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Capítulo 5 — Café da Manhã na Padaria

Author: Marina Louise
last update publish date: 2026-09-12 00:22:06

Vento Sul era pequena o bastante para que, em três semanas, todo mundo soubesse quem era Laura, o que ela pretendia fazer com a pousada, quanto ela tinha pago (errado, diga-se, o boato inflacionava o valor real em pelo menos quarenta por cento) e — para seu constrangimento crescente — que Rafael Duarte estava trabalhando lá "praticamente todo santo dia, mais do que qualquer trabalho normal precisaria".

Ela tinha aprendido, naquelas três semanas, a decifrar os ritmos da cidade como quem aprende um idioma novo por imersão forçada. Sabia agora que a padaria de Dona Célia abria às cinco e meia, muito antes de qualquer necessidade real de pão fresco, porque era ali que os pescadores paravam antes de sair para o mar e onde as fofocas da noite anterior ganhavam formato definitivo, editado e revisado por quem quer que tivesse chegado primeiro. Sabia que a quitanda do Seu Osvaldo vendia o melhor mamão da região, mas cobrava um extra silencioso para quem não fosse "gente da terra". Sabia, acima de tudo, que não existia segredo pequeno o suficiente para escapar ileso daquelas ruas de terra batida.

A manhã tinha começado, como quase todas naquelas três semanas, com Laura acordando antes do sol nascer completamente, incapaz de se acostumar com o silêncio absoluto que substituía o zumbido constante de trânsito e sirenes ao qual doze anos em São Paulo a tinham condicionado. Ficava deitada por alguns minutos, ouvindo apenas o mar e, ocasionalmente, o canto de algum galo perdido em quintal vizinho, tentando decidir se aquele silêncio era ainda estranho o suficiente para incomodar ou se já tinha começado, sem que ela percebesse exatamente quando, a se tornar familiar.

Descia então para a cozinha provisória — um fogão de duas bocas e uma bancada improvisada sobre caixotes, já que a reforma da cozinha de verdade ainda nem tinha começado — e preparava um café fraco demais, ainda sem paciência para aprender a proporção certa do pó que Dona Célia insistia em vender numa embalagem sem rótulo, "café de gente da roça, minha filha, mais forte que reunião de condomínio". Vestia-se com as roupas velhas que reservava para os dias de trabalho pesado e caminhava os quinze minutos até a padaria, um trajeto que já conhecia de olhos fechados: a curva onde a estrada de terra encontrava a primeira rua calçada, a casa cor-de-rosa desbotada onde um cachorro vira-lata latia sem convicção alguma, o pequeno mercado que abria só às sete.

— Ele nunca trabalha tanto tempo seguido pra ninguém — comentou Dona Célia, servindo o café da manhã de Laura com um sorriso conspiratório que ela fingiu não notar, pela quinta manhã seguida em que Laura aparecia na padaria antes de ir para a pousada. — Desde que a Amanda foi embora, ele só aceita bico rápido. Entra, sai, não cria raiz com ninguém. Nem com trabalho, nem com gente.

— É porque a estrutura da minha casa é um desastre completo — respondeu Laura, mais seca do que pretendia, mordendo um pedaço de pão de queijo para evitar continuar a conversa.

— Ah, desastre é uma palavra e tanto. — Dona Célia limpou as mãos no avental estampado de flores desbotadas e se debruçou sobre o balcão, os cotovelos apoiados na madeira gasta por décadas de cotovelos parecidos. — Minha filha, eu vendo pão nessa cidade há trinta e dois anos. Vi o Rafael criança correndo descalço atrás da bola na praça, vi ele virar rapaz sério cedo demais depois do que aconteceu com o pai, vi a Amanda chegar toda faceira do Rio achando que ia domesticar homem do interior, e vi ela ir embora seis meses depois quando percebeu que homem do interior não se domestica, só se entende, e ela nunca teve paciência pra entender nada. Sei diferenciar um homem trabalhando por necessidade de um homem trabalhando porque quer ficar por perto de alguém.

Laura engoliu o resto do pão de queijo em silêncio, sem coragem de perguntar mais nada, e Dona Célia, satisfeita com o próprio discurso, voltou para o forno assobiando uma modinha antiga.

