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Capítulo 14

last update Data de publicação: 2021-09-08 03:04:55

Daily saiu dali. Sabia exatamente onde precisava ir. Quanto mais caminhava, parecia que mais longe ficava de chegar ao seu destino. Sua roupa pesava e o véu estava grudado no rosto, por vezes dificultando sua respiração. Seus pés afundavam na terra embarrada onde não havia vegetação. Um leve dor começou em sua cabeça. Quando ela chegou, parou um pouco, respirou e bateu na porta tão familiar. Moa não demorou a atender:

- Daily, menina, o que houve com você?

- Moa, eu precisava lhe ver...

- E precisava sair com toda esta tempestade? O que houve?

- Moa...

Ela tentou falar, mas sentiu a dor muito forte em sua cabeça e de repente tudo escureceu e ela não conseguiu segurar seu corpo.

Daily acordou recostada na cama de Moa. Ele lhe trouxe um chá quente, que ela tomou rapidamente, mesmo queimando um pouco a garganta.

- Moa...

- Descanse, menina. Você não está bem.

- Eu não lembro o que houve...

- Acho que você ficou desacordada.

- Moa, ele não foi.

- Ele quem?

-Mark... Eu não pude evitar...

Ele encostou a mão sobre a testa dela e disse:

- Você está com febre.

- Moa, eu preciso dizer a verdade a ele...

- Que verdade? – perguntou Moa olhando para ela.

- Que eu o amo... Esta é a verdade... Eu amo Mark.

- Mark é o príncipe herdeiro do reino de Machia... Você já sabe disso?

Daily respirou fundo... A cabeça ainda doía um pouco. Mas já se sentia melhor. E começava a lembrar de tudo que havia acontecido antes de chegar ali.

- Moa, eu a encontrei.

Ele ficou calado. Daily não sabia se ele estava entendendo sobre o que ela estava falando.

- Você a encontrou? – perguntou ele calmamente, como se não acreditasse no que ela falava.

- Sim, Moa... Eu encontrei Terry. E ela está viva.

Com a mesma calma que ele ouviu tudo, desceu uma única lágrima pelo rosto dele, devagar, até desaparecer quando desceu pelo pescoço. E ela jamais imaginou ver Moa chorando, mas aquilo estava acontecendo. E ela tinha certeza de que aquela lágrima que escorreu, era de alegria. Moa havia encontrado seu grande amor novamente e ela se sentia imensamente feliz por poder fazer parte daquele momento, por ser a portadora daquela notícia.

- Onde ela está? – perguntou ele.

- Terry está na mata, no outro lado do rio. Ela é a guerreira que você mandou que eu procurasse.

- Como Terry sobreviveu lá todo este tempo?

- Moa, tem tantas coisas que você não sabe... Aconteceram tantas coisas na vida dela... Inclusive ter tido um filho de Ahau.

- Um filho de Ahau? Foi isso que você me falou, Daily? – perguntou ele incrédulo.

- Você ouviu direito, Moa. Ela foi banida esperando um filho, que ela nem sabia na época. E este filho é a salvação do nosso povo, Moa. Ahau não deixará os Kasenkinos nas mãos de Ahua quando morrer. Teremos um novo líder, que é esperança de um futuro melhor para nós.

- O filho mora com ela?

- Não... Infelizmente ela o entregou a uma mulher do reino de Machia. Ela não tinha como criar um bebê naquele lugar... Eu e Mark procuraremos este filho perdido de Terry.

- Daily... Ela falou sobre mim?

- Eu tenho certeza dos sentimentos dela por você, Moa... E ela aceita que você vá até lá.

- Esperei tanto ouvir isso na minha vida... E agora que ouço não consigo nem acreditar direito.

- Mas é tudo verdade, Moa...

- Eu preciso ir até lá agora. – disse ele.

Daily ainda sentia frio e tremura no corpo, mas se sentia melhor. Não se preocupava tanto com ela na travessia, mas com ele. Moa já não era tão jovem, passara muito tempo somente naquela velha cabana. Resistiria à chuva forte, ao rio turbulento e cheio de correntezas para chegar até lá?

- Moa, acho que precisamos esperar esta chuva passar...

- Eu vivi toda a minha vida esperando reencontrar Terry, Daily. E eu nem acreditava que ela pudesse estar viva.  Não posso esperar mais.

Ela não sabia ao certo quanto tempo levaria para anoitecer, pois a chuva estava forte e o céu bastante escuro. Isto a preocupava um pouco. Mas olhando para Moa ela teve a certeza de que precisava arriscar e levá-lo até lá. Não importava as consequências que sofreria caso demorasse a retornar para o povoado Kasenkino.

- Vamos encontrar Terry. – disse ela sorrindo.

Moa jogou algumas roupas dentro de um saco e fechou a porta sem olhar para trás. Aquilo era tudo que lhe sobrara de uma vida toda. Daily ainda sentia seu corpo um pouco fraco e temia a travessia no rio. Mas devia isso à Moa. Precisava levá-lo até lá.

- Vamos. – disse ela.

