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Capítulo 89 - Kevin voltou

last update Fecha de publicación: 2021-06-28 06:33:15

Quando acordei eu e Leon estávamos abraçados. Eu retirei o corpo dele quentinho junto do meu com cuidado para não acordá-lo. Fui usar o banheiro pela primeira vez. O chuveiro era quente e com bastante água. Encontrei algumas roupas minhas no quarto de minha mãe e coloquei. Quando cheguei na cozinha o leite quente me esperava, enquanto minha mãe lia o jornal.

- Alguma notícia importante? – perguntei.

- A mesma de sempre: o casamento real. – disse ela fechando o jornal.

Eu peguei das mãos dela e abri. Magnus Chevalier, que nunca aparecia na mídia agora estava diariamente estampado nos jornais. Quanta ironia.

- Você vai sair? – perguntou minha mãe.

- Vou.

- Não pode sair... Precisa ter cuidado. Ainda é muito recente.

- Vou me cuidar. Está tudo bem, mamãe. Hora de me mexer... E fazer todo mundo pagar.

- Kat, eu não quero que você seja esta pessoa.

- Eu sou esta pessoa, mamãe... Não descansarei até provar minha inocência e culpar a rainha pelo assassinato do próprio marido.

A calça jeans estava um pouco larga. Eu havia emagrecido ainda mais nos últimos meses. Uma camiseta branca, um tênis, prendi meus cabelos num coque alto e pus um boné na cabeça. Completei com uns óculos escuros largos e um batom claro, que não era meu hábito, visto que sempre estava com cores vibrantes. Eu procuraria uma peruca. Talvez aquilo não fosse suficiente para não ser reconhecida. Mas eu faria um teste.

A primeira parada foi o hospital da Zona E. Esperei Dom sentada sobre o capô do carro dele. Percebi que ele demorou a me reconhecer. Só soube que era eu quando se aproximou.

- Kat?

Eu sorri:

- Olá, doutor.

- Eu... Quase não a reconheci.

- Ótimo... Vim mesmo fazer um teste. – eu ri. – Então acho que está aprovado meu novo visual.

- Será que não consegue ficar um dia em casa? – ele perguntou.

- Você sabe que não... Fiquei muito tempo trancada.

- Quais seus planos?

- Para hoje ou para o futuro? – perguntei ironicamente.

- Todos... – ele disse abrindo a porta e jogando suas coisas dentro do carro.

Eu me recostei na porta dele:

- Para hoje, sair livremente fingindo ser outra pessoa... Para o futuro, provar minha inocência, buscar minha vida de volta e colocar a verdadeira culpada na cadeia.

- Janta comigo hoje?

Eu suspirei:

- Por que demorou tanto tempo para me convidar Dom? Mais de um ano se não estou enganada. – ironizei.

- Isto quer dizer sim?

- Sim... – falei. – Desde que não haja segundas intenções.

- Eu sempre tenho segundas intenções com você. – ele disse colocando  o corpo junto do meu, me apertando contra a lataria do carro.

Eu passei meus braços sobre o pescoço dele e olhei nos olhos de Dom:

- Dom, você é irresistível.

Ele me beijou. Eu aceitei o beijo. Não sabia exatamente o que estava acontecendo conosco nos últimos dias, mas de alguma forma eu não conseguia dizer não aos lábios dele. Ao mesmo tempo que eu tinha medo de estar lhe dando esperanças, eu não conseguia ficar longe dele.

- Passo na sua casa às 19 h. Preciso ir para casa e descansar.

- Tudo bem. – falei largando ele.

- Se quiser ir comigo, eu não me importo em não descansar hoje. – ele riu maliciosamente.

- Definitivamente não. – eu disse.

Ele me beijou de leve nos lábios:

- Tome cuidado.

- Não se preocupe, vou ficar bem.

Ele foi. Eu parti para a próxima parada: salão de Kim. Assim que bati na porta e ele abriu, olhou-me confuso:

- Kat?

- Você tinha que me reconhecer de primeira? – critiquei.

- Não foi de primeira... Eu tive dúvidas. – ele confessou.

Não tinha ninguém no salão. Entrei e sentei na cadeira de corte. Tirei o boné, deixando os óculos. Claro que o salão de Kim era o lugar mais provável para alguém em encontrar ou se me visse ter certeza de que era eu.

- Quero cortar. – eu disse.

- Como assim?

- Pelos ombros.

- Tem certeza?

- Só confio meus cabelos a você. Eu tenho certeza. Quero clarear um pouco também, mas não muito.

- Ok, vamos lá.

Em pouco mais de uma hora tínhamos uma Katrina com cabelos bem mais curtos e claros. Claro que isso não bastava para eu não ser reconhecida. Mas também ninguém encontraria aquela Katrina morena com cabelos ondulados se estivessem procurando. Eu também havia emagrecido bastante, o que também ajudava no disfarce.

- E Dereck? – perguntei.

- Não existe mais Kim e Dereck. – ele disse limpando a escova e guardando tudo no lugar, com sua habilidade de sempre.

- Eu... Sinto muito.

- Eu vou sentir para todo o sempre. – ele disse. – Mas não há o que fazer... Temos que aceitar nosso destino.

- Será que temos? – perguntei.

- Eu sou um homem da Zona E, gay... Acha mesmo que eu ficaria com o príncipe.

Eu ri:

- Contos de fadas não existem para pessoas como nós, meu amigo. No fim, a bruxa sempre vence.

Ele me abraçou:

- Ficarão lembranças...

