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Capítulo 6 — A Cidade Inteira Sabe

Author: Marina Louise
last update publish date: 2026-09-12 00:23:20

Vento Sul tinha uma economia própria de informação, um sistema de fofoca tão eficiente quanto qualquer rede social, e Laura descobriu isso da pior forma possível: chegando ao mercadinho local para comprar mantimentos e sendo recebida por um "então, e o Rafa, hein?" da caixa, uma senhora de uns cinquenta anos que Laura nunca tinha visto na vida.

— Desculpa? — perguntou Laura, confusa.

— Ah, não se faça de sonsa, minha filha, a cidade inteira já comentou sobre as flores. — A senhora sorriu, um sorriso largo e nada malicioso, apenas o entusiasmo genuíno de quem adorava um bom romance se desenrolando diante dos olhos. — Faz anos que ninguém vê ele trazer flor pra ninguém. Desde a Amanda, e olha que ela nunca ganhou flor de trilha, só de floricultura mesmo, coisa mais fria.

Laura pagou as compras com o rosto quente de constrangimento, prometendo a si mesma que aquele mercadinho específico estava, dali em diante, riscado da sua rotina — decisão que durou exatamente três dias, porque era o único mercado com distância caminhável da pousada.

O padrão se repetiu de formas variadas nas semanas seguintes, cada encontro uma pequena aula sobre como funcionava a memória coletiva daquela cidade: o dono da ferragem perguntando, com um sorriso cúmplice, se "as coisas estavam indo bem com o Rafa" enquanto separava parafusos que Laura nem lembrava ter pedido; a professora aposentada que morava na casa vizinha comentando, apoiada no portão baixo do próprio quintal, que "fazia bem ver o rapaz sorrindo de novo, coisa que a gente tinha quase desistido de ver"; até as crianças que brincavam na praia pareciam saber de alguma coisa, cochichando e rindo quando Laura passava, uma delas chegando a gritar, num acesso de coragem infantil, "a namorada do Rafa!" antes de sair correndo entre risadas dos amigos.

Até Seu Amâncio, que raramente comentava sobre qualquer assunto que não envolvesse madeira, telhas ou o clima, arriscou um comentário desajeitado numa manhã em que ajudava a carregar tábuas do caminhão.

— Vi o rapaz sorrindo sozinho outro dia, no meio da rua, sem motivo nenhum aparente. — Ele ajeitou o boné surrado, os olhos evitando os de Laura por educação. — Faz tempo que não via isso. Faz bem pra cidade toda, sabe. Um lugar pequeno como esse, a felicidade de um vira meio que a felicidade de todos, se a senhora me entende.

Até as senhoras que se reuniam toda tarde na calçada da casa amarela, tricotando e comentando a vida alheia com a disciplina de quem pratica aquilo havia décadas, pareciam ter incorporado o assunto ao repertório permanente. Laura passou por elas uma tarde, carregando sacolas do mercado, e ouviu, sem querer, um trecho da conversa que não deixava dúvida sobre o tema.

— Desde a Amanda que ele não sorria assim — dizia uma delas, agulhas de tricô batendo em ritmo constante. — Lembra como ele ficou depois que ela foi embora? Um ano inteiro sem aparecer em festa nenhuma, nem no Natal da igreja ele apareceu.

— Essa menina de São Paulo parece diferente — respondeu outra, baixando a voz ao perceber Laura se aproximando, o que não impediu completamente que as palavras chegassem aos ouvidos dela. — Tem outro jeito. Mais chão, sabe. A Amanda sempre foi meio de nariz empinado.

Laura acelerou o passo, o rosto quente, fingindo não ter ouvido nada, mas carregando a informação consigo pelo resto do caminho como quem carrega uma pedra pequena e persistente no sapato.

— Isso é ridículo — reclamou Laura, numa das raras tardes em que Rafa parou o trabalho mais cedo para tomarem um suco de frutas na varanda, o calor do meio-dia pesado demais para continuar. — A cidade inteira já decidiu que a gente tá junto, e a gente mal se conhece direito.

— Bem-vinda a Vento Sul. — Rafa bebeu um gole do suco, os olhos brilhando de diversão contida. — Aqui a gente não tem cinema, nem shopping, nem nada pra fazer além de cuidar da vida do vizinho. É basicamente entretenimento local.

— E não te incomoda? Todo mundo especulando sobre sua vida pessoal?

Ele deu de ombros, um gesto que Laura já reconhecia como o jeito dele de esconder algo mais complicado, os dedos batendo de leve na lateral do copo suado de condensação.

