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Capítulo 8

last update Fecha de publicación: 2021-09-08 03:00:48

Daily olhou para Mark e para tudo que via a sua volta. Por que havia pegado aquele caminho? Era seu destino conhecer aquele homem? O sol começava a brilhar no céu e por algum motivo ela se sentia muito estranha. Talvez pelo fato de aquele homem ter visto seu rosto pela primeira vez e não seria o seu marido, conforme a tradição milenar de seu povo. Jamais seria perdoada pelos Kasenkinos e era a única culpada por isso... Havia sido descuidada, irresponsável. Talvez se não tivesse dado ouvido aos conselhos de Moa nada daquilo teria acontecido. Mas não poderia culpar ninguém por seu erro... Nem mesmo Moa. Estaria sendo muito injusta culpando alguém pelo que havia acontecido. Não deveria ter pegado o caminho proibido, não deveria ter tirado o véu... E por fim, estava a frente de um homem que queria matar seu pai, o que ela jamais poderia permitir na sua vida. Ela olhou para Mark. Ele era um homem muito diferente e não tinha como fingir que ele não era muito bonito. Mas apesar de todos os sentimentos estranhos que ela sentia naquele momento, ele era o futuro rei de Machia, o maior inimigo dos Kasenkinos. E mesmo ela achando errado o que Erone havia feito, sabia que precisava ficar ao lado de seu povo. Eram os Kasenkinos que a protegeriam de qualquer coisa. Seu reino era conhecer alguém do reino e até mesmo o reino de Machia. No entanto estava a frente de Mark e sabia que aquelas pessoas jamais a ajudariam... Talvez sequer dessem abrigo a ela se precisasse. E aquelas batalhas entre os dois povos sempre ocorreram e ela percebeu que seria assim para sempre. Agora Mark queria vingança e aquela guerra jamais acabaria. Ela havia sido ingênua ao pensar que um dia poderia fazer com que houvesse paz entre os dois povos. Não importava mais quem tinha razão... Pessoas inocentes sempre morreriam por causa daquela briga que todos tinham razão e ao mesmo tempo ninguém tinha razão, afinal de contas, cada um achava que a terra era sua e tentava provar isso.

Daily tinha muita vontade de ficar ali, conversando com Mark, saber mais sobre o reino e também contar sobre como o povo dela não era tão ruim como ele pensava. Mas ele não havia sido muito amigável com ela e além do mais o tempo estava passando e ela precisava voltar para casa.

- Mark...

- Fale.

- Esqueça tudo que eu disse. E me perdoe se eu tenha dito algo que o magoou de alguma forma. Eu sou a culpada por tudo. E ao ser ver, meu povo também é culpado por tudo de ruim que acontece. E confesso que estou acostumada com toda esta situação. Por favor, esqueça que me viu aqui... Agradeço por ter sido gentil e não ter me usado contra meu povo para vingar a morte de seu pai. Mas nosso encontro pode ser bem ruim para mim e também para você, não é mesmo?

Ela continuou seu caminho. Para ela aquele assunto e aquele encontro estavam encerrados.

- Daily...

Ela parou, sem olhar para trás.

- Para onde vai? – perguntou ele.

- Para minha casa, para junto de meu povo, onde é o meu lugar.

- Mas... E sobre o casamento? Sei que parece loucura, mas não quero que aconteça nada ruim com você.

- Você se casaria comigo, Mark? – perguntou ela confusa.

- Eu não sei... – falou ele confuso. – Como lhe expliquei, estou comprometido com outra mulher. É uma tradição do meu povo... Também temos nossa cultura, que é diferente da sua. Além do mais, sabemos que somos de povos inimigos há uma vida inteira. Isso seria uma loucura, não é mesmo? Nós mal nos conhecemos...

- Esqueça o que falei Mark. Eu... Estava brincando com você. Sherylin me pediu para ver como você reagiria.

Ele sorriu confuso e pareceu aliviado:

- Nossa... Eu achei realmente tudo muito estranho. E você tirou um peso da minha consciência. Fiquei preocupado com o que pudesse lhe acontecer.

- Não se preocupe comigo.

- Estou confuso.

- Apesar das circunstâncias, foi bom ter conhecido você, Mark. Eu sempre tive curiosidade de conhecer alguém do reino. Mas preciso ir agora.

- Adeus, Daily.

Daily finalmente foi embora sem que ele fosse atrás dela. Não conseguia evitar as lágrimas. Sentia fome, mas pior que tudo era o sentimento que havia dentro de si. Mesmo sem querer ela olhou para trás várias vezes e ele continuava no mesmo lugar, observando-a. não sabia o que faria quando chegasse ao povoado por ter o rosto visto por um homem antes do casamento. Ela parou uma última vez... Dali em diante não poderia mais vê-lo. Pensou em virar, mas foi forte. Seguiu seu caminho correndo. Chegou a seu povoado e foi imediatamente para o rio. Precisava tomar um banho gelado para tirar a sujeira de seu corpo e sua alma. Comeu algo e foi deitar.