- Lembranças que nunca poderão ser apagadas, Kim. Não consigo imaginar minha vida sem Magnus, nunca mais sentir o beijo dele, o cheiro do perfume dele, os bilhetes apaixonados, as mãos dele sobre mim...

Kim limpou a lágrima que quase caiu pelos meus olhos e disse:

- Você vai superar.

- Não... Nunca vou. Saber do casamento dele com Vitória doeu tanto quanto o tiro que ele me deu.

- Kat... Ele acha que você está morta? Queria que ele nunca mais casasse com ninguém e passasse o resto da sua vida revivendo um amor que se foi?

- Ele disse que era para sempre...

- Você está morta para ele. Se ele tivesse morrido, eu duvido que em pouco tempo você não estaria casada com Dom.

- Não... Não estaria.

- Não minta para você mesma.

- Eu não casaria com Dom.

- Não brinque com ele. Não lhe dê esperanças... Este homem fez tudo por você. Ele não merece.

- Ele sabe que não ficaremos juntos...

Kim pegou meu queixo e me fez olhar nos olhos dele:

- Magnus a amou... Nunca duvide disto. Eu vi os olhos dele para você no baile... Vocês estavam felizes... Era nítido o quanto se amavam...

- E agora ele está com o anel guardado para ela...

- Porque ele acha que você morreu, Kat. Não o puna desta forma...

- Ele não tinha este direito.

- E você tinha o direito de mentir que morreu?

Eu não queria mais falar sobre aquilo. Detestava quando alguém defendia Magnus. Ele iria casar com Vitória e isso era a pior coisa que ele poderia fazer.

Exatamente às 19 h Dom passou para me buscar. Quando entrei no carro ele me olhou atentamente e disse:

- Não pensei que você pudesse ficar ainda mais linda... Eu estava enganado.

- Ainda pareço Katrina?

- Sim... – ele disse rindo. – Uma Katrina ainda mais linda.

- Seu bobo. Tentei mudar, ficar diferente.

- Ficou... Mas ainda é você.

- Aonde vamos? – perguntei curiosa.

- Zona F... Menos arriscado.

- Sim... Qualquer lugar que eu possa me sentir viva novamente.

Em pouco tempo estávamos em frente a um pequeno restaurante na Zona F, numa rua não muito movimentada, com um deck ao ar livre na rua onde poderíamos jantar longe de todos.

- O que vamos pedir? – perguntou Dom.

- Saladas, todas que tiver... Macarrão com vegetais...

- Está com fome. – disse ele rindo.

- Muito tempo fazendo minha própria comida. Quero recuperar o tempo perdido.

- Você tem este direito. – ele disse colocando a mão sobre a minha.

Enquanto a comida não chegava, começamos a conversar sobre nossos gostos, um pouco de nossa infância e outros assuntos que eu sempre quis saber sobre ele e nunca tivemos oportunidade. Aquele encontro deveria ter acontecido há um ano. Mas não aconteceu. Será que nós poderíamos algum dia recuperar o tempo perdido entre nós?

Assim que a comida chegou, fomos surpreendidos pela presença de uma pessoa não convidada: Kevin.

Não precisou convidá-lo para sentar, pois ele o fez sem convite. Fiquei olhando para ele confusa, mas ao mesmo tempo sentindo vontade de abraçar meu irmão. Ele me olhou e colocou a mão sobre a minha, alisando:

- Senti saudades. – ele confessou.

- Eu também. – eu disse levantando e abraçando-o pelas costas, mesmo ele não levantando.

- Quanto tempo? Sete meses?

- Creio que sim.

Olhei para Dom. Ele não parecia bravo com a situação. Apenas curioso.

- Vai comer conosco? – perguntou Dom lhe passando o cardápio.

- Não, obrigada, Doutor. Vim mesmo falar com minha irmã. Se não fosse assim, creio que ela não me procuraria.

Eu sorri sem jeito.

- Faço questão que coma conosco, Kevin. – disse Dom.

- Estou bem. – falou Kevin.

Claro que eu estava chateada por Kevin ter tirado dinheiro de Magnus em troca de não contar sobre nosso relacionamento. Mas parece que naquele momento nada mais que dizia respeito a Magnus fazia sentido. Kevin era minha família.

- Se precisar, eu posso sair. – disse Dom.

- Não. Você pode e deve saber sobre tudo que eu vou conversar com Katrina, Doutor. De alguma forma eu acho que devo agradecer a você por minha família estar bem.

- Não... Não me deve nada. – disse Dom.

- Como você está, Kevin? – eu perguntei.

- Bem. Com o dinheiro que ganhei do seu namorado príncipe consegui me manter por um bom tempo. E fiquei longe de problemas.

- E agora o dinheiro acabou? E você precisa de novo? – perguntei. – Lamento informar, mas sua irmã vale 5 milhões de norians. Então acho que você pode ficar rico.

- Acha mesmo que eu faria isso? – ele perguntou.

- Você já propôs que ela se prostituísse... – disse Dom ironicamente.

- É diferente...

- É? – Dom perguntou levantando a sobrancelha, curioso com o pensamento do meu irmão.

- Você usou o velório do nosso pai para chantagear Magnus... – eu lembrei tristemente.

- O fato de nosso pai ter morrido não mexeu em nada comigo, Kat.

- Como você pode ser tão insensível? – perguntei. – É sobre isso que você veio falar?

- Não... Você não sabe de muitas coisas.

- Eu sei de quase tudo. Dereck me contou muita coisa que eu não sabia. Mas se você sabe mais, me conte, por favor, Kevin. – eu pedi.

- Espero que você esteja preparada para ouvir o que seu amado pai fez.

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