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Capítulo 84 - Você mexeu com a pessoa errada

last update Data de publicação: 2021-06-28 06:29:50

Em pouco tempo Dom me trouxe uma taça com sorvete de morango. Eu sentei na cama:

- Isso é real? Ou estou sonhando? – perguntei quando peguei a taça nas mãos.

- É real. Eu não sou um príncipe, mas também posso realizar desejos.

Eu ri e disse:

- Vamos lá, Dom, mostre seus lindos dentes e pare de tentar ser um homem mau.

Ele pegou na minha mão antes que eu pudesse colocar a colher com o sorvete na minha boca e disse, olhando nos meus olhos:

- Kat, vocês não podem ficar aqui.

Eu fiquei olhando para ele, incapaz de comer. Dom não nos ajudaria? Ele pegou a colher e colocou o sorvete na minha boca, me dando um beijo nos lábios em seguida, dizendo:

- Mas eu vou ajudar vocês.

Eu sorri e comi o restante da taça. Depois entreguei para ele a taça e levantei, dizendo:

- Preciso que pegue na minha casa a arma do meu pai... E você vai me ensinar a atirar.

- Você por acaso está pensando em matar a rainha?

- Como você adivinhou?

- Só conheço uma pessoa louca o bastante para entrar no castelo e tentar matar a rainha.

- Ou mato ela ou minha vida estará acabada.

Ele riu:

- E você acha que vai atirar nela e sair andando por Noriah de mãos dadas com o príncipe Magnus?

Eu respirei fundo e disse:

- Eu já estou morta, Dom...

- Kat, vocês precisam pegar o que acharem necessário. Vou levá-los daqui agora mesmo.

- Para onde vamos?

- Eu tenho uma casa na zona rural. Ninguém os procurará lá. Você terá tempo para decidir o que realmente quer fazer.

- Ok, vamos lá.

Em pouco tempo pegamos alguns mantimentos e roupas. Eu não tinha praticamente nada. Minha mãe e Leon haviam pego algumas coisas.

- Kim, você precisa ficar com eles. – disse Dom. – Sabe que o procurarão e só deixarão você em paz se disser o paradeiro dela.

- Eu estou pronto para abrir mão de tudo pela futura princesa de Noriah. – disse Kim. Quando ele olhou para a cara fechada de Dom, tentou consertar: - Digo, pela primeira dama rebelde.

Eu ri. Kim não conseguia disfarçar sua sinceridade. Se fosse pego pelos guardas não precisaria sequer ser torturado para contar meu paradeiro.

- Dom, preciso passar antes na minha casa.

- Não podemos voltar lá. – disse Kim.

- Eu preciso da arma do meu pai.

- Não precisa ir até lá... – disse minha mãe. – Ela está comigo.

Fiquei feliz por minha mãe ter lembrado de pegar aquilo. Era a única lembrança que eu tinha de meu pai.

- Kim, você vai no carro em que veio. Durante o trajeto, você abandona o carro e vem conosco.

- Este carro é de Dereck. É seguro... – disse Kim.

- Nada que vem do castelo de Noriah é seguro. Vocês não entendem isso? Ou você realmente confia no príncipe Dereck? Ou seria King?

Ficamos calados enquanto Dom colocou nossas coisas no carro, sem abrir a garagem. Antes de sair, ele mandou que eu, minha mãe e Leon nos abaixássemos nos bancos. Ele tinha medo de estar sendo seguido. Kim seguiu com o carro de Dereck até determinado ponto da estrada. Quando ficou menos trânsito, ele abandonou o carro na rodovia e veio conosco, conforme o plano. Demoramos algumas horas na estrada até chegarmos à casa que Dom tinha na zona rural. A casa era pequena, mas aconchegante. No meio do nada. Não havia vizinhos. Era um enorme terreno arborizado, num lugar cheio de natureza. Quando descarregamos nossas bagagens, ele disse:

- Eu não posso ficar. Se não me encontrarem em casa levantarei suspeitas.

Os demais entraram e eu fiquei com ele, que pelo visto não entraria mesmo.

- Dom... Magnus irá procurá-lo. Eu sei disto. Ele disse que me encontraria.

- Eu não direi nada sobre você enquanto não for seguro, Kat.

- Dom, por favor.

- Não... Só tirarei você daqui quando sua vida não estiver em risco, nem a da sua família. Com tudo que aconteceu, é o fim da monarquia. A rainha mandará caçarem você no inferno. E a revolta irá crescer entre os anti monarquistas, pois é a primeira notícia que vou espalhar: rebelde procurada.

- Mas... Eu não matei o rei. Não quero que as pessoas pensem isso de mim.

- Não importa o que pensem de você. Os rebeldes querem o fim da monarquia. Isso não inclui só a rainha Anne.

- Você está dizendo que... Magnus e Dereck correm perigo?

- Sempre correram. E eles sabem disso. Por que você acha que eles eram King e Black?

Eu fiquei confusa com o que Dom tentava me dizer.

- Acha que podem me achar importante por pensar que eu matei o rei Albert? Ele era um homem bom... Eu tive o prazer de conhecê-lo. Ele foi amigo do meu pai, Dom.

- Ele é um Chevalier.

- Dom, você não pode odiar todos os Chevalier. Só a rainha Anne é a culpada.

Ele passou o dedo polegar no meu rosto, carinhosamente, passando pelos meus lábios:

- Eu vou proteger você, minha Katee.

Eu o abracei com força:

- Dom, eu quero que isso acabe logo.

- Lamento dizer que isso não vai acabar tão cedo...

- Por que você acha isso?

