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Capítulo 12

last update Data de publicação: 2021-09-08 03:03:17

Mark bateu na porta da cabana mal fechada, com madeiras bem corroídas pelo tempo, mas bem limpa ao redor, no que pareceu ser um quintal. Demorou até que alguém atendesse. Daily esperava alguém mais nova, mas o que viu foi uma mulher marcada pelo tempo, com cabelos castanhos claros esvoaçantes, ondulados por tranças desmanchadas e algumas poucas ainda feitas caindo sobre o rosto. Olhos castanhos e uma grande cicatriz no lado esquerdo do rosto. Ainda assim era uma mulher linda.

- Príncipe Mark, não esperava vê-lo por aqui. – disse ela.

- Eu trouxe uma pessoa que deseja muito conhecê-la.

Foi então que a mulher olhou para o lado e percebeu a presença de Daily, sentindo-se visivelmente incomodada com a presença dela.

- Quem é ela? – perguntou a mulher a Mark.

- É uma amiga... – ele se limitou a responder.

- Nunca a vi em Machia.

- Na verdade ela não é de Machia... – explicou Mark.

- De onde ela vem? – perguntou ela olhando hostilmente para Daily.

- Na verdade... Ela é uma... Kasenkina.

A mulher ficou incomodada quando ouviu aquela frase e disse em tom mais alto do que falava anteriormente:

- Não quero Kasenkinos aqui... Você não deveria ter trazido ela para cá.

- Ela queria muito conversar com você... – justificou Mark.

A mulher olhos hostilmente para Daily, que percebeu que sua presença não agradava nenhum pouco. Por um motivo desconhecido, ela deixava bem claro que não gostava de Kasenkinos... Provavelmente o mesmo sentimento de todos do reino de Machia.

A velha guerreira olhou novamente para Mark e disse:

- Você não deveria estar ao lado de uma Kasenkina.

- Eu a conheci há alguns dias atrás... Mas é uma longa história. – ele se limitou a dizer.

- Tenho bastante tempo para ouvir longas histórias e talvez achar justificativa para o que acho injustificável. – disse ela abrindo a porta e saindo para que eles pudessem entrar.

Mark e Daily adentraram. Daily estava nervosa com aquela mulher e seu poder enquanto guerreira do reino de Machia. Ela deixava bem claro que se sentia incomodada com a presença da jovem garota junto do príncipe do reino. Ela limpou duas velhas cadeiras simples para que eles pudessem sentar. Daily olhava o tempo todo para Mark, procurando no olhar dele segurança com relação àquela mulher misteriosa.

- Muito bem, príncipe Mark, pode me contar tudo... Principalmente como conheceu a jovem Kasenkina. – pediu ela.

Mark resumiu como havia sido seu encontro com Daily, não dando muitos detalhes com relação aos sentimentos de ambos, mas finalizou com a seguinte fala, que pegou ambas de surpresa:

- E, para completar, eu estou completamente apaixonado por ela. – disse ele olhando para Daily.

A guerreira também pousou seus olhos desafiadores para Daily, que ficou sem saber como agir, simplesmente abaixando o olhar.

- Príncipe Mark, como pode se dizer apaixonado pela mulher que pertence ao povo que matou seu pai?

- Guerreira do Sol, acha que eu não tentei lutar contra meus sentimentos? Sei que isso jamais poderia ter acontecido, devido à toda rivalidade que existe entre nossos povos, assim como o fato de meu pai ter sido morto por um guerreiro Kasenkino... Mas este sentimento foi mais forte do que eu.

- E Sherylin?

- Ainda estou me preparando para falar com ela sobre isso... Sei que ela vai me odiar para o resto da vida.

- Seu reino jamais aceitará seu amor por uma Kasenkina... E Sherylin ao saber que você a deixará por uma mulher do povo rival nunca o perdoará. Você sabe o quanto ela odeia este povo...

- Não posso fazer nada... Eu não tomei a decisão de casar-me com Sherylin... Foi um acordo entre nossas famílias. – falou Mark. – Sherylin sempre soube que eu não sentia amor por ela, somente honrava o compromisso acertado por meu pai. Mas em poucos dias eu me tornarei o rei de Machia. E dentre as decisões que preciso tomar, está a de não me casar por um acordo do passado com uma mulher que não amo. Acho que encontrar Daily era meu destino naquele dia.

- Sherylin ama você. – lembrou a mulher.

Daily decidiu que estava na hora de ela também falar, pois aquele diálogo dizia respeito a ela mais que qualquer outra pessoa.

