FAZER LOGINEla escutou passos atrás de si e sentiu seu corpo tremer. Teve um pouco de medo, mas não conseguia ver na escuridão da noite.
- Mark? – perguntou ela com voz fraca.
Demorou alguns segundos para haver resposta:
- Sim, sou eu.
Mark sentou-se ao lado dela, deixando os joelhos para cima e abraçando as próprias pernas. Ela sentia o cheiro dele. Tinha tantas coisas para falar para aquele homem. No entanto seu coração batia descompassadamente, sentia seu corpo arrepiado e uma dor horrível no estômago. As palavras vinham à sua boca, mas ela não conseguia pronunciar nada.
Ela não conseguiu distinguir quanto tempo eles ficaram ali, sem falar nada, somente olhando para o rio, cada um com seus próprios pensamentos, sentimentos e sensações.
- Eu adoro este rio. – falou ele quebrando o silêncio.
- Eu também. – confessou ela.
- Não sei se pelo lugar ou pelas lembranças que ele me traz.
Ela não respondeu. Mal conseguia abrir a boca.
- Daily, me desculpe pelo que aconteceu na última vez que nos vimos. – disse ele.
- Não se preocupe, Mark... Eu... Decidi... Que esta é a última vez que vamos nos ver.
Daily não queria de forma alguma falar aquelas palavras, mas sua mente estava dominando seu coração e ela sabia que aquilo era o mais correto a fazer. O que havia visto entre Ahua e Ademoore antes de chegar ao rio havia sido crucial para que ela entendesse sua importância no povo Kasenkino. Ela precisava conter o feiticeiro e salvar seu povo das garras daquele homem falso. Amava Mark, mas jamais poderiam ser felizes juntos. E por este motivo ela sabia que devia abrir mão dele e deixá-lo conduzir o reino da forma como o pai dele havia planejado. Mark jamais a perdoaria quando soubesse que Erone havia matado o rei Pollo. E ela não estava preparada para esta conversa e talvez nunca estivesse, por ter vergonha pela atitude do pai, por ter escondido dele por tanto tempo e por pertencer ao povo que ele tanto repudiava, juntamente com seus súditos. E ela o amava intensamente... E como amava... E por isso abria mão dele.
- Daily...
- Mark... Quero somente que entenda que isto será o melhor que podemos fazer. Será melhor para nós e para nosso povo.
- Será melhor para você... Só isso. Agora eu tenha a absoluta certeza de que não me ama, Daily.
Ela riu ironicamente e disse:
- Pensei tanto em tudo que você me falou...
- E concluiu que não há amor, não é mesmo?
- Pelo contrário... Cheguei à conclusão de que o amo tanto, mas tanto, que o melhor que posso fazer por nós dois é me afastar de vez de você. Não quero que nada de mal lhe aconteça, não quero que nada me aconteça também. Você sempre soube que esse amor é proibido. Respeite minha decisão, por favor. Faço isso principalmente por você. Vou me casar com Burt, porque isso é o correto a se fazer. Sou uma Kasenkina e meu lugar é junto de meu povo. E você precisa liderar o seu e sabe disso. Jamais nossos povos aceitariam esta união... São inimigos desde sempre. Um dia você verá que eu fiz a escolha certa.
- Veio até aqui esta noite para me dizer isso?
- Acho que não temos a mesma ideia de amor, Mark. Não é uma competição para ver quem de nós é mais corajoso, entende? Não quero que corra riscos por mim... Estes riscos que corremos são sobre nossas vidas...
Ele ficou em silêncio por um longo tempo. Depois disse:
- Você tem razão, Daily.
- Nunca foi minha intenção magoá-lo, pelo contrário. Gosto demais de você para isso. Mas acredito que seja o correto a fazer. Não quero que mude seus pensamentos e suas ideias sobre o amor... Você é perfeito, Mark. E eu poderia ficar muito tempo lhe falando sobre meus sentimentos e trocando juras de amor, mas que jamais eu poderia cumprir.
- Sinceramente, não sei se entendo você. Mas respeito sua opinião. Se você quer que seja desta forma, será assim.
