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Capítulo 28

last update Fecha de publicación: 2021-09-08 03:15:33

Mark trouxe o jantar para Daily no quarto, mesmo ela já sentindo melhor. Quando ela olhou a quantidade de alimentos ficou impressionada. Aquela comida poderia alimentar muitas pessoas. Havia coisas que ela não conhecia e nunca provara. A alimentação dos Kasenkinos era bastante restrita. Comiam somente o que a natureza oferecia. E se não fosse época boa de colheita, a comida era escassa. Usavam muitos chás, ervas, raízes, folhas, frutos e alguns tipos de animais na alimentação. Mas aquela infinidade de comida à sua frente a fez pensar em seu povo e na falta de alimentos que havia lá. Mas ela estava com tanta fome que não pensou duas vezes em provar tudo que conseguia. Depois pensaria em como ajudar seu povo de alguma forma através do reino de Machia. Ela viu que Mark a observava sorridente e perguntou:

- Não vai comer também?

- Não, obrigado. Fico feliz em ver que você está com apetite.

- Mark, eu preciso levantar e...

- De jeito nenhum. – disse ele recostando-a novamente na cama. – Você vai ficar aí até o médico dizer que você está bem.

- Mas eu já estou bem.

- Não é você quem vai decidir isso, Daily. Não quero que piore.

- Eu... Preciso lhe contar algo. – disse ela.

- Pode falar, Daily. – disse ele curioso e um pouco preocupado com o que ela poderia dizer.

- Bem... Eu acho que Ika pode ser a mulher que pegou o bebê de Terry há muitos anos atrás.

- Ika? Por que você acha isso?

- Não sei... Ela agiu de forma estranha hoje quando mencionou um pequeno Kasenkino.

- Você perguntou sobre o bebê?

- Na verdade, não. Ela não me deixou. Acabou desconversando e saindo. Percebi que não se sentiu a vontade com o assunto.

- Ika é uma das pessoas mais bondosas e caridosas que conheço. Se for ela, contará à você, com certeza.

- Eu acho que ela esconde algo sobre o bebê... Sinto isso.

Mark riu:

- Não vou dizer nada sobre isso até você perguntar a ela diretamente. Mas acho que seria muita coincidência Ika ser a mulher que criou o bebê de Terry. Além do mais, ela sempre morou aqui. Eu tenho certeza de que ela não tem ninguém fora do castelo.

- Você não acredita nesta possibilidade?

- Daily, eu não sei... Mas posso também conversar com ela a respeito.

Embora tivesse quase certeza de que ele não acreditava na possibilidade de Ika ser a mulher que pegou o bebê de Terry, ela ficou feliz de ele tentar ajudar, como sempre fazia.

- E o que você tem para me dizer, meu marido? – perguntou ela de repente, querendo que ele lhe contasse o que passava por sua mente.

- Bem... Eu tenho uns pensamentos que andam me rondando. O que acha de eu convidar Moa e a Guerreira do Sol para morarem conosco no castelo?

- Mark... Eu nem sei o que dizer... – ela sorriu feliz. – Isso é simplesmente maravilhoso.

- Eu tinha certeza de que a deixaria feliz.

Daily o abraçou com carinho:

- Como eu te amo, Mark.

- Sabe que meu coração é e será seu para sempre, Daily.

- Mas... Teria coragem para trazer outros Kasenkinos para Machia? Isso não seria arriscado demais para você?

- Daily, entenda uma coisa: eu faço tudo por você. Por você eu tenho coragem de fazer tudo.

Alguém bateu na porta. Ele abriu. Duas senhoras trouxeram vários vestido e foram colando dentro de um armário enorme e espaçoso. Em pouco tempo elas arrumaram tudo. Daily ficou olhando fascinada com a forma como eles organizavam tudo. Não conhecia nada sobre o reino de Machia e sobre o mundo. Tudo que sabia era sobre a forma de vida dos Kasenkinos. Ela percebeu que tinha muito a aprender... E como queria aprender sobre tudo. Queria poder um dia ajudar seu povo a evoluir e ter as coisas de modo mais fácil e prático.

- Estes vestidos mandei fazer para você. – disse Mark.