- Eu não sou culpada. – disse ela. – E não quero que estrague sua vida e tudo que está planejado por minha causa, Mark. Eu sei o quanto seu povo será contra isso e se insistir, será odiado por todos. Eu sei muito bem o que você passará, pois certamente passarei pelos mesmos problemas com relação ao meu povo. Não podemos negar que nosso encontro nos deixou um sentimento muito forte, que não escolhemos, mas que também não pudemos evitar... No entanto nossos povos e nossas famílias jamais aceitarão qualquer tipo de envolvimento entre nós.

- Daily... – disse ele pegando a mão dela gentilmente. – Meu sentimento por você é grandioso... Estou disposto a correr todos os riscos e lutar contra tudo.

- Você precisa esquecer este sentimento, Mark... Nem me conhece...

- Eu acho que o que sinto é... Amor... Você não sente nada por mim, Daily? – perguntou ele ansioso e ao mesmo tempo um pouco triste.

- Eu... Não sei o que eu sinto, Mark... Não sei se é amor... Não sei se o fato de eu pensar em você o tempo todo significa que eu amo você... Além do mais eu tenho muito medo dos sentimentos que tenho por você.

A mulher olhou para Daily e disse:

- Acho que o fato de você pensar no príncipe Mark frequentemente desde que o conheceu pode significar sim que está apaixonada por ele.

Daily ficou calada... Sabia no seu íntimo que na sua mente só tinha Mark e que o fato de tê-lo encontrado novamente havia sido a melhor coisa que acontecera em sua vida.

- Não importa o que sentem... Este sentimento é impossível. Precisam esquecer o que sentem um pelo outro. Este amor jamais será aceito por seus povos... Ele só trará tristeza e dor a vocês e descendentes. Seu povo preferirá sua morte à sua união com Mark, Daily.

O fato de ela saber sobre o pensamento dos Kasenkinos com relação a isso impressionou Daily.

- E seu véu, Daily? – continuou a mulher. Daily se deu conta de que não colocara o véu mais uma vez... Mark via seu rosto como nenhuma outra pessoa vira, somente ela mesma. E isso já acontecia pela segunda vez. Explicar àquela mulher sobre o que a levou a tirar o véu em nada adiantaria, pois ela mesma sabia que não agira corretamente mais uma vez com relação às tradições dos Kasenkinos. – Mark jamais poderia ter visto seu rosto... Já é uma tradição não usar o véu e mostrar o rosto ao príncipe de Machia? – ironizou ela.

- Foi um acidente... E eu vou assumir meu erro. Já disse ao Príncipe Mark que ele não precisar casar comigo. – explicou ela.

- Você prefere a maldição? – perguntou ela.

- Como sabe sobre a maldição? – perguntou Daily confusa.

- Sei tudo sobre seu povo. – disse ela.

- Não me importo com a maldição. – falou Daily firmemente. – Viverei minha vida até o fim, como tem que ser... Além do mais eu vou me casar com um Kasenkino... Talvez isso atenue um pouco minha dívida e erro perante os espíritos antigos.

- E o que a fez me procurar, Kasenkina?

- Eu procuro uma pessoa...

- Qual pessoa você procura?

- Uma mulher que foi banida pelo meu povo há muitos anos atrás e mandada para este lado do rio... Ela se chamava Terry.

A mulher calou-se por um longo tempo, esfregou as mãos uma na outra e depois disse:

- O que você quer com esta mulher? Por que a procura?

- Infelizmente eu não posso lhe dizer... Só preciso que me diga se já a viu por aqui.

- Nunca ouvi falar em Terry deste lado do rio. – disse ela. – Mas me fale sobre como ela foi parar aqui...

- Como eu disse, ela foi banida por meu povo há muitos anos atrás. Sei que talvez ela não esteja aqui e que a possibilidade de encontrá-la é remota. Mas preciso ter a certeza de que ela não está viva ou procurar até achar qualquer resposta sobre o que houve com ela. Eu devo isso a um grande amigo... É muito importante para ele... Consequentemente para mim também.

- O que seu amigo quer com ela?

- Não posso dizer... Isso é entre Moa e eu...

- Moa? – perguntou a mulher confusa. – Você disse Moa? Eu ouvi direito?

- Sim... Procuro Terry a pedido de Moa, meu grande amigo.

- Eu conheço Moa. – disse Mark.

- Mark, você conhece Moa? – perguntou a mulher surpresa ao príncipe.

- Sim. – falou Mark.

- Como o conhece, Mark? – perguntou Daily curiosa também.

