LOGINQuando acordou, Bara observou que ainda havia luar sobre ela. Respirou fundo, acalmando o coração disparado, e começou a refletir sobre o estranho homem. Ao romper da aurora, Bara correu para o café e seguiu para a biblioteca do castelo o mais rápido que pôde, em busca de respostas para o que ela estava vivenciando, não saindo de lá nem para comer.
Enquanto isso, em Kyuden, Jõo mal alcançara os portões do palácio e uma das amas noturnas de Nemuru aproximou-se correndo ao avistar a Rainha, atrapalhada nos sinais pelo nervosismo, contou à Rainha que seu filho reagira nas últimas noites como quando Jõo estava junto dele, só que sem ninguém conversando com ele.
– Impossível!! – respondeu Jõo já correndo para seu filho quando a ama finalmente conseguiu terminar de contar.
Chegando lá, Nemuru estava no mesmo estado em que havia sido deixado. Ela lhe fez um carinho no rosto e beijou-lhe a testa – Nemuru deu um leve sorriso ao perceber a presença da mãe – mandou chamar a todos que ficaram responsáveis por seu filho durante sua ausência e interrogou-os um por um para tentar descobrir o que tinha acontecido nas noites que estivera fora.
Não tendo sucesso, Jõo se reuniu com os irmãos Soamri em quarto próximo de Nemuru.
– Ninguém sabe o que aconteceu. – disse Jõo meio incomodada.
– É impossível que ninguém não tenha visto ao menos uma pessoa conversando com o rapaz, se ele só reage (de leve) quando há alguém conversando com ele. – refletia Zula intrigada.
– Por isso resolvi fazer esta reunião. – respondeu Jõo com a mesma expressão de Zula – Precisamos nos organizar para podermos vigiá-lo e descobrir o que de fato está acontecendo.
– Se quiser majestade, posso ser o primeiro. – ofereceu-se Zunol erguendo a mão.
– Muito bom! – animou-se a Rainha – Com a memória que possui será impossível escapar-lhe algum detalhe.
– Por isso me ofereci. E quem sabe não seja o próprio rapaz tentando acordar de vez.
– Será possível? – questionou Zuline voltando-se para o irmão.
– Mesmo que as chances sejam mínimas, elas ainda existem. – explicou Zunol com as mãos cruzadas apoiando o rosto.
– Verdade... torçamos para que realmente seja isto. Não aguento mais ver meu filho naquele estado e ser incapaz de ajudá-lo. – comentou Jõo finalmente se sentando em uma cadeira (com a cabeça fervilhando).
– Calma minha Rainha – Zula segurou-lhe a mão – Nós vamos descobrir o que acontece. Pode ficar tranquila.
– Obrigada Zula. – uma lágrima escapou de Jõo.
Em Heiwa, Mahotsukai resolveu conversar com Bara.
– Filha. – o Rei sentava-se próximo dela.
– Diga papai. – Bara não tirava os olhos do livro que lia.
– Está acontecendo algo que não queira me dizer ainda filha?
– Como assim papai?
– Soube que desde o seu aniversário tem agido de forma estranha: não dormiu as últimas noites inteiras; desde o café da manhã está enfurnada nesta biblioteca, e desde que cheguei, ainda nem desviou o olhar para mim.
Bara olhou para o pai um instante, marcou a página que estava lendo e disse ao pai:
– Paizinho, realmente tem algo acontecendo. Mas tenha a certeza que se eu perceber que não consigo tomar conta disso sozinha, o senhor será o primeiro ao qual procurarei ajuda.
O Rei refletiu um instante, normalmente a primeira pessoa a quem Bara pedia ajuda era sua ama, para ela ir atrás do pai primeiro, o caso envolvia magia. Respirou fundo e erguendo da cadeira beijou a filha na testa dizendo-lhe antes de sair:
– Por favor, não demore para pedir ajuda. – e saiu.
Bara só retornou aos livros, em busca de respostas, depois que perdeu o pai de vista.
Na biblioteca haviam poucos lugares com visão plena do tempo lá fora, e Bara sentou em um desses lugares. Quando Bara percebeu que o crepúsculo estava para se anunciar, ela recolheu os poucos resultados que obteve (quase nada) para retornar ao local que encontrara para dormir sob o luar, já que as reformas da Torre Kendrada ainda estavam em andamento.
Encontrando-se no jardim de Nemuru mais uma vez, Bara fingiu não ter visto o estranho ocorrido e ficaram conversando.
– Puxa Nemuru... você é um amigo muito legal, mas porque não me diz o nome de seus pais? Meu pai é o Rei de Heiwa, Mahotsukai, e minha mãe (que faleceu no meu nascimento) era Mahina; e quando aos seus?
– Meu pai foi morto em batalha e minha mãe... – Nemuru sentiu receio por um instante, mas decidiu-se – é a Rainha de Kyuden, Jõo A****n.