- Todos? Mas são muitos... Eu... Nem daria conta de usar tudo isso. – observou ela.

- Dará conta. E terá quantos vestidos quiser além destes.

Ela olhou para tudo organizado dentro do armário gigante e ficou ali, admirando-os.

Enquanto Mark olhava como estava a arrumação do armário e se distraiu, ela levantou-se devagar e foi até a enorme janela do quarto. Estava no alto do castelo... A vista chegava a lhe tirar o ar. Tudo lá embaixo era tão minúsculo. Era simplesmente gigantesco e cheio de tanto verde, árvores, flores... Lindo, como ela sempre imaginou. Só nunca pensou um dia ser casada com o rei de todo aquele lugar que sempre sonhou um dia conhecer.

- Mark, tudo isso é seu? – perguntou ela admirada.

Mark percebeu que ela não estava deitada na cama e foi rapidamente até ela. Sabia que tentar deixá-la repousando seria difícil.

- Sim... Tudo isso é meu. – disse ele. –E eu sou eternamente grato.

Ela continuou olhando tudo admirada.

- Daily, eu me refiro à você. – disse ele pegando-a pelo rosto e a fazendo olhar nos olhos dele. – Sou eternamente grato por ter você. Você é meu tudo... É o que tenho de mais importante. Eu abriria mão de tudo isso por você.

Daily sorriu. Mark a beijou com amor. Ela correspondeu o beijo que estava há tanta tempo esperando, matando uma saudade que achou que não teria fim nunca.

Logo a noite chegou e ela continuava na janela, tamanha seu êxtase com tudo que via. As pequenas ruelas lá embaixo eram todas iluminadas por lampiões, que pareciam estrelas de tão pequenos vistos de onde ela estava.

- Como pode ser tudo tão claro mesmo à noite? – perguntou ela.

- São muitos lampiões em lugares estratégicos.

- No povoado Kasenkino é tudo tão escuro à noite. Mas tem a luz da lua... Ela que iluminava sempre meu caminho.

- Daily, agora este é o seu lar. Sei que tudo é muito diferente.

- Por que é tão alto?

Ele riu e disse:

- Diz a lenda que foi construído desta forma para proteger o reino de um dragão que vivia atacando todos. Foram aumentando cada vez mais até que ele não conseguisse alcançar o alto da torre. Ele conseguiu assolar grande parte do reino, mas não conseguiu pegar a filha do rei e da rainha, que ficou na torre protegida. Assim, ela cresceu e conseguiu matar o dragão.

- Então todos que não moravam dentro do castelo, no alto, morreram?

- Espero que ela tenha matado o dragão antes. – ele riu.

Ela riu também:

- Eu quase acreditei.

- É só uma lenda. – disse ele. – Mas eu gostava de ouvir... E meu pai de contar.

- Seu pai era bom com você?

- O melhor de todos. Sempre esteve comigo. Ensinou-me tudo que sei.

- E sua mãe?

- Morreu decorrente de um ataque Kasenkino. – disse ele um pouco sem jeito.

- E como você pode gostar de mim, sendo uma Kasenkina, depois de todo o mal que meu povo causou a você e sua família?

- Mesmo que eu tentasse não gostar, não conseguiria. Eu acredito que o destino quis que fosse assim, Daily.

- E será que o destino pelo menos quer que fiquemos juntos para sempre, Mark?

- Eu não sei... Mas tenho a certeza de que assim como ele fez nossos caminhos se cruzarem e nossos corações pertencerem um ao outro, iremos lutar para ficarmos juntos para sempre. Eu jamais me separarei de você novamente.

Já estava tarde e eles foram deitar.

- Estou estranhando tudo isso. – disse ela. – Será a primeira noite que passaremos juntos.

- E numa cama. – ele riu. – Depois de tanto tempo nos vendo escondidos na floresta. Merecíamos um pouco de conforto depois de tudo que passamos, não acha?

- Com certeza. – ela riu também.

Quando Daily despertou Mark não estava deitado ao seu lado. Logo Ika entrou no quarto com o desjejum em uma bandeja prateada. Daily olhou para as comidas gostosas e disse:

- Nunca vi tanta comida junto em tão pouco tempo na minha vida... E só para mim. – observou ela.

