de matar Anne Marie. Mas tinha sim muita vontade de lhe dizer tantas verdades e explicar a tristeza da vida fora daqueles portões. Eu respirei fundo e sentei-me na cadeira grande e macia. Em minha frente provavelmente Lana Davis, atual dama de companhia da rainha. Na minha esquerda, de costas para as janelas abertas com a noite quase caindo, ela, sua Majestade.
Eu fiz um gesto de cabeça, cumprimentando ambas. Para a rainha, uma reverência. Eu não sabia exatamente se deveria ter feito a reverência antes de sentar. Estava nervosa e confusa. O sustento de minha família dependia daquilo. Nada poderia sair errado.
- Boa noite, senhorita Lee. Sou Lana Davis, dama de companhia de sua Majestade.
- Sim... – falei.
- Esta é a última fase do processo de seleção para vaga de dama de companhia, deixando claro que eu continuarei no cargo, então serão duas pessoas que cuidarão da agenda pessoal da Majestade, rainha Anne Marie.
Confirmei com a cabeça. A rainha nos olhava atentamente.
- Você foi uma das dez escolhidas durante o jantar. – ela explicou.
- Eu... Poderia fazer uma pergunta?
Ela olhou para a rainha, que fez um gesto afirmativo com a cabeça.
- Qual foi o critério de escolha no jantar? – eu poderia não fazer a pergunta, mas eu gostaria muito de saber se Dereck estava certo.
Eu sabia que ele não tinha porque mentir, mas ainda assim por que Magnus escolheria as últimas dez selecionadas sem ao menos nos conhecer? Ou ele teria conversado com todas no jantar? Eu não observei ele fazendo isso. Casualmente nos falamos porque eu havia acidentalmente desmaiado dias antes sobre ele.
- Meu filho, o príncipe Magnus, fez a escolha. – anunciou a rainha, se dirigindo diretamente a mim.
- Mais alguma pergunta? – falou Lana ironicamente.
- Sim... – continuei. – Qual critério ele usou para a escolha?
Era um direito meu saber. Por que eu estava ali? O que o fez me escolher? E o que o fez não escolher as demais? Eu estava confusa.
- Roupa adequada, forma de se portar tanto sua quanto do seu acompanhante... Vocês foram observados durante todo o jantar por diferentes pessoas. Depois o príncipe Magnus escolheu quem melhor se adequava a estar na final.
- Obrigada. – falei para as duas. – Era importante para mim saber.
Ainda assim achei que os critérios eram totalmente irrelevantes. Ninguém se importava se a secretária da rainha era inteligente. A meu ver isto era o principal. A realeza só queria uma garota comum, sem vaidade, com um namorado adequado e que sabia se portar. Fiquei ainda mais anojada com tudo. Era um plano para conter as pessoas insatisfeitas. Não fazia diferença quem estaria ali. Bastava não chamar a atenção, ser dócil e fazer tudo como se esperava. Mal sabiam elas que eu não era nada daquilo. Eu era uma mulher inteligente... Eu gostava de fazer perguntas e saber sobre tudo. Eu não aceitava que me tratassem mal. Eu não levava desaforo para casa. Se eu fosse escolhida, eu não era o que elas procuravam. Mas eu poderia ser melhor que Lana Davis, isso eu tinha certeza.
- Senhorita Lee, o salário é de 100 mil norians... – ela continuou falando, mas eu só conseguia pensar no valor que ela falou: “100 mil norians”. Era quase o valor da minha casa. Eu seria rica em pouco tempo... – Morará no castelo, na ala dos empregados. Não terá custo com moradia, comida, roupas. Tudo é fornecido gratuitamente. Poderá visitar sua família e seu namorado a cada duas semanas, no domingo. Ou seja, verá sua família duas vezes no mês.
Eu estava absolutamente chocada com tudo que precisaria abrir mão. Ela continuou:
- Você não pode chamar a atenção de ninguém. Você será um fantasma. Seu único objetivo é auxiliar a rainha, em tudo que ela precisar.
- Lana será a primeira dama de companhia. – explicou a rainha. – Obviamente ela que determinará o que ficará para você fazer. Há coisas que ela não abre mão. Algum problema para a senhorita se for assim?
