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Capítulo 27

last update Fecha de publicación: 2021-09-08 03:14:41

- Daily, acorde...

Daily conhecia aquela voz, mas não conseguia reconhecer quem era. Tentou abrir os olhos, mas não conseguia. A voz continuou, até ir ficando mais fraca e desaparecer. Seria um sonho? Ela estaria morta? Onde estavam os deuses? E os espíritos antigos que a buscariam? Será que ela não os encontraria por tudo que fizera errado e não ter cumprido as regras impostas por seu povo? Onde estava a voz? Não importava... Ela só queria continuar dormindo... Para sempre.

Daily sentia que estava acordada novamente, mas não conseguia abrir os olhos. Sentiu um beijo leve e doce em seu rosto. Não sentia mais frio... Estava tão aquecida e confortável... Num lugar macio e com cheiro bom.

Ela tentou abrir os olhos lentamente... E parecia ver Mark na sua frente.

- Estou sonhando? – falou ela.

- Não está sonhando, meu amor... Sou eu. – disse ele com a voz embargada, deixando uma lágrima correr pela face.

Ela sentiu as mãos quentes dele segurando a sua.

- Daily, como eu amo você... Não acredito que está aqui.

- Onde eu estou? – perguntou ela confusa, olhando para tudo e não reconhecendo nada.

- Você está em Machia, no meu castelo.

- Como... Eu vim parar aqui?

- Destino, Deus, seus deuses, chame do que quiser... O que importa é que você foi encontrada por meus homens na beira do rio... E a trouxeram para cá. Fiquei desesperado quando a vi. Pensei que não sobreviveria. Mas você é forte. Resistiu a tudo e está aqui comigo.

- Eu... Achei que estava morta. – confessou ela.

- Agora você está em casa, meu amor.

- Mark... Eu senti que você havia voltado... Meu coração me disse...

- Imagino tudo que sofreu, Daily. E eu sofro por tudo que você passou e nada pude fazer para ajudá-la.

- Pensei que nunca mais iria ver você.

- Estamos juntos agora, meu amor. E nada mais irá nos separar. Você é minha esposa e nunca mais sairá daqui, do meu lado.

- Eu não quero sair... Nunca. Não quero mais ficar longe de você. – confessou ela.

Ele foi até a janela e abriu a cortina pesada, deixando os raios de sol entrarem no quarto e iluminarem o rosto pálido dela. Ela viu tão claramente o rosto dele... Estava diferente. Havia tirado a barba.

- Estou feliz de ver o seu rosto... Durante o dia. – disse ela com um sorriso fraco.

- E você consegue ser ainda mais linda na luz do sol.

Alguém bateu na porta enorme que ficava do outro lado do cômodo. Uma senhora de roupa escura e elegante falou baixo com Mark, para não ser ouvida por Daily. Mark assentiu algo com a cabeça e logo entrou um homem muito bem vestido também, alto, claro, com barba bem feita, aparentando a idade de seu pai.

- Daily, este é um médico. – falou Mark.

- Médico? – perguntou ela confusa, não fazendo a mínima ideia do que ele queria dizer.

- Cuida de pessoas doentes. – explicou ele.

- Curandeiro? – perguntou ela.

- Isso. – confirmou ele.

Daily olhou para o homem confusa. Ele em nada se parecia com um curandeiro.

Ele fez algumas perguntas para Daily, apalpou partes de seu corpo, viu seus olhos, sua língua e garganta e ela não entendia nada do que ele estava fazendo. Ele levantou a coberta quente que estava sobre ela e apalpou o ventre, olhando para Mark atentamente.

- Como está meu bebê? – perguntou ela.

Mark olhou-a perplexo, sem entender nada. Olhou para o médico e aproximou-se rapidamente da cama. Daily sabia que não era preciso lhe explicar nada. Ele entendera tudo.

- Você perdeu o bebê. – disse o homem aparentando tristeza.

Daily olhou para Mark inconformada. Não podia ser verdade. Ela não conseguiu evitar as lágrimas de tristeza e dor pela perda de seu já tão amado filho. Tentara de tudo para protegê-lo, mas não conseguira.

- Mark, a culpa foi minha... – disse ela.

O trocou algumas palavras com Mark, mas Daily não conseguia prestar atenção. Só conseguia pensar no bebê que havia perdido. Ela não queria falar... Não queria fazer nada... Só queria chorar aquela perda. Ela precisava daquilo.

- Eu iria ser pai? – perguntou ele sorrindo e triste ao mesmo tempo, deixando novamente uma lágrima escorrer por sua face.

- Era o nosso bebê... –disse ela.