Antes de sair, o telefone da padaria — um aparelho fixo antigo, de fio espiralado, que Dona Célia recusava-se a substituir "porque celular cai a bateria bem na hora que mais precisa" — tocou, e a padeira atendeu com o mesmo entusiasmo que dedicava a qualquer interrupção do dia.

— Pousada das Ondas? Não, moço, aqui é a padaria, mas a dona é cliente frequente, se quiser deixar recado eu passo. — Ela cobriu o bocal com a mão, os olhos brilhando de curiosidade. — Laura, é um casal de Curitiba perguntando se a pousada já tá recebendo hóspede. Disseram que viram foto antiga num site de viagem.

O coração de Laura acelerou, uma mistura de pânico e esperança. Ainda faltavam pelo menos dois meses de reforma, mas a possibilidade concreta de hóspedes reais, gente disposta a pagar para dormir naquelas paredes que ela vinha reconstruindo com as próprias mãos, tornava tudo de repente muito mais urgente, muito mais real.

— Anota o contato, Dona Célia, por favor. Vou ligar de volta ainda hoje.

— Viu só, minha filha? — A padeira sorriu, entregando um pedaço de papel com um número rabiscado. — As coisas começando a engrenar. Só falta você resolver o coração antes que resolva o resto.

Foi só mais tarde naquele mesmo dia, sentada na varanda com o celular apoiado no ombro enquanto lixava um batente de porta empenado pela maresia, que Laura ligou reclamando das fofocas da cidade inteira para Marina.

— Você não tem noção do que é isso aqui, Marina. Em São Paulo eu podia ter um affair inteiro com o síndico do prédio e ninguém no meu andar ia saber. Aqui eu recebo um vaso de flores e no dia seguinte a padeira já sabe o histórico sentimental completo da pessoa que me deu.

— Ou porque ele gosta de olhar pra sua cara enquanto trabalha — provocou Marina pelo telefone, a voz carregando aquele tom de quem já decidiu se divertir com a situação alheia. — Admite, Lau, faz três semanas que você só fala dele nas nossas ligações. "Rafael isso, Rafael aquilo, você acredita no que o Rafael falou hoje".

— Falo da reforma.

— Fala do marceneiro da reforma. Tem diferença, sabia?

— Você tá viajando, Marina.

— Estou vendo claramente uma coisa que você se recusa a ver. — A voz de Marina ficou mais séria por um instante. — Olha, eu só quero que você seja feliz, Lau. Depois de tudo com o Eduardo, você merece. Só isso.

Laura ficou quieta por um segundo, o lixa parado na mão, olhando para o mar que se estendia além da varanda, cinza e liso naquela hora da tarde, quase sem ondas. Pensou em como tinha chorado sozinha no banheiro do escritório na semana antes de largar tudo, tentando decidir se a vergonha de cancelar um casamento era maior ou menor do que a vergonha de se casar com um homem que já não a olhava do mesmo jeito. Pensou em como nenhuma dessas lembranças doía mais do jeito que doía três meses atrás — e em como talvez isso significasse alguma coisa que ela ainda não tinha coragem de nomear.

— Eu sei que mereço, Marina. Só não sei se estou pronta.

— Ninguém nunca está pronta, Lau. As pessoas só decidem tentar mesmo assim.

Laura desligou o telefone rindo, mas a risada morreu rápido quando ela avistou, pela janela, a caminhonete de Rafael estacionando em frente à pousada — mais cedo do que o combinado, trazendo, no banco de trás, um vaso de flores silvestres que Laura teve quase certeza de que ele fingiria não ter trazido especificamente para ela.

Ela desceu as escadas correndo, freando o próprio ímpeto na porta, forçando um ritmo mais calmo antes de sair para a varanda como se não tivesse visto a caminhonete chegando havia dez segundos inteiros.

— Achei essas na trilha atrás da minha casa — disse ele, entregando o vaso sem cerimônia, os olhos fixos em qualquer lugar menos nela, o desconforto quase palpável, as botas de trabalho ainda sujas de serragem da manhã. — Sua tia gostava de flor de praia. Pensei que a casa merecia um pouco de cor, já que o resto tá tudo emborcado ainda.

Laura segurou o vaso, sentindo o coração fazer alguma coisa desajeitada no peito, algo que ela não sentia fazia meses, talvez anos, algo perigosamente parecido com esperança. As flores eram pequenas, roxas e amarelas, do tipo que crescia teimoso entre as pedras onde quase nada mais sobrevivia, e havia algo naquilo — na escolha específica, na teimosia da própria planta — que parecia dizer mais sobre ele do que qualquer conversa direta conseguiria.