Bara piscou um instante, em choque.
– Jõo A****n é quem!?!?
– Minha mãe. E o camafeu que você está usando, era meu quando pequeno.
Bara congelou por meio minuto, assimilando a informação, enquanto observava o camafeu. E com o leve surgir de uma preocupação, perguntou:
– E você ficou chateado de sua mãe o ter dado a mim?
– Nem um pouco. Além de ele ficar bem em você, eu sou muito grato.
– Grato?
– Graças a isso, pude conhecer você.
– Bom... – prosseguiu Bara um pouco corada – Assim fico mais aliviada. Mas... porque ela faz todos acreditarem que você está morto? Você é algum “bastardo” por acaso? Sem ofensas!
– Esta é uma história complicada.
Ao ver tristeza nos olhos e voz dele, Bara arriscou perguntar:
– Tem a ver com aquela tempestade?
– Sim. – respondeu ele em meio a um suspiro com o olhar no horizonte.
– E há algo que eu possa fazer para ajudar?...
– Eu não sei. – havia um leve tom de preocupação em sua voz agora – E mesmo se eu soubesse, não sei se arriscaria sua segurança fácil assim, mesmo que tivesse a certeza que você seria capaz de encarar um problema como o meu. – completou ele, encarando-a seriamente.
Bara ficou quieta um instante, intercalando o olhar entre o camafeu e o jardim, e retornou a atenção ao Nemuru com olhos e lábios sorridentes, fazendo-o sorrir também.
Quando ela estava prestes a dizer alguma coisa, a chegada do estranho visitante se anunciou. Nemuru a mandou embora como antes, e ela, assim como na outra vez, apenas escondeu-se (assistindo a mesma terrível cena novamente). Não sabendo ela ainda como poderia ajudar, despertou no primeiro desejo de retorno.
Durante toda a conversa entre Nemuru e Bara, Zunol ficou vigiando o príncipe no quarto. Confirmando as reações de Nemuru como nas conversas com a mãe (e sem saber que era Bara falando-lhe através dos sonhos). Procurou por todo o quarto ver ou ouvir qualquer um, qualquer coisa que pudesse estar conversando com Nemuru, sem sucesso.
Quando amanheceu, ele foi direto à Rainha contar o acontecido.
– Como assim não encontrou ninguém?!?! – Jõo ficou indignada com o relatório de Zunol.
– Senhora, eu lhe juro! Não caí no sono e não deixei passar nada. Nem os tipos de insetos que estavam lá fora. – defendia-se Zunol.
– Mas não é possível! Alguma coisa passou sim por você! – retrucou a rainha.
– Se desejar senhora, – interveio Zula com Zuline ao seu lado – ...nós duas podemos vigiar esta noite. Pois assim, podemos fazer turnos e enquanto uma vigia, a outra descansa.
– Tudo bem! – respondeu a Rainha, menos tensa – Tendo duas pessoas vigiando fica mais difícil escapar algo. Como pode! – e saiu para suas pesquisas de auxílio ao filho.
– Boa sorte para vocês. – Zunol estava de cara fechada – Pois eu repito: não havia nada e nem ninguém no quarto de Nemuru além de mim! – e saiu em seguida para os seus treinos, deixando-as sozinhas.
– Será que encontraremos alguma coisa que Zunol não achou Zula?
– Zuline, eu não sei de mais nada! Se Zunol afirma que não encontrou nada, sei lá eu se nós encontraremos. – respondeu preocupada.
Já em Heiwa, quando amanheceu, Bara foi direto para a biblioteca continuar suas pesquisas. Quando seu pai venho vê-la, para avisá-la sobre a conclusão das reformas, Bara foi logo perguntando:
– O senhor disse que não sabia muito sobre o passado da Rainha Jõo, não é verdade?
– Disse sim filha. E disse também que não fazia questão de saber mais do quê todos já sabem. Porque a pergunta?
– Por nada não... – Bara achou melhor esperar um pouco mais antes de o envolver nos problemas de Nemuru, príncipe de Kyuden – Paizinho!
– Sim meu anjo...
– É possível para um mago ancião ficar jovem novamente?
– Eu não sei filha. Nunca conheci ou ouvi falar de alguém que o tenha conseguido. – respondeu ele intrigado com a pergunta.
Bara observou o pai... depois os livros... e decidiu perguntar sobre as reformas de seu quarto.
– As reformas de Kendrada vão demorar quanto tempo papai?
– Já estão prontas! Era esta a razão de eu ter vindo procurá-la.
– Que maravilha! Se bem que eu estava começando a gostar de dormir no jardim.
Mahotsukai deu uma gargalhada e em seguida perguntou:
– O que é que você tanto pesquisa? Da última vez que ficou amanhecendo na biblioteca desse jeito, tinha só 9 anos.