- Não... De forma alguma. – falei.
- Não pode usar celular dentro do castelo. Sequer durante a noite. Este item não fará mais parte da sua vida. Caso precise entrar em contato com sua família, usará o telefone residencial da ala dos empregados. Isto se deve ao fato de que nada do que acontece no castelo pode ser fotografado ou divulgado de qualquer forma.
- Tudo bem.
- Terá que excluir todas as suas contas das redes sociais.
Confirmei com a cabeça, ainda atônita.
- E assinará, caso seja a escolhida, um contrato de confidencialidade. Tudo que ver ou ouvir dentro do castelo jamais poderá sair daqui de dentro. Caso quebre o contrato, será punida.
- Na masmorra? – perguntei ironicamente, não me contendo. Eu não deveria falar aquilo, mas foi mais forte do que eu. Aquilo não era um emprego, era como assinar um termo de desaparecimento da sociedade no seu todo.
Lana continuou, fingindo não me ouvir:
- Não pode sequer olhar para os príncipes. Nem chamar a atenção deles de forma alguma. Aliás, jamais chamaríamos a atenção deles, não é mesmo?
- Sim... – confirmei. – Somos somente as damas de companhia de vossa Majestade.
- Exato. – disse ela sorrindo ironicamente. – Caso seja escolhida, fará tudo que tiver que fazer na ala dos empregados. Lá será o seu lugar. Nunca poderá acessar o terceiro andar, residência da realeza, se não for convidada por algum dos moradores, neste caso Vossa Majestade a rainha, o rei ou Vossas Altezas, os príncipes.
- Entendido... – falei.
- Estudou administração? – ela perguntou, já sabendo pelo visto.
- Sim. – confirmei.
- Por que parou?
- Meu pai perdeu tudo que tínhamos na mesa de jogo... Inclusive nossa casa. Tive que parar para procurar um emprego urgente. Então larguei qualquer procura para me dedicar exclusivamente a esta vaga. – expliquei.
- Já sabemos disso. – disse a rainha. – Seu pai costuma fazer muito isso, não é mesmo?
- Sim. – confirmei.
Lana continuou olhando em sua folha, lendo:
- Um irmão mais novo, um namorado da Zona C, um melhor amigo gay...
Senti meu coração bater descompassadamente e uma reviravolta no meu estômago, como se tivessem me dado um soco.
- Sim... – confirmei.
- Um irmão que ganha a vida ilegal e imoralmente...
Senti tudo ficar escuro. Respirei várias vezes, tentando cobrar a razão. O que era aquilo?
- Espero que isso não me prejudique de alguma forma. Eu não sou como meu irmão.
- Alguma pergunta, senhorita Lee?
Todas, eu pensei. No entanto, eu só disse:
- Não. Quero e preciso deste emprego. É só isso que eu tenho a dizer.
Dereck decidiu, por pressão do povo, concorrer à presidência do novo país. Ele nunca seria rei, foi rejeitado a vida toda por sua própria mãe, a rainha. Contudo, o povo sempre preferiu ele para liderar Noriah. O príncipe politicamente correto teria chances legais e iguais de concorrer junto de outros candidatos. Ele quis Dom para vice. Esta foi a parte difícil. Dom, líder rebelde e anti monarquista a vida inteira, jamais quis um cargo. Alegava ser sempre a oposição, a quem quer que estivesse no comando de Noriah. Mas depois de muita (eu digo muita mesmo) insistência por parte de todos nós, ele acabou dando uma chance a seu amigo King.Kim, por sua vez, certamente seria a primeira dama do novo país. Ele não continuou trabalhando no salão, mas passou a fazer uns vídeos sobre makes e cabelos perfeitos e logo viralizou nas redes sociais. Claro que ele ficou famoso,
