Inicio / Romance / A Dama de Companhia / Capítulo 29 - O médico

Compartir

Capítulo 29 - O médico

last update Fecha de publicación: 2021-06-02 02:26:09

Quando vi meu irmão ali, com várias pessoas em volta dele, eu fiquei imóvel. Minhas pernas simplesmente não me obedeciam. Era como uma cena de um filme de terror passando na minha frente. Só que era real. Eu ouvia os gritos da minha mãe e não conseguia ajudá-la. Só quando vi meu pai saindo pela porta com muita dificuldade foi que eu me movi até o meio da rua. O carro havia fugido. As pessoas falavam ao mesmo tempo e não conseguíamos entender o que havia acontecido de fato. Um vizinho pegou um carro e ofereceu levá-lo ao hospital. Minha mãe o pegou no colo e entrou com ele cuidadosamente. Eu sentei na frente. Iria junto.

- Kat, me mande notícias. – falou meu pai com lágrimas nos olhos.

- Sim, pode deixar.

Eu sabia que ele estava sofrendo também. Liguei imediatamente para Kevin e expliquei o que havia acontecido e que estávamos indo para o único hospital da Zona E. Meu irmão ficou desconcertado. Kevin tinha vários defeitos enquanto ser humano, mas ele não era um irmão ruim. E Leon era o preferido de todos nós. Meu irmãozinho não tinha defeitos. Alegria era uma palavra que o definia. Era uma criança tranquila, inteligente e muito apegado à família. Ele sempre tinha palavras de conforto e carinho de sobra para todos nós. Perder Leon seria como perder a nós mesmos: nunca mais seríamos a família Lee novamente. Mas eu ainda orava repetidas vezes, o que eu não costumava fazer, para que ele ficasse bem e fosse tudo superficial os ferimentos.

- Ele... Está respirando? – consegui perguntar para minha mãe. Eu tinha medo da resposta.

- Sim... – ela confirmou.

Minha mãe continha as lágrimas. Eu sabia que ela estava acabada por dentro. Quem não estaria, levando o próprio filho naquele estado para o hospital? O que mais poderia acontecer naquele final de semana? Eu não queria saber esta resposta. Meu corpo tremia... E eu tinha quase certeza que era por medo.

Assim que chegamos ao hospital, o homem que nos levou ajudou minha mãe a levar Leon para dentro do hospital. Ele ainda estava desacordado. Assim que entramos na recepção vieram dois enfermeiros e o levaram para dentro. Eu e minha mãe agradecemos ao bom homem que havia nos auxiliado e depois ficamos ali, nervosas, esperando por qualquer notícia que pudéssemos ter nos próximos minutos.

No entanto já havia se passado mais de uma hora e ninguém sabia nada sobre o estado de saúde de Leon. Exatamente de cinco em cinco minutos eu perguntava à atendente se já sabia algo e a resposta era sempre a mesma:

- Ainda não, senhorita. Assim que souber, lhe avisaremos.

Minha mãe continuava do mesmo jeito, sentada com a cabeça baixa, sem derramar nenhuma lágrima. Eu por hora chorava, depois me acalmava. Meu coração doía como nunca havia doído antes. Leon era o nosso bebê... Nada poderia acontecer com ele.

Quando eu voltei da recepção pela décima vez, minha mãe levantou a cabeça e me disse:

- Aguarde, Kat.

Eu sentei ao lado dela pela primeira vez. Até então não havia conseguido sentar. Parece que se eu fizesse aquilo meu corpo não conseguiria levantar novamente.

- Mãe, vai ficar tudo bem. – eu disse.

- Vai sim... Eu sei disto. – falou ela otimista.

Levou mais uns 15 minutos até que recebêssemos a visita do médico que atendeu Leon. Era um homem novo, magro e com cabelos lisos e claros, sem corte definido. Parecia novo demais para ser médico.  Eu e minha mãe levantamos instantaneamente quando ele parou na nossa frente.

- Bom dia... Eu atendi Leon quando ele chegou ao hospital.

- Como ele está, doutor? – perguntou minha mãe ansiosa.

- Ele... Precisa fazer uma cirurgia. Se não fizer, não voltará andar. É de risco, mas urgente fazermos o mais rápido possível.

- Então podem fazer. – disse minha mãe.

Ele olhou rapidamente nos papéis que tinha na mão e disse:

- Senhora Lee, não temos como fazer aqui.

