FAZER LOGINKim foi embora e eu fiquei ali sozinha com meus próprios pensamentos. Olhei para fora e vi que o dia já estava quase amanhecendo. Havia sido uma noite difícil. E eu estava viva... E bem. E aquilo tinha sim um propósito. O tiro poderia ter pego na minha cabeça ou mesmo no meu coração. Então eu não estaria mais ali. No entanto eu tinha o sangue correndo em minhas veias e continuava dentro do castelo de Noriah, agora com tantas mordomias que nem imaginava ter um dia. Eu tentava assimilar e entender o que havia acontecido nas últimas horas, especialmente entre Dom e Magnus. Mas eu simplesmente não conseguia, pois eu tinha umas mil teorias na minha cabeça. Magnus não teria ciúme de mim com Dom... Ele mal me conhecia. Ainda assim havia tentado me beijar dentro da cabana de caça, quando talvez pensou que eu pudesse morrer. Por que aquele beijo? Qual a intenção dele com aquilo? Um desejo momentâneo? Um desejo reprimido? Eu nunca saberia. Eu sequer havia correspondido. Havia sido um simples toque de lábios. E aconteceria novamente? Não havia como saber... Só o tempo diria. Mas eu estaria sendo cínica se não confessasse a mim mesma o desejo por um beijo do príncipe herdeiro. Mas ainda assim quando eu pensava em desejo, era Dom que eu sentia e sua pele quente como o seu beijo, fazendo eu sentir cada pequeno pedaço do meu corpo que eu sequer conhecia, imensamente vivas. Era possível ter sentimentos por dois homens ao mesmo tempo sem saber exatamente o que era por cada um deles?
Eu entendia Kim e sua preocupação comigo e com minha família. E claro que eu também tinha medo da rainha e de todo perigo que eu corria ali dentro. Mas eu sabia que de nada adiantaria fugir como um animal acuado. Ela me encontraria e me comeria no café da manhã. Eu sabia que eu poderia ser o prato principal dela... Mas não seria no café da manhã. Se a rainha Anne Marie me quisesse, seria no jantar. E enquanto a noite não chegasse, eu lutaria.
Enquanto eu pensava e pensava, meus olhos foram se fechando... E eu adormeci.
Acordei com o barulho de alguém limpando o quarto.
- Bom dia. – eu disse.
- Bom dia. – cumprimentou a mulher.
- Que... Horas são? – perguntei confusa tentando levantar e voltando a ficar deitada, ainda sentindo dor.
- Passo do meio dia, senhorita. – explicou ela.
- Eu preciso sair daqui. – falei tentando levantar novamente.
Vi o rosto da enfermeira Louise, que havia me atendido a primeira vez que eu havia ficado na enfermaria.
- Senhorita Lee, ainda não deve sair da cama. Posso tentar levantar um pouco a cabeceira para que fique mais a vontade e confortável, se preferir.
- Pode ser. – eu disse. – Que bom ver você. – confessei.
- Pelo visto você gosta da enfermaria. – brincou ela.
- Longe de mim...
- Um desmaio... Agora um tiro. – observou ela. – Como você levou um tiro?
Quando ela perguntou eu percebi que provavelmente ninguém no castelo sabia a verdade. Provavelmente só a rainha, os príncipes, o médico que me atendeu, Kim e Dom.
- Eu estava fora do castelo e levei um tiro... Não sei exatamente como foi. – menti torcendo para que não confrontasse com as informações que ela tinha.
- Provavelmente vindo de rebeldes anti monarquia. Eles estão por todo lado. – disse ela levantando a cabeceira e arrumando os travesseiros para que eu pudesse levantar um pouco.
- Talvez... – dei de ombros.
- Está confortável assim? – ela perguntou.
- Sim.
- Pois bem, tem alguém para vê-la. Um investigador da polícia. Posso mandá-lo entrar?
- Sim.
Em pouco tempo eu estava sozinha no quarto com o homem de meia idade, bastante sério. Ele me fez várias perguntas e já sabia a verdade sobre o tiro. Eu confirmei que Magnus não havia feito de propósito, mesmo sem ter absoluta certeza disso. Era noite, estava chovendo muito, eu tinha caído no chão. Não acho que ele realmente tinha uma boa visão para me identifica no meio da floresta, mesmo sendo um hábil caçador. No fim, ele somente anotou tudo que eu disse e explicou que talvez precisasse voltar.
Magnus ou alguém da realeza havia chamado o investigador. Talvez a ameaça de Dom tivesse surtido efeito. Quando o investigador saiu, Louise me trouxe uma bandeja com sopa e algumas saladas.