- Então... O próximo passo é esquecermos tudo que houve entre nós. – disse ela num fio de voz.
Daily não conseguiu conter as lágrimas que escorriam por sua face. Sentia uma imensa dor e tristeza em dizer aquelas palavras ao homem que amava, mas era necessário. Havia saído de casa e se arriscado naquela noite para casar com ele, no entanto estava ali, naquele momento, acabando com qualquer possibilidade de envolvimento entre eles. Por que o destino havia colocado Mark em seu caminho? Por que ele não era um Kasenkino? E... Por que ele aceitava tudo que ela falava sem contestar nada?
- Esquecer... Isso creio que seja impossível. – observou ele. – Mas sim, vou seguir com minha vida. E tentar voltar atrás na decisão de não casar-me com Sherylin. E o que posso fazer é lhe desejar boa sorte com seu casamento. Desejo que você seja muito feliz junto de seu povo, pois você merece.
Ele levantou-se. Ela fez o mesmo.
- Eu... Desejo-lhe também que tenha uma vida feliz e plena, Mark.
Mesmo na escuridão, eles conseguiram olhar um nos olhos do outro, profunda e longamente. Abraçaram-se. Enquanto sentia o corpo dele junto ao seu, seu cheiro, seu toque, Daily teve vontade de gritar o quanto o amava e o quanto o queria. Não conseguia pensar na possibilidade de que nunca mais o veria em sua vida. Mas sabia que aquilo era o correto a fazer... Pela segurança dele, principalmente.
Ele a soltou. Ela percebeu que ele também tinha lágrimas nos olhos. E isso doeu ainda mais nela.
- Não voltarei mais neste lugar. – avisou ele. – Cuide bem da Guerreira do Sol... Ela é muito valiosa para todos. E também de Moa.
- Eu... Farei isso...
- Preciso ir. – disse ele. – Adeus, Daily.
- Adeus...
Os dois seguiram seus caminhos de volta, sem certeza de algum dia se reencontrariam. Ela parou e virou para trás. Ele fez o mesmo. Ela observou um aceno tímido e correspondeu. Depois ele virou e seguiu seu caminho, sem olhar novamente para trás. Ela ficou ali, até que ele desaparecesse para sempre.
Daily andava rapidamente pela floresta quando foi puxada selvagemente pelo braço.
- Ahua? – perguntou ela em pânico ao reconhecê-lo.
- Por que está tão assustada? – perguntou ele sem soltá-la.
- Me parece que você que está assustado. – revidou ela.
- O que faz chorando na floresta durante a noite?
- Pelo que sei não é proibido chorar... Ainda. – disse ela puxando o braço e se desvencilhando dele.
- Talvez eu faça uma lei proibindo...
- Então até que a faça, eu posso chorar sim.
- Mas fico pensando o que faz uma garota tão bela como você, linda na verdade, com casamento marcado, filha do melhor guerreiro Kasenkino, vir pra floresta pra chorar durante a noite?
- Pergunte aos seus espíritos... Talvez eles lhe respondam. – disse ela ironicamente.
- Quero respostas. – disse ele secamente.
- Eu poderia lhe perguntar o mesmo, senhor.
- Eu não devo explicações. Sou o líder dos Kasenkinos.
- Eu sempre pensei que fosse Ahau. – disse ela com raiva.
- Depois dele, devem obedecer a mim.
- Você tem mais poder que ele, quer tudo dele... Inclusive sua esposa. – falou ela com raiva.
Ahua lhe deu uma forte bofetada, que fez com que ela se desequilibrasse e caísse no chão. Ela sentiu gosto de sangue na boca, no entanto não sentia dor, tamanho seu prazer em saber um grande segredo de Ahua.
- Mais uma vez usando da força para me conter. – disse ela levantando-se.
- Está falando demais, garota.
- Falo sobre o que vejo... E eu vi... Você e Ademoore no rio.
- Você não viu foi nada.
Ela a empurrou com força, fazendo com que ela caísse novamente no chão. E desta vez ela não se atreveu a levantar.
