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Capítulo 4: Mudança de Domínio

작가: Tais Galvão
last update 게시일: 2026-08-29 21:10:51

A transferência de Tiffany para a cobertura de Petter no centro da cidade foi rápida. Ela levou apenas o essencial em duas malas, recusando a oferta de Petter de comprar um guarda-roupa inteiro novinho em folha antes que ela colocasse os pés no local. Para Tiffany, aceitar pilhas de roupas de grife escolhidas pelos estilistas dele parecia o primeiro passo para perder completamente sua identidade no meio daquele contrato.

O apartamento era imenso, decorado em tons de cinza, vidro e aço — minimalista e impessoal, exatamente como o dono. Grandes painéis de vidro do chão ao teto ofereciam uma vista panorâmica e quase intimidadora do horizonte iluminado da metrópole. O chão de porcelanato escuro refletia a luz fria dos lustres modernos, e a ausência de retratos, cores quentes ou qualquer toque de vida humana dava ao lugar a sensação de um museu moderno e desabitado.

— Seu quarto é a suíte da esquerda — indicou Petter, tirando o paletó e jogando-o sobre o sofá de couro preto. — O meu fica no fim do corredor. Temos uma governanta que vem três vezes por semana para a limpeza e abastecimento da dispensa. No mais, mantemos a privacidade.

— Perfeito. Quanto menos nos esbarrarmos fora do trabalho, melhor — disse ela, mantendo a voz neutra e a postura firme.

Quando Tiffany se virou para puxar a mala, Petter segurou o pulso dela suavemente. O toque — inesperado, quente e firme — fez o ar congelar entre os dois. A pele dele contra a dela gerou uma faísca invisível que fez a respiração de Tiffany falhar por um milissegundo antes que ela conseguisse se recuperar.

— No escritório, você continuará sendo minha secretária sênior durante o expediente — disse ele, com os olhos azuis fixos nos dela, penetrantes como duas lâminas. — Mas entre estas quatro paredes, não aceito ordens de serviço. Entendido?

— E eu não sou sua funcionária em casa, Petter. Lembre-se de que este contrato depende da minha colaboração — retrucou ela, soltando a mão com altivez antes de puxar a alça de sua mala e caminhar em direção ao corredor indicativo.

O quarto reservado para ela era surpreendentemente espaçoso. Uma cama king-size com lençóis de linho cinza-chumbo ocupava o centro do ambiente, acompanhada por um closet amplo e um banheiro privativo revestido em mármore escuro. Tiffany fechou a porta e encostou a testa contra a madeira fria, permitindo-se finalmente soltar um longo suspiro retido. As paredes eram à prova de som, o que tornava o silêncio daquele lugar ainda mais denso e opressivo do que o barulho dos holofotes do lado de fora.

Ela caminhou até a janela da suíte, observando as luzes dos carros trafegando lá embaixo. Tudo naquela casa gritava o nome de Petter Donovan: poder, controle e um isolamento calculado do resto do mundo. Ela abriu as malas e começou a organizar suas poucas roupas no closet gigante, que parecia ridiculamente vazio com suas roupas simples e funcionais.

Enquanto guardava suas coisas, a porta do quarto recebeu duas batidas secas. Tiffany abriu a porta e encontrou Petter encostado no batente, sem a gravata e com as mangas da camisa social branca dobradas até os antebraços, revelando os braços fortes e os relógios de luxo que ele costumava usar.

— Não precisa se dar ao trabalho de cozinhar — disse ele, com a voz ligeiramente mais grave na quietude do apartamento. — Pedi para o restaurante entregar o jantar. Está na mesa.

— Não estou com fome, Sr. Donovan.

— A regra do contrato inclui manter a saúde em dia, Gallagher — ele atalhou, usando aquele tom autoritário que costumava dobrar diretores na empresa. — Além disso, precisamos repassar a agenda de amanhã e os detalhes da nossa narrativa antes do primeiro evento público oficial. Venha para a mesa.