- Provavelmente a rainha matou o marido com as próprias mãos, usando o seu punhal. Acha que poderão incriminá-la? Nunca... Ninguém levantará qualquer suspeita sobre ela. Então, a não ser que achem um culpado, você será a suspeita.

- Mas... Talvez tenha as digitais dela no punhal.

Ele pensou um pouco e disse:

- Pode ser... Vamos torcer para que isso aconteça. Daí você tem uma chance.

- Dom... Se cuide. Eu temo por você também.

- Eu sei me cuidar, Katee. Sou um líder rebelde.

- E sabe atirar. – eu lembrei.

- Exatamente.

Ele me deu um beijo no rosto e entrou no carro. Colocou seus óculos escuros e seu casaco de couro e partiu. Eu fiquei olhando até ele desaparecer. Sim, nós quase fomos uma história de amor. E Dom morava dentro do meu coração. Mas eu estava acabada por dentro de tanta preocupação com Magnus e com o que poderia estar acontecendo no castelo naquele momento. Ele havia garantido que faria qualquer coisa para me proteger. Também sabia que eu corria perigo. Eu esperava que ele acreditasse que eu não poderia ter feito aquilo, pois estivemos juntos todo o tempo.

Senti os braços de Kim me abraçando por trás.

- É só uma fase ruim... Vai passar. – ele disse. – Vamos entrar e conhecer nosso novo lar temporário?

- Kim, você acha que Dereck e Magnus podem estar correndo perigo?

- Eu acho que eles sempre correram, por isso Magnus nunca sai do castelo, não é mesmo? Dereck se arriscava mais, mas nunca saiu de lá sendo ele mesmo. Acho que eles sabem disso, querida. E sabem se cuidar.

- Meu coração está partido...

- O meu também. Mas eu acredito no amor... E eles vão nos encontrar. –garantiu Kim.

- E... Nós queremos ser encontrados? – perguntei.

- Eu quero que Dereck me encontre e me salve. – disse Kim. – Você não quer isso, Kat?

- Eu só quero meter uma bala na cabeça da rainha. – falei sentindo a raiva crescendo cada vez mais dentro de mim.

- Vamos entrar?

- Eu... Preciso ficar um tempo sozinha.

Ele me soltou e antes de entrar na casa disse:

- Ontem, quando eu lhe disse que era sua fada madrinha, esqueci de lembrá-la que você tinha que ir embora antes da meia- noite. Se eu tivesse lembrado deste detalhe, nada disso teria acontecido.

- Não contávamos com a bruxa má, fada madrinha. – eu disse sorrindo tristemente.

Ele entrou. Kim sempre tentava me divertir e me alegrar. Ele e Dereck eram iguais.

Eu saí andando pelo gramado que mais parecia de capim do que grama. Nem parecia que eu havia corrido tanto na noite anterior, ou melhor dizendo, na madrugada. Tudo aconteceu tão rápido que eu não conseguia assimilar. Num minuto eu estava nos braços de Magnus, ouvindo da boca dele o quanto ele me amava e recebendo o anel mais lindo e valioso do mundo. No outro eu estava correndo como uma fugitiva para me esconder por um assassinato que eu não cometi. Conforme eu ia tentando colocar as ideias no lugar, andava. Quando fiquei longe o bastante da casa, olhei para o pôr do sol alaranjado nas montanhas. Eis um lugar e uma paisagem que jamais pensei ver em Noriah: a área rural, privilégio de alguns poucos. Dom vivia numa zona que lhe proporcionava muitas coisas que eu e outras pessoas não tínhamos. Ainda assim ele lutava por direitos iguais para todos. Estaria Magnus olhando o sol ir embora naquele momento e pensando em mim como eu pensava nele? Meu peito doía de pensar em não vê-lo novamente. Levantei a camiseta e olhei para minha tatuagem: “Black para sempre”. Eu achei que poderia ser para sempre... Eu queria acreditar que seria. Mas no fundo eu sabia que nada dura para sempre. Eu também achei um dia que Dom era para sempre. Pensei em Magnus, incrivelmente alto, com seu sorriso forçado, pois ele parecia se conter ao sorrir. Lembrei que eu o fazia sorrir sem medo, gargalhar. Lembrei das nossas noites de amor, da boca dele na minha, das carícias que trocamos e senti meu corpo arder de paixão. Eu o teria novamente em meus braços? Lembrei dele correndo sem camisa para chamar minha atenção, a primeira vez que vi suas tatuagens e tudo que eu havia feito com elas quando estávamos entre quatro paredes, nas nossas noites de amor escondidas. Ele era impossivelmente lindo e sedutor. Eu só queria que ele pudesse para sempre lembrar de mim, no meu belo vestido cintilante naquela noite no jardim, com meu batom vermelho dizendo sim para o nosso amor. Eu queria que ele não desistisse de me encontrar, mesmo que fosse nos seus sonhos mais loucos.

Então eu deixei as lágrimas escorrerem pelos meus olhos, sem medo, sem insegurança, sem tentar ser forte quando eu já não era. E eu gritei com toda minha força, tentando pôr para fora toda a dor que eu sentia dentro de mim, no meu corpo, no meu coração e na minha alma. E eu me vingaria da pessoa que me separou de Magnus. Eu acabaria com a rainha Anne, nem que fosse a última coisa que eu fizesse na minha vida. Ela havia mexido com a pessoa errada. Eu não era só “uma garota”. Eu era Katrina Lee, filha de Adolfo Lee, a rebelde anti monarquista que entrou no castelo e conquistou o coração do príncipe Magnus. E eu iria até o fim.

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Comentários (1)
goodnovel comment avatar
vn28luizarthur15
Será que Kat vai ver Magnus novamente
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