- No fundo você não tem culpa. Só estava no lugar errado, na hora errada. Mas felizmente não viu nada.
- Por que este ódio de mim? – perguntou ela.
- Por que segredos, não é mesmo? Pelo visto já sabemos bastante um do outro. Nunca pude ter Darla... E sei que por trás deste véu, tem uma beleza igual ou maior que a dela. Darla foi a única mulher que amei na vida... E você sofrerá enquanto não for minha, Daily.
- E o que você sente por Ademoore? Por que está com ela então? – Perguntou Daily confusa.
- Enquanto eu não puder ter você, me contento com Ademoore.
- Eu nunca serei sua... Nunca. Eu tenho nojo de você, como provavelmente minha mãe também tinha.
- Se você contar para qualquer pessoa o que viu hoje, eu mato você. – ameaçou ele. – Mato você como matei sua mãe.
Ele saiu. Ainda estava despido da cintura para cima. Usava uma espada amarrada com um cinto na calça e nada mais. Daily ficou ali, no chão, sentindo as lágrimas encharcarem seu véu. Nada podia fazer... E ainda tinha a revelação de que ele havia matado sua mãe. De que forma ele havia feito aquilo? Havia mais coisas que ela não sabia sobre a morte de Darla?
Ela levantou-se com dificuldade. Sentia um pouco de dor do impacto da queda e o rosto quente como fogo. Quando chegou em seu quarto ela deitou-se e chorou... Chorou até que seu corpo cansado adormecesse quando o sol já estava apontando no céu.
Naquela manhã ela preparou chá para Erone, mas não conseguiu comer nem beber nada. Não se sentia bem. Foi com o pai até o rio e trabalharam na construção da muralha até o anoitecer. Naquela noite seria anunciado o casamento entre ela e Burt e outro casal que ela não conhecia. Um forte vento começou anunciando uma tempestade e todos foram correndo para suas casas, amedrontados. O abrigo de suas casas foi tudo que eles tiveram por muitos e muitos dias de chuva intensa e vendavais durante as noites. Erone soube que as plantações estavam praticamente destruídas. E tudo que Daily conseguia fazer era tentar evitar chorar na presença do pai, porque o restante do tempo era em sua cama, deixando as lágrimas serem suas únicas companheiras.
- O que está acontecendo? – perguntou Erone entrando no quarto dela. Daily tentou limpar as lágrimas. – Há dias que percebo esta choradeira. O que houve?
- Tudo. – respondeu Daily.
- Pode me falar...
- Não posso, acredite. E também não quero. Juro que é melhor o senhor não saber, meu pai. Eu só quero... Ficar sozinha.
Ela não recebeu Burt naqueles dias. Aproveitava os dias de chuva para ficar sozinha e tentar pensar sobre tudo que estava acontecendo. Mas quando os dias sombrios de chuva passaram, ela precisou parar de chorar, pois sabia que a vida seguiria seu curso, como sempre foi.
O dia de trabalho foi intenso no primeiro dia de sol. Haviam perdido muito tempo e precisavam dar conta do trabalho parado. Naquela noite seria anunciado o casamento, conforme planejado e adiado pelos dias de chuva.
Daily usou um bonito vestido claro, em tom rosa claro e um véu da mesma cor, quase transparente, deixando bastante aparente sua boca. Uma forte maquiagem colorida nos olhos a deixou ainda mais bela do que já era.
- Está linda. – falou Erone quando a viu.
Ela trazia no rosto um sorriso falso e no coração uma tristeza imensa, que ninguém via. Mas seus olhos não escondiam a frieza e descontentamento com o que estava acontecendo.
Daily e Erone foram até o centro do povoado, onde uma linda festa estava preparada. As festas de anúncio de casamento costumavam ser alegres e durar muito tempo. Havia coisas gostosas para comer, trazidas por todos, e muitas bebidas diferentes, vindas de vários lugares e povoados, geralmente guardadas para aquelas ocasiões, que para os Kasenkinos era muito especial. E se houvesse luta pela noiva então, seria uma noite louvável.