- Muitas vezes me aconselho com ele... É um bom homem, esquecido no meio das montanhas. Ele me falou muito sobre você, Daily.

- Sobre mim? – Daily estava muito confusa e surpresa com o que ouvia.

- Eu contei ao velho Moa tudo que aconteceu no dia em que a conheci no rio. - disse Mark.

- Então foi por isso que ele disse a Burt que não tinha problemas... – falou ela para si mesma, tendo a certeza de que Moa sabia do que ela falava.

- Daily... – disse a velha guerreira com os olhos marejados de lágrimas. – Eu... Sou Terry.

Daily sentiu-se imensamente feliz com aquela revelação. Eu seu íntimo tinha muita esperança de que aquela mulher fosse Terry, pois a possibilidade de outra pessoa viver ali era praticamente impossível. E ela quase nem acreditava que estava frente a frente com a mulher que admirou por tantos anos... A mulher que morava no coração de Moa. Daily não resistiu e lhe deu forte abraço, sendo correspondida timidamente.

- Tanto tempo que eu não ganhava abraço... E tantos anos que eu não via um Kasenkino. – confessou Terry.

Mark ficou surpreso olhando para as duas.

- Terry, Moa precisa de você.

- Moa nunca precisou de mim. – disse Terry.

- Ele me contou tudo sobre o passado de vocês. Ele não lutou contra Ahau porque não teria chances. Até hoje ele se arrepende por não ter lhe dito sobre o que realmente sentia por você. Ele a ama... Sempre amou. E pediu que eu procurasse porque não queria morrer sem saber o que houve com você.

- Como você conheceu Moa?

- Ele me trouxe ao mundo... Fez o parto de minha mãe.

- Quem é sua mãe?

- Sou filha de Darla.

- Você é filha de Darla? – perguntou Terry surpresa. – Não pode ser...

- Sei que tudo que aconteceu com você em parte tem a ver com minha mãe... Mas ela não teve culpa, acredite.

- O único culpado por tudo foi Ahua... Sempre.

- Ahua? Mas e Ahau?

- Ahau não comanda nada... Por trás dele tem Ahua e no íntimo é ele que dá todas as ordens. Ahau é um fantoche nas mãos de Ahua. Não tenho certeza se os espíritos antigos realmente falam com Ahua ou se ele inventa tudo para ser da forma como ele quer. Ahau tem medo de ser amaldiçoado ou ir contra os espíritos antigos e sábios... No fundo ele não é um homem ruim.

- Não pode ser... Sei que Ahua é horrível e repugnante... Mas Ahau nunca foi um líder bondoso.

- Ahua é muito pior do que você imagina. E infelizmente todos pagarão por acreditar nele. Ahau deve estar muito velho... E quando ele morrer se não tiver um filho homem para tomar seu lugar, certamente nomeará Ahua o novo líder Kasenkino. Então, todos conhecerão o verdadeiro Ahau... E sofrerão muito.

- Mas você sendo uma Kasenkina, por que luta pelo povo de Machia, Terry?

- Por que lutaria por um povo que me abandonou e me baniu? Não me importo em matar os Kasenkinos durante a guerra... Eu não tive culpa alguma para ser mandada para cá sozinha... Eu só não era tão bonita quanto sua mãe... E paguei o preço por isso. Ahua sempre me desejou... E foi ele que me escolheu para Ahau.

- Ahau era bom para você?

- Quando Ahua não interferia na nossa vida, sim.

- E Moa... Você pensava nele? Você o amava?

- Não deixei de pensar me Moa um minuto da minha vida.

- Ele também. – disse Daily sorrindo e pegando com carinho as mãos de Terry.

- Sempre esperei que ele viesse me buscar...

- Ele não tinha como vir... O rio foi vigiado por muito tempo depois que trouxeram você para cá.

- Sofri muito... Com um bebê no ventre.

Daily ficou confusa tentando entender o que estava acontecendo:

- Um bebê?

- Sim... Eu estava grávida... Nem sabia ainda quando me trouxeram para cá. Ahau tem um filho.

- Então Ahau tem um herdeiro? Eu não consigo acreditar...

- Mas é verdade...

- Então esta criança é a salvação dos Kasenkinos... Onde está seu filho... Ou filha?

Terry deixou as lágrimas escorrerem por sua pele enrugada pelo tempo. Havia tanta história triste naquelas lágrimas que Daily também não conteve as suas. Sabia como poderia ser triste a vida de uma mulher Kasenkina, que não tinha direitos, apenas deveres de sempre obedecer, ser bela e estar impecável para os homens.

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