Tiffany cerrou os dentes, irritada com a facilidade com que ele transformava até uma refeição em uma ordem corporativa. No entanto, sabendo que precisava manter o profissionalismo, ela apenas assentiu e o seguiu até a sala de jantar.

A mesa de vidro temperado já estava posta com pratos finos e talheres de prata. O aroma de um risoto de cogumelos com trufas preenchia o ar, criando um contraste bizarro com a frieza do ambiente. Eles se sentaram em pontas opostas da mesa — uma distância segura que ressaltava a natureza puramente comercial daquela convivência.

— O seu advogado já enviou a confirmação da quitação da segunda etapa do tratamento da sua mãe — disse Petter, cortando o silêncio enquanto servia dois copos de água. — O médico chefe da clínica garantiu que os exames preparatórios começam na próxima segunda-feira.

O olhar de Tiffany suavizou-se por um instante. A menção à mãe sempre atingia o ponto mais vulnerável de sua armadura.

— Obrigada por cumprir com sua parte tão rápido — disse ela, mantendo a voz baixa. — Sei que para você são apenas números em um balanço, mas para mim... é a vida dela.

Petter parou por um segundo com o copo a caminho da boca, observando-a. Pela primeira vez desde que haviam assinado o contrato, a expressão dele perdeu a costumeira arrogância calculada, dando lugar a uma curiosidade genuína e quase sombria.

— Eu cumpro meus acordos, Tiffany. Especialmente quando a minha parceira de negócios entrega os resultados que eu exijo — disse ele, repousando o copo sobre a mesa. — E você superou as expectativas hoje no saguão da empresa.

— Eu apenas executei o que combinamos.

— Não — corrigiu ele, inclinando-se ligeiramente para a frente. — A maioria das pessoas congelaria diante daquela imprensa. As herdeiras com quem o conselho queria me casar teriam entrado em pânico ou feito uma cena ridícula. Você se manteve inabalável. É uma qualidade rara nesta cidade.

— É uma qualidade de quem precisou trabalhar duro desde os dezoito anos para sustentar uma casa, Petter. A vida real não deixa espaço para pânico — retrucou ela, sustentando o olhar dele.

Petter permaneceu em silêncio por alguns segundos, absorvendo a resposta dela. Havia uma força em Tiffany que ia além da eficiência de uma secretária de elite. Ele sempre soubera que ela era brilhante no escritório, mas vê-la ali, no seu espaço pessoal, mantendo a mesma altivez sem recuar um milímetro diante dele, gerava uma inquietação inédita no CEO.

— Amanhã temos o almoço com os acionistas majoritários no Le Dôme — mudou ele de assunto, retomando o tom corporativo de costume. — Eles vão tentar nos testar. Querem ver se agimos como um casal real ou se há hesitação nos nossos gestos.

— Deixe os testes por minha conta — disse Tiffany, terminando sua refeição e levantando-se da mesa. — Eu sei exatamente o que dizer e como me comportar para manter o seu império a salvo. Com sua licença, vou me recolher.

Ela pegou seu prato e o colocou na pia antes de caminhar em direção ao corredor.

— Tiffany — chamou Petter, fazendo-a parar a poucos passos do corredor dos quartos.

Ela se virou, encontrando-o de pé ao lado da mesa, com as mãos nos bolsos da calça e os olhos fixos nela com uma intensidade perturbadora.

— Boa noite, Sra. Donovan.

Um calafrio percorreu a espinha de Tiffany ao ouvir o sobrenome pronunciado pela voz grave dele dentro daquele apartamento silencioso. Ela ergueu o queixo, recusando-se a demonstrar o impacto daquela provocação.

— Boa noite, Sr. Donovan.

Ela entrou na suíte e trancou a porta devagar. Encostada na madeira, Tiffany colocou a mão sobre o peito, sentindo o ritmo acelerado de seu coração. A coabitação mal havia começado, mas ela já percebia que o maior perigo daquele contrato não viria da imprensa ou do conselho da empresa, mas sim da perigosa e inevitável proximidade com Petter Donovan.

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