- Obrigada. – eu disse.
- Já sabemos que a senhorita não come carne. Então esta alimentação é altamente balanceada e sem nenhum tipo de carne.
Eu jamais negaria aquela comida fumegante e bonita. E estava tão gostosa quanto sua aparência. Teria Sofia ajudado a preparar? O que ela devia achar quando me procurasse em meu quarto e não me encontrasse? Eu precisava dar notícias a ela.
Eu estava acabando de comer quando Magnus entrou. Atrás dele estava sua namorada, Vitória Grimaldo. O cheiro de perfume requintado, caro e usado em demasia ocupou todo meu quarto. O que ela estava fazendo ali?
- Como se sente, senhorita Lee? – perguntou Magnus.
- Bem... – falei.
- Já conseguiu levantar um pouco a cabeça... Fico feliz. – observou ele continuando do mesmo jeito, sem tirar as mãos do bolso.
Nas últimas horas eu não via aquele Magnus tão diplomático. Ele estava mais leve, sorridente e até fizera brincadeiras. No entanto ali estava ele novamente, o futuro rei de Noriah, sem sorrisos, polido e educado.
- Querida, quando eu soube fiz questão de vê-la pessoalmente. – falou Vitória languidamente, chegando perto de mim.
- Quando soube... Exatamente o quê? – perguntei sem saber exatamente o que ela sabia.
- Que Magnus deu um tiro em você.
Ela sabia a verdade, além da realeza. Quem mais saberia exatamente?
- Não fique tímida... Achou mesmo que eu não saberia? Está tudo bem. Sei que Magnus não fez isso de propósito.
- Eu também sei. – confirmei. – Nunca me passou pela cabeça que ele pudesse querer me ferir. – falei olhando nos olhos dela.
- Conheço você... – disse ela. – Claro, a garota de Dereck. – completou ela sorrindo cinicamente.
- Garota de Dereck? – perguntou Magnus.
- Ops, desculpe, senhorita Lee. Eu não quis me referir a você desta forma. Somente lembrei do jantar oferecido pela realeza, quando encontrei você e o príncipe Dereck...
- Conversando. – completei. – Sim, lembro da situação. Eu havia me perdido e ele estava me mostrando o caminho do toalete.
-Sim... Exato. – disse ela sorrindo encantadoramente.
- Quando posso sair daqui? – perguntei a Magnus.
- Magnus não é médico. – disse ela. – Precisa perguntar ao seu médico. Acho que ele poderá lhe informar mais precisamente.
Vitória não conseguia falar sem ser cínica. Aquilo me irritou profundamente. Eu agora entendia porque Dereck não gostava dela. E também porque achava que eu deveria ocupar o lugar dela, tanto no castelo quando na vida de seu irmão.
- Acho que logo poderá voltar a sua vida normal, senhorita Lee. – disse Magnus ignorando a namorada e respondendo. – Ao menos eu espero. Minha mãe já autorizou que você fique no escritório do terceiro andar.
- Como assim no escritório do terceiro andar? Lá é você e Dereck que trabalham.
- Sim... A senhorita Lee fará parte da nossa equipe.
- Mas... Vocês não precisam de outra pessoa. Há uma pessoa qualificada para exercer isso e ela já está lá.
- Dereck fez questão... – disse ele.
Ela riu:
- Dereck... Não pode ver uma garota nova.
Eu olhei nos olhos dela com raiva. Por que ela insistia em me diminuir o tempo todo? Já estava bem claro que ela não gostava de mim, desde o primeiro dia que me viu e sequer me conhecia. Eu era uma simples empregada ali... Merecia tanto a atenção e a ira contida da quase duquesa?
- Alteza, acho que gostaria de ver meu médico hoje. – arrisquei. Era hora de ver quem de nós duas era mais forte.
- Sim, vou chamar o doutor agora mesmo. – ele disse se encaminhando para a porta.
- Eu disse o “meu” médico, Alteza, doutor Domênico Alexander.
Ela paralisou e me olhou duramente:
- Não.
- Ela... Não pode ver o médico? – perguntou Vitória não tão confusa, mas querendo entender o que exatamente se passava ali.
- Não o médico que ela quer. – contestou Magnus.
- Mas... Por quê?
- Ela sabe o motivo. – falou ele com a voz carregada de irritação.
- Deixe a pobre garota, Magnus. Você gosta do seu médico, não é mesmo? – arriscou Vitória. – Todos devem ter o direito de sentir o que nós dois sentimos um pelo outro... E ser felizes. – ela disse puxando ele para perto de si e se agarrando ao seu corpo.
