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Capítulo 20

last update Fecha de publicación: 2021-09-08 03:08:49

Daily abriu os olhos e já era dia. Havia dormido tão pouco. Olhou para as paredes de seu quarto, escuras, cheirando a madeira úmida. A janela de tamanho médio deixava entrar boa parte da claridade do dia e também lhe proporcionava uma boa imagem da noite. Como dormia no andar de cima, tinha uma boa visão do povoado. Sentiria falta de seu quarto, sua casa e a convivência com seu pai. Ela observou o pai, que ainda dormia profundamente e não quis acordá-lo. Juntos as roupas dele que estavam jogadas pelo chão e levou ao córrego para lavar. Preparou um chá de ervas e enquanto bebia Erone acordou.

- Dormiu bem? – perguntou ele.

- Sim... E o senhor?

- Não muito... Estava uma noite abafada.

- Também achei... Mas depois da tempestade eu consegui dormir.

- Tempestade? Que tempestade?

- A tempestade da noite... – falou ela confusa.

- Certamente você sonhou. A noite seguiu abafada e não houve tempestade alguma.

- Devo ter sonhado. – disse ela confusa e impressionada.

Daily imaginou que a tempestade tivesse acontecido somente na floresta. Ficou na dúvida se realmente havia acontecido tudo que ela havia vivenciado na noite anterior. Já não tinha certeza de muita coisa, somente de que realmente ela e Mark haviam rompido relações.

- E você está feliz com o dia de hoje? – perguntou Erone, tirando-a de seus próprios pensamentos. – Anúncio do seu casamento.

- Estou... – falou ela sem muita certeza de que estava o convencendo disso.

- Quero que você tenha um lindo casamento. Estou feliz... Sua mãe estaria orgulhosa de você.

- Eu preciso providenciar um vestido... – observou ela. – Sabe quando os Naiguãs virão para comercializar no povoado?

- As relações entre Ahau e os Naiguãs não vai muito bem. Não creio que virão vender algo nos próximos dias. Mas saiba que você não precisa se preocupar com a roupa do casamento... Eu... Guardei o vestido da sua mãe... Para que você pudesse usar algum dia.

Ela ficou emocionada:

- Que lindo gesto, meu pai. Fico lisonjeada com isso. Onde está o vestido? Quero ver... – falou ela ansiosa.

- Vou lhe entregar somente no dia do casamento.

Daily mais uma vez estranhou a atitude do pai. Como sempre parecia que ele previa algo com relação ao casamento dela e o que acontecia com seu coração com relação a Mark. E ela ficou muito feliz em poder utilizar o vestido que sua mãe usou... Mas precisava para aquela noite, pois se casaria com Mark.

Enquanto se dirigiam ao rio para a construção da muralha, eles encontraram Burt indo para seu novo trabalho. Ele estava radiante com o anúncio do casamento.

Em pouco tempo Daily se entreteu com o trabalho, observando tudo, dando opinião e fazendo força a cada pedra trazida.

- Daily. – ela reconheceu a voz de Ahua e ele não parecia nada amigável pelo tom.

- Pois não, senhor. – disse ela parando o que estava fazendo e limpando as mãos na própria roupa.

- Eu sei que foi Moa que provocou aquela tempestade ontem. – falou ele entre dentes.

- Tempestade? De que tempestade o senhor está falando? – perguntou ela se fazendo de desentendida.

- Não adianta tentar me enganar, Daily. Eu sei que você tem o poder de ver e ouvir tudo que o velho Moa faz.

- Eu? Não faço ideia do que o senhor esteja falando.

- Por que Moa libertou estes espíritos fortes?

- Eu... Não sei...

- Eu quero respostas e agora.

- Eu não sei o que dizer... Não sei do que o senhor está falando. – disse ela confusa.

- Uma Kasenkina mentirosa...

- Eu não estou mentindo.

- É melhor que você se cuide, menina. Eu estou atento a tudo que você faz.

- Eu sinceramente não me importo com o que você possa fazer.

- Então por que foi procurar Ahau?

- Eu falei a ele a verdade, somente isso.

- Então por que não fala a verdade quando é necessário? Agora, por exemplo, quando estou querendo saber sobre o motivo da liberação daqueles espíritos.

-Não me importo com o que o senhor pensa ou com o que possa fazer contra mim. Não gosto do senhor.

- Está proibida de ir falar sobre mim com Ahau. Da próxima vez posso não ser tão tolerante... Estou perdendo a paciência com você, garota. Por que tenta me irritar tanto? Pode acabar ferida... E muito. E sempre vai perder para mim, entendeu? Sempre.

- Como odeio você... – falou ela sem conseguir controlar suas emoções.

- Acho que eu já sei disso. E eu não me importo.

- Por que não me deixa em paz? Eu tenho um trabalho a realizar.