– Naquela época estava atrás de saber mais sobre o megalfumac.
– Sobre o quê?! – perguntou ele surpreso.
– O megalfumac. Achou mesmo que eu não descobriria que o senhor treinou um pássaro capaz de se camuflar até em pleno voo, só pra ficar me seguindo?
– Mas como descobriu?!
– Usando os ouvidos!... Eu percebia um canto diferente toda vez que saía do castelo, e procurei saber se existia alguma ave com a capacidade de esconder-se bem. Aí descobri o megalfumac! Pesquisei mais sobre ele e, quando consegui fazê-lo comer em minha mão... Confirmei que era ele mesmo.
– E eu que gastei dois anos só para pegá-lo... E com alguns meses, aos nove anos, você consegue reconhecê-lo e fazê-lo comer em sua mão?! Não há dúvidas que você é uma jovem incrível.
– Obrigada paizinho. – agradeceu Bara com um forte abraço no pai.
– Vamos ver seus novos aposentos? – disse o rei.
– Vamos!
O novo teto era feito de um tipo grosso de vidro extremamente translúcido, coberto por uma resina especial que o protegia de todo e qualquer tipo de dano sem comprometer a transparência; dois terços da parede, partindo do teto, foram substituídos por um vidro semelhante mas que só permitia visão de dentro para fora; o quarto foi ampliado ao passar a porta das paredes para o chão e convertido em um ambiente único, eliminando qualquer empecilho para a visão noturna; o arejamento do quarto foi ampliado com a colocação de mais janelas e todos os móveis que havia no quarto ou foram substituídos ou reposicionados de maneira a não intervir com o luar.
– Ficou in-crí-vel, papai! – disse Bara quando terminou de ver toda a reforma, correndo para abraçá-lo – Muito obrigada pelo quarto maravilhoso!
– Não há de que minha filha. – respondeu-lhe o Rei após lhe beijar a testa e, arrastando-a delicadamente até uma das janelas, perguntou a Bara:
– Deixa eu lhe mostrar uma coisa?
– Sim paizinho, o quê?!
Parados diante de uma das janelas, Mahotsukai pegou um apito de prata ornamentado com pequenas esmeraldas de um dos bolsos e o assoprou, Bara achou estranho pois não parecia fazer som algum. Segundos depois, um pássaro inteiramente azul celeste, penacho de umas três penas na cabeça, cauda quase do tamanho das assas e usando uma espécie de coleira de prata com uma pequena esfera de cristal branco translúcido na frente entrou pela janela, pousando no braço do Rei.
– Sabe que ave é essa, minha querida?
– Mas é claro papai. Este é o megalfumac que o senhor colocou pra ficar atrás de mim. – respondeu Bara acariciando a ave que a aceitava com prazer.
– Correto! Eu o chamo de Camao. – Bara repetia o nome da ave em pensamento enquanto continuava com o carinho em Camao – Agora... como você acha que eu fiquei sabendo da existência de uma ave como ele?
– O senhor pesquisou, não?
– É um bom palpite, mas isso só me ajudou a saber mais sobre ele, não a existência dele.
– Ah papai, – continuou Bara se afastando da ave que preferia continuar recebendo o carinho – ...então eu não sei.
– Foi através de um Contador de Histórias Peregrino. – disse o rei com um sorriso faceiro no rosto.
– Contador de Histórias??
– Sim. Quando sua mãe era viva, costumávamos perambular pelo reino como você filha...
– Mesmo! – mais uma novidade sobre sua mãe para Bara, ao que ela lembrava.
– Mesmo, e em um desses passeios, encontramos um Contador de Histórias Peregrino! Eles viajam de reino em reino, cidade em cidade, para contar e conhecer novas e velhas histórias.
– E Camao estava entre elas. – disse Bara dando um novo carinho na cabecinha azul de Camao.
– Exatamente.
– É interessante papai, mas porque está me dizendo isto?
– Simples! Recebi a notícia que há um desses Contadores de Histórias vindo para cá. E como você anda enfurnada na biblioteca à procura de algo... quem sabe, este Contador não tenha a resposta que você procura?!
Ao ouvir estas palavras, Bara se encheu de esperança.
