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Capítulo 83 - Eu preciso comer

last update Data de publicação: 2021-06-28 06:29:11

Quando eu saí pela porta de vidro, levantei meu vestido nos braços e corri em direção ao jardim, passando pelos arbustos. O dia já estava amanhecendo. Senti medo e meu corpo inteiro tremia. Mas eu só conseguia correr e correr. Ouvi espécies de sirenes altas ecoando por todo o castelo. Não passei por nenhuma pessoa. O jardim começou a ficar mais denso, com mais árvores e grama cada vez mais alta. Adiante encontrei o muro do castelo e uma porta quase escondida entre os cipós e trepadeiras. Tentei abrir, mas estava fechada. Ouvi pessoas falando e pareciam próximas. Com meus pés chutei com tanta força que desempenei a porta que não sei quanto tempo não era aberta. E fui parar novamente na floresta dos fundos do castelo de Noriah, o lugar onde o príncipe Magnus caçava. Eu me dirigi à cabana dele e lá tirei o vestido e coloquei uma calça e uma blusa dele que havia num armário. Procurei armas, mas não tinha. Encontrei uma pequena adaga e levei comigo. Agora eu precisava novamente correr como nunca, até encontrar uma estrada que pudesse me levar a um lugar seguro. Mas eu duvidava que houvesse lugar seguro para mim novamente. O plano malévolo e baixo da rainha Anne já havia sido traçado. E eu estava destruída... Para sempre.

Devo ter andado em torno de uma hora até encontrar uma pequena estrada. Não tinha jeito que alguém acessava aquele lugar. E de alguma forma eu sentia que ainda estava próxima do castelo. Segui pela lateral da estrada, beirando o matagal. Caso visse algum movimento poderia me esconder e depois verificar se era um carro do castelo. E assim segui não sei por quanto tempo, pois eu não tinha relógio. Mas meu estômago dizia que muito tempo já havia passado. Quando eu já estava quase sem forças para caminhar e preste a desistir, ouvi o som de um carro ao longe. Então fui para próximo da mata, conforme havia traçado meu plano. O carro vinha em velocidade baixa, parecendo que procurava alguma cois ou alguém. Reconheci o carro de Dereck... Mas tive medo de me mostrar ao motorista dele. Àquelas alturas eu não confiava em mais ninguém. Quando o carro passou, eu vi Kim dirigindo. Será que eu estava imaginando coisas? Então corri para o meio da estrada e comecei a gritar e acenar com meus braços para que ele parasse. Por sorte fui ouvida. Ele deu a ré e eu fiquei ali esperando. Quando Kim desceu do carro, eu tinha tanta coisa para lhe falar... Mas tudo começou a girar e girar e de uma hora para outra escureceu. E eu não suportei mais o peso do meu próprio corpo.

Acordei sentindo cheiro de álcool. Abri os olhos e vi Kim. Eu estava sentado no banco do carro.

- Kat, meu bem, literalmente você não tem tempo para desmaiar, baby. Acorde que eu sou péssimo de direção.

Ele girou a chave e seguiu em alta velocidade. Pelo retrovisor eu só via o pó da estrada levantando.

- Eu... Preciso comer. – falei. – Ou vou desmaiar de novo.

- Onde eu vou achar comida para você? – ele perguntou preocupado. – E não podemos parar. A estas alturas você é procurada em todo o reino de Noriah.

- Eu... Não matei o rei... Foi a rainha.

- Acha que eu não sei? E ela usou o seu punhal, com as suas iniciais. Baby, estamos encrencados.

- Eu estou encrencada, você quer dizer. Ela vai acabar comigo.

- Nós estamos encrencados... Eu sempre vou estar com você, Kat.

Eu queria tanto chorar, mas as lágrimas não brotavam dos meus olhos. Era um choro contido. Na verdade eu tinha vontade de gritar de tanta raiva e ódio que eu sentia naquele momento.

- Eu vou matá-la. – eu garanti.

- Você está falando da rainha de Noriah? Pegue sua senha e entre na fila.

- Não será uma tentativa... Eu vou matá-la.

- Precisa recuperar seu punhal.

- Será que você pode me levar a sério, Kim?

- Eu estou tão nervoso que nem sei o que estou dizendo... Desculpe-me, Kat.

- Vou dar um tiro no coração dela.

- E depois morrer por ter assassinado a rainha.

Eu fiquei quieta. Não me importava em morrer, desde que ela fosse comigo. Como uma pessoa podia ser tão manipuladora e cruel?

- Kim, preciso pegar minha mãe e meu irmão. Eles correm perigo.

- Já mandei eles irem para minha casa. Agora nós vamos buscá-los.

- E... Para onde iremos?

 Ele me olhou atentamente:

- Só conheço uma pessoa que pode nos ajudar...

- Dom.

- Isso.

- O que Dereck lhe disse?

- Mandou eu pegar o carro e buscar você naquela estrada. Ele tinha certeza que você estaria lá.

- Magnus me mandou fugir pelo jardim real... Sabia que eu encontraria aquela estrada. Acha que eles podem acreditar que eu tenha matado o rei?

- Claro que não, Kat. Você esteve com eles o tempo todo.

- Então... Há como eu me defender deste assassinato?

- Não sei... O que quer que a rainha tenha feito, não deve cair nenhuma suspeita sobre ela. Creio que isso está planejado a um bom tempo.

Eu abri o porta-luvas na minha frente, à procura de qualquer coisa que eu pudesse comer, mas não havia nada ali.