Mark sentou na cama e a abraçou com carinho. Ela sentia que o ele sofria o mesmo que ela naquele momento. Ela encostou a cabeça no peito dele e chorou até as lágrimas secarem, sem falar nada, somente sentindo sua dor. E ele não fez perguntas, apenas a acalentou com carinho de sua mão em seus cabelos e seu braço forte a envolvendo com segurança.

- Teremos outros filhos. – disse ele.

- Aquele era o nosso filho. – falou ela.

- Era para ser assim, meu amor. Há coisas que não podemos mudar... Não quero que fique triste.

- Como não ficar triste? Eu perdi nosso filho, Mark. – falou ela um pouco alterada.

- Me desculpe. – disse ele. – Só quero que você pare de sofrer, meu amor. Eu te amo e estarei sempre aqui.

Ela abraçou-o. Ela não era culpada. Mark não era culpado. Só existia um povo culpado pela perda: os Kasenkinos, seu próprio povo. Todos eram culpados, principalmente Erone, seu pai, que não lhe dera abrigo naquela noite horrível de tempestade.

- Eles sofrerão tudo que eu estou sofrendo. – disse ela.

- Do que você está falando? – perguntou Mark confuso.

Ela conseguiu contar a Mark tudo que havia acontecido naquela noite horrível. Ele disse:

- Daily, esqueça tudo isso. Tente esquecer tudo que fizeram com você. A partir de agora, você está iniciando uma nova vida.

Daily olhou para sua volta. Estava se sentindo melhor agora. E conseguia perceber o quarto enorme do castelo de Machia no qual estava deitada. Tudo muito diferente do que ela imaginava. O espaço era certamente maior que toda sua casa. Era tudo tão lindo e cheio de coisas novas que ela não conseguia nem explicar a excitação de conhecer aquele lugar. Aquela cama era enorme, espaçosa e com cobertas finas, mas quentes e confortáveis. Tudo cheirava bem e era muito limpo.

- Você dorme aqui? – perguntou ela.

- Sim... Este será nossos aposentos a partir de agora.

- Tudo tão... Lindo.

Ela se deu conta que usava uma roupa larga, bege, sem roupa íntima. Mas estava confortável. Ela se lembrou de ter batido o corpo numa pedra e talvez a cabeça. Colocou a mão na testa e percebeu o ferimento.

- Eu lembro de ter batido em uma pedra dentro do rio. – falou ela.

- Mas você está viva... E se você morresse, eu também morreria.

- Aconteceram tantas coisas na sua ausência. – disse ela. – Ahau está morto.

- Morto? Ninguém falou nada sobre ter um novo líder Kasenkino. – falou ele confuso.

- Eu preciso tentar encontrar o filho de Terry.

- Mas por quê?

- Porque este menino é o líder dos Kasenkinos, Mark.

- Eu vou ajudá-la nesta busca, Daily, pode ter certeza. Mas não agora. Agora tudo que você precisa é descansar. Você passou por muita coisa.

- Você vai ficar aqui comigo? – perguntou ela.

- Vou falar com meus soldados e depois prometo ficar com você o tempo todo.

- Então... Você conseguiu os soldados?

Ele sorriu:

- Sim... Tudo correu perfeitamente bem. Eu consegui aliança com vários pequenos povos e reinados. Foi uma viagem longa, difícil, mas no final consegui atingir meus objetivos. Tenho meu povo em segurança novamente estou pronto para enfrentar qualquer um que tentar invadir Machia.

- Eu fico feliz... Por você.

- Daily, eu tenho certeza de que a guerra entre Machia e os Kasenkinos está chegando ao fim.

- Você pretende invadir o povoado Kasenkino? – perguntou ela.

- Sim... É preciso. Você sabe que se eu não tomar o povoado isso nunca acabará. E eu preciso saber de que lado você está.

Ela pensou em tudo que viveu naquele povoado. Amava a floresta, amava o caminho até a casa de Moa, gostava de conversar com Burt, olhar a lua sobre a janela do seu quarto na cabana. Lembrou-se de Erone... A cabeça do rei Pollo sendo queimada sob sorrisos e palmas. Ela correndo na tempestade e todas as portas fechadas para ela. Ahua e seu atrevimento. As tantas bofetadas que levou muitas vezes sem motivo. Nem ela sabia se gostava de seu povo. Mas tinha certeza de que não concordava com os pensamentos dos Kasenkinos, bem como toda a ira que eles emanavam sobre os outros povos, especialmente sobre Machia.

- Não mate as crianças. – disse ela.

