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Capítulo 26

last update Data de publicação: 2021-09-08 03:13:56

O tempo passava lentamente e Daily já nem se importava mais em contar quantas noites e dia não via Mark nem tinha notícias dele. Cada novo amanhecer não tinha mais sentido e as noites eram somente de lembranças de momentos lindos em que ela fora feliz. Sua mente ainda a atormentava com o que vivera na cabana de Ahau no dia de sua morte. Os comentários enquanto andava pelo povoado era sua semelhança com Darla. Embora reclamasse do véu enquanto o usava, agora ironicamente sentia falta de esconder parte de seu rosto e sua tristeza, em especial os sorrisos forçados. E ela continuava não se sentindo bem, com sensações estranhas e tonturas, especialmente nos dias de trabalho sob o sol forte. Não tinha fome e quando comia acabava ficando pior.

- Daily, o que você tem, meu amor? – perguntou Burt quando a viu sentada na janela, olhando para o nada.

Nem ela sabia direito o que estava acontecendo. Mas imaginava que seu corpo e seu coração não suportavam ficar longe de Mark. Sabia que a saudade a mataria de tristeza.

Ela pensou em responder para Burt, mas as palavras não saíram de sua boca e ela sentiu seu corpo cair no chão.

Quando Daily despertou estava um pouco confusa, deitada na cama. Pensou em Erone e o quanto ele a ignorava desde o casamento, como se ela nunca tivesse tido uma filha. Ecoava em sua mente as últimas palavras de Ahau: “Daily, encontre meu filho.” O rosto sombrio de Ahua com suas ameaças e agressões...  Via também o rosto de Ademoore e seu romance escondido com o ex chefe Kasenkino e agora novo líder. Ela tinha a responsabilidade de salvar seu povo, tentando encontrar o filho e legítimo herdeiro do povo. No entanto não tinha como sair dali e Ahua a vigiaria eternamente. Pensou em Moa e Terry. Eles eram os únicos que estavam a salvo de tudo que estava acontecendo e de todo mal que ainda estava por vir.

Ela percebeu que não estava sozinha. Viu Kass, o curandeiro, que estava mais adiante, mexendo em alguns pertences. Quando ele percebeu que ela estava desperta, foi até ela:

- Como se sente?

- Sinto uma tristeza imensa... É possível morrer de tristeza? – perguntou ela.

- Na verdade você pode ficar doente de tristeza. – disse o velho curandeiro com voz forte e clara. – Mas não se preocupe, pois não morrerá disto. Sempre foi uma garota saudável... Casou-se há pouco tempo. Pode ser a mudança de vida, a troca de casa, enfim... Isso pode causar tristeza momentânea, mas vai passar.

Ela não falou nada. Ele continuou:

- O que uma garota saudável, casada com um jovem ferreiro estimado, filha do melhor guerreiro Kasenkino, dona de uma beleza sem igual poderia ter que lhe causasse tristeza?

- Não tenho nada que me faça ter vontade de viver. – confessou ela.

- Um filho não serve de inspiração para viver? – perguntou ele.

- Um filho? – perguntou ela confusa, levantando a cabeça rapidamente na cama.

- Um filho... Este é o motivo do seu mal estar... Você está grávida, Daily.

Daily ficou atônita... Não podia acreditar que estava esperando um filho... De Mark, o Rei de Machia.

- Daily, a vida não é tão ruim... Tudo é passageiro. – disse ele calmamente. – Todos têm problemas... Só é preciso ter calma e resolver eles um por um. Mas um filho é sempre uma dádiva... E você agora precisa ficar bem para cuidar dele.

Burt adentrou no cômodo, preocupado:

- O que ela tem, Kass?

- Burt, você vai ter um filho. – anunciou ele feliz.

Daily percebeu o choque que Burt levou a notícia. Ficou pálido e olhou para ela imediatamente. Daily ficou ali, no mesmo lugar, sem esboçar nenhuma reação. Não sabia o que dizer a Burt. De repente ela sentiu uma dor forte no coração, que quase lhe faltou o ar. Era Mark... Ela teve certeza disto. Aquele era o aviso. Alguma coisa estava acontecendo com ele... Ou estaria vindo resgatá-la?

- Não. – gritou ela colocando o rosto entre as mãos.

O ar começou a falta cada vez mais. Era uma sensação horrível de dor no peito que a sufocava.

Kass a deitou novamente e tentou segurá-la para que ela ficasse mais calma.

- Onde está doendo? – perguntou o curandeiro preocupado.

- Dói meu peito... Muito... Ele está em perigo. – disse ela.

- O que está havendo? – perguntou Burt ao curandeiro.

- Preciso de ervas para acalmá-la. – disse Kass. – Providencie rapidamente, por favor. Se ela continuar desta maneira, pode perder o bebê.

Ao ouvir aquilo Daily tentou acalmar-se. Respirou fundo, devagar, várias vezes. Não queria de forma alguma perder aquele bebê. Estava cansada demais e a dor parecia diminuir. Os olhos foram fechando e ela acabou adormecendo.