— Obrigada, Rafael.

— Rafa — corrigiu ele, finalmente olhando para ela, um sorriso pequeno começando a se formar. — Só minha mãe me chama de Rafael, e olhe lá, quando tá brava de verdade comigo.

— E o que você fez pra deixar sua mãe brava?

— Uma lista longa demais pra essa conversa. — Ele riu, um som baixo, e por um segundo Laura vislumbrou o homem que devia ter sido antes de todas as perdas — mais leve, mais fácil, sem as camadas de defesa que ela vinha aprendendo a decifrar devagar. — Talvez outro dia eu conte.

— Vou cobrar essa história.

— Pode cobrar. — Ele olhou para ela por um momento longo demais para ser casual, o ar entre eles espesso de novo, como tinha ficado sob a chuva na primeira semana de trabalho, quando ele tinha ficado preso na varanda com ela esperando a tempestade passar e os dois tinham conversado sobre nada em particular por duas horas inteiras, sem perceber o tempo passando.

Foi a primeira vez que ele sorriu de verdade, sem reservas, um sorriso que subia devagar e transformava inteiramente o rosto sério que ela tinha decorado nas últimas semanas — a testa franzida de concentração, o maxilar cerrado de teimosia, tudo isso se dissolvendo numa expressão quase menina, quase leve. Laura sentiu o chão — ou talvez fosse só o assoalho podre da varanda — ceder um pouco sob seus pés.

Cuidado, avisou a si mesma. Cuidado, cuidado, cuidado.

Não adiantou absolutamente nada.

Eles ficaram ali mais alguns minutos, conversando sobre o cronograma da reforma — o telhado precisava de mais duas semanas, o piso da sala tinha um problema de cupim que ninguém tinha percebido antes, Amâncio ia trazer amostras de tinta na sexta — mas a conversa técnica funcionava apenas como um verniz fino sobre alguma coisa mais delicada acontecendo por baixo, um jeito seguro de ficar perto um do outro sem precisar admitir que era exatamente isso que os dois queriam.

Quando ele finalmente foi embora, prometendo voltar na manhã seguinte, Laura ficou na varanda vendo a caminhonete desaparecer na curva da estrada de terra, o vaso de flores ainda quente do sol nas mãos.

Naquela noite, Laura ligou o notebook pela primeira vez desde a mudança, decidida a organizar as finanças da pousada com a mesma disciplina que aplicara a contas corporativas por doze anos. Fez uma planilha detalhada: custo do telhado, custo dos móveis que ainda faltavam, previsão de receita se conseguisse abrir para hóspedes até o verão seguinte. Os números eram apertados, mas não impossíveis — desde que nada saísse do controle. Trabalhou até tarde, comparando fornecedores, revisando cada linha três vezes com o mesmo cuidado obsessivo que a tinha tornado boa no antigo emprego, e só parou quando os olhos começaram a arder de cansaço.

Colocou as flores que Rafa tinha trazido num vaso de vidro que encontrou entre as coisas da tia, posicionando-o bem no centro da mesa da cozinha, onde pudesse vê-lo enquanto trabalhava. Era uma bobagem, ela sabia — um vaso de flores silvestres não significava nada de especial — mas ainda assim sorriu sozinha, no meio daquela cozinha vazia, pensando no jeito desajeitado como ele tinha entregado o presente, evitando o próprio olhar dela como se tivesse medo de ser pego fazendo algo gentil demais.

Antes de dormir, releu um trecho antigo do diário que mantinha esporadicamente desde a adolescência, um hábito quase abandonado que voltara a praticar desde a mudança. Numa página de três meses atrás, ainda em São Paulo, tinha escrito apenas uma frase, num dia particularmente ruim: não sei mais quem eu sou fora do que os outros esperam de mim. Olhando aquelas palavras agora, com o cheiro de maresia entrando pela janela entreaberta e o som das ondas fazendo companhia, Laura sentiu que talvez estivesse, devagar, encontrando uma resposta diferente.

Isso não vai dar em nada bom, pensou, fechando o notebook. Ou talvez seja exatamente o contrário.

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