- Daily, onde você esteve?

Ela despertou com Erone em pé, ao lado de sua cama.

- Eu... Fui ver Moa. – disse ela.

- Procurei por você. Fiquei preocupado. Não costuma demorar-se tanto por lá.

- Eu... Decidi ficar um pouco mais de tempo. – mentiu ela. – Afinal não sei quando vou poder visitá-lo novamente.

Daily olhou nos olhos do pai e não conseguiu evitar as lágrimas. Usava o véu em seu rosto para dormir, no entanto não merecia o respeito de seu pai... Na verdade não merecia ser tratada com respeito por nenhum Kasenkino. Era uma moça desonrada.

Erone foi até ela e um pouco sem jeito a abraçou.

- O que houve, Daily?

- Nada... Vou sentir saudade de Moa. – mentiu ela mais uma vez, doendo dentro de sua alma. Por quanto tempo precisaria mentir ao seu pai e ao seu povo?

- Não pensei que gostasse tanto dele... – disse Erone.

- Gosto muito. – disse ela e desta vez sem mentiras, pois sim, o sentimento que tinha por Moa era verdadeiro.

Erone lhe alisou os cabelos e em seguida saiu. Ela sabia que ele percebeu que o que ela precisava naquele momento era ficar sozinha com sua dor. Ela continuou chorando até que as lágrimas secassem. Moa sempre dizia que chorar fazia bem... Realmente ela parecia melhor depois de tudo que havia chorado. Agora ela precisava pensar no que faria. Sabia que o fato de Mark ter visto seu rosto e não ser seu marido a amaldiçoaria perante os deuses para sempre. E se alguém mais soubesse disso, ela seria ofertada aos deuses de Ahua, como sacrifício, para poder purificar sua alma. Ela sabia que sua alma precisaria disso para poder ficar em paz... Mas também não desejava morrer ainda com tantas coisas para fazer e viver. Ela amava sua vida. Por que Mark havia aparecido naquele lugar justamente no tempo em que ela estava lá e sem véu? Ela nunca se descuidava e no momento em que isso aconteceu, ele viu. Seria o destino que queria aquele encontro? Ela decidiu que por hora não contaria a ninguém sobre o ocorrido. Precisava de mais tempo para saber o que fazer. Precisava perguntar a Moa como proceder de forma que não precisasse ser morta por seu ato impensado e irresponsável. Enquanto isso... Não sabia o que os deuses fariam com ela enquanto estivesse amaldiçoada. E nem sabia ao certo se havia como quebrar a maldição do véu.

Na noite seguinte, Daily mal conseguiu pregar os olhos. Cansada de rolar na cama, ficou na janela, esperando o sol nascer. Sua mente não conseguia esquecer o rosto de Mark, futuro rei de Machia. Ainda sentia os olhos dele sobre si, uma sensação estranha por todo seu corpo ao imaginar aquele olhar novamente. O que estava acontecendo com ela? Por que não conseguia esquecer aquele homem? O sol já estava no meio do céu e ela viu vários Kasenkinos já próximos do rio, buscando algumas pedras enormes. Pelo visto já estavam iniciando a construção da muralha que os isolaria para sempre do mundo externo. E isso significava também que ela não teria mais tempo para sair do povoado, nem mesmo para ver Moa, pois o trabalho seria diário para todos.

Ela desceu e tomou um chá quente. Organizou os pertences de Erone que estavam pela casa e levou as roupas para lavar no rio. Quando pegou nas mãos o vestido que havia usado quando conheceu Mark o olhou com carinho e ao mesmo tempo ódio. Ele havia sido o responsável por ela conhecer o reino de Machia e algumas coisas sobre ele... Ao mesmo tempo foi amaldiçoada por ele ter visto seu rosto. Por que todo momento ela pensava em Mark?

-Daily? – ela assustou-se ao ouvir a voz de Erone.

- Papai...

- O que houve, minha filha? Assustou-se em me ver?

Ela sorriu, preferindo não falar nada. Se o pai soubesse tudo que passava pela cabeça dela...

- Filha, precisamos conversar.

- Pode falar, meu pai. – disse ela largando as roupas e se levantando.

- Lembra-se do que Ahau falou sobre o casamento?

Daily sentiu o coração acelerar quando Erone tocou naquele assunto. Teve muito medo do que poderia ouvir.

- Sim, meu pai, lembro.

- Na próxima lua, vou levá-la junto com as outras garotas que pretendem ser esposas de Ahau.

- Como assim?