Quando ela despertou novamente, Burt estava ao seu lado.

- Daily, você está esperando um bebê. – disse ele.

Ela sorriu e disse:

- Burt, eu e Mark vamos ter um bebê.

- Isto é horrível, Daily. Este filho não é meu... Não tem nada a ver comigo.

- Burt, sempre fomos amigos... Nós crescemos juntos. Você sabia o tempo todo o que aconteceria, embora este filho não estivesse nos meus planos agora. Os deuses queriam que fosse assim, entende?

- Eu não quero mais você na minha casa. – disse Burt calmamente.

- Como assim?

- Eu quero que você vá embora da minha casa. – repetiu ele em alto e bom tom.

- Burt, você não pode fazer isso comigo.

- Eu estou disposto a morrer com você por seu adultério. Mas jamais aceitaria este filho bastardo dentro da minha casa.

- Eu... Não tenho para onde ir... Meu pai jamais aceitará que eu volte para lá. Nossas vidas correm perigo se eu sair daqui.

Eles ouviram um trovão, que chegou a tremer a casa, assustando-os. Do nada, um vento quente adentrou na casa, derrubando várias coisas no chão. Não demorou muito para novos trovões e raios iluminarem a noite que até então estava calma. Não havia chuva, era somente o vento, intenso, quente, levando tudo que podia pela frente. Parecia a tempestade de Moa... E ela sabia o que significava: Mark estava de volta. Mas como ela sairia dali naquele momento? Se estivesse sozinha, sairia correndo para a floresta. Mas não estava mais sozinha. Ela passou a mão pelo ventre... Não conseguia acreditar que havia um bebê crescendo ali dentro, fruto do amor mais puro e intenso que alguém pudera sentir. A criança que traria no sangue a mistura dos Kasenkinos e do Reino de Machia, dois povos inimigos desde sempre.

- Burt, por favor, não me mande embora agora, no meio desta tempestade. – implorou ela.

- De onde vem esta tempestade? Isso me parece feitiçaria... Não havia nenhum sinal de chuva hoje.

- É Mark... Ele está de volta. – disse ela.

- Quero você fora daqui... Agora. – insistiu Burt.

- Burt, por favor...

- Agora. – gritou ele.

Daily levantou da cama e permaneceu no cômodo. Não sairia daquela casa. Não podia colocar em risco a vida do bebê que crescia dentro dela. Burt a pegou, carregando-a em cima de seus ombros, segurando-a pelas pernas e a deixou na porta da casa, do lado de fora. Ela sentiu a areia trazida pelo vento entrar nos seus olhos, fazendo-os lacrimejarem e impedir sua visão. Estava muito escuro e a luz estava escondida sob a areia cortante e as nuvens pesadas. Ela nunca vira uma noite tão escura e sombria em sua vida. Seria aquilo um aviso dos deuses? A chuva começou a cair, quente, alguns poucos pingos, mas fortes. Ela foi até a casa de Erone. Demorou até que ele viesse atendê-la.

- Meu pai, preciso de abrigo. – falou ela.

- Nunca... Vá embora para sua casa. Aqui não é mais seu lar.

- Burt me mandou embora. Eu preciso de um lugar para ficar...

- Por que Burt a mandou embora? – perguntou Erone.

- Estou grávida, meu pai. Espero um filho de Mark, Rei de Machia.

Erone ficou visivelmente abalado. Era como se uma nuvem sombria tomasse conta do rosto dele:

- Jamais aceitarei este bastardo que você carrega dentro da minha casa.

- Ele é seu neto, meu pai, filho de meu marido, que eu amo intensamente.

- Não me importo com você e seu maldito filho. Quero que vá embora e nunca mais volte aqui.

- Eu vou morrer nesta tempestade. – implorou ela por abrigo.

Erone fechou a porta e a deixou ali. Ela insistiu pedindo para entrar, pois ele era o único que poderia ajudá-la naquele momento. Mas foi inútil... Ele não a atendeu. Logo os pingos começaram a ficar mais intensos e a chuva forte caiu, morna, dolorida de tão intensa. Ela não tinha alternativa. Precisava ir para a floresta. E assim fez. Caminhando com dificuldade na escuridão, tentando acertar o caminho que não conseguia avistar. Seus pés afundavam na água barrosa que se formava. Ela encontrou o rio e tentava seguir seu leito para chegar ao seu destino. Raios por vezes iluminavam o caminho. Mas ela não sabia onde estava. Não reconhecia nenhum lugar à sua volta. Precisava tentar atravessar o rio e pedir ajuda a Moa. Sentia algumas dores no corpo. Sabia que a correnteza devia estar muito forte, mas não tinha alternativa melhor. Ela adentrou no rio e começou a nadar em direção ao outro lado da floresta. Era uma boa nadadora, mas era difícil enfrentar a força da água que insistia em seguir seu curso com a chuva forte. Ela percebeu que não adiantava mais lutar e deixou que seu corpo fosse levado. Sentiu o impacto forte do corpo numa enorme pedra que estava no caminho e depois tudo ficou escuro.

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