Foi dado início à cerimônia de coroação do Príncipe Magnus Chevalier. Durou em torno de 30 minutos. Assim que Magnus foi coroado pelas mãos do líder do Conselho, ele me chamou antes de seu primeiro pronunciamento enquanto rei. Nos encaramos com todo amor que tínhamos em nossos corações e ele disse no meu ouvido:- Eu amo você.- Também amo você. – falei sem emitir som, mas deixando que ele entendesse o que meus lábios diziam.- Povo de Noriah... Por toda uma vida os Chevalier reinaram aqui. Eu fico imensamente grato por poder estar aqui hoje, recebendo a coroa que foi de minha mãe, de meu avô, bisavô e de outros tantos ascendentes meus que já viveram aqui. Mas não posso dizer que estou emocionado, pois seria mentira. Por isso, neste momento, enquanto rei de Noriah, eu declaro este lugar livre da monarquia para sempre. Que N
O castelo finalmente estava quase em ordem. Depois de tantos mortos e feridos, finalmente o reino de Noriah estava livre da rainha Anne Marie Chevalier. A maioria havia aprovado a invasão ao castelo. Nunca se soube quem atirou na rainha e nunca se saberia. Era um segredo muito bem guardado por mim, Magnus, Dom, Dereck e Kim. Claro que ainda haviam manifestações contrárias à coroação de Magnus, mesmo ela ainda não tendo acontecido oficialmente. Estávamos na mesa do café da manhã quando foi anunciado que Eva Lee Chevalier estava no castelo. Imediatamente pedimos que ela fosse recebida e se juntasse a nós.Fui até minha irmã e a abracei com carinho:- Venha, junte-se à nós para o café da manhã. – convidei.Ela aceitou. Todos começaram a rir e eu olhei-os confusa:- O que está havendo que eu não sei?-
- Por que não atirou em mim? – perguntei.- Existe algo melhor que ver sua cara de sofrimento e dor, Katrina Lee? Eu não quero você morta... Quero ver você sofrer tudo que eu sofri por você ter vindo ao mundo.Eu mirei no coração dela e disse, em lágrimas:- Eu não acabei... Ficou o mais importante: o tiro vingando meu bebê. – dizendo isso eu atirei no coração dela.Joguei-me sobre Dom aos prantos. Anne Marie Chevalier estava morta, mas antes de ir partiu meu coração mais uma vez. Magnus e Dereck entraram no quarto, me tirando de cima de Dom. Eu tinha sangue por todo meu corpo. Magnus me abraçou com força e Dereck foi verificar como Dom estava.- Ele... Está vivo. – disse Dereck. – Precisamos levá-lo a um hospital.Ainda se ouvia tiros pelo castelo.- Como vamos tirar ele daqui? – eu p
Assim que saímos do quarto, minha mãe disse:- Estarei rezando por vocês.- Mãe, tudo vai dar certo. Quando esta noite acabar, Magnus Chevalier será o novo rei de Noriah Sul.Laura Lee me abraçou com força e fez o mesmo em Magnus. Estávamos preste a sair quando a campainha tocou.- Está esperando alguém, mamãe? – perguntei.- Não. – ela falou confusa indo abrir a porta.Quando vimos Kevin ficamos surpresos. Eu fui até ele e lhe dei um abraço. Ele me apertou com força.- Veio... Visitar nossa mãe? – perguntei.- Na verdade não. – ele disse. – Vim participar da invasão ao castelo. Junto do grupo de vocês.- Como... Você sabe? – perguntou Magnus confuso.- Eu estou participando de um grupo... Longe do de Domênico... E de vocês. Ent&ati
As rebeliões foram aumentando conforme os dias iam passando. E a rainha ficando mais dura do que já era. A confusão no reino já estava feita e nada mais poderia mudar. As minorias que queriam que a rainha Anne ficasse no poder. A maior parte da população, mesmo preferindo o fim da monarquia, acabou se unindo aos grupos que queriam Magnus no poder e assim as alianças iam ganhando forças em todo o reino de Noriah Sul.Os encontros anti monarquia daquela semana foram marcados em zonas diferentes e em dias alternados a fim de confundir os delatores dos grupos, bem como os ataques dos grupos favoráveis à monarquia.Vesti-me com uma calça preta e uma jaqueta de couro, com botas de cano curto da mesma cor. Magnus vestiu-se de Black e partimos para o encontro na Zona B, pela primeira vez juntos. Quando o carro nos deixou no ponto de encontro, Magnus solicitou ao motorista que não ficasse ali. O