Com esta frase ela deixava que Mark fizesse o que achasse melhor na invasão ao povoado Kasenkino. Sabia que aquela luta era necessária, embora ela odiasse as guerras entre os povos. Mas tinha certeza de que seria a última. Mark enfrentaria Ahua e o povo poderia ser livre novamente.

- Agora quero que descanse. – disse ele lhe dando um beijo na testa.

- Vou tentar.

Daily olhou para tudo. A tristeza da perda de seu bebê se misturava a satisfação e inquietação por estar no castelo de Machia. Ela agora entendia a dor de Terry ao ter que entregar seu bebê a uma desconhecida para poder salvá-lo.

 A senhora, que antes havia entrado no quarto e falado com Mark estava novamente ali. Era bastante cordial e tinha um sorriso alegre no rosto, deixando Daily confortável na presença dela.

- Posso lhe trazer algo para comer? – perguntou ela.

- Não estou com fome... Obrigada.

- Qualquer coisa que a senhora precisar, é só me chamar. – avisou ela.

- Qual seu nome?

Ela olhou um pouco confusa para Daily, mas depois disse:

- Pode me chamar de Ika.

- Eu sou Daily. – falou ela.

- Eu sei que você é a Daily. – falou ela sorrindo.

- Já sabe meu nome?

- O Rei Mark sempre falou muito sobre a senhora.

- Mark é estimado no reino? – perguntou Daily curiosa.

- Sim, senhora. Todos gostam muito do rei.

- E o rei Pollo? – perguntou Daily. – Era um bom rei?

- Eu posso dizer sem sombra de dúvidas que o Rei Pollo foi o melhor rei que Machia já teve.

- E o que Mark lhe disse sobre mim? – perguntou ela.

- Disse que a senhora era sua esposa e que deveria ser tratado como a rainha que é.

Daily riu.

- Disse também que era belíssima... O que foi confirmado quando a conheci. – disse ela.

- Você conversa muito com Mark? São amigos?

- Criei o rei Mark praticamente desde que ele nasceu. Quando nossa rainha morreu, tão jovem, coitada, o rei Pollo pediu que eu me dedicasse ao menino, fazendo dele um homem decente, humilde e cheio dos melhores valores encontrados em Machia.

- E você conseguiu fazer isso... Mark é um homem maravilhoso...

- Ele ama a senhora. – observou ela.

- Eu também o amo demais. – falou Daily. – E você deve conhecer também Sherylin, que era noiva dele?

- Bem, praticamente todos conhecem Sherylin em Machia.

- E como ela é? – perguntou Daily curiosa.

- Bem... Sherylin é uma mulher muito bonita e educada. Vem de uma das melhores famílias do reino... É refinada e muito orgulhosa.

- Qualidades que não a definem muito... – observou Daily.

A mulher riu sem dar muita importância. Arrumou os travesseiros de Daily e a ajudou a sentar-se mais confortavelmente na cama.

- Sherylin vem ainda ao castelo? – perguntou Daily.

- Não mais. Desde que o rei Mark casou-se com a senhora, proibiu a entrada dela aqui.

- Ika... Eu quero lhe fazer uma pergunta. Poderia ser sincera e não ficar apavorada, por favor? – pediu Daily.

- Pois não, senhora.

- Você sabe... De onde eu venho?

- Sim. – falou ela. E depois continuou com voz mais baixa. – Somente eu sei disto, senhora. Por isso aviso que é muito perigoso estar aqui. Em Machia, todos odeiam os Kasenkinos, especialmente Sherylin.

- Acho que ela tem seus motivos para isso. – falou Daily.

- Talvez...

- E você, Ika, também odeia os Kasenkinos? – perguntou Daily.

- Cheguei a odiar um Kasenkino uma vez. – disse ela.

- Quem?

- O homem que matou o rei Pollo... Mas depois pensei que de nada adiantaria. Tudo um dia vai ser julgado e certamente ele pagará pelo que fez. Também já gostei muito de um kasenkino.

- Quem foi ele? Talvez eu conheça.

Ela riu amargamente:

- Um pequeno Kasenkino... Mas já faz muito tempo que nem me lembro mais.

Daily ficou confusa com a resposta dela. Um pequeno Kasenkino. Seria talvez um bebê que ela estava se referindo? Daily começou a fazer perguntas, mas ela preferiu falar menos. Ficou visivelmente desconfiada e logo foi embora.

Daily se encheu de esperanças. E se Ika fosse a mulher a quem Terry confiou seu filho? Onde estaria o bebê, que já era um homem feito? Daily tinha tantas perguntas para fazer para aquela mulher. Mas não poderia deixá-la nervosa, ou ela fugiria, como fizera naquele momento.

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