A chuva não diminuiu. Moa andava devagar e ela ajudava-o dando-lhe o braço para que ele se apoiasse. O trajeto era difícil. A cada passo, uma dor. A cada dor, uma chance. A cada chance, o amor. Ela levava seu amigo ao encontro de seu grande amor. E tinha a certeza de que os dois andavam com o mesmo sentimento... Sentimento de esperança. Ela tinha esperança de encontrar Mark novamente, de alguma forma. Moa na esperança de encontrar Terry, seu grande amor. Ela se sentia eufórica e imaginava o que ele deveria estar sentindo dentro de si naquele momento. Um dia sem ver Mark a deixara completamente triste e com saudade. O que Moa sentia sem ver Terry a tanto e tanto tempo?

Daily pegou o atalho que levaria Moa até Terry. A chuva não dava trégua e a visibilidade não era boa. O caminho parecia bem mais longo que das outras vezes. Moa usava um galho forte de árvore que havia encontrado como bengala para auxiliá-lo. Os pés dela doíam bastante. Ela o olhou, preocupada, mas ele parecia estar bem. Percebia em seus olhos a ânsia por chegar logo ao seu destino e a obstinação em não deixar nada atrapalhar. Enfim chegaram ao rio que estava mais cheio que o normal e com forte correnteza.

- Moa, precisamos nadar até o outro lado. – gritou ela para conseguir ser ouvida entre a chuva e os trovões.

Moa não pensou duas vezes em entrar no rio bravio. Ela foi atrás dele, bastante atenta para não perdê-lo de vista. Reforçou o nó de seu véu para que não o perdesse na travessia. Temia que Moa tivesse dificuldade em nadar contra a correnteza. Ela dava fortes braçadas para não ser levada pela força das águas. O céu escurecia cada vez mais e ela teve quase certeza de que a noite estava chegando. Felizmente Moa parecia não ter muita dificuldade para nadar no rio, o que a impressionava muito. Parecia conseguir nadar melhor que caminhar até lá. Ela o procurou novamente com os olhos, mas não encontrou, parando suas braçadas.

- Moa. – gritou ela.

Ela parou de nadar, olhando tudo à sua volta procurando por ele. Ela tentou nadar novamente, mas a correnteza era muito forte e começava a levá-la.

- Moa, onde está você? – ela gritou o mais forte que conseguiu.

Ela deixou que a água a levasse um pouco e voltou a lutar com os braços para sair do lugar. Conseguiu retomar seu trajeto e em pouco tempo estava do outro lado. Já estava muito escuro e ela estava com medo de não encontrar Moa.

- Moa, apareça. Onde você está?

Um raio iluminou o céu e ela viu o que parecia ser alguém deitado na margem. Correu até lá. Era Moa, deitado, de olhos fechados, próximo à mata.

- Moa?

- Estou aqui, Daily. – disse ele abrindo os olhos.

Ele não parecia bem e ela ficou preocupada:

- O que houve?

- Estou bem. – disse ele levantando-se com um pouco de dificuldade. – Achei que tinha perdido você, menina.

- Vamos, Moa... Precisamos chegar até a cabana de Terry.

Daily o segurou pelo braço, o ajudando novamente a andar. Ela estava muito cansada, mas Moa parecia esgotado. Demorou a avistarem a cabana de Terry. A correnteza havia tirado eles bastante do caminho.

- Lá está Terry, Moa. – disse Daily sorrindo em meio a dor que sentia em todo corpo, deixando com que o véu entrasse em sua boca, sentindo gosto da água da chuva.

Tirando uma força que ela não sabia de onde, ele começou a andar mais rápido, com passos largos para chegar logo.

Logo eles estavam em frente à cabana de Terry. Daily chamou por ela, para não assustá-la. Pareceu uma eternidade o tempo que ela levou para atendê-los.

- Eu trouxe algo para você. – disse Daily sorrindo, sendo que seu sorriso não podia ser visto por Terry, mas ela sabia que seus olhos transmitiam tudo que ela queria dizer naquele momento.

Terry e Moa se olharam. Daily afastou-se um pouco. Não queria interromper aquele encontro de uma vida toda. Ela tinha a impressão que dos dois estavam chorando, mas não tinha certeza disto.

- É você mesmo? – disse Terry.

- Terry, eu não acredito...

Moa e Terry se abraçaram. Daily sorriu de felicidade. Depois de tanto tempo e sofrimento, eles estavam juntos. E ela era parte daquele encontro de almas, contribuindo para acalentar aqueles dois corações tristes e solitários.

- Por que você me deixou, Moa? – perguntou Terry.

- Me desculpe, Terry... Eu deveria ter lutado por você, mesmo que custasse a minha vida.

Terry passou as mãos pelo rosto de Moa com carinho. Daily via aquele momento com tanta satisfação...

- Vocês precisam entrar... Estão encharcados. – observou Terry.

Daily gostaria muito de entrar na cabana de Terry e saber tudo que os dois estavam sentindo. Mas sabia que aquele momento não lhe pertencia. Era somente deles. Tinham muita coisa para dizer um ao outro. Além do mais já estava escuro... A noite caía e ela precisava retornar para o povoado o mais rápido possível.

- Eu preciso voltar para o meu povo. – justificou Daily.

- Precisa entrar, Daily... Você não estava bem... E olhe o quanto andamos hoje. – falou Moa preocupado com ela.

- Preciso realmente voltar, Moa... Terei problemas em justificar minha ausência por todo este tempo.

- Sei disso... Cuida-se minha menina. – disse ele.

- Eu voltarei assim que conseguir. – garantiu ela.

- Venha querida... Estaremos esperando. – disse Terry.

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