- Como assim? – perguntei.

Quando olhei nos olhos dele, senti um frio no estômago. Eu reconheceria aquele olhar em qualquer lugar. O mesmo olhar do homem que eu havia beijado na noite anterior. Não havia máscara que pudesse esconder aquele homem... Era ele: Dom. Eu não tinha certeza se ele havia me reconhecido também. Ele continuou:

- Estamos num hospital da Zona E... Não existe recurso disponível para este tipo de atendimento aqui. – ele explicou gentil, olhando atentamente para mim. – Como se pessoas pobres não precisassem disso, entende?

Era ele. Eu tinha certeza. Dom era médico. E ele conseguia fazer seu discurso anti monarquia até mesmo no hospital.

- O que podemos fazer para salvar meu irmão?

- Procurar um hospital na B.

- Isso é... Impossível. – falou minha mãe.

- Doutor, há algo que você possa fazer? – perguntei sinceramente.

- Você pode. – ele disse.

Olhei-o confusa. Minha mãe sentou no sofá, certa de que não havia mais o que fazer. Kevin entrou abruptamente no hospital, batendo a porta atrás de si. Todos os olhares se voltaram para ele. Assim que nos viu, veio imediatamente até nós.

- O que houve? Como ele está?

Minha mãe se jogou nos braços de Kevin, deixando as lágrimas escorrer. Parecia que para Kevin ela não precisava se fingir de forte.

- Estamos ouvindo o doutor... – eu olhei para ele, incentivando-o a dizer seu nome.

- Domênico. – ele disse, repetindo para Kevin tudo que havia nos dito minutos atrás.

- Mas você estava dizendo que havia algo que eu poderia fazer...

- Sim, você ou seu marido. – ele disse olhando para Kevin.

- Ela não é minha esposa. – falou Kevin grossamente.

- Somos irmãos. – expliquei.

Por que ele havia pensado que eu poderia ser casada? Ou estava falando aquilo somente para se certificar de que eu era solteira? Não era momento para aquilo. Precisávamos ser ágeis e rápidos. A vida de meu irmão corria risco. Eu nem tinha certeza se ele sabia quem eu era.

- O que acha que minha irmã pode fazer, doutor? – perguntou Kevin. – Faremos qualquer coisa que precisar para que meu irmão fique bem.

- Na verdade não precisa ser ela... Pode ser qualquer um de vocês. São jovens, podem ter contatos com alguém na B, ou até mesmo na C. Alguém da C poderia ajudá-los com certeza. Falo isso porque os mais velhos não costumam trocar de zona, mas pessoas da nossa idade circulam livremente e tem contato com todas.

- Alguém já conseguiu trocar deste hospital para o B? – perguntou minha mãe.

- É raro, mas já aconteceu algumas vezes.

- Eu não conheço ninguém da Zona A até D... Só da E adiante. – falou Kevin demonstrando preocupação. Quando ele roia as unhas eu sabia que ele estava muito nervoso.

- Precisam pensar rápido. Como eu falei, é uma emergência.

Eu sabia quem da C poderia me ajudar. Mas eu deveria muito a ele e talvez tivesse que destruir todo meu futuro. Respirei fundo. Eu não tinha alternativa. Olhei para Domênico, que me encarava esperando uma resposta. Só restava eu para salvar Leon. E parecia que ele tinha certeza disto.

- Eu posso falar com alguém. – afirmei.

Kevin me olhou fixamente. Acho que ele também sabia de quem eu estava falando e o que me custaria. Quando olhei para minha mãe, não vi nada além de gratidão nos olhos dela. Eu sabia o quanto ela queria que eu ficasse com Léo, mas naquele momento, entendia que ela sabia o sacrifício que eu estava fazendo por Leon.

Peguei meu celular e disquei o número dele. A voz foi de surpresa:

- Léo, eu preciso de ajuda.

- Kat, o que houve?

- Leon sofreu um acidente. Ele precisa fazer uma cirurgia de emergência ou nunca mais vai voltar a andar. Precisamos transferi-lo para o Hospital da B.

Houve um curto silêncio do outro lado da linha. Depois ele respondeu:

- Vou falar com meu pai imediatamente. Já lhe retorno a ligação.

Desliguei o telefone sem saber exatamente como eu me sentia. Felicidade por saber que ele me ajudaria. Tristeza por saber que eu deveria a ele a vida do meu irmão. Léo era um homem gentil, honesto e com muitas outras qualidades, além de ser completamente apaixonado por mim. O único problema é que eu não sentia nada por ele.