Daily sentiu enjoo. E sua cabeça começou a rodar. Ela não poderia estar ouvindo aquilo. Seu pai a ofereceria ao líder Kasenkino, que tinha idade para ser seu avô? Ele a obrigaria a fazer aquilo? Ela sentiu lágrimas rolando por sua face mais uma vez.

- Não faça isso comigo, meu pai, por favor.

- Daily, qualquer garota daria a vida para ser bela como você  e ter a chance de se tornar a esposa do líder Kasenkino.

- Eu não posso, papai... Não quero.

- Como não pode?

- Na verdade eu não quero.

- Daily, eu não quero que me cause problemas novamente. Na próxima lua, exijo que você se vista muito bem e venha comigo para ser oferecida em casamento a Ahau. Enquanto não se casar, não tem direito à escolha. Eu que decido por você. Estas são as regras e você precisa obedecer. E por mais que você não entenda desta forma, eu faço isso pensando no seu bem estar.

- Sim... Meu pai. – disse ela.

- Se não fosse Ahua ter me falado sobre isso, confesso que nem teria passado pela minha cabeça. Será muito melhor para você. Viverá uma vida digna e muito confortável, como você merece.

Dizendo isso, Erone saiu.

Daily ajoelhou-se na margem do rio e ficou ali, incrédula no que ouvia. Não podia ser verdade. Ela pegou um pouco de água gelada e jogou sobre o rosto e pescoço. Não podia se casar com Ahau... Ela nem pura era. Seu rosto havia sido visto por um homem que nem sequer Kasenkino era. Ela já estava amaldiçoada pelos deuses. E se Ahua visse isso em sua mente? Se os deuses ou os espíritos antigos contassem para ele, o que seria dela? Além disso teve a certeza de que Ahua manipulava Ahau e todos ao ser redor, inclusive seu pai. Ele tivera a ideia de falar com Erone sobre levá-la para a oferta de casamento. Mas ela não podia desistir sem lutar. Precisava ao menos tentar. Ela voltou para casa e encontrou Erone afiando suas lanças.

- Papai, por favor, eu lhe imploro, não me oferte a Ahau. Eu não quero.

- É preciso, Daily. Quero que você tenha a vida que merece.

- Papai, eu não posso... Além do mais, sou imensamente feliz com a vida que levo.

- Não posso... Novamente isso. Por que não pode?

- Não pode fazer isso comigo...

- Daily, não adianta tentar me fazer mudar de ideia pois isso não acontecerá.

- Como pode dar sua filha ao homem que foi responsável pela tristeza e morte de sua esposa?

- O homem que matou minha esposa foi seu velho amigo Moa. Como ousa falar sobre a culpa da morte de Darla? Justo você, que visita o homem que a matou sempre que pode... Inclusive chora de saudade dele.

- Você nunca vai entender que tudo que ele fez foi tentar salvá-la?

- E quem lhe contou isso? Ele? – perguntou Erone ironicamente.

- Ahau é culpado... Ele sempre a quis.

- Como sabe de tudo isso?

- Moa me contou toda a verdade.

- Moa lhe contou? Você fala como se ele soubesse tudo que aconteceu. Eu não gosto de Moa... E principalmente agora que sei que ele enche sua cabeça de mentiras. Você está proibida de ir a cabana dele, entendeu?

- Você não pode me proibir de ver Moa.

- Eu posso proibi-la de qualquer coisa... Sou seu pai.

-Por favor, eu imploro...

-Estou cansado de seus pedidos, de sua vulnerabilidade e questionamentos. Enfrente a realidade, Daily, você é uma Kasenkina e nada vai mudar isso. E tem tradições a cumprir, milenares, que todos sempre cumpriram. Sei que você tem muitos pensamentos passando pela sua cabeça, mas a realidade está bem aqui... Isso é a sua vida.

- Por que você não defendeu minha mãe quando Ahau a quis? Sempre foi o melhor guerreiro... Por que não lutou? Por que não fugiu com ela? Teve medo de enfrentar o velho Ahau... Que amor era esse que o senhor sentia por ela que não valia arriscar tudo?

Erone deu uma bofetada na filha.

- Nunca mais diga isso novamente.

Daily levou a mão ao rosto ardente. Sabia que aquilo havia doído mais em Erone do que nela. Era a primeira vez que seu pai havia agredido-a daquela forma. Sabia que havia o magoado da pior forma possível. E ela estava muito arrependida do que havia falado. Não havia medido suas palavras. Nem ela mesma culpava Erone pelo mal que havia acontecido na vida de Darla. Havia falado tudo sem pensar... Mas de nada adiantava ficar ali se lamentando. Ela levantou e trocou de roupa. Erone havia saído e não retornara para casa e já havia passado bastante tempo.

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