Ika somente sorriu.

- De onde eu venho só tomava um chá de ervas quando acordava. Não havia possibilidade de comer tanta coisa pela manhã, pois poderia faltar para as próximas refeições do dia.

Ela serviu um chá quente primeiro. Seu corpo estava acostumado a beber chá de ervas pela manhã. O chá não estava ruim, mas não eram as ervas que ela costumava usar no povoado.

- Toma um pouco de chá comigo, Ika? – ofereceu ela.

- Agradeço, senhora, mas não.

- Eu insisto, por favor. Não vou comer sozinha tudo isso... É muita comida. E eu não aceitaria de forma alguma que isso fosse desperdiçado com tantas pessoas que não tem o que comer em outros lugares.

Ika pegou uma fruta. Daily não sabia se ela havia pego porque realmente estava com vontade de comer ou somente para agradá-la.

- Não vai tomar um chá?

- Agradeço, mas não tomo chá quente.

- Como assim? É possível alguém tomar chá morno ou gelado? – Daily riu.

- Acho que sou a única a ter esta mania. – disse Ika rindo também.

- Então já sei que nunca posso convidá-la para um chá. – observou Daily.

Ika riu novamente e começou a organizar o quarto.

- Onde está Mark?

- Bem, confesso que fiquei um pouco preocupada quando ele saiu, pois ouvi a palavra Kasenkino.

- Acha que ele poderia ter ido ao povoado Kasenkino? – perguntou Daily preocupada.

- Espero que não, senhora, pois ele saiu sozinho.

- Ika, por favor, me chame de Daily. Acho que vamos ficar muito tempo juntas, então não precisa tanta formalidade. Sei que você criou Mar e gosta dele e ele de você. Gostaria que me chamasse pelo meu nome.

- Eu não poderia, senhora... Não é conveniente.

- E se eu lhe der isso como ordem?

- Então eu teria que cumprir. – disse ela.

- Então é uma ordem. – disse Daily.

- Tudo bem, senhora... Desculpe-me, Daily. – corrigiu ela.

- Ika, faz tempo que Mark saiu?

- Sim.

- Ele falou quando voltaria?

- Disse somente para avisá-la que logo estaria de volta.

Daily levantou-se da cama e foi se trocar. Escolheu um vestido que havia chegado na noite anterior. Eram lindos, por isso ela ficou um bom tempo olhando qual usaria naquele dia. Depois de pronta, Ika olhou-a com aprovação:

- Está linda, senhora... Digo, Daily.

- Obrigada, Ika. Eu... Posso lhe perguntar uma coisa?

- Sim.

- Quem é o pequeno Kasenkino que você se referiu?

- Eu... Nem sei por que falei isso na verdade. Esqueça esta história, Daily. – pediu Ika.

- Ika, por favor, você é a única que pode me ajudar a salvar meu povo.

- Me desculpe, Daily, pela sinceridade, mas... Por que eu ajudaria você a salvar seu povo?

Daily deixou uma lágrima escorrer por sua face. Ika tinha razão: quem dali quereria ajudar os Kasenkinos?

- Eu não tive intenção de fazê-la chorar, Daily. Desculpe-me.

- Não choro por isso, Ika. Você tem razão. Acho que ninguém de Machia ajudaria um Kasenkino. Mas é o meu povo. E estão nas mãos de um homem terrível como líder, que usurpou um lugar que não é dele. Então poderemos eternamente ter problemas entre Machia e os Kasenkinos. E tudo que eu e Mark queremos é paz entre os povos,entende? Não precisam ser amigos, mas simplesmente que não haja mais guerra, pois tantas pessoas inocentes morrem. Vocês já perderam muitas pessoas em razão destas guerras e atribuem aos Kasenkinos. Mas também já perdemos muitas pessoas boas nestas lutas e em razão do reino...

- Mas no que o pequeno Kasenkino que eu me referi poderia ajudar de alguma forma? – perguntou Ika confusa.

- Seria um bebê Kasenkino? – perguntou Daily.

- Sim, senhora.

