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“Eu ainda não sabia quem estava do outro lado da porta, muito menos o lugar que aquela pessoa ocuparia na minha vida.”
O toque insistente da campainha arrancou Lívia do sono.
Ela abriu os olhos, desorientada, e procurou o celular sobre o criado-mudo.
03h40.
A campainha tocou outra vez.
— Quem, em nome de Deus, aparece na casa dos outros a esta hora?
Afastou o edredom, calçou os chinelos e saiu do quarto prendendo os cabelos num coque improvisado. Antes de descer, olhou para a porta entreaberta do quarto onde Elena dormia.
Depois de tudo o que a amiga havia atravessado, vê-la descansar lhe trouxera algum alívio. Se o infeliz do outro lado da porta a acordasse…
A campainha tornou a soar.
— Já vai — resmungou, descendo as escadas. — Se quebrar essa campainha, vai pagar outra.
Acendeu a luz da entrada e girou a chave sem se lembrar de que vestia apenas uma camiseta curta de algodão e uma calcinha vermelha de renda, minúscula, que a barra mal cobria.
Abriu a porta.
— Mas que droga você pensa que está…
A reclamação morreu no meio.
Adrian Castelli ocupava boa parte do vão da entrada.
Lívia o reconheceu pelas fotografias que Elena lhe mostrara, mas nenhuma delas a havia preparado para encontrá-lo tão perto. Os cabelos castanho-escuros estavam desalinhados, a barba por fazer marcava seu rosto e a gravata frouxa pendia sobre a camisa branca, aberta no colarinho.
Os olhos azuis se fixaram nos dela.
Depois desceram.
Foi um movimento breve, mas Lívia percebeu o instante em que ele reparou na renda vermelha sob a camiseta. Adrian ergueu os olhos imediatamente, contraindo a mandíbula.
Ela segurou a barra do tecido e a puxou para baixo.
A atração inesperada só aumentou sua irritação.
Aquele era o homem por quem Elena esperava. O homem cuja ausência a amiga tentava justificar mesmo quando estava magoada demais para esconder.
— Com licença.
Lívia desviou a atenção para Gabriel, parado ao lado dele.
— A Elena está aqui?
— Está dormindo. Ou estava, antes dessa tentativa de acordar a rua inteira.
Gabriel aceitou a repreensão com um movimento de cabeça.
— Desculpe. Eu tentei ligar para você.
— Meu celular está no quarto.
Adrian deu um passo à frente.
— Vim buscar minha sobrinha. Pode chamá-la?
Lívia cruzou os braços.
— Agora você resolveu aparecer?
Gabriel fechou os olhos por um instante.
Adrian permaneceu olhando para ela.
— Como é?
— São quase quatro da manhã. Ela está descansando.
— Entendi na primeira vez. Chame Elena, por favor.
— E eu estou dizendo que ela está dormindo.
A barra da camiseta subiu quando Lívia ergueu um dos braços para apontar o relógio na parede. Adrian desviou os olhos, mas não antes de notar outra vez a pequena faixa de renda.
Aquilo o irritou. Estava preocupado com a sobrinha, não tinha paciência para discutir e, ainda assim, precisava se esforçar para manter os olhos no rosto da mulher à sua frente.
— Olhe aqui, menina…
Lívia ergueu uma sobrancelha.
— Começou mal.
— Você não sabe o que está acontecendo.
— Sei que Elena finalmente conseguiu dormir.
— E eu preciso vê-la.
A resposta veio mais firme. Por um instante, Lívia percebeu algo além da impaciência na voz dele.
Mesmo assim, não saiu da frente.
— Então poderia ter começado dizendo isso, em vez de chegar dando ordens.
— Lívia — Gabriel interveio. — Ele está preocupado.
— Ótimo. Somos dois.
Adrian olhou para o amigo.
— Você a conhece?
— Conheço.
— Então explique que eu não vou embora sem falar com Elena.
— Ele sabe explicar sozinho? — Lívia perguntou.
Adrian voltou o rosto para ela.
Os dois se encararam.
Ele parecia pouco acostumado a encontrar resistência. Lívia, por sua vez, estava cansada, assustada com tudo o que ainda não conseguira assimilar e completamente sem disposição para facilitar a vida daquele homem.
— Você sempre recebe as pessoas desse jeito? — ele perguntou.
— Só as que se penduram na minha campainha de madrugada.
— Se tivesse atendido ao telefone…
— Eu estava dormindo. É uma atividade bastante comum neste horário.
Gabriel passou a mão pelo rosto.
— Podemos diminuir o volume?
— Tio?
A voz de Elena interrompeu a discussão.
Adrian ergueu os olhos. Ela estava no alto da escada, segurando o corrimão.
— Elena…
Ele deu um passo para dentro, mas parou quando ela começou a chorar.