— Já me incomodou muito, quando aconteceu com a Amanda. Todo mundo perguntando, todo mundo com pena, todo mundo sabendo antes de mim mesmo que aquilo ia acabar mal. — Ele girou o copo entre os dedos, a expressão ficando mais séria. — Lembro de entrar na padaria uma semana depois que ela foi embora e ver o jeito que as pessoas me olhavam, aquela mistura de pena e curiosidade que dá vontade de sumir do mapa inteiro. Levei meses pra conseguir andar pela praça sem sentir que todo mundo tava contando os dias até eu desmoronar em público. Agora... acho que aprendi a deixar passar. Não dá pra controlar o que os outros falam. Só dá pra controlar o que a gente faz de verdade.

— E o que você está fazendo de verdade, Rafa?

A pergunta pairou entre eles, mais carregada do que Laura pretendia, e por um instante ela pensou que ele fosse desviar, fugir da resposta como fazia sempre que a conversa chegava perto demais de território sensível.

— Estou tentando descobrir isso — respondeu ele, finalmente, a honestidade crua na voz surpreendendo os dois. — Um dia de cada vez.

O suco esquentou nos copos enquanto eles ficaram ali, sentados em silêncio confortável, o tipo de silêncio que Laura nunca tinha experimentado com Eduardo, que sempre precisava preencher qualquer pausa com planos, opiniões, próximos passos, como se o vazio entre duas frases fosse uma falha a ser corrigida com urgência. Com Rafa, o silêncio parecia ter espaço próprio, uma qualidade quase física, como se ele também estivesse ali, presente, mesmo sem palavras — e Laura percebeu, observando o perfil dele contra a luz forte do meio-dia, que talvez fosse exatamente esse tipo de silêncio que ela vinha procurando havia anos sem saber nomear a busca.

Ela pensou em contar a ele sobre a ligação estranha que tinha recebido naquela manhã — uma antiga colega de trabalho, perguntando casualmente sobre "projetos na região", sem entrar em detalhes —, mas alguma coisa a fez guardar o assunto para depois, uma hesitação que ela mesma não soube explicar direito, e que mais tarde lamentaria não ter investigado com mais cuidado.

— Preciso voltar ao trabalho — disse ele, finalmente, se levantando com um suspiro relutante. — Se eu ficar mais tempo nessa varanda, corro o risco de esquecer completamente que tenho um telhado pra consertar.

— Seria uma tragédia — brincou Laura. — O que diriam de você na padaria?

— Diriam que finalmente relaxei um pouco. — Ele sorriu, aquele sorriso que ela já começava a colecionar mentalmente, catalogando cada variação: o sorriso tímido, o sorriso de deboche, o sorriso raro e completo que transformava o rosto inteiro. — Talvez não seja tão ruim assim.

Ele voltou ao trabalho, e Laura ficou observando por mais alguns minutos, fingindo organizar as caixas de livros próximas da janela, na verdade apenas aproveitando a desculpa para vigiar, discretamente, o jeito como os músculos das costas dele se moviam sob a camisa suada enquanto martelava as últimas telhas no lugar.

Mais tarde naquela tarde, arrumando o próprio quarto improvisado no segundo andar, Laura se pegou pensando em quantas coisas ela já sabia sobre um homem que conhecia havia menos de um mês: o jeito que ele torcia a boca quando concentrado, a preferência por café sem açúcar, o hábito de assobiar baixinho enquanto trabalhava, quase sem perceber. E quantas coisas ainda não sabia — o peso real por trás daquele "um dia de cada vez", o motivo exato pelo qual evitava o mar à noite, os detalhes completos de uma dor que ele mal tocava nas conversas, sempre recuando um passo antes de revelar demais.

Era estranho, pensou, sentar na varanda de uma pousada meio arruinada numa cidade que ela mal conhecia havia três semanas e sentir, ainda assim, que estava mais perto de algo real do que jamais estivera nos últimos anos inteiros em São Paulo.

Naquela noite, incapaz de dormir, Laura desceu até a cozinha para beber água e encontrou, na mesa, o pedacinho de papel com o número do casal de Curitiba que tinha esquecido de guardar direito. Ligou de volta, ainda que tarde, e conversou por quase vinte minutos com uma mulher animada chamada Fernanda, explicando o estágio real da reforma, sendo honesta sobre os prazos, e desligou o telefone com a promessa de uma pré-reserva para dali a três meses — o primeiro compromisso financeiro concreto desde que comprara a pousada, um pequeno marco que, em qualquer outro momento da vida, ela teria comemorado com uma taça de vinho e uma ligação animada para a mãe. Naquela noite, comemorou sozinha, olhando para o teto, permitindo-se sentir, ainda que por poucos minutos, um orgulho quieto e genuíno por tudo que vinha construindo com as próprias mãos.

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