Ahua saiu olhando-a ironicamente. Daily voltou ao trabalho e percebeu o olhar curioso das pessoas próximas. Ela nem imaginava o que passava pela cabeça deles ao vê-la trocando palavras com Ahua. Ela olhou ao redor... Todos trabalhavam e mesmo que tivessem curiosos sobre a conversa, não perguntariam, porque a vida deles era somente obedecer. E por que eram felizes daquela forma? Por que não queriam mais da vida? Por que não questionavam? Eram todos conformados com a vida que tinham... E ninguém queria mais. Para eles aquilo bastava. E ela por vezes achava que tudo girava em torno dela. Parecia que só ela tinha uma vida, uma perda triste, um amigo proibido, um amor impossível... Os Kasenkinos tinham vida... Mas eles realmente viviam? Seriam todos os povos que existiam assim? Seguindo tradições e ponto. Será que seu povo falava seus próprios sentimentos para os familiares ou não? Ahau era o líder e tudo que ele decidia era feito, sem questionamentos. Mesmo que ninguém concordasse, ainda assim obedeciam. Ou será que eles realmente concordavam com todas as ideias e decisões do líder e somente ela achava que tudo estava errada... Se não tudo, pelo menos boa parte. Seu povo acreditava que a morte não era o fim... Depois o espírito se juntava aos velhos espíritos Kasenkinos e todos ficavam juntos para sempre. Mas e se não existisse este lugar depois da morte? Por que os espíritos só buscavam os que faziam tudo que a tradição Kasenkina mandava? E sua mãe, que também virara um espírito de luz quando morreu, não viria buscá-la porque ela quebrou várias tradições e costumes de seu povo? O sentido da vida era o amor... Este sentimento que tomava conta do corpo, do coração, da alma... Alguém sentia o que ela sentia com relação ao um homem? Ela queria poder algum dia ensinar ao seu povo sobre o amor... E sobre viver. Ela sentiu uma lágrima descer pelo seu rosto, caindo salgada no seu lábio, grudando o véu. Por que ela pensava tanto? Por que não conseguia simplesmente trabalhar como todos os demais?

Com tantos pensamentos na cabeça o tempo passou e o trabalho do dia findou. Daily chegou logo em casa. Aquela noite seria o anúncio do casamento. Ela sentou-se cansada e tentou não pensar em nada. Esperou por Erone mas ele demorou a retornar, o que ela estranhou, pois ele sabia que aquela noite haveria o anúncio. Ela foi ao rio, tomou um banho gelado, deixando a água limpar seu corpo daquele dia intenso de trabalho e reflexões. Tentou não pensar em nada, somente deixar a água lavar tudo e levar embora seus pensamentos loucos.

Quando ela chegou em casa, Erone a esperava:

- Onde estava? – perguntou ele.

- Fui me banhar no rio.

- Não se preocupe com o anúncio do casamento. Não será hoje.

- Como assim?

 - Ahua não se sentiu muito bem e o curandeiro está na casa dele. Foi tudo cancelado.

- Que triste! – falou ela tentando fingir realmente tristeza. Mas por dentro ela estava imensamente feliz.

Daily esperou Erone adormecer para sair de casa e adentrar na floresta que a levaria até a trilha onde esperava mais uma vez encontrar Mark. Ela parou ao ouvir vozes próximas ao rio onde os Kasenkinos viviam.  Ficou um pouco nervosa e escondeu-se atrás de uma grande pedra para que não fosse vista. Mas estava curiosa sobre quem estava ali durante a noite, escondido como ela e foi se aproximando lentamente, até reconhecer Ahua e Ademoore. Precisava ouvir o que eles estavam falando.

- Ahua, não sei por mais quanto tempo vou conseguir suportar tudo isso. – lamentou Ademoore.

- Precisa esperar mais um pouco... Vou arrumar outra esposa para Ahau.

Embora estivesse escuro, ela reconhecia os dois e percebia que Ahua estava usando somente calça, com o corpo acima à mostra. Ela conseguia ver suas costas escuras pelas tatuagens e a trança longa.

- Eu não aguento mais ficar com aquele homem... É horrível para mim.

- Você sabe que este casamento era necessário para livrar você do trabalho. – ele aproximou-se dela e a enlaçou pela cintura: - Quero você linda e pronta para mim todos os dias.

- E como você pretende fazer ele se livrar de mim logo?

- Não se preocupe com isso, querida. Já fiz outras vezes.

- E como?

- Vou dizer que os espíritos antigos querem que ele encontre outra esposa.

- E se algo der errado? Se não houver outra pretendente?

- Sempre dá certo... Confie em mim.

Daily não quis ouvir o resto da conversa, pois estava completamente enojada com o que ouviu. Mal via a hora de pegar seu caminho e sair dali, chegando ao rio. Mark não estava lá. Ela sentiu-se triste. Sentou-se à margem do rio, olhando para o nada. Nem sabia o que pensar direito. Ahua e Ademoore eram amantes e enganavam Ahau e todo o povo Kasenkino. Todos sabiam que a traição era crime passível de morte e ainda assim a mulher do líder tinha um relacionamento escondido e proibido com o feiticeiro, conselheiro e amigo do seu marido. E o que ela poderia fazer com relação àquilo? Sua cabeça fervilhava e ela não encontrava nenhuma resposta. Por vezes olhava para trás, na esperança de ver Mark, mas ele não estava ali. Ela estava nervosa... Pelo que vira naquela noite, pelo adiamento do casamento em razão da doença de Ahau, pela possibilidade do líder Kasenkino morrer sem saber sobre seu herdeiro e também pela possibilidade de nunca mais ver Mark. Assustava a dor que sentia ao pensar em nunca mais ver o príncipe de Machia. Mas ao mesmo tempo tinha tanto medo da relação entre os dois e do que ela poderia trazer de mal a ambos e seus povos.

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