Lívia se virou imediatamente para a amiga e Adrian olhou de uma para a outra.
— O que aconteceu?
Lívia havia imaginado muitas vezes o que diria àquele homem. Agora, diante daquela pergunta, não podia responder por Elena.
“Depois de conhecer a boca dele, sentar ao seu lado exigia uma coragem diferente.”Lívia MoreauA porta se fechou depois da saída de Elena e Gabriel, e fiquei alguns segundos olhando para os lírios que tinha colocado num vaso.Adrian ainda estava perto da entrada quando me virei.— Você esqueceu de perguntar o tipo sanguíneo.Ele guardou o telefone no bolso e me encarou.— De quem?— Do Gabriel. Já conferiu a reserva, o endereço e o horário. Podia aproveitar e completar o cadastro.O canto de sua boca se moveu.
“Eu conhecia o cuidado dele. Naquela noite, descobri o desejo de ficar.”Elena CastelliGabriel demorou alguns instantes para responder. Seu sorriso deu lugar a uma expressão pensativa, e esperei, com os dedos ainda junto ao guardanapo.— Não sei dizer um dia exato.— Mas lembra de alguma coisa?Ele assentiu.— Lembro de uma tarde em que você foi à empresa, quando seu pai ainda estava vivo. Você tinha dezessete anos. Ficou na minha sala esperando por ele, e conversamos por quase uma hora.Sorri com a lembrança.
“Eu tinha passado o dia escolhendo o vestido. Quando ele chegou, esqueci até o que pretendia dizer.”Elena Castelli— Se você trocar de vestido outra vez, vou sair com Gabriel no seu lugar.Encontrei o olhar de Lívia pelo espelho.— Você disse que gostou mais do preto.— E gostei. Também gostei dele quando você vestiu pela primeira vez, há vinte minutos.Passei as mãos pela saia, tentando decidir se estava curta demais. O vestido terminava um pouco acima dos joelhos, tinha alças delicadas e um decote discreto. Eu gostava dele. Sempre gostei.
“Bastava ele me olhar para eu esquecer o cuidado que tinha prometido ter.”Livia MoreauEntramos na piscina pouco depois.Elena nadou até a outra borda, e acompanhei mais devagar, gostando da água fresca depois do calor. Ficamos apoiadas lado a lado, conversando sobre o restaurante que Gabriel escolheu e sobre o vestido que ela ainda não tinha decidido usar.Eu tentava convencê-la de que não precisava esvaziar o guarda-roupa quando ouvi a porta da varanda.Adrian saiu segurando uma xícara.A camisa estava aberta no colarinho, as mangas dobradas e o cabelo ainda levemente úmido. Ele parou perto da mesa, olhou para n&oacu
“Ela queria me contar sobre o primeiro beijo. Eu precisava tomar cuidado para não deixar escapar o meu.”Lívia MoureuElena esperou que eu me acomodasse na espreguiçadeira para anunciar:— Gabriel me beijou.Parei com a garrafa de água a meio caminho da boca e virei o rosto.Ela estava sentada na cadeira ao lado, com as pernas dobradas e um sorriso que tentava esconder desde que descemos para a piscina.— E você esperou até agora para me contar?— Ontem eu procurei você, mas tinha sumido.Baixei a garrafa.Eu tinha uma lembrança bastante precisa de onde estava.— Nos desencontramos. Depois, com todo mundo indo embora…— Eu sei. E você foi dormir cedo.Tinha me recolhido cedo, já dormir era outra história.Adormeci ainda excitada, lembrando a boca de Adrian, as mãos na minha cintura e tudo o que fiquei querendo depois que saí do escritório. Naquela manhã, as lembranças continuavam tão vivas que precisei me esforçar para sentar à mesa diante dele e responder a Maria sem perder o fio da
“Eu conhecia todos os motivos para parar. Mesmo assim, queria combinar quando aconteceria outra vez.”Adrian CastelliLívia olhou para os botões da minha camisa antes de erguer o rosto com um sorriso.— Você está me dando ideias, titio.Segurei sua mão antes que os dedos avançassem até o próximo botão.— Você já tem idéias demais.— E você parece gostar de algumas.Sorri, ainda segurando sua mão. Negar àquela altura seria ridículo, principalmente com a outra mão firme em sua cintura. Eu tinha acabado de beijá-la contra a estante do meu escritório, ainda sentia suas unhas na minha nuca e continuava segurando sua cintura, excitado demais para soltá-la. Minha vontade mesmo, era arrancar aquele biquíni e fazer ela gemer o meu nome por horas. Ela acompanhou meu olhar até sua boca.— Vai me mandar sair mesmo?— Estou tentando.Lívia soltou uma risada baixa, satisfeita demais com a dificuldade.Afastei-me o suficiente para deixá-la passar, mas ela permaneceu diante de mim, ajeitando a faix