Atrás de uma grande mesa ficava o líder Kasenkino, Ahau, sua esposa, Ademoore e o fiel feiticeiro e conselheiro Ahua. Os casais ficavam em frente a eles e os demais Kasenkinos formavam um grande círculo em torno de todos. Burt pegou Daily pela mão, gentilmente e a levou até o círculo de areia desenhado no chão, onde já se encontrava o outro casal que anunciaria junto deles o casamento.
- Pelo menos finja que está feliz. – disse Burt baixinho perto do ouvido dela.
Daily fingia estar feliz, mas pelo visto seus olhos a denunciavam. Há tantos dias ela não via Mark. A saudade a consumia de tristeza e dor. Ela só conseguia pensar nele. Ela observou o outro casal, que parecia mais jovem que ela e Burt. Eles pareciam felizes e apaixonados. Mas para Daily aquele momento era sem qualquer significado... Estava ali porque precisava, em nome de não ser amaldiçoada por ter mostrado seu rosto... E depois do que vira entre Ahua e Ademoore ela já nem tinha mais certeza se a maldição realmente existia. Não sabia mais se acreditava nas tradições Kasenkinas. E tivera tanto medo de Ahau morrer e não saber da existência de seu herdeiro. Então Ahua tomaria conta de todos. E este foi o principal motivo que a fez abrir mão de seu amor e deixar Mark ir. No entanto Ahau havia se recuperado e estava melhor que nunca. Ahua permanecia no comando. E tudo estava como sempre fora. Menos ela... Que havia perdido o seu coração para sempre. Ela olhou para Ahua, quer certamente sabia todo seu sofrimento, pois ela via em seus olhos uma ponta de felicidade e ironia.
- Como se chama? – perguntou a garota à ela, em tom baixo.
- Daily... E você?
- Eliklare.
- Amanhã será nosso casamento! – falou ela feliz. Daily podia ver o véu se mexendo pelo sorriso aberto da menina.
- Sim...
- Então fique feliz. – disse a menina acariciando a mão de Daily.
- Está tudo bem. – falou Daily.
- Olhos tristes e vermelhos de chorar. – observou ela falando em seu ouvido para que não fosse escutada.
- Foram alguns dias sem dormir... Acho que preocupação com o casamento. – mentiu Daily.
Eliklare era uma garota querida e simpática. Daily percebeu que poderiam ter sido boas amigas... Se ela não tivesse escolhido a floresta e o rio para seus únicos confidentes. A falta de aproximação com seu povo lhe trouxe um pouco de culpa naquele momento. Talvez a morte da mãe a tivesse deixado tão distante de todos. Ou a ausência constante de Erone, que a deixava tanto tempo sozinha desde criança para ir lutar... Ao certo ela não sabia o motivo, mas o tempo fez com que solidão fosse sua única amiga.
Logo Ahau começou a dizer suas palavras:
- Conforme nossas origens antigas, seguindo as tradições, hoje estamos aqui para anunciar o casamento destes dois casais Kasenkinos. Isso nos deixa a certeza do legado do nosso povo, pois a união destas pessoas nos trará novos Kasenkinos, sendo que todos sabem que precisam ter no mínimo um filho. E como todos sabem, neste momento se houver algum homem que se interessa por alguma das moças em questão, tem todo direito de lutar por ela. A luta é até a morte e quem vencer tem direitos totais sobre a mulher. Poltrow e Eliklare querem se casar, no entanto qualquer homem pode lutar com Poltrow caso deseje Eliklare por toda sua vida.
Todo povo ficou em silêncio. Daily fechou os olhos e só conseguia ouvir o som das folhas das árvores balançando e o rio seguindo seu curso. Ela abriu os olhos e viu um homem falando baixo com Ahau.
- Pois bem, meu povo. Há quem queira lutar por ter uma vida com Eliklare.
Eliklare abraçou Poltrow.
- Não pode ser... Não quero perdê-lo. – disse ela em tom suave e baixa, mas com muita dor.