- Você vai mesmo fazer isso? – perguntou Kevin.

Eu fiz um gesto afirmativo com a cabeça.

- Ele é namorado dela. – disse minha mãe. – Ao menos acho que ainda não terminaram, pois hoje mesmo ela me garantiu que faria isso.

Olhei para Dom, que me olhava atentamente. Eu daria qualquer coisa para saber se ele sabia que eu era Katee, a garota que ele beijou na noite anterior e que garantiu que reencontraria. Jamais pensamos que nosso reencontro seria naquelas circunstâncias. Dom era lindo e perfeito mascarado e o médico Domênico não deixava a desejar. Ele ficou aguardando conosco, não sei se porque era seu dever, porque estava preocupado ou se estava curioso para saber o desfecho daquela ligação.

Logo meu telefone tocou e eu atendi:

- Pode providenciar a transferência de hospital, Kat. Meu pai já conversou com alguém da B. Vai dar tudo certo. Estarei esperando por vocês aqui no hospital.

Olhei para eles e disse:

- Léo conseguiu. Podem fazer a transferência.

- Vou falar imediatamente com a equipe. E acompanharei o garoto na ambulância. – disse Domênico saindo.

- Você vai dever sua vida a ele. – disse Kevin.

- Eu sei... O que você quer que eu faça? Eu tinha outra solução?

- Não. – disse minha mãe. – Não tinha outra solução. Léo é sempre salvação, em qualquer situação que possa surgir.

- Como assim?

- Como eu havia dito, ficar com ele não seria a pior coisa que poderia lhe acontecer.

Ela queria mesmo discutir comigo se eu deveria ou não ficar com Léo? Não, para mim aquele assunto estava encerrado. Eu não tinha cabeça para aquilo. Acho que na mente de minha mãe tudo estava certo: Léo conseguiria salvar Leon e a mim mesma, quando eu tivesse que aceitar o pedido de casamento dele por gratidão. Minha mãe saiu dali, indo para o corredor, talvez para saber mais informações sobre Leon.

- E você achou que se prostituir podia ser o pior a acontecer com você?

Kevin estava sendo duro comigo, mas eu sabia muito bem sobre o que ele estava falando. Olhei para ele e o abracei com força. Ele correspondeu ao abraço. Eu não me sentia segura nos braços do meu irmão... Mas eu me sentia amada. E isso me bastava naquele momento. Eu só queria que alguém fizesse sentir que tudo ficaria bem... Mesmo que demorasse muito tempo.

Eu fiquei ofendida quando ele me propôs vender meu corpo em troca de dinheiro. Jamais aquilo passou pela minha cabeça. No entanto agora a vida de meu irmão estava em minhas mãos... E eu estava trocando uma cirurgia para ele em troca da minha vida. Era isso que Léo quereria: eu.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • A Dama de Companhia   EPÍLOGO (Katnus)

    Dereck decidiu, por pressão do povo, concorrer à presidência do novo país. Ele nunca seria rei, foi rejeitado a vida toda por sua própria mãe, a rainha. Contudo, o povo sempre preferiu ele para liderar Noriah. O príncipe politicamente correto teria chances legais e iguais de concorrer junto de outros candidatos. Ele quis Dom para vice. Esta foi a parte difícil. Dom, líder rebelde e anti monarquista a vida inteira, jamais quis um cargo. Alegava ser sempre a oposição, a quem quer que estivesse no comando de Noriah. Mas depois de muita (eu digo muita mesmo) insistência por parte de todos nós, ele acabou dando uma chance a seu amigo King.Kim, por sua vez, certamente seria a primeira dama do novo país. Ele não continuou trabalhando no salão, mas passou a fazer uns vídeos sobre makes e cabelos perfeitos e logo viralizou nas redes sociais. Claro que ele ficou famoso,

  • A Dama de Companhia   Para sempre realeza

    Foi dado início à cerimônia de coroação do Príncipe Magnus Chevalier. Durou em torno de 30 minutos. Assim que Magnus foi coroado pelas mãos do líder do Conselho, ele me chamou antes de seu primeiro pronunciamento enquanto rei. Nos encaramos com todo amor que tínhamos em nossos corações e ele disse no meu ouvido:- Eu amo você.- Também amo você. – falei sem emitir som, mas deixando que ele entendesse o que meus lábios diziam.- Povo de Noriah... Por toda uma vida os Chevalier reinaram aqui. Eu fico imensamente grato por poder estar aqui hoje, recebendo a coroa que foi de minha mãe, de meu avô, bisavô e de outros tantos ascendentes meus que já viveram aqui. Mas não posso dizer que estou emocionado, pois seria mentira. Por isso, neste momento, enquanto rei de Noriah, eu declaro este lugar livre da monarquia para sempre. Que N

