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Capítulo 90 - Segredo revelado

last update Data de publicação: 2021-06-28 06:34:03

- Kevin, nosso pai errou... Mas eu o perdoei. Todos temos defeitos, não é mesmo?

- Você abandonaria um filho, Katrina?

Eu o olhei confusa. Do que ele estava falando? Estava querendo que eu dissesse minha opinião sobre aquilo ou estava se referindo ao nosso pai?

- Do que... Você está falando?

- De nossa irmã...

- Nossa... Irmã? – perguntei confusa.

- Eva.

- Eva? – perguntou Dom. – Você conhece Eva, Kevin?

- Você sabe sobre Eva? – perguntou Kevin a Dom.

- Não... Mas eu e Kat encontramos um bilhete falando sobre Eva dentro da caixa onde seu pai guardava o revólver.

- Sim... Eva é nossa irmã.

- Kevin, quem é Eva? Como assim nossa irmã? O que aconteceu com ela?

- Eva Lee... Ou poderia ser Chevalier.

Eu senti o ar faltar em meus pulmões. Respirei profundamente, tentando assimilar tudo que estava acontecendo sem desmaiar ou passar mal.

- O bilhete dizia: “Deu tudo certo, ela está bem, se chama Eva.”

- Provavelmente ele recebeu no dia em que ela nasceu, ou alguns dias depois. Ela é filha da rainha Anne... Com nosso pai.

Dom pegou na minha mão, apertando-a com força, sabendo que eu teria que ter forças para aguentar tudo aquilo.

- Como... Você sabe?

- Eu presenciei todas as brigas e discussões do nosso pai e nossa mãe durante o tempo que ele teve um caso com a rainha. Eu era criança, mas nunca fui burro. Você sabe o quanto eu era apegado à nossa mãe. Sempre fiquei intrigado com tudo. Eu a via chorar e sempre achava que nosso pai fazia mal a ela...

- Eu entendo... – falei tentando me colocar no lugar de Kevin, pois eu não tinha nenhuma destas lembranças.

- Quando cresci, ficava esperto com tudo em relação a Adolfo Lee. E não demorou muito para eu encontrar o bilhete dentro da caixa que guardava a arma.

- Mas... Como você soube tudo?

- Eu o pressionei... E sempre tive muitos contatos por todas as zonas... Falei que estava investigando sobre Eva. Ele tinha medo que eu contasse à nossa mãe. Então ele acabou me contando a verdade, achando que mais cedo ou mais tarde eu acabaria descobrindo de alguma forma.

- Eu... Estou sem palavras, Kevin.

- Mas eu não sei se realmente ficaríamos sabendo se ele não contasse, pois somente ele e a rainha sabiam disso. E creio que o médico e algumas poucas pessoas no castelo. Acredito que ela tenha escondido a gravidez até o fim... Não sei se o próprio rei soube desta criança.

- Mas... Ela nasceu. Estava escrito no bilhete... Estava bem.

- Nasceu... E assim que veio ao mundo foi enviada para outro país, entregue a uma escola ou algo do tipo.

- Uma escola? Não seria um orfanato? – perguntei.

- Uma escola... Interna. Algo assim.

- Ela... Está viva?

- Sim. Ela deve ter a sua idade... Talvez um pouco mais.

- A idade de Dereck. – falei. – Ele imaginava que podia ser filho do nosso pai.

- Então ela deve ser um pouco mais nova ou mais velha que ele.

- Mas Magnus... Não soube de nada?

- Ele deveria ser um pouco mais velho do que eu na época... Creio que nem o próprio rei saiba, como eu expliquei antes... Foi um grande segredo.

- E por que você só está me contando isso agora, Kevin?

- Porque eu quero que você entenda algumas coisas, Kat. E eu decidi que vou ajudá-la.

Eu ri amargamente:

- Kevin, ninguém pode me ajudar.

- Ele pode sim... – disse Dom me olhando atentamente. – Temos um segredo sobre a rainha que ninguém mais sabe.

Dom tinha razão. Era o maior segredo da vida dela. E nós sabíamos.

- Onde eu posso encontrar Eva?

- Ela foi enviada para um colégio interno em algum lugar... Nosso pai achava que era gerenciado por freiras, mas ele não tinha certeza.

- Nosso pai nunca quis conhecê-la?

- Eva nunca conheceu o pai, nem a mãe, muito menos sabe que tem irmãos.

- Ela é Lee?

- Não tenho certeza... Nem nosso pai tinha. Mas ela não deve ter Chevalier no nome, pois isso geraria curiosidade e possíveis associações a parentesco pela realeza.