Poltrow foi tranquilo até o rio, onde aconteceria a luta. A Eliklare só restou lágrimas rolando por seu rosto, na incerteza de seu casamento com seu amado. Ela aproximou-se de Daily, pegando sua mão em sinal de conforto para si mesma. Daily apertou a mão dela em sinal de empatia.
Daily queria muito que Poltrow não morresse para que os dois pudessem ter um final feliz. Eles preferiram lutar sem armas, usando o próprio corpo, o que tornaria a luta mais longa e triste. Poltrow de início não se saiu bem e elas pensaram que ele iria perder. Mas depois ele reagiu e conseguiu levar o oponente até o rio, onde rapidamente o afogou. Todos aplaudiram o vencedor. Eliklare foi correndo até ele e o abraçou. E ele tinha agora o direito garantido de ficar com sua escolhida para sempre, pois havia matado seu rival. Daily ficou ali, confusa com tudo que havia visto, pensando no outro homem que ficou lá no rio, que ninguém foi ver se realmente estava morto. Aquela brutalidade a deixou tão sem palavras que ela parecia estar num pesadelo. Quem seria aquele Kasenkino morto, que teve uma família, que amou em segredo aquela mulher e que não teve o direito de ficar com sua amada? Restou-lhe somente a morte fria e rápida, como sua existência.
Ela ouviu a voz de Ahau novamente, tentando ficar atenta ao que estava acontecendo.
-... E agora se algum homem deseja lutar por Daily, tem este direito.
Daily sentiu o coração bater fortemente. Podia sentir seu vestido se mexendo no peito com as batidas descompassadas. O silêncio a incomodava. Ela olhou para Ahua, que lhe deu um meio sorriso irônico. Num raio de esperança ela olhou para a floresta e viu Mark. Olhou novamente. Não podia ser... Ele não teria coragem de fazer aquilo. Se o vissem ele seria morto. Ela balançou a cabeça como forma de manter o equilíbrio e parar de imaginar coisas. Mas continuava o vendo... E ele parecia vir em sua direção.
- Não. – gritou ela. Não queria que Mark morresse, como o pai dele, o rei Pollo. Seria o fim de Machia, de todo um povo... E ela perderia para sempre o homem que amava mais que tudo.
Todos olharam para a floresta, onde seus olhos não paravam de olhar um minuto sequer. Mas não havia nada lá... Somente a escuridão... E o segredo de amor dela guardado. Ela sentiu as pernas tremerem muito e o corpo ficar pesado. Seus olhos fecharam e ela caiu.
Daily conseguia sentir as mãos de Erone junto das dela. Não sabia o que sentia naquele momento com relação a ele. Uma vida inteira de mentiras... Sentimentos que ela não sabia mais identificar. Sentia afeto por ele. Fora bom com ela tantas vezes... Mas ainda assim a oferecera em casamento ao próprio pai. Quem conseguia fazer isso e depois viver normalmente? Ele, o homem que trouxera a cabeça do rei Pollo para ser queimada entre os Kasenkinos. O homem que matou mais pessoas que todos os Kasenkinos juntos. Como Darla pudera amar aquele homem? Quem era Darla na verdade? Nem sequer Moa sabia daquele segredo que os dois esconderam. Sentimentos bons e ruins se misturavam a dor horrível que ela sentia. Um líquido quente escorreu por suas pernas e ela sabia que o bebê iria nasce
- Mas... Por que fizeram isto, Burt?- Ahau lhes prometeu ouro, muito ouro, se eles ajudassem na construção da muralha. E assim eles fizeram...- E de onde Ahau tiraria ouro para lhes dar?- Não havia ouro algum... Ahua mentiu para eles. E agora eles vão matar todos. Será o fim dos Kasenkinos. – disse ele rindo nervosamente, com os olhos não parando de mexer nunca.Percebia-se que ele estava visivelmente abalado com tudo e não parecia estar pensando bem. Falava rápido, olhava para todos os lados, com muito medo.- Burt... Você tem certeza de que eram os Naiguãs?- Sim... Muitos deles... Nunca vi tantos... Todos montados nos cavalos, seres místicos dos deuses.- E Ahua?- Mataram Ademoore... E muita gente.Daily o abraçou. Ela tinha tanto medo, mas Burt parecia estar mais amedrontado do que ela.- Burt, meu amigo, o que fizeram