O casal observava o crepúsculo da janela da torre.– O tempo voou, não é mesmo?... – Bara se recostava no marido.– Realmente. – ele a recolhia – Nem acredito que já faz um mês que você assumiu o lugar de seu pai. E nem no tanto que ele conseguiu viver! Não são muitos os que alcançam os 70 anos atualmente.– Isso só foi possível por minha causa e de Tsuki. Se minha mãe não tivesse sido impedida de me criar, meu pai teria vivido muito mais...– Teria gostado de conhecer minha sogra. A mulher que gerou o mais precioso tesouro de minha vida. – ele lhe roubava um selinho.– Você é sempre um doce. Acha que nossos filhos já superaram a perda do avô? Meu pai foi muito coruja com eles...– Os gêmeos já fizeram 15 anos, a Reinheit está quase fazendo 13 e o Ad
A resposta de Bara foi agraciada com uma imensa e calorosa salva de palmas (se bem que os seus ex-pretendentes pareciam que perderiam os braços de tão sem vontade que aplaudiam), e o sorriso de Nemuru pela resposta de sua amada ia de orelha a orelha.Askherone criou com suas chamas azuladas a figura de um grande coração para cima. Um dos muitos truques que ele desenvolvera com a ajuda de Kimbe, do qual ficara mais amigo, para deslumbrar as tantas crianças que apareciam para brincar com a princesa no castelo. Impressionando os nobres e deixando o ambiente ainda mais formidável.– Senhores! – Mahotsukai tomava a atenção – Vocês não imaginam a alegria que sinto nesse momento. Há entre vocês alguns jovens que me procuraram para fazer esse mesmo pedido à minha filha, mas... Eu pude testemunhar por mim mesmo, tudo o que lhes faltava para que eu lhe cons
As semanas correram, e Dark Yami já se tornou um sonho ruim do passado. Os Montes Korionenshõ se tornaram muito mais brandos com suas nevascas, permitindo a travessia semi-segura deles, pois ainda possuíam seus riscos naturais. E todos os reinos receberam o convite de uma grande festa em Kyuden que pretendia pronunciar uma grande noticia especial.Não foram poucos os curiosos para a tal revelação.Bara partiu com o pai, Acnarepse, Kimbe e Askherone uma semana antes para ajudarem na preparação da noticia, pois o plano era de apresentar Nemuru (acompanhado de Bara) a todos os presentes somente depois da revelação da verdade.– Ainda acho que iria ser mais interessante se eu me revelasse saindo do meio de todos eles do que de um “esconderijo”. – reclamava Nemuru em seu novo quarto.– Do jeito que você fala, até parece que aguardar do meu lado &eac
Passou-se alguns dias. Kimbe ajudou a limpar as cavernas vulcânicas de todos os seres sombrios e também a esvazia-los de tudo. Gemas, mantimentos, equipamentos, tudo foi divido por igual entre os quatro Reis.Esvaziada e limpas as montanhas de Korionenshõ, Mahotsukai convidou Kimbe a viver em Heiwa como um de seus servos, pois, apesar dele ter servido ao seu pior inimigo, reconheceu nele uma preciosa fonte de conhecimento de defesa contra as artes das trevas.De início, Kimbe se sentiu receoso em aceitar tão maravilhosa oferta (pois já se imaginava voltando a mendigar pelos becos sombrios), mas Bara e Nemuru o convenceu a aceitar. Até Askherone se mostrou mais amigável com ele!Sobre Askherone, muitos foram os que se assustaram com o dragão ao vê-lo de imediato. Acnarepse quase desmaiou ao ver o lagarto gigante caminhando lado-a-lado de sua menina! Mas aos poucos, não só Askherone
Assim que Nemuru percebeu que a razão de Askherone ter criado barreiras de chamas em todas as saídas era para impedir que Dark Yami fugisse, saltou do lugar em que estava, com Candra na mão.“De jeito nenhum que esse demônio escapará outra vez!” – pensava ele enquanto se recordava da maneira que o mago costumava abandonar o seu mundo de sonhos, sempre que aparecia.Enquanto aqueles que não estavam responsáveis pelo vórtice se desnorteavam com as chamas de Askherone, Nemuru correu em direção ao mago que citava alguma coisa que o príncipe sabia que ele não podia terminar em hipótese alguma.Seja o que fosse que Dark Yami fazia, de olhos fechados, uma espécie de névoa negra se formava ao seu redor. E essa névoa que o cercava, era facilmente repelida pela Candra.Nemuru, usando cada gota de força que conseguira recup
A situação de Nemuru era complicada. Dark Yami se mostrava um adversário tão implacável quanto a sua mãe! E ainda tinha o extra que ele suportara com os espectros antes de encarar aquela batalha.– Pirralho desprezível, inconveniente, tolo e inútil! Fareis com que te arrependas de colocastes os pés nestas passagens! – ameaçava o mago enquanto o atacava.– Acredite peste, se não tivesse colocado as patas em Bara, nem em pesadelo que eu me aproximava daqui! – declarou Nemuru se defendendo e atacando como podia.– Ínfimo! Lhe dareis a lição de tua vida! Vou acorrentardes e o torturares pelo resto de tua miserável vida! E tudo bem diante dos olhos de tua querida princesinha...– Não permitirei isso nem mesmo sob o meu cadáver. – declarou o príncipe ganhando um novo estimulo com a ameaça.