- Kevin... Nós temos uma irmã? E ela também é irmã de Dereck e Magnus?

- Sim. – ele disse.

Eu senti as lágrimas rolarem por minhas faces quentes e enfurecidas:

- Adolfo Lee nunca procurou a filha? – perguntei novamente, tentando entender tudo que estava acontecendo.

- Nunca. Ele sempre foi um covarde. Preferiu beber e se viciar em jogos para esquecer o seu passado horrível.

Claro que aquilo era uma enorme chance de acabar com a rainha Anne. Mas saber que eu tinha uma irmã quase da minha idade me deixava completamente sensível. Pensei no quanto ela tinha sofrido, imaginando que não tinha uma família, quando seu pai estava vivo até alguns meses atrás e sua mãe era nada mais nada menos que a rainha de Noriah Sul. Mais que usar minha irmã para atingir a rainha Anne, eu precisava conhecê-la, contar-lhe quem ela era de verdade e saber tudo sobre sua vida.

- Precisamos achar nossa irmã. – eu disse.

- Vocês precisam achá-la. Eu não.

Olhamos para ele. Eu não esperava muito de Kevin. Já estava impressionada de ele ter decidido me contar sobre aquilo.

- Eu não vou achá-la porque estarei preso. – ele completou.

- Como assim? O que você fez agora, Kevin?

- Eu vou assumir a culpa pelo assassinato do rei Alfred Chevalier.

- O quê? – perguntei confusa.

- Você... Matou o rei? – perguntou Dom.

- Não... Mas eu vou assumir a culpa em nome de minha irmã.

- Como assim? Você está louco, Kevin? Eu já estou bem... Tudo está resolvido.

- Nada está resolvido. Se alguém não assumir a culpa, você vai se esconder para sempre, Kat.

- Eu jamais deixaria você assumir uma culpa que não é sua.

- Eu vou assumir a culpa. E você estará livre.

- Não...

- Eu sou um fudido... Eu não tenho nada a perder, nem a temer. Meu futuro é morrer nas ruas... Eu tenho muitas pendências por aí, em todas as zonas, seja por desavenças, roubo e outras coisas que não vem ao caso agora. Eu estaria mais seguro no castelo, preso, do que nas ruas.

- Mas você será julgado... E condenado à prisão perpétua ou decapitado. Você será o culpado pela morte do rei de Noriah. – disse Dom.

- Eu já calculei tudo. Tenho tempo para defesa. Será a notícia do ano.

- Mas... Eu não estou entendendo.- falei.

- Enquanto isso você procura nossa irmã... E volta para Magnus. E então eu tenho chance de ser solto.

Eu ri amargamente:

- Magnus irá se casar com Vitória Grimaldo.

- Ele vai fazer isso porque acha que você está morta. Quando souber que está viva, ele deixará a noiva e casará com você. Todo mundo sabe disso, até mesmo você, Doutor. – ele disse olhando seriamente para Dom.

Dom, por sua vez, baixou a cabeça e não disse nada.

- Eu... Não quero casar com Magnus.

- Você ama ele e ele a ama... Por que agora não quer casar com ele? O príncipe me encontrou na cadeia, me deu dinheiro para sobreviver por meses... Sem sequer perguntar nada. Ele faria qualquer coisa por você e todo mundo sabe disso. Eu vi vocês dois aquele dia no quarto... Eu vi a forma como ele a defendia e faria qualquer coisa por você. E foi por isso que me aproveitei dele. Qualquer coisa que eu pedisse ele faria... Por você. Será que você não entende isso? Seu ciúme deixou-a cega?

Eu e Dom olhamos atentamente para Kevin. Eu não conseguia acreditar que ele estava dizendo aquilo.

- Doutor, você não vai dizer para ela que o que eu estou falando faz sentido? Ou você disse que Magnus não ama minha irmã para poder ficar com ela?

Dom pensou um pouco e respondeu:

- Kevin, sua irmã é adulta para saber o que quer, bem como tomar suas próprias decisões. Eu não preciso dizer a ela o que fazer ou não fazer. Até porque ela nunca ouve ninguém e você sabe muito bem disto.

Kevin nos olhou confuso, percebendo as mãos de Dom enlaçadas nas minhas:

- Você está namorando com o Doutor?

- Não. – eu disse tirando minha mão das dele. – Dom e eu somos amigos.

- Doutor, eu gosto de você, admito. Se fosse para escolher entre você e o príncipe eu escolheria você. Mas ela não olha para você do jeito que olha para ele.

Eu senti minha face corar. Kevin era ousado e falava exatamente o que pensava, sem pensar nas consequências.