- Eu tinha certeza, Ika... Eu sabia que era você.

- Não entendo o que quer de mim, Daily.

- Foi a você que Terry entregou o bebê?

- Quem é Terry?

- Eu sei que há muito tempo atrás você ganhou um bebê das mãos da própria mãe na floresta, que pediu que você o cuidasse. E ela era uma Kasenkina. O que você fez com o bebê? – perguntou Daily.

- Como você sabe de tudo isso?

- Eu sei tudo pela própria mãe da criança Kasenkina.

- Então... Ela está viva?

- Felizmente sim. Ela vive até hoje na floresta, do outro lado do rio.

Ika ficou impressionada e disse:

- Mas por que você quer saber deste bebê Kasenkino? O que ele tem que é tão importante?

- Este bebê é filho do chefe Kasenkino, Ika. Herdeiro por direito da liderança do povo.

- E... A mulher. Quem era ela?

- Terry era esposa do líder Kasenkino na época. Foi banida.

- E ele sabia que ela esperava um filho dele?

- Claro que não. Acho que jamais Ahau mandaria Terry embora esperando um filho dele. Eu gostaria de saber mais, mas eu nem era nascida na época. Tudo que sei é por Terry, a mãe do bebê.

- Daily... Eu... Eu... Levei o bebê para os Kasenkinos.

- Como assim?

- Eu sempre morei no castelo... Não tinha como ficar com o bebê. Saberiam que não era meu. Além do mais os Kasenkinos sempre foram odiados por todo reino. Como eu traria aquele bebê para cá? Cuidei dele alguns dias e depois o deixei na beira do rio, quase no povoado Kasenkino.

- Então... Ele pode estar morto. – falou Daily chocada.

- Não, ele não morreu. Eu esperei escondida até que ele fosse encontrado por um Kasenkino. E assim foi. Uma mulher o pegou. Eu não o deixaria ali para morrer... Nunca.

- Então... Se ele está vivo, tudo fica muito difícil da mesma forma. Como poderei encontrar este hoje homem em meio a tantos Kasenkinos? Ele pode ser qualquer um... Pode nem saber sua verdadeira origem, que foi encontrado no rio... – lamentou Daily.

- Há como saber quem ele é, Daily.

- Como, Ika?

- Ele tinha uma marca de nascença, com formato de estrela, no antebraço. Era grande... Ele ainda tem, com certeza.

Daily ficou pensativa. Ainda assim era pouco provável que encontrasse o homem.

- Daily, se me permite, posso retirar-me? Eu já contei tudo que sabia.

- Claro, Ika. Imaginou que para você não seja muito fácil falar sobre isso também. Obrigada por ter me contado a verdade.

 Ika saiu. Daily ficou ali, imersa em seus próprios pensamentos. O filho de Ahau certamente estava no povoado, vivendo como uma pessoa comum. E ela tinha tantos motivos para odiar seu povo e poderia não se envolver com nada na tentativa de ajudá-los e evitar a tirania de Ahua. Mas seu sangue era Kasenkino e parecia que aquilo falava mais alto

Ela sentou-se novamente na cama. Não se sentia muito bem novamente. Uma leve tontura.

- Senhora Daily?

Ela virou para Ika que havia entrado novamente no quarto.

- Tudo bem com Mark? – perguntou Daily imediatamente, percebendo que Ika não estava com semblante feliz, parecendo preocupada.

- Espero que esteja tudo bem com ele, Daily. Não quis preocupá-la, as a Senhorita Sherylin está na sala de visitas. Achei importante avisá-la.

- Ela quer falar comigo? – perguntou Daily confusa.

- Creio que sim... Mas eu prefiro inventar que a senhora está indisposta. O Rei Mark pediu que ela não entrasse no castelo. Nem sei como ela conseguiu.

- Vou recebê-la.

- Daily... Acho melhor não. Só vim avisar porque não queria mandá-la embora sem a senhora saber que ela esteve aqui... Além do mais foram ordens do rei e...

- Mais cedo ou mais tarde este encontro teria que acontecer, Ika. Que seja logo.

- Como a senhora preferir. Mas o Rei Mark não ficará feliz com isso... – advertiu Ika.

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