- Eu preciso comer... Ou vou desmaiar de novo.

- Espere... Estamos quase chegando.

Em pouco tempo Kim estacionou na frente de sua casa e minha mãe e Leon entraram no carro, completamente atordoados e preocupados.

Kim deu a partida.

- O que está acontecendo? – perguntou minha mãe. – Kat, estão acusando você de ter matado o rei Albert...

- Mãe, você acha mesmo que eu teria feito isso?

- Claro que não... Mas... O que exatamente aconteceu?

- Foi a rainha... Ela planejou tudo contra mim.

- Por que ela faria isso?

Kim pegou minha mão, ostentando o enorme anel e mostrou para Laura Lee

- O que... É isso?

- O príncipe Magnus pediu sua filha em casamento. – disse ele. – Agora entende o que está acontecendo, Laura?

Laura se calou por tempo, pensativa. Depois disse:

- Ela vai encontrá-la, Kat... E vai puni-la com a sua vida.

Eu vi uma lágrima escorrendo pelos olhos da minha mãe e disse:

- Mãe, eu vou ficar bem... Eu prometo. A rainha não me pegará.

Demoramos um pouco para chegar na casa de Dom. Corria o risco de ele não estar. Eu rezei baixinho para Dom não estar trabalhando naquele dia.

Descemos do carro e Kim bateu na porta. Não demorou para Dom atender. Ele nos olhou e disse:

- O... O que vocês estão fazendo aqui?

- Não dá para explicar aqui na rua. – disse Kim.

Dom me olhou confuso, virou para os lados para ver se não estávamos sendo seguidos e depois disse:

- Entrem.

Leon se abraçou a Dom, que o pegou no colo e não largou-o.

- Você não olhou o noticiário hoje, Dom? – perguntou Kim.

- Sim... – ele disse me olhando.

- Não fui eu. – me defendi.

- Eu nunca pensei que pudesse ser você.

- Ele foi assassinado com o punhal que você deu a Kat. – disse Kim.

- Tem as iniciais dela. – falou Dom. – Foi a rainha... Certamente para incriminá-la.

- Sim...

- Mas... Por que ela quer você longe do castelo? Por que a rainha Anne decidiu ir tão longe para acabar com você?

Eu não queria ter aquela conversa com Dom na frente de todos, inclusive de Leon, que mal entendia o que estava acontecendo.

Kim perguntou:

- Dom, acha que eles podem ficar aqui, com você, por um tempo?

- Kim, este é o primeiro lugar que procurarão por Kat... Depois da sua casa.

- Eles vão matá-la, caso a encontrem. – disse minha mãe. – Precisa nos ajudar, doutor Domênico. Não conhecemos mais ninguém.

Olhei para Dom, que pousou seus olhos sobre mim. Eu não queria e não achava justo envolvê-lo naquilo. Não queria prejudicá-lo.

- Não podemos fazer isso... – eu disse levantando.

Dom largou Leon e levantou, aproximando-se de mim. Eu queria lhe dizer que não precisava nos ajudar, que eu não podia pedir aquilo para ele. Mas meu corpo não me obedeceu e novamente tudo ficou escuro e eu desabei.

Quando acordei eu estava no conhecido quarto que havia abrigado Black quando ele levou o tiro. Senti de alguma forma Magnus perto de mim.

Dom passou a mão sobre os meus cabelos, carinhosamente.

- Você vai ficar bem agora.

- Eu... Não lembro a última vez que comi. – confessei. – Eu tenho...

- Sim, eu sei. – ele não me deixou terminar. – Sua mãe está providenciando algo para vocês comerem. E vamos precisar tirar vocês daqui.

- Eu sei, Dom... Desculpe-me. Eu não posso envolver você nisso também. Já tem Kim que vai ter que pagar o preço por mim...

Ele pegou minha mão e olhou o anel. Eu não soube identificar o que ele pensou ou sentiu naquele momento.

- Agora entendo o porquê da ira dela contra você.

Eu não falei nada.

- No fim, ele ganhou a garota. – ele disse ironicamente. – Não poderia ser diferente, não é mesmo? Afinal, ele é o príncipe. Eu sou só o líder rebelde.

- Me desculpe... – foi o que eu consegui dizer naquele momento.

- O que houve conosco, Kat? Poderíamos ter sido uma história de amor...

- O tempo... Demoramos demais. – eu disse. – Você demorou demais, Dom.

- Claro, a culpa tem que ser minha... – ele riu amargamente.

- Eu tentei... Eu te procurei no seu emprego, tentei de todas as formas fazer você assumir nosso relacionamento. Mas acabei cansando de sempre ter que estar indo atrás de você.

Eu riu e balançou a cabeça:

- Pode ser que você tenha razão... Eu tive medo. Medo dos meus sentimentos... Do que começava a crescer de forma agressiva e forte dentro de mim. Mas eu sempre soube que ele estava o tempo todo atrás de você. Ele a aprisionou em sua gaiola de ouro e... No fim você acabou gostando do mundo dele.

- Dom, eu não gosto do mundo dele... Eu me apaixonei por ele. Foi real... Eu sempre disse que ele era um bom homem. Ele será um ótimo rei. E não é porque eu o amo... É porque ele é o homem que nasceu para usar a coroa. Por sua bravura, por sua coragem, por tudo que ele teve que abrir mão para ser quem ele é.

- Você está cega de amor...

- Dom...

- Fale.

- Eu preciso comer ou vou desmaiar novamente.

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