- Eu só vou me entregar porque sei que você ficará com o príncipe. Então há uma chance de eu ficar vivo.

- Kevin, eu não vou aceitar que você faça isso.

- Então terá que me prender, irmã. Eu vou fazer isso... Preciso de tempo até você estar oficialmente casada com Magnus.

- Kevin, entenda, isso não vai acontecer. – eu falei alterada.

Ele levantou calmamente e disse:

- Está na hora de eu ir. Vou deixar vocês terminarem o jantar sossegados. Ou pelo menos tentarem...

- Como assim está na hora de você ir? Está louco? Você vem aqui, me conta o segredo mais importante das nossas vidas, diz que assumirá o assassinato do rei para me poupar, sendo que não é culpado e simplesmente levanta e diz que está na sua hora? Está brincando, Kevin Lee?

- Não. Eu vou seguir o plano. Minha vida está nas suas mãos.

- Agora você vai me obrigar a casar com Magnus para salvar a sua vida?

- Não... Você vai casar com Magnus para salvar a si mesma. Acho que este sempre foi seu papel.

- Kevin Lee, volte aqui. – eu disse enquanto ele saía sem olhar para trás.

Olhei para Dom. Claro que não conseguimos nem encostar na comida que tinha na nossa frente.

- Você tem uma irmã... Filha da rainha. – falou Dom confuso.

- Dom... Eu estou perplexa.

Voltamos para casa. Dom entrou desta vez. Leon ficou feliz em vê-lo e logo estava lhe mostrando seus brinquedos favoritos. Dom lhe dava atenção, mas eu sabia que ele estava tão preocupado quanto eu. Depois de um tempo minha mãe decidiu botar Leon na cama. Dom sentou no sofá e eu deitei minha cabeça na perna dele, tentando colocar a minha mente em ordem. Minha cabeça doía de tanto pensar.

- Sua mãe sabe disso?

- Creio que não. – eu disse. – Mais um motivo para ela sofrer... Eu nem sei como contar.

- Espere um pouco... Vamos averiguar esta história melhor. Depois você conta.

- Dom, mas faz sentido... Tudo faz sentido.

- E de alguma forma, você está ligada à rainha e aos príncipes... Para sempre. – ele disse.

- Agora eu entendo a revolta de Kevin com meu pai... O motivo de ele ter nos deixado... E não ter sofrido a morte dele.

Dom alisou meus cabelos carinhosamente.

- Vai ficar tudo bem, Kat. E eu sempre estarei do seu lado... Nunca estará sozinha.

- Você ouviu tudo que ele falou sobre se entregar no meu lugar? – eu perguntei sentindo as lágrimas no meu rosto.

- Ele fará isso na certeza de que você o protegerá ou intervirá na punição.

- Eu não posso deixar Kevin fazer isso... Eu posso não conseguir salvá-lo.

- Acho que ele fará isso com duas intenções: deixá-la livre... E ligá-la a Magnus novamente.

Eu ri amargamente:

- Por que ninguém entende que eu não posso perdoar Magnus depois de ele ter decidido casar com Vitória?

- Porque todos sabem que ele fez isso porque achou que você está morta.

Eu olhei para ele, confusa.

- Eu não estou feliz lhe falando isso, mas é a verdade. – disse Dom.

Eu levantei minha cabeça e aconcheguei meu corpo ao de Dom:

- Nunca haverá homem como você, Dom... Nunca.

- Mas você não me ama. – ele disse me apertando em seus braços.

- Eu... Estou confusa. – confessei.

Eu realmente estava. Eu e Dom não estávamos namorando, mas nos beijávamos sempre que nos víamos. Talvez fazer amor com ele era só uma questão de tempo, que ele estava respeitando. Mas eu não tinha certeza se estava fazendo aquilo para punir Magnus de alguma forma ou porque realmente meu coração estava dividido, afinal Dom era um homem muito fácil de gostar. E com Magnus longe, o caminho ficava completamente livre para ele, que sempre mexeu comigo de uma forma intensa. Eu não sabia o que aconteceria dali por diante, nem com relação a minha irmã que eu não conhecia, nem com relação a Magnus, muito menos com relação a Dom. Uma coisa era certa: eu não ficaria chorando por Magnus enquanto ele estava nos braços de Vitória Grimaldo. Então eu beijei Dom, carinhosamente, deixando que a mão dele explorasse meu corpo da forma como só ele fazia. Era aquele jogo corporal com ele que fazia com que eu me sentisse viva de verdade, pois perante o mundo eu estava morta.

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