Vitória era uma mulher muito alta e quase alcançava Magnus. Os ombros deles ficavam na mesma altura. Eu sequer chegava nos ombros dele. mas ela não era linda o bastante para ele. Ah, isso ela não era.
- Pelo visto, senhorita Lee, já estás bem melhor. Então não precisa daquele médico. Terá assistência única e exclusiva do palácio.
- O que este médico fez de tão ruim? – quis saber Vitória.
- Tentou me levar para o hospital da E. – expliquei sarcasticamente.
Vitória suspirou e disse:
- Adolescentes e suas aventuras... Agora precisamos ir, querido. Sua mãe insiste que devemos decidir hoje tudo sobre o nosso noivado.
Ela pousou os olhos castanhos sobre mim:
- Querida, me desculpo também por Magnus. Juro que ele jamais teria atirado em você de propósito. Mas você pode pedir qualquer coisa que faremos para compensar todo problema e mal estar que o príncipe tenha causado.
Lembrei quando Magnus também perguntou o que poderia fazer por mim para compensar e eu pedi por Dom. Aquilo já não era mais possível. Provavelmente Dom jamais entraria no castelo novamente.
- Há algo que podem fazer por mim. – eu disse.
Os dois me olharam surpresos.
- Eu quero um pote gigante de sorvete de morango.
Exatamente aquilo: eu não podia ter Dom ali comigo, muito menos Magnus. Mas eu podia ter sorvete de morango, que era melhor que qualquer coisa na vida. Os dois foram embora e em poucos minutos eu recebi uma bandeja com uma taça gigante de sorvete de morango com chantilly e frutas vermelhas. Eu não queria frutas... Eu só queria o sorvete. Acho que sorri com os olhos quando vi aquilo.
- Nunca vi alguém pedir sorvete de morango podendo pedir qualquer coisa. – observou Louise rindo.
- Você já provou um bom sorvete de morango? – perguntei.
Ela riu e balançou a cabeça. Há um bilhete embaixo da taça e isso vem com os cumprimentos de vossa Alteza.
Ela saiu sorrindo e piscou o olho.
Procurei debaixo da taça e havia um pequeno papel branco dobrado. A letra firme dizia:
“Você não consegue disfarçar quando está brava, pois seus olhos mudam de cor.
Não posso negar que você fica ainda mais linda quando está furiosa. “
M.C
Eu sorri. E o sorvete teve um gosto ainda mais especial do que já tinha. Duvido que quem serviu aquela taça achou que quem comeria não deixaria sobrar nada. Mas foi o que aconteceu. Quando esvaziei a taça, deitei novamente, com meu coração quente e minha garganta gelada. Eu sempre tentei encontrar o amor. Mas sempre soube que aquilo não era o mais importante na vida. Ainda assim eu decidi que não casaria se não fosse por amor. Preferiria ficar sozinha a casar com alguém que eu não gostasse. Só nunca passou pela minha cabeça que fosse possível gostar de mais de um homem ao mesmo tempo. Eu acho que gostava de Magnus e de Dom... E que nunca conseguiria escolher um dos dois para morar definitivamente dentro do meu coração. Eu gostava de ser tocada por Dom. Ele não mexia só com meus sentimentos, mas com todo meu corpo, como fervendo meu sangue quando nossos lábios se encontravam. No entanto Magnus era ora frio, ora doce. Eu nunca poderia prever exatamente o que ele faria ou diria. Ele parecia ter medo de sentir coisas... E eu adorava flertar com ele. No entanto tudo que eu tinha era um anel de noivado lindo que me lembrava do compromisso com Léo. E Léo... Ah, este não me fazia sentir nada.