Daily percebeu que Ika estava falando devagar, parecendo ter dificuldade em pronunciar as palavras.- Ika, você está bem? – perguntou ela preocupada.- Não me sinto muito bem...Daily podia ver o suor escorrendo pelo rosto dela e parecia estar sem ar. Daily gritou em desespero por socorro. Logo os empregados vieram em seu auxílio. O nervosismo tomava conta de Daily. Percebeu em sua boca uma espuma esbranquiçada. Quando o doutor chegou, ela ainda segurava na mão de Ika.Não demorou até que fosse dado o motivo da morte:- Envenenamento. – disse o doutor.- Como? – perguntou Daily chocada.- Um veneno forte, com certeza. Mas nada mais pode ser feito por ela, infelizmente. Era uma boa mulher. Fiel criada do rei Pollo e depois do rei Mark.Daily olhou para a xícara de chá próxima da cama e gritou em lágrimas:- Não pode
Mark entrou no quarto rapidamente, muito preocupado.- Daily, o que houve? Eu soube que o médico veio vê-la. Você está doente? Passou mal?- Está tudo bem, Mark. – disse ela deitada confortavelmente na cama.- Eu sabia que Sherylin não a deixaria em paz... Foi por isso que eu a proibi de entrar no castelo.- Ela não teve culpa... Inclusive me pediu desculpas. Disse que irá embora de Machia.- Sherylin lhe pediu desculpas? Sinceramente eu não acredito nas desculpas sinceras dela.- Ela pode ter percebido que nosso amor é real, Mark. Talvez tenha decidido não mais acabar com nossa felicidade. Que de nada adiantaria nos fazer mal...- Daily, não se iluda com Sherylin. Se tem uma coisa que ela sabe muito bem é como manipular as pessoas.- Eu não me importo com Sherylin, Mark. Tenho coisas mais importantes a tratar com você.
Daily despertou com os raios de sol batendo em seu rosto. Ika estava abrindo a janela para o sol entrar no quarto. Ela olhou para o lado e percebeu que Mark não estava mais ali. Ela levantou a cabeça e sentiu-se muito bem. Nem parecia que havia estado péssima nos últimos dias.- Parece bem melhor, senhora. – disse Ika sorrindo.- Realmente Ika, pareço uma nova pessoa.- Gostaria de banhar-se?- Eu adoraria.- Então me acompanhe, por favor.Ika levou Daily até um enorme quarto de banho. Jamais ela imaginou tomar um banho com água quente e perfumada. Os Kasenkinos não acreditariam que aquilo era possível. Mais uma vez ela fez comparativos e ficou chocada de quantos costumes diferentes entre os dois povos que viviam tão próximos.- Você vai ficar me olhando? – perguntou Daily para Ika.- Sim... Caso a senhora queira que eu a esfre
Daily estranhava um pouco ter Ika o tempo inteiro com ela, perguntando se queria algo, anunciando quem chegava, o que acontecia. Servia-lhe o tempo todo. Talvez com o tempo acostumasse com aquilo, mas por enquanto sentia-se um pouco presa. Talvez sentisse falta de sua liberdade, seus vestidos folgados, seus cabelos soltos e seus pés descalços pela floresta. Era acostumada a fazer as coisas pelos outros e não o contrário. As mulheres Kasenkinas nasciam para servir e não pra serem servidas. Primeiro serviam os pais e as mães até se casarem e servirem ao marido e aos filhos.Ela olhou para o enorme travesseiro ao lado do seu. Passou a mão com carinho depois sentiu o cheiro de Mark. Nem acreditava que ele havia passado a noite com ela, lhe dando tanto carinho que ela jamais imaginou receber. Tudo parecia um sonho. E naquele momento ela teve certeza que entre a liberdade, os pés descalços e a floresta, ela escol







