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Capítulo 50 - Eu não preciso de nada

last update Fecha de publicación: 2021-06-24 04:13:10

Os próximos dois dias eu passei ainda na enfermaria do castelo, abusando do sorvete de morango que vinha cada vez que eu pedia. E da bondade dos príncipes, que me tratavam quase como uma princesa. Eu sabia que aquilo não duraria para sempre e eu não era exatamente uma pessoa burra a ponto de não me aproveitar da situação. O investigador continuou vindo também nos dois dias seguidos, se certificando de que eu não mudaria em nada meu depoimento.

Recebi alta na noite do terceiro dia e fui sozinha para o primeiro andar. Chegar lá, naquele corredor escuro e frio me deu um certo tremor. Eu não gostava daquele lugar. Definitivamente preferia a enfermaria. No entanto aquele era o meu mundo e estava na hora de voltar para ele. Quando entrei no quarto senti o meu cheiro nele. Era familiar e era o que mais me aproximava de um lugar chamado casa. Deixei meus medicamentos dados pelo médico na mesa ao lado da cama e me deitei, olhando para o teto branco escurecido e com rachaduras pequenas por toda parte. Pensei se algum dia aquele lugar onde eu estava abrigou um preso no corredor da morte. Ou uma mulher que lutou por algo que achava justo e acabou ali, como eu. Eu não estava presa, nem no corredor da morte, mas por alguns momentos eu me sentia assim: longe de tudo e todos. Conseguia mexer meu braço e meu ombro sem quase sentir nenhuma dor. No fim, ou eu era muito forte, ou o príncipe Magnus tinha uma péssima mira.

Alguém bateu na porta. Senti meu coração bater mais forte que o normal. Quem seria?

- Sofia!

Eu a abracei quando a vi ali. Ela era tudo que eu precisava naquele momento. Mas não, ela não tinha sorvete de morango. No entanto ela tinha uma cesta de doces trazidos da cozinha. Logo ela sentou na minha cama e começou a comer:

- É verdade que você levou um tiro do príncipe?

- Como... Você sabe disto?

- Eu... Vi no Jornal.

- Qual jornal?

- Claro que não foi no jornal da monarquia, Kat. Mas trouxeram o jornal da rebelião para dentro da cozinha do castelo. E havia esta notícia.

Eu imaginei que havia sido Dom que se tratou de espalhar a notícia. Ele fazia seu papel de rebelde anti monarquia.

- E... Você acreditou?

- Sim... Porque você desapareceu por alguns dias.

- Eu realmente levei um tiro do príncipe.

Ela me olhou preocupada. Eu a acalmei:

- Não foi de propósito. Magnus...

- Magnus? – ela perguntou confusa. – Ele é... O futuro rei. E você o chama de “Magnus”? O que houve com o tratamento respeitoso? – perguntou ela rindo desconfiada.

- Eu... Fui bem atendida no castelo. Eu estou bem agora. – eu disse ignorando o comentário sobre eu ter dito o nome dele sem mencionar Alteza antes.

- Eu sempre fiquei confusa com esta sua relação com os príncipes... Mas agora fiquei preocupada mesmo.

Eu sorri e peguei a mão dela, dizendo:

- Estou bem. Ele não me feriu de propósito.

- E... Lana? Como você está com ela?

- Eu não vou mais trabalhar com Lana Davis. Irei trabalhar diretamente no terceiro andar, com os príncipes. Farei parte da equipe deles.

- Mas... Como você conseguiu isso?

- Sofia, é melhor você saber o mínimo possível, pois assim estará em segurança, acredite. Aconteceram tantas coisas na minha vida nos últimos tempos que eu mesma às vezes não acredito que é verdade.

- Então a vaga de dama de companhia nunca existiu?

- Eu acho que não. Foi uma forma de fazer todos pensarem que tinham chance. E desfocar das coisas ruins que o reino tem passado.

- Eu também já pensei nisso. Lana jamais deixaria ser substituída. Ela morre pela rainha. E por que precisaria ter duas dela? A rainha jamais confiaria em outra pessoa a não ser em sua dama de companhia.

- Exatamente.

- Então você será dama de companhia dos príncipes?

Eu ri:

- Acho que este cargo não existe.

- Eu... Fico feliz por você. Ainda assim fico com medo. Este lugar pode ser muito cruel, Kat.

- Eu sei, Sofia.

O restante da noite eu tentei desfocar deste assunto e falar sobre coisas que garotas da nossa idade gostavam. Falei sobre Dom e tudo que ele me fazia sentir, escondendo dela a parte que ele era um líder rebelde anti monarquista e médico. Tentei fazer como se fosse um relacionamento normal, o que eu sabia que na verdade estava longe de ser. Sofia, por sua vez, mencionou um caso com um guarda do castelo. Eu fiquei impressionada. Cheguei a pensar que eles estavam até mortos ali, pois não mostravam qualquer sinal de vida. Quando eu disse a ela o que pensava sobre eles rimos muito. E percebi que relacionamentos entre criados eram mais comum do que eu podia imaginar, sendo que ele se encontravam nos lugares mais absurdos possíveis. Ela continuou contando sobre os lugares que transou com seu quase namorado dentro do castelo.

- Você tem sorte, Sofia. – eu disse.

- Você também... Afinal... Está noiva de Dom? – ela perguntou olhando o anel no meu dedo.

Eu não disse que não. Como poderia depois de tudo que falei sobre Dom dizer que eu era noiva de outro homem? Eu só confundiria minha amiga.

- Vocês já transaram em locais proibidos? – perguntou ela.

- Eu... Nunca fiz amor. – confessei.

- Como assim? – ela perguntou espantada.