Dereck decidiu, por pressão do povo, concorrer à presidência do novo país. Ele nunca seria rei, foi rejeitado a vida toda por sua própria mãe, a rainha. Contudo, o povo sempre preferiu ele para liderar Noriah. O príncipe politicamente correto teria chances legais e iguais de concorrer junto de outros candidatos. Ele quis Dom para vice. Esta foi a parte difícil. Dom, líder rebelde e anti monarquista a vida inteira, jamais quis um cargo. Alegava ser sempre a oposição, a quem quer que estivesse no comando de Noriah. Mas depois de muita (eu digo muita mesmo) insistência por parte de todos nós, ele acabou dando uma chance a seu amigo King.Kim, por sua vez, certamente seria a primeira dama do novo país. Ele não continuou trabalhando no salão, mas passou a fazer uns vídeos sobre makes e cabelos perfeitos e logo viralizou nas redes sociais. Claro que ele ficou famoso,
Foi dado início à cerimônia de coroação do Príncipe Magnus Chevalier. Durou em torno de 30 minutos. Assim que Magnus foi coroado pelas mãos do líder do Conselho, ele me chamou antes de seu primeiro pronunciamento enquanto rei. Nos encaramos com todo amor que tínhamos em nossos corações e ele disse no meu ouvido:- Eu amo você.- Também amo você. – falei sem emitir som, mas deixando que ele entendesse o que meus lábios diziam.- Povo de Noriah... Por toda uma vida os Chevalier reinaram aqui. Eu fico imensamente grato por poder estar aqui hoje, recebendo a coroa que foi de minha mãe, de meu avô, bisavô e de outros tantos ascendentes meus que já viveram aqui. Mas não posso dizer que estou emocionado, pois seria mentira. Por isso, neste momento, enquanto rei de Noriah, eu declaro este lugar livre da monarquia para sempre. Que N
O castelo finalmente estava quase em ordem. Depois de tantos mortos e feridos, finalmente o reino de Noriah estava livre da rainha Anne Marie Chevalier. A maioria havia aprovado a invasão ao castelo. Nunca se soube quem atirou na rainha e nunca se saberia. Era um segredo muito bem guardado por mim, Magnus, Dom, Dereck e Kim. Claro que ainda haviam manifestações contrárias à coroação de Magnus, mesmo ela ainda não tendo acontecido oficialmente. Estávamos na mesa do café da manhã quando foi anunciado que Eva Lee Chevalier estava no castelo. Imediatamente pedimos que ela fosse recebida e se juntasse a nós.Fui até minha irmã e a abracei com carinho:- Venha, junte-se à nós para o café da manhã. – convidei.Ela aceitou. Todos começaram a rir e eu olhei-os confusa:- O que está havendo que eu não sei?-
- Por que não atirou em mim? – perguntei.- Existe algo melhor que ver sua cara de sofrimento e dor, Katrina Lee? Eu não quero você morta... Quero ver você sofrer tudo que eu sofri por você ter vindo ao mundo.Eu mirei no coração dela e disse, em lágrimas:- Eu não acabei... Ficou o mais importante: o tiro vingando meu bebê. – dizendo isso eu atirei no coração dela.Joguei-me sobre Dom aos prantos. Anne Marie Chevalier estava morta, mas antes de ir partiu meu coração mais uma vez. Magnus e Dereck entraram no quarto, me tirando de cima de Dom. Eu tinha sangue por todo meu corpo. Magnus me abraçou com força e Dereck foi verificar como Dom estava.- Ele... Está vivo. – disse Dereck. – Precisamos levá-lo a um hospital.Ainda se ouvia tiros pelo castelo.- Como vamos tirar ele daqui? – eu p
Assim que saímos do quarto, minha mãe disse:- Estarei rezando por vocês.- Mãe, tudo vai dar certo. Quando esta noite acabar, Magnus Chevalier será o novo rei de Noriah Sul.Laura Lee me abraçou com força e fez o mesmo em Magnus. Estávamos preste a sair quando a campainha tocou.- Está esperando alguém, mamãe? – perguntei.- Não. – ela falou confusa indo abrir a porta.Quando vimos Kevin ficamos surpresos. Eu fui até ele e lhe dei um abraço. Ele me apertou com força.- Veio... Visitar nossa mãe? – perguntei.- Na verdade não. – ele disse. – Vim participar da invasão ao castelo. Junto do grupo de vocês.- Como... Você sabe? – perguntou Magnus confuso.- Eu estou participando de um grupo... Longe do de Domênico... E de vocês. Ent&ati
As rebeliões foram aumentando conforme os dias iam passando. E a rainha ficando mais dura do que já era. A confusão no reino já estava feita e nada mais poderia mudar. As minorias que queriam que a rainha Anne ficasse no poder. A maior parte da população, mesmo preferindo o fim da monarquia, acabou se unindo aos grupos que queriam Magnus no poder e assim as alianças iam ganhando forças em todo o reino de Noriah Sul.Os encontros anti monarquia daquela semana foram marcados em zonas diferentes e em dias alternados a fim de confundir os delatores dos grupos, bem como os ataques dos grupos favoráveis à monarquia.Vesti-me com uma calça preta e uma jaqueta de couro, com botas de cano curto da mesma cor. Magnus vestiu-se de Black e partimos para o encontro na Zona B, pela primeira vez juntos. Quando o carro nos deixou no ponto de encontro, Magnus solicitou ao motorista que não ficasse ali. O