  • A Dama de Companhia   Capítulo 114 - Dois príncipes

    O castelo finalmente estava quase em ordem. Depois de tantos mortos e feridos, finalmente o reino de Noriah estava livre da rainha Anne Marie Chevalier. A maioria havia aprovado a invasão ao castelo. Nunca se soube quem atirou na rainha e nunca se saberia. Era um segredo muito bem guardado por mim, Magnus, Dom, Dereck e Kim. Claro que ainda haviam manifestações contrárias à coroação de Magnus, mesmo ela ainda não tendo acontecido oficialmente. Estávamos na mesa do café da manhã quando foi anunciado que Eva Lee Chevalier estava no castelo. Imediatamente pedimos que ela fosse recebida e se juntasse a nós.Fui até minha irmã e a abracei com carinho:- Venha, junte-se à nós para o café da manhã. – convidei.Ela aceitou. Todos começaram a rir e eu olhei-os confusa:- O que está havendo que eu não sei?-

  • A Dama de Companhia   Capítulo 113 - Por que não atirou em mim?

    - Por que não atirou em mim? – perguntei.- Existe algo melhor que ver sua cara de sofrimento e dor, Katrina Lee? Eu não quero você morta... Quero ver você sofrer tudo que eu sofri por você ter vindo ao mundo.Eu mirei no coração dela e disse, em lágrimas:- Eu não acabei... Ficou o mais importante: o tiro vingando meu bebê. – dizendo isso eu atirei no coração dela.Joguei-me sobre Dom aos prantos. Anne Marie Chevalier estava morta, mas antes de ir partiu meu coração mais uma vez. Magnus e Dereck entraram no quarto, me tirando de cima de Dom. Eu tinha sangue por todo meu corpo. Magnus me abraçou com força e Dereck foi verificar como Dom estava.- Ele... Está vivo. – disse Dereck. – Precisamos levá-lo a um hospital.Ainda se ouvia tiros pelo castelo.- Como vamos tirar ele daqui? – eu p

  • A Dama de Companhia   Capítulo 112 - Invasão ao castelo

    Assim que saímos do quarto, minha mãe disse:- Estarei rezando por vocês.- Mãe, tudo vai dar certo. Quando esta noite acabar, Magnus Chevalier será o novo rei de Noriah Sul.Laura Lee me abraçou com força e fez o mesmo em Magnus. Estávamos preste a sair quando a campainha tocou.- Está esperando alguém, mamãe? – perguntei.- Não. – ela falou confusa indo abrir a porta.Quando vimos Kevin ficamos surpresos. Eu fui até ele e lhe dei um abraço. Ele me apertou com força.- Veio... Visitar nossa mãe? – perguntei.- Na verdade não. – ele disse. – Vim participar da invasão ao castelo. Junto do grupo de vocês.- Como... Você sabe? – perguntou Magnus confuso.- Eu estou participando de um grupo... Longe do de Domênico... E de vocês. Ent&ati

  • A Dama de Companhia   Capítulo 111 - Black e Katee

    As rebeliões foram aumentando conforme os dias iam passando. E a rainha ficando mais dura do que já era. A confusão no reino já estava feita e nada mais poderia mudar. As minorias que queriam que a rainha Anne ficasse no poder. A maior parte da população, mesmo preferindo o fim da monarquia, acabou se unindo aos grupos que queriam Magnus no poder e assim as alianças iam ganhando forças em todo o reino de Noriah Sul.Os encontros anti monarquia daquela semana foram marcados em zonas diferentes e em dias alternados a fim de confundir os delatores dos grupos, bem como os ataques dos grupos favoráveis à monarquia.Vesti-me com uma calça preta e uma jaqueta de couro, com botas de cano curto da mesma cor. Magnus vestiu-se de Black e partimos para o encontro na Zona B, pela primeira vez juntos. Quando o carro nos deixou no ponto de encontro, Magnus solicitou ao motorista que não ficasse ali. O

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status