- Katrina Lee é virgem, acredite.

- Isso me impressionou, Kat. Jamais imaginei que você...

- Eu também quase não acredito às vezes.

- Por quê? Esperando a pessoa certa? Dom não é a pessoa certa?

- Sim... Dom é a pessoa. – eu confirmei. – Mas não tivemos oportunidade ainda.

- Oportunidade se cria, amiga.

Eu ri:

- Já nos encontramos num lugar propício... Mas fomos interrompidos. – eu lamentei.

- Haverá novas oportunidades. – ela disse.

- Eu sei. E eu não vou desperdiçar, acredite. Eu sei que é ele... Desde o momento que o vi.

- Você o ama?

- Eu... Não sei. Mas gosto muito dele. Não saberia identificar se seria realmente amor. Mas sei que meu corpo quando encontra o dele é como se fôssemos um só... Eu entro em combustão.

Ela deu uma risadinha:

- Então é ele.

No dia seguinte, levantei cedo, tomei meu café trazido no quarto, coloquei meu uniforme e subi para o trabalho. Passei diretamente pelo segundo andar e me senti imensamente feliz por não mais trabalhar com Lana Davis. Quando abri a porta do escritório os príncipes e o outro secretário já estavam lá.

- Me atrasei? – perguntei confusa.

- Não. – disse Dereck. – Temos muitas coisas para fazer. Realmente viemos mais cedo hoje. Como você está?

- Bom dia. – disse Magnus.

- Bom dia, Alteza. – eu disse e sentei na minha cadeira. – E, sim, estou bem.

Voltei minha atenção aos papéis à minha volta. Logo uma ligação foi recebida na sala e Magnus disse:

- Minha mãe quer a organização da festa hoje até o final do dia. – ele disse me olhando.

- Ela terá. – eu garanti, pegando um novo bloco em branco de anotações. As folhas em branco era exatamente como as minhas ideias: nada. Eu nunca dei uma festa. Como poderia organizar uma?

- Algum problema, senhorita Lee? – perguntou Magnus.

- Não. – eu menti.

Nossos olhos se encontraram e eu senti uma sensação estranha dentro de mim. De alguma forma parecia que meu coração gostava de ficar ao lado do príncipe. Eu me sentia bem e leve. E de alguma forma... Protegida. Sentia que nada poderia me ferir quando eu estivesse junto do homem que me deu um tiro. Irônico? Muito. Mas absurdamente real.

- Podemos ajudá-la. – disse ele.

- Eu... Agradeceria se pudessem. – confessei.

- Eu também não sou muito bom com festas... – ele disse. – Mas temos Dereck que é um expert.

Dereck levantou os olhos e largou os papéis que tinha em mãos.

- Tudo bem, vocês dois não vão me deixar trabalhar hoje. – ele largou o que tinha na mesa do outro secretário e pediu:

- Organize tudo para mim, por favor.

Depois ele puxou sua cadeira e sentou ao meu lado, pegando outro bloco:

- O que uma boa festa precisa ter: comida saborosa, bebida à vontade e de qualidade, garotas bonitas, sensuais e disponíveis...

Eu ri:

- Alteza, é o aniversário e noivado do seu irmão.

- Mas quem está solteiro precisa também apreciar a festa. – ele insistiu.

- E... Presentes. O que você vai querer de presentes, Magnus? – perguntou Dereck.

- Eu não preciso de nada. – ele disse. – Eu tenho tudo que preciso.

- Então pedimos que não tragam presentes?

- Porque... Vossa Alteza não pede então alimentos para doar às zonas que passam fome? – perguntei.

- Isso é loucura. – falou o secretário.

- Não... Não é loucura. – disse Magnus. – É... Uma ideia muito boa. Como pensa fazer isso, senhorita Lee? – perguntou ele curioso.

- Poderíamos colocar nos convites... E aposto que com a extensa lista de convidados, bem como suas boas condições financeiras, poderia ajudar tantas pessoas que não tem o privilégio de sentar à mesa com comida todos os dias.

- Eu sempre apostei que tendo Katrina Lee ao seu lado, não precisaria de mais nada, Magnus. Já pode ser rei. – disse Dereck mordendo sua caneta e sorrindo de canto.

- Obrigada por me mostrar coisas que eu não vejo debaixo do meu próprio nariz, senhorita Lee. – disse Magnus ignorando o comentário do irmão.

- Agradeça por ele ter lhe dado um tiro. – falou Dereck rindo alto.

Eu não pude me segurar e comecei a rir também. Magnus continuou sério. Depois disse:

- Como você consegue ser tão imaturo? – ele perguntou olhando para Dereck.

- Relaxa, Magnus. A vida não precisa ser tão séria.

- Também não precisa ser tão levada na brincadeira.

- Então precisamos de um meio termo. – ele disse. – Sua função é só se divertir na sua festa. Eu e Katrina cuidaremos de tudo.

- Não... Eu vou participar junto de todos os preparativos. – ele garantiu.

Dereck levantou uma sobrancelha e disse:

- Tudo bem... Não imaginei mesmo que você me deixaria sozinho com Katrina.

Magnus lhe jogou uma caneta, que caso seguisse o curso, pegaria em mim. Mas Dereck foi rápido e a pegou no ar.

- Tentando me atingir novamente, Alteza? – perguntei confusa.

Ele levantou e veio até nós, sentando na minha mesa:

- Não... Eu não faria isso. – disse olhando nos meus olhos.

- Então só está tentando me ver zangada? – ironizei.

- Talvez...

Dereck ficou olhando atento, fez um gesto de arma com o dedo, piscou um olho e disse sorrindo:

- Bang... Mirei num coração e acertei os dois.

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